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WU: UM DESTINO NÃO REVELADO

CAPÍTULO 7

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“Descendente de feiticeiros…”

Talvez essa tenha sido a primeira resposta que Niran encontrou para a pergunta sobre quem ele era.

Quinze anos atrás, quando tinha apenas quatro anos de idade e vivia em uma pequena vila cercada por montanhas, Niran não foi criado pelos pais.

Ele morava apenas com Kung.

Desde o seu nascimento, Kung lhe ensinou a compreender suas origens: ele era descendente de imigrantes chineses hakka e de um clã que existia havia mais de mil anos.

Por causa de sua origem étnica e ancestralidade, os moradores da vila o chamavam de “neto do feiticeiro”.

“Ei, neto do feiticeiro, vá para casa!”

Nem sempre o chamavam assim, mas costumavam usar aquele apelido quando não gostavam dele.

Niran não se considerava um excluído entre os amigos, mas era mais inteligente que muitos deles.

E, bem…

Sempre que tirava uma nota melhor numa prova, os colegas que tinham ido mal o chamavam de “bisneto do feiticeiro”.

Quando ganhava uma partida de futebol, os perdedores o chamavam de “bisneto do feiticeiro”.

Sempre que fazia algo minimamente melhor que os outros, aquela expressão surgia novamente.

Como se quem a pronunciasse quisesse puxá-lo de volta para baixo.

Ouvir aquilo repetidamente era irritante.

Às vezes a irritação se transformava em raiva.

Mas esses sentimentos vinham e iam.

O que permanecia em seu coração era uma pergunta que, para uma criança, parecia impossível de responder.

“O que é Kung…?”

“Ele é realmente um feiticeiro?”

“E eu?”

“Vou me tornar um feiticeiro também?”

O mundo moderno costuma associar a figura do feiticeiro ao mal.

Até mesmo o tom de voz e os olhares das outras crianças deixavam isso claro.

Não havia admiração nem respeito.

Havia rejeição.

Havia preconceito.

E, às vezes, nem mesmo Niran conseguia escapar dessa influência.

“A natureza de Kung é maligna?”

“Se for, isso será transmitido para mim?”

“O que vou me tornar quando crescer?”

“Vou me tornar um feiticeiro maligno como Kung?”

“Ou vou crescer como uma pessoa comum, igual a todos os outros da vila?”

Nenhuma das duas possibilidades parecia particularmente boa.

Naquele dia, Niran caminhou pela floresta em direção à pequena casa de madeira onde morava com Kung.

Ao chegar, viu um velho sedã estacionado diante da casa.

Aquilo significava que Kung estava recebendo visitas.

Niran entrou silenciosamente e espiou pela porta.

Viu Kung recebendo um senhor idoso vestido com roupas que lembravam as de um monge: uma túnica cinza larga e calças pretas.

Dois jovens vestidos de forma semelhante o acompanhavam.

Niran já havia visto fotografias antigas de Kung usando aquelas roupas, guardadas dentro de um armário, mas nunca o tinha visto vesti-las pessoalmente.

“Por favor, viajei longe demais para voltar agora.”

Niran ouviu Kung dizer aquilo em um dialeto hakka.

Não era um idioma que muitas pessoas compreenderiam, mas ele conseguia reconhecer algumas palavras.

“Com todo o respeito, senhor”, respondeu o visitante, “desta vez não viemos por você.”

“Viemos por seu neto.”

Niran ficou imóvel.

Kung também.

O velho permaneceu em silêncio por um longo momento, como se estivesse mergulhado em pensamentos.

Então respondeu:

“Yong Le ainda é muito jovem. Ainda não vejo potencial nele.”

O visitante suspirou levemente, decepcionado, mas insistiu:

“O conhecimento dos nossos ancestrais ainda precisa de um sucessor. Por favor, considere isso.”

Depois disso, os dois continuaram conversando.

Reafirmaram suas posições, mas mantiveram um tom amigável e conciliador.

Mais tarde passaram a falar sobre assuntos cotidianos.

Niran não prestou muita atenção.

Nesse momento, um dos assistentes do velho — um garoto que parecia três ou quatro anos mais velho que ele — virou-se e sorriu amigavelmente.

Niran devolveu um pequeno sorriso.

Pouco depois, os visitantes se levantaram para partir.

O velho fez uma leve reverência para Kung.

Kung respondeu da mesma forma.

Ao passar por Niran, o visitante lançou-lhe um breve olhar, mas não disse nada.

Apenas o garoto que havia sorrido anteriormente parou para conversar.

“Meu nome é Fei. Qual é o seu?”

“Niran”, respondeu ele.

“Até mais, Niran.”

Fei sorriu e deu um leve tapinha em seu ombro.

Logo depois, toda a comitiva entrou nos carros e foi embora.


Naquela noite, Niran decidiu perguntar a Kung aquilo que o estava incomodando.

“Kung… você é um feiticeiro?”

Kung olhou para ele calmamente antes de soltar uma risadinha suave.

“Você já me viu conjurar alguma coisa?”

Niran balançou a cabeça.

Então Kung explicou pacientemente:

“Você… e eu… não somos feiticeiros como as pessoas acreditam.”

“Não possuímos superpoderes.”

“Só somos capazes de nos conectar com grandes energias e tomá-las emprestadas por um curto período.”

“Grandes energias? Que tipo de poder é esse, Kung?”

“É o poder do céu e da terra.”

“Ou, se preferir, o poder da própria natureza.”

“Por isso tenho o dever de proteger o céu, a terra e a natureza.”

“Essa é a essência de ser um Wu.”

A explicação tranquilizou Niran.

Ela lhe mostrou que ser um Wu não era algo ruim.

Mesmo tendo sido estigmatizados por pessoas de diferentes crenças ao longo dos séculos, os Wu permaneceram firmes em sua natureza.

Firmes em sua bondade.

Firmes em sua herança espiritual profunda e inabalável.

Segundo uma lenda, os Wu herdaram seus poderes do deus Pang Ku, criador do mundo.

Mas era apenas uma lenda.

Uma história exagerada, sem provas.

Outra lenda parecia mais plausível.

Ela dizia que os Wu eram descendentes de Wu Xian, o grande mago da Dinastia Shang.

Um líder espiritual poderoso e influente que mais tarde foi elevado à condição de divindade.

Mesmo assim, não existiam evidências concretas que comprovassem essa origem.

Independentemente da veracidade das lendas, os Wu existiam.

E possuíam uma conexão profunda com as forças místicas da natureza.

Historicamente, os Wu eram considerados uma das mais antigas tradições espirituais da humanidade.

Mais antigas até mesmo que o taoismo, o budismo e o confucionismo.

Eram reverenciados como representantes da natureza, do céu e da terra.

Mas o tempo passou.

A história seguiu seu curso.

As civilizações cresceram.

Impérios surgiram.

E com eles vieram as disputas por poder político e religioso.

Os Wu passaram a ser vistos como perigosos.

Tanto pelos governantes quanto por diversas religiões.

Foram perseguidos inúmeras vezes.

Rotulados como hereges.

Forçados a fugir.

A esconder suas identidades.

E, em muitos casos, a abandonar os conhecimentos herdados de seus ancestrais.

Na era moderna, a ciência e a globalização transformaram praticamente tudo.

Inclusive os sistemas políticos tradicionais e as próprias religiões, que já não possuíam a mesma influência de antes.

Mesmo assim, os Wu sobreviveram.

Discretamente.

Preservando sua identidade.

Transmitindo seus ensinamentos de forma rigorosa.

Principalmente através da Escola Chu Ming.

Uma escola de cultivo espiritual fundada nas florestas profundas da península sul.

Até hoje, ela procura descendentes dos clãs Wu espalhados pelos países vizinhos, transmitindo-lhes os ensinamentos ancestrais e a missão de servir ao céu e à terra.

Ainda assim, era inegável que o número de praticantes diminuía a cada geração.

Por isso Niran não ficou surpreso ao descobrir que as pessoas da Escola Chu Ming tentavam convencer Kung a entregá-lo aos seus cuidados.

Afinal, o próprio Kung havia sido treinado naquela escola.

A arte dos Wu era transmitida por linhagem.

Apenas descendentes dos clãs Wu possuíam o direito de aprender seus ensinamentos.

Embora Kung ainda estivesse em dúvida sobre qual caminho seu neto deveria seguir — crescer como um jovem comum da nova geração ou herdar uma responsabilidade transmitida por milhares de anos — o pequeno Niran já tinha clareza sobre a própria resposta.

Ele já havia escolhido seu caminho.

“Então eu vou poder me tornar um Wu?”, perguntou Niran, aos nove anos de idade, cheio de esperança.

“Isso terá que ser decidido pelo céu e pela terra.”

Kung deixou a resposta nas mãos do céu e da terra.

Então mais de dez anos se passaram.

Até que Niran concluiu com sucesso seu treinamento na Escola Chu Ming e finalmente se tornou um Wu.

Mas…

Nem o céu nem a terra jamais lhe deram uma resposta.


Por um breve instante, imagens de sua vida — da infância à idade adulta — passaram rapidamente por sua mente.

Niran percebeu que o Yao estava enganando-o.

Talvez ele tivesse perdido apenas um ou dois segundos de concentração.

Mas já não estava mais no porão do cassino.

Agora encontrava-se em um labirinto de espelhos confuso e aterrorizante.

Cada espelho refletia sua imagem infinitamente, criando uma ilusão perturbadora e desorientadora.

“Eu estraguei tudo… mesmo tendo me preparado tão bem.”

Por um momento, Niran se repreendeu.

Mas não permitiu que o erro o dominasse.

Recuperou o foco.

Continuou batendo no mokugyo enquanto recitava os encantamentos destinados a suprimir o espírito do Yao.

Sua voz competia contra outra que insistia em atacá-lo repetidamente.

“Quem é você…?”

“Quem é você…?”

“Quem é você?!”

Niran ignorou a voz.

Quem quer que ele fosse, aquilo já não importava.

Tudo o que precisava fazer era selar aquele Yao.

Ele sabia que a criatura estava extremamente enfraquecida.

Então elevou ainda mais a voz.

“Por decreto do céu e da terra, que a justiça se manifeste e que a injustiça desapareça!!”

O Yao soltou outro grito agonizante.

E, de repente, o labirinto de espelhos desapareceu.

Niran voltou a si.

Estava novamente sentado no porão.

A aterrorizante esfera de energia vermelha havia sido completamente absorvida pelo talismã.

Apenas pequenos fragmentos de energia ainda flutuavam ao seu redor.

Niran soltou um suspiro cansado e pegou o talismã nas mãos.

O Yao daquele cassino havia sido completamente selado.

Ele caiu sentado no chão, exausto.

Aquela entidade era muito mais poderosa do que imaginava.

Enfrentá-la quase o matou.

Niran sentia claramente que sua força vital estava esgotada.

Além disso, uma grande quantidade de energia maligna deixada pelo Yao havia contaminado seu interior.

Provavelmente levaria algum tempo até recuperar o equilíbrio e a pureza de seu poder espiritual.

Enquanto isso…

Teria de suportar uma pergunta extremamente irritante ecoando dentro de sua mente.

“Quem exatamente é você… Niran?”

“Quem é você?!”


Pete fumava um cigarro enquanto esperava Niran ao lado do carro estacionado diante do santuário.

Depois de algum tempo, Niran apareceu.

Seu rosto estava abatido.

Seu corpo parecia exausto.

Ao ver o estado deplorável do rosto de Pete, perguntou:

“Por que você está tão destruído?”

“Você também não parece muito melhor.”

Pete deu de ombros.

“Acabou tudo, não foi?”

Niran assentiu.

Tocou o talismã que continha o Yao, examinou-o mais uma vez e então perguntou:

“Como você sabia que aquela mão iria vencer?”

“Eu não sabia.”

Pete deu uma tragada no cigarro antes de responder.

“Eu simplesmente… senti.”

“Foi estranho.”

“Nunca tinha sentido algo assim antes.”

“Não faço ideia do que aconteceu.”

“Existem duas possibilidades”, respondeu Niran.

“Ou você está confuso e pensando demais.”

“Ou os céus estão tentando lhe dizer alguma coisa.”

Pete e Niran trocaram um breve olhar.

“Então acho que deve ser a segunda opção.”

“Porque, se alguém aqui está confuso, esse alguém é você.”

Niran soltou um longo suspiro.

“Eu odeio apostas.”

Ele voltou a olhar para o talismã em sua mão.

Dessa vez seus olhos tremeram levemente.

Não era um ódio nascido de gostos pessoais ou crenças.

Era algo muito mais profundo.

Algo que carregava dentro de si havia quinze anos.

Tudo remontava à sua infância.


Quinze anos antes, os amigos de Niran o desafiaram para um jogo de cartas.

No começo, apostavam apenas elásticos.

Depois vieram os brinquedos.

E, por fim, dinheiro de verdade.

Niran era uma das poucas crianças que carregavam uma moeda de dez bahts no bolso.

Isso o tornava um alvo extremamente atraente.

“Se você tem tanta confiança assim, aposte o dinheiro, neto do feiticeiro!”

Mesmo acreditando possuir sangue sagrado ou um espírito especial, Niran era apenas um garoto de nove anos.

Sem a maturidade necessária para ignorar provocações.

E com um forte desejo de vencer.

Imediatamente tirou a moeda do bolso e aceitou a aposta.

Era um jogo simples.

Quem tirasse a carta mais alta venceria.

Enquanto jogava, Niran imaginou o céu e a terra.

Rezou silenciosamente para que os céus ficassem ao seu lado e lhe concedesse a vitória.

O resultado?

Niran tirou um ás.

Seu amigo recebeu uma carta inferior.

A vitória foi esmagadora.

Mas sua felicidade durou apenas alguns segundos.

Até ouvir um grito.

“YONG LE!”

Quando Kung o chamava pelo nome chinês, isso significava apenas uma coisa.

Ele havia feito algo errado.

E, daquela vez, provavelmente era o maior erro de todos.


“Você percebe o que fez de errado?”

Naquela noite, Kung fez essa pergunta.

Niran ainda se lembrava claramente da reprovação e da decepção nos olhos do avô.

“Eu só joguei cartas”, respondeu em voz baixa.

“Para os outros pode ser apenas isso.”

“Mas para nós é um desafio ao destino.”

Kung o encarou severamente.

“Você acha correto alterar o céu e a terra por causa de algo tão banal?”

“E o que tem isso?”, rebateu Niran, confuso.

“No final eu ganhei.”

“Isso significa que o céu e a terra estavam do meu lado.”

“ARROGANTE!”

Niran se assustou com o grito.

Kung começou a tossir violentamente antes de continuar:

“Grave isto na sua cabeça.”

“Ninguém.”

“Não importa quem seja.”

“Tem o direito de acreditar que o céu e a terra estão do seu lado.”

“O céu e a terra não possuem família.”

“Não possuem amigos.”

“Não possuem inimigos.”

“O céu e a terra tratam todos os seres vivos igualmente.”

“Mesmo assim?”, perguntou Niran.

“Se um dia eu me tornar um Wu e cumprir o dever de proteger o céu e a terra…”

“Então eles deveriam estar mais do meu lado, não?”

Ao ouvir aquilo, Kung ficou em silêncio.

Niran não conseguiu dizer se ele estava furioso ou decepcionado.

Após um longo momento de reflexão, Kung balançou a cabeça e suspirou.

Então falou calmamente:

“Não.”

“Você não é um Wu.”

“E nunca será.”

Depois de dizer aquelas palavras, Kung entrou em seu quarto.

Deixou Niran sozinho.

Refletindo sobre aquela frase.

Por mais de quinze anos.

Porque aquelas foram as últimas palavras que Kung lhe dirigiu antes de partir de sua vida naquela mesma noite.

CAPÍTULO 7
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WU: UM DESTINO NÃO REVELADO

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Pete é um jovem azarado que carrega consigo um fragmento de uma alma demoníaca e possui a capacidade de sentir Yao:...

Chapters

  • CAPÍTULO 8
  • CAPÍTULO 7
  • CAPÍTULO 6
  • CAPÍTULO 5
  • CAPÍTULO 4
  • CAPÍTULO 3
  • CAPÍTULO 2
  • CAPÍTULO 1
 

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