capítulo 27
Yasmin enxugava minhas lágrimas com as mãos.
— Wil! Escuta, eu já passei pelo que você tá passando… Para entender quem eu era e me assumir para as pessoas foi muito difícil, minha família toda ficou contra mim. Mas, se você continuar desse jeito, vai acabar se matando por dentro!
As palavras de Yasmin me acertavam como flechas, mas, ao mesmo tempo, minha luta interna me condenava a todo instante.
— Eu sinto muito por você ter passado por isso… E sinto muito por causar esse transtorno na relação de vocês.
— Tá tudo bem, Wil. Só acho que vocês deviam ter me contado isso antes.
— Desculpa, amor, mas é que o Wil não conseguia falar sobre isso com ninguém. Eu não podia passar por cima dos sentimentos dele — Bia explicou.
— E, antes de o Timy chegar, eu não precisava lidar com esses sentimentos! Mas quando ele chegou tudo mudou… Eu mudei. Eu tentei me afastar, eu juro que tentei, mas parecia impossível ficar longe dele, sabe? Eu tô ficando maluco?!
— Não, Wil! Você não está ficando maluco! E também não foi por causa do Timy… O Timy só foi a gota d’água para isso tudo transbordar. Você tem que se resolver com você mesmo, e só você pode fazer isso!
— Merda… Eu não sei o que fazer. Eu só preciso de um tempo para pensar… Eu preciso pensar.
Fiquei ali por alguns minutos, mas precisava da minha casa. Precisava chorar no meu travesseiro, precisava aliviar aquela angústia que estava sentindo. O fato de a Yasmin me acolher e me entender tirou um peso gigantesco dos meus ombros, mas esse era apenas o começo dos meus problemas.
Cheguei ao meu quarto, deitei na cama abraçando o travesseiro. A cena do beijo com o Timy não saía da minha cabeça. Era tão vívida que eu ainda conseguia sentir o gosto dos seus lábios e me lembrar do som da sua respiração. Foi o momento mais feliz da minha vida.
“Como algo tão bom pode doer tanto?”, eu dizia, colocando a mão sobre o peito. As lembranças eram maravilhosas, mas ao mesmo tempo doíam como facadas.
Chorei por algumas horas até acabar adormecendo. Acordei com os gritos da Dona Janete e o barulho das sacolas batendo nos móveis.
— Wiiiil! Desce aqui, vem me ajudar com essas sacolas, por favor!
— Tô indo, mãe…
Desci o mais rápido que pude. Meu corpo estava pesado, parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim; sentia cada parte doer, a cabeça girar e meus olhos estavam completamente inchados.
— Meu Deus do céu, Wil!! O que você tem? Tá com febre? Olha a sua cara, tá horrível!
— Não tô me sentindo muito bem…
Eu não iria conseguir explicar meu estado real, então o melhor a fazer era concordar para acabar tomando um remédio ou outro.
— Nossa, meu filho, senta aqui, deixa eu ver se você está com febre!
Minha mãe me distribuiu uma lista de remédios e me fez voltar para a cama. Senti meu corpo amortecido e meu coração quebrado. O olhar decepcionado do Timy me acompanhou em meus sonhos; eu estava completamente devastado.
Mas, como dizia a Dona Janete, “não é nada grave, você precisa ir para a aula”. Fui me arrastando a passos curtos, não queria chegar à escola, não queria ter que encará-lo.
No entanto, como o destino sempre me foi meio sádico, ele estava ali. A primeira pessoa à minha frente, o primeiro rosto a ver pela manhã. Como aquele rosto tão lindo podia me trazer tanta culpa e remorso? Seus olhos brilhantes e sorriso lindo deram lugar a uma testa franzida e a um semblante abatido. Saber que a causa daquele pesar era eu me torturava mais e mais.
O dia se passou. Timy sequer falou comigo. Abria um sorriso vez ou outra para os outros, mas seu olhar para mim era de mágoa e ressentimento.
Dias se passaram. Aqueles sentimentos vinham me torturando dia após dia, noite após noite.
Bia e Yasmin, que agora já estavam a par da minha situação, tentavam me consolar e me aconselhar. Mas, ao mesmo tempo, Yasmin conseguia sentir a mágoa por seu melhor amigo, que entregou seu coração a mim e eu acabei por quebrá-lo.
Os dias passavam, mas a angústia, não. Eu já não comia nem dormia direito, minha concentração estava escassa. Minhas notas foram caindo e eu já não estava mais vivendo, apenas sobrevivendo
acostumando-me a viver naquela jaula na qual eu mesmo me tranquei e só eu tinha a chave.
Estava perdido em meus pensamentos, revivendo algumas cenas, sentado na cadeira com uma fatia de bolo sobre a mesa.
O garfo apenas sobrevoava o bolo em movimentos circulares até que, de repente, meus pensamentos foram interrompidos:
— Wil? Meu filho! Estou falando com você!
— Oi, mãe… Me desculpa, não prestei atenção no que a senhora falou.
— William, nós precisamos conversar.
capítulo 27
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A tarde de Sexta que mudou a minha vida
- Sipnose:
Conta a história de Wil um garoto tímido, sempre rodeado de amigos, que de repente vê sua vida virada de cabeça para baixo...