Capítulo 34
Já era noite. A lua estava escondida entre nuvens e poucas estrelas eram visíveis, ofuscadas pela iluminação dos postes. O ar estava seco, sem uma brisa, e o tempo, abafado.
Desde às cinco da tarde, caminhava pela rua. Agora, muitas pessoas passavam, parando para comprar lanches nas barraquinhas.
Zhang estava ao meu lado, o cabelo preso em um rabo de cavalo, o pescoço suado, grudando na pele. Ela não gostava de exercícios, mas aceitou meu convite. Luciana estava em casa, cuidando de seus afazeres, às vezes parecia com meu obstetra, de tão vigilante que era.
Cansados e famintos, sugeri que comprássemos algo. Zhang concordou imediatamente.
Esperei na fila e fiquei aliviado por não haver muita gente à minha frente. Quando voltei, senti um empurrão nas costas. Por pouco não derrubei o lanche. Confuso, inclinei a cabeça.
Atrás de mim estava uma mulher, de aparência mediana, baixa, com uma expressão raivosa e um olhar selvagem. Ela sorriu ao me encarar.
— Não quis perder a oportunidade de cumprimentá-lo. — Estava prestes a dizer que não a conhecia quando ela continuou, fria: — Uma coisa como você não se vê todo dia.
Meus olhos se arregalaram. A voz era familiar; lembrei-me dela, a mulher da última ligação, que me insultou. Ela parecia querer me rasgar em pedaços, despejando palavras nojentas.
Então, ela avançou!
Consegui me esquivar, mas ela rasgou a sacola, e a comida caiu no chão.
— Por favor, pare com o escândalo — pedi educadamente, irritado com sua atitude.
— Estou fazendo um escândalo?! — Ela olhou ferozmente. — Seu nojento! Tem coragem de sair com essa coisa na barriga? — vociferou, apontando para minha barriga.
Zhang e outras pessoas assistiam aquela mulher me menosprezar. A desconhecida estava à beira de um colapso, atraindo a atenção do público.
— Não é da sua conta. — Falei calmamente, olhando em seus olhos. — Se você não gosta, vá embora e pare de se intrometer!
Uma sombra se projetou na minha frente, seguida de um forte golpe. A desconhecida cambaleou para trás, com o rosto arranhado e vermelho. A palma da mão de Zhang ainda estava levantada.
Hesitei, então puxei o pulso de Zhang antes que ela desferisse outro tapa.
— Sua vaca! — rosnou a mulher. E, no meio da última palavra, Zhang se soltou e atacou.
O rosto de Zhang escureceu; seus olhos estavam vermelhos e arregalados, como se uma chama queimasse por dentro. Com um empurrão, ela derrubou a mulher, que caiu com um grito. Ao se levantar, a desconhecida estava ainda mais furiosa.
As duas começaram a brigar. A mulher, descontrolada, alfinetou alguém maior que ela, como um coelho que entra em uma toca sem questionar a quem pertence, ignorando o perigo.
Zhang avançou, desferindo tapas repetidos, um borrão negro. A mulher gritou de ódio e tentou revidar, mas Zhang desviou.
O rosto da desconhecida foi arranhado pelas unhas de Zhang, deixando marcas rosadas que logo se encheram de sangue.
Ela tentou bloquear os golpes com os cotovelos e antebraços, mas não conseguiu evitar um tapa tão forte que deixou as mãos de Zhang vermelhas e doloridas.
Zhang puxou o cabelo da mulher com força, fazendo os fios claros se romperem e caírem como folhas secas. A briga se intensificou; minha amiga aproveitou para enrolar ainda mais o cabelo da mulher nos dedos e puxar com toda a força.
A mulher cambaleou, tonta, mas Zhang a jogou no chão vigorosamente. Seu cabelo bagunçado e o rosto vermelho pelas bofetadas era uma visão miserável e as pessoas ao redor assistiam, fascinadas e horrorizadas.
Ainda assim, no chão, com os olhos esbugalhados e o corpo tremendo, a mulher gritou que ia brigar até o fim.
Aquilo já tinha passado do limite.
— Parem vocês duas! — exigi.
Zhang estava ofegante, a raiva ainda pulsando em suas veias quando se virou para mim.
— Não gosto que falem assim com você, é injusto, Oscar! — Justificou, então passou a falar com a mulher caída no chão. — Você não sabe o que ele passou, não deveria sair criticando as pessoas sem as conhecer. — Coloquei a mão em seu ombro, impedindo-a de atacar novamente. Ela conteve a vontade de espancar a desconhecida e se levantou.
— Não é agredindo que vamos aplacar o ódio dessa mulher. Isso não resolve nada. — Naquele instante, as duas ficaram em silêncio, o ódio pairando no ar. — Não se resolve nada com ataques de ódio, nem se chega a lugar nenhum. — Peguei a mão de Zhang e pedi: — Vamos embora.
A estranha, parada diante de nós, parecia sem palavras. Essa foi a última vez que a olhei antes de me virar e ir embora com Zhang atrás de mim. Ambos seguimos calados, refletindo sobre aquilo.
De longe, ouvimos a desconhecida gritar, sua voz desaparecendo conforme nos distanciamos até que finalmente se calou.
Ainda me sentia mal com tudo aquilo, pensava nas palavras dela e ia caminhando mecanicamente, à passos curtos e lentos. O silêncio foi quebrado quando Zhang começou a falar humildemente.
— Desculpe…
— O quê? — Fiquei intrigado e parei para olhá-la.
— Não devia ter causado toda aquela agitação. Eu fiz você se sentir constrangido. Ver você sendo atacado por aqueles insultos me deixou furiosa, Oscar. — Ela disse isso com a cabeça baixa. — Mas não me arrependo do que fiz com ela — admitiu.
Um longo suspiro cansado saiu dos meus lábios. Ela levantou sua cabeça para me olhar diretamente, seus cabelos bagunçados caiam um pouco sobre seu rosto.
— Não estou te culpando, não se preocupe. — Meus lábios se curvaram para cima, levantei meus dedos para tocar seu ombro, depois coloquei alguns fios bagunçados atrás da sua orelha. Sua expressão gradualmente se animou. — Obrigado por me defender… — agradeci gentilmente, vê-la com uma ânimo melhor empurrou para longe os sentimentos ruins que ainda sentia.
— Eu… estou do seu lado, Oscar. — Ela disse, passando as mãos pelos meus ombros, seus braços ao redor do meu pescoço, com a cabeça levemente apoiada contra minha garganta. Sua respiração calma e relaxada aquecia minha pele, fazendo cócegas.
O calor de seu corpo se fundiu ao meu, transmitindo segurança. Seu gesto me surpreendeu, mas retribuí o abraço.
Pus meus braços ao redor de sua cintura, apertando suas costelas esguias. Sua gentileza me preenchia, e eu a apertava ainda mais naquele abraço acolhedor.
Ela se deixou ficar assim, imóvel e totalmente entregue, desfrutando do momento. Toda sua postura desmoronou, sustentada pelos meus braços. E ficamos assim, parados no último quarteirão perto de casa.
Quando olhei para um ponto atrás de Zhang, congelei com o que vi mais adiante.