capítulo 22
O clima pesado da saída repentina de Elisa logo deu espaço para as gargalhadas de Bia e Timy. Essa tarde realmente parecia interminável, mas, dessa vez, eu realmente não queria que ela terminasse. A campainha tocou novamente. Dessa vez, finalmente era a Vick. Dona Janete insistiu que eles levassem bolo e alguns docinhos que tinha preparado. Ficamos Bia e eu conversando enquanto minha mãe foi procurar seus utensílios de crochê.
— Então vocês dois fizeram as pazes, né? Não aguentava mais te ver cabisbaixo pelos cantos sentindo a falta dele.
— E quem disse que eu estava cabisbaixo? Não senti a falta dele, só fiquei feliz por ter resolvido o mal-entendido, só isso.
— Ah, Wil, sério? Vai vir com essa história para cima de mim? Qual é! Você sentiu falta dele sim, admite.
— Você é insuportável, Bia, já te falaram isso?
Bia fez um leve “não” com a cabeça enquanto ria.
— Enfim, fico feliz que vocês fizeram as pazes. Depois eu quero detalhes de como isso aconteceu… todos os detalhes! Mas agora preciso ir embora, tenho que levar esses livros para a Min e vou passar na floricultura antes que feche. Encomendei um buquê de girassóis, ela adora girassóis.
— Olha só, minha amiga é a última romântica do mundo, com toda a certeza!
— Eu sou a penúltima. A Yasmin com certeza ganha, nada supera a minha amada nesse sentido.
— Tá bom, tá bom, chega de espalhar seu amor na minha cara. Tchau, vai lá ver sua “amada” logo, vai.
Essas duas eram, com certeza, o casal mais fofo que eu conhecia. Bia tinha seu jeitinho marrento, mas sempre se derretia perto da Yasmin. Observá-las assim me fazia muito bem: saber que alguém cuidava tão bem da minha amiga.
LEMBRANÇAS DO PASSADO QUE EU FIZ QUESTÃO DE ESQUECER……
Passaram-se alguns dias desde a tarde agitada e cheia de emoções.
Minha mãe recebeu diversas encomendas e aproveitou minha suspensão para me colocar na cozinha para ajudar nos preparativos. Nunca pensei que diria isso, mas sinto falta das minhas aulas.
Hoje ela nos deu uma folga, e finalmente posso relaxar um pouco. Minha mãe vai passar a tarde conversando com a Dona Marta e colocar a fofoca em dia.
Deitei minha cabeça no travesseiro. Meu corpo estava cansado, mas minha mente, inquieta. Não conseguia parar de pensar naquela cena em que presenciei o lado frágil e sensível do Timy. Meu instinto de abraçá-lo, de querer protegê-lo… A cena daquele abraço fica em looping na minha cabeça. Como um abraço pode despertar tantas emoções? Eu realmente gostaria de entender.
Pensei tanto que acabei dormindo.
Dona Janete chegou da casa dos vizinhos. Eu tinha acabado de acordar, então ainda estava colocando meus pensamentos em ordem. Minha mãe estava pálida; sua expressão era confusa, assustada. Com certeza algo de ruim tinha acontecido.
— Que cara é essa, mãe? Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Minha mãe passou dez segundos me encarando. Seu rosto estava inexpressivo, ela parecia estar em choque.
— Mãe, me responde, por favor! Você está me assustando!
— William, você bateu no Hugo por causa do Timy, né? Para defender o Timy dos ataques do Hugo… Por isso você perdeu a cabeça?
Engoli em seco. Todo o sono que havia restado se dissipou imediatamente. Minha mente ativou em segundos, e os pensamentos me atingiam como raios.
— Como a senhora ficou sabendo? — perguntei, tentando entender como lidar com aquela situação.
— A Marta me contou. Estávamos conversando e ela comentou que o Timy está sofrendo preconceito de algumas pessoas na escola, que por ele ser…
Minha mãe hesitou. Para ela, era difícil processar toda essa informação. Seus olhos estavam marejados, e eu sabia muito bem o motivo. Após alguns segundos, ela continuou:
— Ela me disse que, por ele ser gay, algumas pessoas estavam excluindo e maltratando ele. Foi esse o motivo da sua briga, Wil?
— Foi sim, mãe.
— Eu imaginei… Quando a Marta me contou, eu liguei uma coisa à outra. Wil, você precisava ver o rosto dela. Ela estava com uma expressão angustiante. Nenhuma mãe merece passar por isso. Esse mundo é terrível, Wil, terrível demais… Isso me trouxe lembranças horríveis. Só de pensar no que aconteceu no passado, me dá vontade de chorar.
— Não precisa chorar, mãe. Passado é passado, não vamos remoer essa história, por favor.
— Mas, Wil, a gente precisa conversar sobre isso.
— Não, mãe, nós não precisamos conversar sobre isso. Você precisa esquecer essa história, deixar o passado no passado. E outra: a situação do Timy é completamente diferente.
— Eu sei, meu filho… Eu sei, você está certo, meu querido. Vamos deixar o passado para trás, eu não vou mais revirar essa história.
— A senhora está se sentindo melhor?
— Estou sim, meu filho.
— Que bom. E quanto ao Timy? A senhora está bem com isso?
— Sim. O Timy é um garoto adorável e prestativo, meu carinho por ele não vai mudar por causa disso. Só espero que nada de ruim aconteça com ele. Vou orar por ele, pedir proteção… Espero que, dessa vez, minhas preces sejam ouvidas.
— Vão ser ouvidas sim, mãe. Vão ser ouvidas.
Eu sabia que uma hora ela iria descobrir, e, como eu temia, isso a abalou profundamente. Eu preciso proteger os sentimentos da minha mãe. Não posso permitir que aconteça novamente o que aconteceu no passado. Definitivamente, preciso controlar meus sentimentos pelo Timy e seguir adiante como o planejado desde o início.
capítulo 22
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A tarde de Sexta que mudou a minha vida
Sipnose:
Conta a história de Wil um garoto tímido, sempre rodeado de amigos, que de repente vê sua vida virada de cabeça para baixo com a chegada de um novo vizinho,...