Capítulo 37
Levantei-me de um salto. Por um milissegundo, um fio insano de esperança latejou em meu peito, fazendo minhas mãos formigarem. Mas, ao focar a vista, o vulto não tinha a silhueta que eu buscava. O aperto que se seguiu não foi de alegria, mas de um vácuo ainda mais profundo.
— Já faz um longo tempo… — a voz dela soou carregada de uma doçura antiga.
Aproximei-me, estendendo a mão para a mulher que um dia me ensinara a cozinhar, temperando a vida. Clara usava óculos agora; as lentes aumentavam o brilho de seus olhos que emolduravam um rosto onde cada ruga parecia contar uma história.
— Senhora Clara? O que faz aqui a essa hora?
— Queria te ver, Oscar. Vou embora amanhã e não podia partir sem olhar para você uma última vez — ela tocou meu braço com carinho e explicou que pediu ao zelador para ligar quando eu viesse. — Se me permitir, eu te levo para casa.
Lancei um último olhar para a foto na lápide de minha mãe. O adeus silencioso foi um corte limpo e frio no meu coração.
O carro dela era um modelo antigo, com o painel descascado e um motor que reclamava do esforço, mas cumpria o papel. Enquanto as luzes da cidade passavam pela janela, senti o peso do meu abdômen e o silêncio desconfortável da minha verdade. Será que ela me julgava?
Clara sorriu para o para-brisa, como se lesse meus pensamentos.
— Garoto bobo, claro que estou surpresa. Imagine só, sua mãe me contando que você se casou com um homem… demorei a processar. — Ela mudou a marcha com suavidade. — Mas estou velha demais para carregar preconceitos. Às vezes, o mundo dá importância a coisas que não preenchem a alma.
Passei a mão sobre a barriga, sentindo o círculo pequeno coberto pelo tecido. Hesitei em falar sobre o desmoronamento do meu casamento, mas mencionei o peso da desaprovação da minha mãe sobre minha orientação sexual.
Clara soltou um estalido com a língua, discordando prontamente.
— Que nada! Ela nunca foi contra. Ela foi a segunda pessoa a saber, Oscar. E, secretamente, era quem mais torcia por você.
O carro pareceu ficar menor com aquela revelação.
— Ela te afastou porque o vício do seu padrasto era um abismo, e ela não queria que você caísse junto. Você era o bem mais precioso dela. Nunca duvide disso.
Aquelas palavras agiram como um bálsamo, derretendo o gelo que eu carregava sobre a memória de minha mãe. Quando o carro parou em frente ao meu prédio, o tempo parecia ter corrido rápido demais.
— Obrigado, Clara… por tudo — eu disse, com um nó seco na garganta.
Ao descer, avistei Luciana. Ela estava encolhida contra o vento gelado da madrugada, as bochechas tingidas de um vermelho vivo e o nariz franzido pelo frio. Assim que me viu, o rosto dela se transformou, ganhando um brilho de alívio.
— Você voltou — ela disse, caminhando ao meu lado, as mãos nos bolsos do casaco.
— Como sabia que eu voltaria ainda hoje?
— Intuição — ela deu um tapinha leve em minhas costas, sua mão fria contrastando com o calor que as palavras de Clara haviam deixado em mim.
— A Zhang… — comecei, mas ela me interrompeu gentilmente.
— Ela me contou tudo. Não precisa falar nada.
Caminhamos em silêncio para dentro do prédio. Em meio à tempestade que era minha vida, aquele grão de luz — o apoio silencioso de quem ficava — era a única coisa que me mantinha de pé.