Capítulo 36
Ele se levantou devagar, os olhos marejados fixos no chão. As lágrimas escorriam silenciosas, traçando caminhos brilhantes pelo rosto marcado pela dor. Por um instante, parecia preso a uma lembrança que o consumia, até que desviou o olhar e encontrou o meu.
— Usei tudo que tinha para dar a ela um funeral digno — a voz saiu rouca, quase um sussurro. — A enterrei no cemitério do outro lado da cidade. Pergunte ao coveiro quando chegar lá, expliquei tudo para ele.
Um silêncio pesado pairou entre nós, interrompido apenas pelo som dos seus passos cansados se afastando. Suas costas curvadas diminuíam na distância, até que ele parou, virou-se, era como se suas costas carregassem o mundo inteiro.
— Sua mãe era uma mulher forte… — a voz embargada mal saiu. — Nós dois não merecíamos ela… nós dois falhamos, Oscar… você também partiu e a deixou sozinha.
O peito dele subia e descia em soluços contidos, a sombra da culpa o consumia. Fiquei imóvel, sentindo o peso invisível que o prendia ali.
Antes que pudesse responder, Zhang surgiu entre nós, firme e implacável.
— Cala a boca! — seus dentes cerrados mostravam a determinação. — Vai embora, para de fazer ele sofrer! Desapareça!
Ele finalmente se afastou, sabíamos que nunca mais iríamos vê-lo. Ficamos ali, imóveis, os olhos presos no vazio onde ele desaparecera. O tempo parecia suspenso, a mente vazia.
Mais tarde, peguei um táxi para o outro lado da cidade. Zhang tentou me convencer a esperar, mas eu já estava decidido. Luciana se mostrou preocupada e quis me acompanhar. Recusei, e ela respeitou meu silêncio após insistir. Pedi a Zhang que explicasse tudo para ela.
Meu tom de voz saiu mórbido, quase robótico. Não estava com energia para explicar nada. Ela prometeu que faria, e nos despedimos ali. Zhang pediu para que eu tomasse cuidado, e eu apenas balancei a cabeça.
Cheguei ao cemitério tarde da noite. A ansiedade fez meu coração disparar assim que meus pés tocaram o chão. A entrada, cercada de plantas bem cuidadas, parecia um oásis calmo em meio à cidade agitada. Os postes de luz iluminavam o caminho para os pedestres, os carros iam e vinham a cada minuto. Do lado de fora, a vida continuava normalmente, com a típica pressa dos humanos.
Dentro do cemitério, era muito silencioso, embora não parecesse sombrio. O silêncio calmo era quebrado apenas pelos meus passos vacilantes no caminho iluminado pelos postes.
Ali estavam enterradas muitas histórias, ao longo de muitos anos. Agora, todas estavam silenciadas, soterradas embaixo da terra.
Um homem idoso limpava uma lápide próxima, parecia ser o zelador do cemitério. Ele tinha uma postura muito humilde e educada. Ao me ver, ergueu o olhar surpreso e se pôs de pé. Pegou um papel do bolso e analisou. Depois, caminhou até mim.
— Você é o Oscar? — perguntou, com um sorriso gentil. — Paulo me deu essa foto e disse que você viria.
Entregou-me o papel amarelado, uma foto antiga. Nela, estávamos eu e minha mãe, sorrindo em um tempo que parecia distante.
— Sim, sou eu. Ele disse onde essa mulher foi enterrada? — perguntei. Ele confirmou e pediu para que o seguisse.
Segui-o em silêncio, o peso no peito apertando a cada passo. No cemitério impecável só se ouvia o som dos nossos passos e mais nada, parecia guardar segredos que eu temia enfrentar.
— É aqui — parou de frente à lápide com uma pequena foto dela.
Finalmente, estava diante da lápide dela, seu rosto me encarava da pequena imagem presa ali. Uma foto muito antiga, de quando ainda era jovem. Pedi educadamente para ficar sozinho, e ele afastou-se respeitosamente.
Queria que, depois de tanto tempo, pudesse cumprimentá-la com um sorriso e não com o que restou do Oscar de anos atrás — um homem velho e infeliz.
Fiquei observando silenciosamente, o tempo parecia passar mais devagar assim, meus olhos fixos na lápide, estudando-a. Então, minhas pernas perderam as forças e caí de joelhos no chão frio, as palavras saindo trêmulas, quase sufocadas pelo nó na garganta.
— Mãe… eu falhei contigo. Nunca voltei, nunca estive aqui enquanto você sofria. — O clamor na minha mente me fazia sentir responsável por não tê-la ajudado. — Se eu estivesse ao seu lado… — meu corpo caiu sobre sua lápide, os músculos sem forças. O peso da culpa esmagava minhas costas, e o silêncio me envolvia, só o sussurro das minhas confissões preenchia o ar.
Naquele momento, queria tanto receber um abraço dela, sentir seu calor me aquecendo, ouvir o som materno da sua voz, sentir seus cuidados.
De repente, uma voz suave quebrou o silêncio.
— Oscar? — chamou-me, seu tom era doce, calmo, e fez um calafrio passar pelo meu coração. — Levante-se, Oscar.