Capítulo 10
Era um dia perfeito no jardim, ao ar livre, rodeado de flores, enfeites pendurados e uma atmosfera de felicidade. O grande altar estava decorado com rosas e fitas brancas, e o bolo, uma obra de arte gigante, ficava bem ao lado, pronto para a celebração.
Tudo foi preparado perto do belo lago, onde a água brilhava sob o sol. Os convidados pareciam cheios de energia, enquanto eu queria dar o fora dali.
Estávamos de pé diante do altar, Castilho exibia um sorriso radiante, enquanto a luz do sol filtrava-se através das flores que adornavam o espaço. O ar estava impregnado de um perfume doce, em um aroma enjoativo, e a música suave preenchia o ambiente.
Tudo parecia perfeito, até que chegou a hora do “sim”.
Eu estava nervoso, olhei para Castilho, que sorria amorosamente, segurando minhas mãos. Os convidados estavam atentos, para o momento mais esperado da cerimônia.
Mas, de repente, alguém apareceu efusivamente diante do altar, como um raio antes da tempestade, cortando a atmosfera de alegria.
Era Beatrice, com um sorriso astuto que prometia caos, vestida deslumbrantemente de noiva. O vestido branco, adornado com rendas e pérolas, brilhava sob a luz suave.
Ela atravessou o corredor com passos firmes e decididos, cada movimento seu era carregado de uma confiança desconcertante, como se soubesse que estava prestes a mudar o rumo daquela cerimônia.
Ela parecia uma tempestade prestes a se desatar, o ar ficou pesado, como se o tempo tivesse parado para absorver a gravidade da situação.
A tensão era palpável. Os convidados trocavam olhares apreensivos, enquanto Castilho, visivelmente abalado, olhava entre ela e eu. Ele parecia paralisado, sem saber como reagir.
— Eu tenho algo a dizer — declarou Beatrice, com uma voz clara e manipuladora. — Na verdade, eu sou a verdadeira amante de Castilho. E, se me permitem, quero assumir esse lugar.
Beatrice avançou, ignorando os olhares. Antes que alguém pudesse entender o que acontecia, ela se virou para mim, com um olhar de desafio.
E, num movimento inesperado e brusco, ela se lançou sobre mim, rasgando o meu vestido com as mãos. O som do tecido se rompendo era como um grito, e todos ficaram em choque. O meu vestido de casamento desabou em um mar de rendas e seda, revelando uma roupa mais simples e leve por baixo.
A música parou abruptamente, e o silêncio que se seguiu era quase ensurdecedor. Até que, boquiaberto, dei um passo para trás. Minha expressão virou uma mistura de raiva e incredulidade. Sem pensar, me inclinei e, num gesto impulsivo, joguei Beatrice de cara no enorme bolo de casamento que estava ali ao lado.
— Coma o bolo, sua insuportável! — gritei, enquanto Beatrice se cobria de creme, chocada. O rosto todo sujo, seus cabelos ficaram brancos.
Enquanto ela caía, Castilho escorregou tentando ajudá-la, tropeçando no vestido de Beatrice e caindo de costas no bolo, que se espalhou por toda parte. As pessoas gritaram, chocadas com a cena absurda.
— Meu Deus! — alguém exclamou, enquanto os convidados ficavam de pé, nervosos e em choque. Sem saber se deviam ajudar a megera ou me conter.
Beatrice, toda coberta de creme, levantou-se furiosa, limpando o rosto com as mãos, enquanto se recuperava.
— Isso é uma afronta! — gritou ela, segurando o vestido sujo.
Castilho, ainda deitado no bolo, levantou as mãos, coberto de glacê, e tentou se explicar, mas só conseguiu um olhar furioso meu. Ele realmente era amante dela.
— Esse casamento acabou, vão todos embora. Vão! — Gritei com uma expressão enfurecida, dando pontapés e empurrões nos convidados, com uma expressão de pura irritação.
Os convidados, boquiabertos, começaram a correr cheios de constrangimento. E, no meio de toda aquela confusão, me virei para Castilho, que ainda escorregava no creme, e soquei a cara dele.
Beatrice e eu discutimos e quando chegamos à margem do lago, com um movimento rápido, ela me empurrou para dentro dele.
Mas eu não fui sozinho, puxei seu vestido com brusquidão. Ambos caímos juntos e no segundo seguinte, a água gelada nós envolveu. Tentei nadar, mas a verdade era que eu não sabia. A água estava fria demais, e a sensação de sufocar começou a me dominar. Eu havia lido sobre isso em muitos livros, de jeito nenhum imaginei que viveria uma experiência assim.
Afundei lentamente, a água fria envolvendo meu corpo como um manto gelado.
Beatrice lutava ao meu lado, sua silhueta se contorcendo enquanto o vestido encharcado a puxava para o fundo, como se quisesse arrastá-la de volta às profundezas. E assim, ela foi afundando mais rapidamente do que eu, o lago parecia justiceiro, sem favorecer ninguém.
As bolhas de ar escapavam da minha boca, cada uma, uma pequena despedida, enquanto o pânico se instalava em meu peito.
— Isso não pode estar acontecendo! — gritei, a voz abafada pela água, sentindo a vida se esvair, como um sonho que se desfaz ao acordar.
A pressão em meu peito aumentava, e a escuridão começava a se espalhar pela minha visão. Os restos do meu vestido começaram a pesar.
Então, como um raio de esperança, vi alguém mergulhar na água. A luz da superfície iluminando alternadamente o corpo dessa pessoa.
Era o maldito noivo de Edgar. Nossos olhares se cruzaram por um breve instante, e uma faísca de alívio acendeu dentro de mim. Ele parecia preocupado, nadando ansiosamente. Senti um arrepio. Ele se aproximou mais.
Tudo ficou estático, exceto pelo barulho abafado da água brincando dentro e fora dos meus ouvidos.
Mas, no segundo seguinte, a esperança se desfez quando ele desviou, nadando em direção a Beatrice.
O desespero tomou conta de mim enquanto ele a puxava para cima, os dois emergindo pouco a pouco na superfície, como se a vida estivesse sendo dada a ela e não a mim. O mundo acima parecia distante, e eu, preso em um pesadelo, lutava contra a inevitabilidade do meu destino.
Ainda carregava a esperança de algo ter mudado, entretanto, o noivo apaixonado era tudo atuação.
Com o coração cheio de raiva, fechei os olhos. Minutos depois, uma luz invadiu minha visão. Minhas pupilas se viram diante do sol, estava novamente naquele jardim repugnante.
Estava diante de Beatrice e Castilho, depois deles terem me acordado.
— Por quê? — perguntei, com a voz rouca e entrecortada pelos dentes. Estava mais furioso ainda enquanto os encarava. Olhando agora, eles pareciam mais próximos do que nunca.
Os dois estavam próximos um do outro em uma postura inequívoca, parecendo dois amantes depravados.
— Por quê? Que pergunta interessante — Beatrice bufou de tanto rir como se tivesse ouvido uma piada ridícula. — Irmão, não consegue entender? Para falar a verdade, eu sou a pessoa que Castilho amou do começo ao fim. E você era apenas um brinquedo para ele.
Se o olhar pudesse matar, Beatrice e Castilho, já teriam sido despedaçadas. Lágrimas cobriram minha visão, fiquei muito surpreso com aquilo. Era estranho, todas aquelas lágrimas não eram minhas. Eram de Edgar. O meu peito doía, tristeza, dor e decepção preenchiam meu coração.
Era doloroso compartilhar toda aquela dor com Edgar. Senti pena dele, ele nunca foi amado. Agora me dou conta que ele não é mais o personagem que eu lia, mas sim uma pessoa real. Não posso mais mentir para mim.
— As suas lágrimas são bonitas, irmão — ela riu. — Adoro vê-las em seu rosto. — Falou aquilo com um prazer sádico, desumano.
Sentia o gosto do sangue fluir pela minha boca quando pressionei meus lábios ao ponto de romper a carne fina e delicada.
— Maldita! — gritei, a voz ecoando com uma raiva que queimava como ácido em minhas veias. Tentei me erguer, mas meu corpo tremia, como se a fraqueza quisesse me prender ao chão. — Você, um ser miserável, deve apodrecer! Edgar te amou, confiou em você. Ele sempre guardou a esperança de que um monstro como você pudesse mudar.
Finalmente, a fúria me deu forças; consegui me levantar, um soco certeiro afastou Castilho dela. Ele poderia ser bonito, mas não passava de uma ilusão.
— Me largue! — Beatrice gritou, sua voz tingida de pânico. Agarrei seu pescoço, a sensação de poder pulsando em minhas mãos. Apertei mais e mais, os dedos cravando-se na pele macia dela.
— Me… me solte — sussurrou, a voz falhando. — Seu louco! — Seus olhos estavam arregalados, suas pupilas dilatadas pela tensão.
Suas mãos tremiam nervosamente ao tentar me afastar, mas eu era mais forte fisicamente que ela.
Senti minha pele se colar à dela, marcas vermelhas surgindo sob a pressão. O sangue parecia coagular onde eu a segurava, e a consciência começava a escorregar dela. O desespero iluminava seus olhos, um brilho de medo que eu nunca havia desejado ver.
Cravei mais profundamente minhas unhas na sua pele, rasgando a carne branca. Uma linha fina de sangue escorreu, pintando-a delicadamente.
— Edgar merecia coisa melhor, conviver com vocês é doentio — declarei, cada palavra carregada de desprezo, como se estivesse cuspindo veneno.
Ela tentou contra-argumentar e não conseguiu, seus lábios vermelhos abriram e fecharam, sua língua saía para fora produzindo ruídos irritantes. Gotículas de suor escorriam pela sua nuca.
Mas antes que o desespero pudesse dominá-la completamente e desmaiasse, fui puxado para trás.
Os guarda-costas chegaram, e Castilho já estava de pé, recuperado. Lutei para me soltar, mas meu corpo, exaurido, não respondia como eu desejava e eu perdia em números.
— O que fazemos com ele? — Castilho parou na minha frente e olhou nos meus olhos. Contudo, ele emanava uma aura de frieza.
Beatrice demorou para se recuperar, mas o fez. Ela massageou seu pescoço dolorido com vigor enquanto caminhava para longe de mim.
— Joguem no lago, que ele morra afogado. — ordenou a sangue-frio.
Antes que pudessem reagir, fui jogado no lago. Meu corpo continuava afundando. Eu não sabia nadar. Fui sufocando e me debatendo, eu deveria ter matado Beatrice desde o primeiro dia!
A água estava fria e cheia de bolhas, o ar estava ficando escasso, mal conseguia respirar. A luz do sol parecia distante, como uma lembrança fugaz, enquanto a escuridão do lago começava a me cercar.
Fui perdendo a consciência gradualmente, tudo ficou negrume, semelhante ao céu noturno, não havia estrelas, nem nuvens. Não havia nada ali, e era incrivelmente silencioso. Um espaço vazio, extenso, frio, sufocante e interminável. E então perdi completamente a consciência.
E algum tempo passou.
Minhas sobrancelhas estavam levemente franzidas, sentia um peso extra sobre meus olhos. Meus cílios tremeram levemente e só então abri os olhos pausadamente, com dificuldade.
Meus cabelos estavam molhados pelo suor fino que escorria pela minha testa e grudava no meu rosto.
Atordoado, a primeira coisa que vi foi a luz quente do sol penetrando pelas frestas da cortina e iluminando meu rosto. Não estava mais no lago.
Minhas roupas encharcadas de suor grudaram no meu corpo, causando extremo desconforto.
Para a minha surpresa, estava deitado em minha cama, com um livro aberto sobre meu peito. O sol brilhava e tudo parecia tão calmo. Olhei em volta, os móveis do quarto eram extremamente familiares. A familiaridade do meu apartamento me fez sentir aliviado.
Inacreditável! Olhei para tudo à minha frente com uma expressão atônita.
Tudo não passou de um pesadelo! Apenas uma sequência confusa de eventos que, por algum motivo, minha mente decidiu reproduzir enquanto eu dormia.
Percebi que tinha dormido enquanto lia a novel de Beatrice.
Levantei-me, sentindo um conforto profundo. A constatação do fim da minha convivência com Beatrice me deixou extasiado.
A memória do que havia acontecido ainda estava nítida em minha mente. Tudo parecia tão real. As risadas, os olhares, o vestido vermelho que me fez sentir como se estivesse em uma apresentação de teatro, o casamento e o lago gelado que quase me levou a um destino incerto.
A ideia de ter vivido aquilo, passado por todas aquelas humilhações era aterrorizante. Se tudo aquilo foi um sonho, trocaria tudo o que tinha para não tê-lo novamente.
Mesmo que meu corpo estivesse pegajoso e desconfortável, não fui tomar um banho. Assim que levantei, desci as escadas apressado, com o livro de Beatrice em minhas mãos. A adrenalina pulsava em minhas veias, misturada a um alívio que se espalhava como fogo.
Assim que entrei na cozinha, a luz fluorescente iluminou o espaço e o aroma familiar encheu meus pulmões.
Caminhei até a lixeira, um símbolo do que eu estava prestes a fazer. Peguei o isqueiro, suas superfícies frias e metálicas contrastando com o calor da decisão que tomara. Com um movimento decidido, acendi a chama e o brilho intenso dançava em meus olhos, refletindo-o.
Aproximei o livro da chama, e, enquanto o papel começava a se contorcer e a escurecer, uma onda de satisfação me envolveu. Observei cada página se desfazer aos poucos, como se a história que uma vez me prendeu estivesse sendo apagada, levando consigo todas as memórias amargas. O cheiro de papel queimado enchia o ar, e cada inalação era um lembrete do que eu estava fazendo.
Era gratificante ver as folhas se transformarem em cinzas, um testemunho de um capítulo encerrado. Eu me livrava não apenas do livro, mas de Beatrice, de suas ilusões e do controle que ela tinha sobre mim. Jamais voltaria a lê-lo. Nunca mais!
Enquanto as cinzas caiam dentro da lixeira e a fumaça dançavam no ar, um sorriso se formou em meus lábios, uma sensação de liberdade invadindo meu ser. A cada estalo da chama, o passado estava se desvanecendo, e eu finalmente podia respirar.
Fim.
Capítulo 10
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