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A Década Depois Da Primavera

Capítulo 35

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Vi a sombra dele parada na esquina da rua, conversando com outra pessoa. Eu reconheceria aqueles cabelos grisalhos, a barba sem fazer, cobrindo metade do rosto, em qualquer lugar. Ele sempre foi baixo e volumoso.

O mais surpreendente era que a pessoa com quem ele conversava era o bêbado com quem eu tinha tombado outro dia. Eles pareciam ser conhecidos!

Soltei Zhang dos meus braços e corri; precisava falar com ele. Afinal, ele era o culpado pelo meu sequestro! Zhang não entendeu nada, mas, de qualquer forma, me seguiu logo atrás.

Quando me aproximei dele, ele já estava sozinho; aquele estranho se afastara sem perceber minha presença.

Quando meu padrasto ouviu o som de passos, ele se virou. Seus olhos opacos se arregalaram, e sua boca se abriu — um buraco negro no interior dos dentes gastos e irregulares —, olhando com espanto e terror ao mesmo tempo.

Ele não recuou, ficou apenas estático, me observando. Era semelhante a uma presa que encontrou seu predador e supunha não ter como escapar. Depois de tantos anos, estávamos os dois em frente passado.

— Oscar… — disse com voz trêmula, com um olhar cauteloso.

Zhang chegou pouco depois e paralisou atrás de mim; ela ainda se lembrava dele, mesmo tendo convivido tão pouco com ele. Por essa razão, por conhecê-lo tão profundamente, sabíamos que ele não faria nenhum mal naquele momento.

— Preciso saber por que você fez aquilo comigo, por que me envolveu nos seus negócios sujos! — Eu precisava saber.

— Eu — gaguejou, os dedos amarelados tremiam incontrolavelmente. — Sinto muito, eu não tinha mais a quem recorrer. Ninguém queria me ajudar, só lembrei de você quando estava lá, diante daquele cano frio. — Fez uma pausa, curvando os lábios para frente, os olhos marrons e graves, mais vazios do que nunca, e balbuciou: — Ele ia me matar, só você podia me ajudar! Você é rico, não poderia recusar ajuda, afinal de contas, eu te criei.

— Você não tinha esse direito! Não use essas desculpas, você sempre foi assim. Se aproveita de qualquer um, como se aproveitou da minha mãe. Ela lutou sozinha para me criar, somente ela. — Minhas palavras tinham um gosto amargo para ele, cada palavra era verdadeira. Vi seu corpo tremer levemente; ele encarava diretamente o concreto. — Você é incorrigível. Sempre foi assim, sempre causando problemas.

Ele continuou lançando um olhar penetrante e pesado para o concreto, nos seus lábios havia uma expressão indefinível e tênue, parecia um sorriso — não um sorriso — algo que não consigo explicar e parecia doloroso.

— Você disse exatamente a mesma coisa que o meu amigo, antes dele simplesmente virar as costas e ir embora.

— Aquele homem de agora pouco? Ele era seu amigo? — perguntei-lhe e ele concordou. — Seu amigo sabe que você e eu somos conhecidos? — negou e ficou preso num longo silêncio.

Momentos depois, falou:

— Sua mãe também dizia a mesma coisa.

— Ela é a única pessoa que ainda te suporta.

— É… — Sua voz, tão baixa e rouca, soou distante, ele estava preso em alguma lembrança. — Oscar, eu sou um miserável. — Olhou fundo nos meus olhos, tinha uma expressão feia, sem ser ridícula. — Sou tão miserável, não tenho mais nada. Nada.

Eu não entendi suas palavras; estavam afundadas em amargura.

— Você vai pedir dinheiro? — era o que eu esperava, ele sempre foi obcecado por dinheiro, assim poderia saciar seu vício nos jogos.

— Então você ainda não sabe… eu parei de jogar. — Era inacreditável; não conseguia acreditar. Entretanto, suas palavras eram tão duras quanto sua postura, ele permanecia imóvel como uma escultura. — Desde o dia em que Eduardo apontou uma arma para mim, eu parei de jogar. Eu sou um miserável! Naquele dia, eu não fiz nada… — Ele não conseguia me olhar, mexia as mãos compulsivamente. — Me perdoa, Oscar! — Caiu de joelhos; eu não entendi sua atitude. — Me perdoa! — suas palavras saíram atropeladas.

Ele cobria os olhos com a mão. Afundado na mais completa miséria humana, submerso nos piores arrependimentos. A culpa parecia tão impregnada no seu corpo que as linhas do rosto pareciam gritar desculpas.

— O que você quer dizer? — Zhang veio e parou ao meu lado, ela queria compreender aquelas palavras. — Diga! — mandou.

— Naquele dia — começou penosamente — Ele ia realmente me matar, invadiu nossa casa deliberadamente. Peço que entenda, Oscar, minha dívida era muito alta. Já tinha dado a escritura da casa, mas ele queria mais. Então, para pagar a dívida, ele ia me matar. Naquele momento, me escondi atrás da sua mãe. Não sou culpado, não. Eu não sou — dizia aquilo para si mesmo, tentando justificar sua culpa com palavras hipócritas e meia-boca. Ele não tinha salvação. — Quando a vi, ela estava caída no chão. Morta. Seu corpo estava frio, ensanguentado. É uma lembrança dolorosa. — Segurou a cabeça, agonizando, como se desejasse arrancar aquela lembrança à força da mente.

Seus olhos opacos ficaram cada vez mais tristes que a chuva, mais lamentáveis que a partida do sol ao final do dia. Não havia mais cor em seu rosto, não tinha mais qualquer traço humano; ali, de joelhos, havia um ser que causava náuseas, um ser que fazia a pele arrepiar, ele era apenas trapos, nada mais.

— Você é um monstro egoísta! — cuspi cada palavra sobre ele. — Ela não tinha culpa! — Soquei sua cara; o golpeei duas vezes, ele continuou de joelhos. Mesmo depois do terceiro soco, não sei por quê, ele não se defendeu, pelo contrário, deixou que lhe batessem.

Ele devia saber muito bem o tamanho da sua culpa. Quando parei de socá-lo, ele continuou falando. O rosto estava vermelho, parecia quente, e no canto do lábio inferior escorria um pouco de sangue. Com os olhos molhados, me olhou.

— Depois que atirou nela, ele ia me matar. Então dei seu nome como garantia, ele sabia que você era rico e concordou. Afinal, quem não conhece o seu parceiro? O herdeiro do dedo de ouro. Imaginar que um dia eu fui contra esse relacionamento — lamentou com um gemido surdo e desavergonhado.

Ele não sabia de nada, ninguém sabia. Dominic e eu não estávamos em bons lençóis há muitos anos. Muito menos nos casamos com comunhão de bens. Naquela época, eu estava em busca da qualidade, e não da quantidade. Desejava ingenuamente Dominic.

Já estava farto de arrastar aquela situação; cada segundo perto do meu padrasto era sufocante. Era um grande tormento. Meu corpo bamboleou para trás, a mão de Zhang encostou nas minhas costas para dar apoio. Meus ombros caíam, as sobrancelhas franzidas enquanto balançava a cabeça. O ar frio, de repente, pareceu sufocante e penetrou o tecido, meu corpo ficou rígido, como se meus membros estivessem enferrujados, duros.

— Onde ela está enterrada? — Zhang perguntou com um ar sombrio, preenchido por um ressentimento cru e polido.

 

 

 

Capítulo 35
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