Capítulo 07
A vilã é minha irmã! Esse pensamento martelava na minha cabeça enquanto eu observava Beatrice sentada com o braço quebrado, radiante, como uma rainha cercada por suas damas de honra. O aroma doce do chá se misturava com o riso agudo das mulheres, criando uma atmosfera ao mesmo tempo encantadora e desagradável para mim.
A mansão estava cheia de mulheres nobres, cada uma mais rica que a outra, e todas tinham uma única missão: escolher os melhores vestidos para satisfazer seus desejos fúteis.
Enquanto observava, ao tentar me servir o chá, Sófia derrubou a jarra, que fez um ruído ensurdecedor ao atingir o chão. O líquido quente espirrou, atingindo a senhora mais próxima, que deu um grito que ecoou pela sala. Parecia o guincho de uma porca.
As mulheres, em um coro de surpresas, se voltaram para nós com olhares que variavam de horror a divertimento.
— Desculpe, desculpe — ela se curvou várias vezes para a mulher e para mim. Sófia não gosta de estar perto de Beatrice e a ideia de servir aquela cobra mete medo em qualquer um.
— Vá embora logo. Mande alguém para limpar isso — pedi. Ela nem esperou por mais ordens, caminhou às pressas para longe dali. O que me deixou mais tranquilo; prefiro que ela esteja longe de tudo isso.
Beatrice optou por ignorar o que aconteceu, como se coisas como a Sófia não existissem. E isso foi um alívio. Mas, de repente, algo inusitado começou a acontecer. Beatrice virou-se para mim com um brilho travesso nos olhos.
E se dirigiu a mim:
— Você vai me ajudar hoje — ela disse, com um sorriso que não prometia nada de bom. — Bem sabe que estou com meu braço quebrado e não posso fazer a prova dos meus novos vestidos, então, faça-o por mim. — Beatrice estava decidida a encontrar vestidos que a fizessem parecer uma verdadeira rainha. E renovar seu guarda-roupa. — Não poderei experimentar nenhum vestido. Em vez disso, seja você o meu modelo.
No primeiro vestido, uma longa e verdejante criação com babados, olhei no espelho e mal podia reconhecer meu próprio reflexo. As mulheres nobres riram e aplaudiram, algumas até disseram que eu deveria considerar uma carreira no mundo da moda. Beatrice estava em êxtase com todo o drama que havia criado.
— Venha, experimente mais este! — ela dizia, puxando-me para a cabine que foi montada na mansão.
Quando me olhei em um vestido vermelho brilhante, achei aquilo um horror, assim como o gosto dela.
— Veja, irmã — disse olhando para o vestido. — Para um corpo sem curvas como o seu, não vai lhe cair bem. Falta seios, pernas… — balancei a cabeça. — É uma pena.
O riso das mulheres, que ecoava por toda a sala, desapareceu. Beatrice, pela primeira vez, pareceu incomodada, e eu me diverti. Para ela, os vestidos deixou de ser uma oportunidade de zombar do irmão.
— Você está certo, irmão. Olhando assim para o seu corpo, vejo que somos muito parecidos. — Dito isso, ela comeu uma fruta, sem tirar os olhos de mim. — É triste para um homem ter um corpo tão feminino.
— Realmente. Porém, para uma mulher, isso deveria significar a morte. Ser comparada ao corpo de um homem nunca será lisonjeiro. — Eu dizia para ela e suas amigas, sem reciprocidade. — Você deve fazer mais ajustes nos seus vestidos, irmã.
Nesse ponto, o silêncio reinou na sala. Depois de uns cinco minutos, para tentar disfarçar as alfinetadas, as mulheres começaram a falar, cheias de risos, multiplicando-se em elogios picaretas para Beatrice.
Ouvi todos com seriedade, contradizendo alguns aqui e ali, numa tentativa de humilhá-la — até que Beatrice, fingindo ficar lisonjeada, não conseguia se entregar ao clima.
Depois de uma hora de falsos elogios, babação e roupas absurdas, fomos para outro cômodo, mais extravagante e bem organizado. Beatrice havia organizado um chá para todas aquelas mulheres nobres. E, adivinha só? Todas tinham que estar vestidas de vermelho. E eu não poderia ficar de fora. Olhei para Beatrice, mas ela apenas sorriu, como quem venceu uma disputa.
Com chá servido e a mesa decorada, passei três longas horas no papel de bobo da corte. As mulheres conversavam animadamente, umas comentando sobre a última moda, outras fofocando.
E eu me sentia como um peixe fora d’água, ou melhor, como um homem vestido de mulher entre nobres. O lado mais engraçado de tudo isso era que, ao menos em parte, eu tinha quebrado a satisfação dela com seu espetáculo.
E eu, ah, me deliciava.
De repente, a porta se abriu. O noivo de Edgar entrou, atraindo a atenção de todos.
— Querido! — ele me chamou, com uma expressão abobalhada, como a de um idiota. — Soube o que aconteceu na cavalgada da sua irmã! — me abraçou apertado, quase me asfixiando. Seus braços amassando o vestido.
Senti os olhos penetrantes de Beatrice fixos em mim. O noivo de Edgar estragou sua tarde recheada de humilhações.
— Você não foi convidado —, Beatrice protestou. Só assim o noivo de Edgar criou espaço entre nossos corpos.
— Desculpe, mas voltei agora de viagem e passar tanto tempo longe do meu amor era insuportável. Tinha que vir vê-lo — concluiu, enfiando seus cabelos louros nos meus olhos. Achei que ia ficar cego.
— Castilho… — com um profundo suspiro, decidi que a melhor estratégia era apelar para a comédia dramática. — Meu amor! — com um movimento exagerado, coloquei a mão sobre o coração e deixei uma lágrima escorrer, embora fosse mais suor do que lágrima. — Oh, querido! — exclamei, num tom que ressoava como diva de teatro. — Não me sinto bem, leve-me embora.
A testa de Castilho criou linhas de preocupação.
— Edgar, o que está acontecendo?
Joguei meu corpo dramaticamente sobre ele, cobrindo o rosto com a mão. O vestido vermelho cobriu nos dois.
— Vamos, leve-me! — comecei a soluçar, mas não de verdade — era tudo parte do espetáculo.
As pessoas ao redor começaram a notar o drama, e algumas mulheres se aproximaram, preocupadas. Beatrice se aproximou, com uma expressão de falsa preocupação.
— O que há, irmão?
Levantei o rosto do peito largo e duro de Castilho, fazendo uma expressão de tristeza.
— Deve ser cansaço. Não se preocupe, meu noivo vai cuidar de mim — disse, com uma voz doce e Castilho concordou avidamente.
Vendo que a farsa funcionava, fiquei em pé, limpando as lágrimas de mentira.
— Ah, meu amor! Vamos, vamos — disse, e Castilho me levou para fora, apoiando meu corpo.
Beatrice, derrotada, teve que aceitar que seu plano de travessura havia falhado. Com um sorriso mentalmente triunfante, eu sabia que tinha conseguido, pela primeira vez, escapar das garras dela.
Do lado de fora, parei. Castilho ficou surpreso e parou também.
— Já estou melhor, vou para o meu quarto — disse, tive dificuldade difícil fazê-lo desgrudar de mim, mas consegui.
— Vou com você — insistiu. Mas eu neguei a ideia. Então, ele segurou meu braço, seus dedos deslizaram até tocar na minha mão.
— Quero ficar sozinho — eu fingi sorri carinhosamente para ele. — Estou cansado.
— Não tente fugir de mim, querido — ele pronunciou a última palavra com um desejo que eu não conhecia. — Mesmo que engane todas essas mulheres, não funciona comigo. Ninguém aqui te conhece mais do que eu — respondeu. Ele se aproximou mais, numa convivência mais íntima, como de amantes. Aquilo me incomodou. — Somos noivos, o que te incomoda? Sempre fizemos isso — ele replicou, tocando meus cabelos. — Ainda lembro do seu pedido… que eu me tornasse seu noivo, te levasse daqui, se em troca, você se tornasse meu, exclusivamente meu — ele falou aquilo com uma verdadeira obsessão.
— Eu, eu — gaguejei. Aquilo me fez gaguejar, não sou Edgar para pagá-lo com meu corpo, como bem ele quiser. Nunca toquei em um homem antes. Aquilo era demais para suportar!
Num esforço que nunca tinha feito antes, o abracei. Imaginei que estava abraçando uma mulher. E, para satisfazê-lo, expandi meus braços, o apertei e disse algumas palavras amorosas.
— Sou todinho seu, por que tanta insegurança se estou aqui, nos seus braços, se sou unicamente seu? — Dizer aquilo era estranho. — Estou cansado, deixe-me ir. — Aproximei meus lábios do seu ouvido e continuei: — Por favor, meu querido.
Então, encostei nossas testas, a centímetros de distância um do outro, beijando a curta distância entre nossos lábios.
— Pode ir. — Mesmo relutante, Castilho concordou. Em poucos minutos, ele ficou para trás. No rosto dele, a única amostra de constrangimento eram suas bochechas rubras.
Caminhei apressadamente para ficar longe dele. Castilho era muito grudento — gentil, mas obsessivo. Tudo o que queria era tirar o vestido vermelho repugnante e ficar longe de todos eles.
Podia tratá-los com indiferença facilmente, como se todos fossem estranhos. Era apenas a história de outra pessoa, não importava qual sentimento eu sentisse ou provocasse, aquela não era minha vida.
Capítulo 07
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A VILÃ É MINHA IRMÃ!
Um assalariado desperta em uma web-novel, ele terá que lutar contra os caprichos da vilã. Quem chega até o final?
Capa por:...