Capítulo 139: O mercado negro
Em agosto, o calor era insuportável, especialmente sob o sol escaldante. As pessoas suavam em bicas, o suor escorrendo pelo rosto e pescoço.
Agora que a febre havia desaparecido e todos estavam saudáveis novamente, muitos viajantes voltaram a encher a Capital Imperial, trazendo de volta o movimento agitado de antes.
— Ba Se está na capital — informou o mago que vigiava os portões da cidade a Numu, assim que avistou Ba Se entre a multidão.
— Agora os fantasmas vão cuidar da vigilância — disse Numu.
Os fantasmas podiam se tornar invisíveis, o que dificultava que fossem capturados.
— Isso é estranho. Eles deveriam ter chegado à capital pela manhã. Por que só chegaram agora à tarde? — perguntou Wu Ruo.
— Não é estranho, não. Ba Se é um homem lascivo. Provavelmente parou no caminho para se divertir com alguma mulher… ou com algum homem bonito. Por isso deve ter se atrasado. E além disso, por causa da febre, eles precisaram esperar a liberação completa para entrar na capital — zombou Numu.
— … — Wu Ruo ficou em silêncio.
Enquanto conversavam, Wu Xi, que havia acabado de voltar do treino com Wu Chenliu, entrou correndo, pegou uma xícara de chá em cima da mesa e bebeu de uma vez.
— Essa era a minha xícara — disse Wu Ruo, arqueando uma sobrancelha.
— Não me importo nem um pouco com a sua saliva — respondeu Wu Xi, limpando os respingos de chá da boca com uma das mãos.
— … — Wu Ruo.
Desde quando sua irmã mais nova havia parado de se comportar como uma dama?
Provavelmente se tornou uma garota tão espontânea e ousada depois de passar tanto tempo com Numu e seus companheiros. Mas, no fim, ela estava melhor assim — muito melhor do que a menina tímida de sua vida anterior.
Wu Xi pousou a xícara e disse:
— Meu mestre me avisou, antes de eu voltar pra casa, que daqui a um mês haverá a competição anual entre as dez grandes famílias. Disse pra eu me preparar.
Eu não queria participar, mas ele disse que é uma competição obrigatória, da qual todos os membros das dez grandes famílias precisam participar se estiverem na capital — não importa se são da linha direta ou lateral da família, qual o nível do poder espiritual ou se foram expulsos da família ou não.
Ou seja, basicamente, qualquer pessoa ligada às dez grandes famílias da Capital Imperial tem que participar da competição.
Wu Ruo franziu o cenho. Quase havia se esquecido disso. Na vida anterior, ele havia participado da competição uma única vez — mas acabou ganhando grande fama por causa dela.
Wu Xi segurou os braços de Wu Ruo, visivelmente aflita:
— Ruo, você não tem poder espiritual. Isso significa que vai ser derrotado com certeza na competição! Eu ouvi dizer que as dez grandes famílias são muito agressivas e cruéis. Costumam usar todos os meios possíveis para torturar os oponentes na arena.
Ruo, é melhor você sair da capital por um tempo e só voltar quando a competição terminar!
Numu observou Wu Ruo e continuou tomando seu chá, tranquilo.
Ele conhecia bem seu discípulo. Sabia que Wu Ruo era capaz de manipular qualquer cultivador de segundo ou terceiro nível só com suas técnicas de encantamento, mesmo sem nenhum poder espiritual.
— Está me machucando — disse Wu Ruo, soltando-se do aperto de Wu Xi.
— Desculpa — respondeu ela, largando os braços dele.
Wu Ruo serviu uma xícara de chá para a irmã e disse:
— Seu mestre não te falou que ninguém das dez grandes famílias pode deixar a Capital Imperial um mês antes da competição? É pra evitar que fujam. Quem desobedecer será preso e severamente punido.
— Ele falou sim — Wu Xi tomou um gole de chá para se acalmar e continuou:
— Eu só falei isso pra ver se você tinha consciência do perigo.
Numu caiu na risada:
— Xi, não se preocupe com seu irmão. Mesmo sem poder espiritual, ele pode lidar com cultivadores de baixo nível com as habilidades médicas dele. Além disso, a competição não é um duelo até a morte. Dá pra se render na arena.
— É verdade! — Wu Xi sorriu aliviada. — Eu estava tão preocupada que nem lembrei da opção de desistir durante a luta.
Ela deixou a xícara sobre a mesa e disse:
— Então, se me dão licença, vou voltar pro meu quarto.
Saiu saltitando alegremente pelo corredor.
— Ela está bem mais animada agora — comentou Numu, com um sorriso.
Wu Ruo também sorriu.
Levantando a xícara que Wu Xi havia usado, Wu Ruo sorriu de lado por trás da borda do chá.
Dessa vez, ele não daria a Ba Se a menor chance de escapar.
— Não vai contar à sua família que recuperou o poder espiritual? — perguntou Numu.
— … — Wu Ruo ficou pensativo.
Sua mãe havia o advertido uma vez para nunca revelar os segredos de sua mente até se tornar realmente poderoso. Mas ela não dissera nada sobre esconder o próprio poder espiritual.
Agora que a competição das dez grandes famílias estava próxima, não seria essa a melhor oportunidade para contar à família que ele havia recuperado o poder?
Atualmente, seu mestre e seu marido já sabiam. Não fazia sentido esconder isso da própria família.
O problema era que, por toda a capital, havia cultivadores de nível cinco. E ele ainda não era poderoso o suficiente. Era uma pena que o imperador tivesse suspendido o Festival dos Quatro Clãs para cortar as rotas com os outros três clãs por causa da febre. Isso o impedia de absorver o poder espiritual dos fantasmas.
E ainda havia outra preocupação: deveria ou não revelar seu poder espiritual na arena da competição?
Wu Ruo refletiu por um tempo e, por fim, decidiu seguir o fluxo. Se fosse necessário, usaria seu poder espiritual.
— Xuanyi está em casa — disse Numu, pegando um pedaço de dim sum da mesa e levando-o à boca. — Parece estar muito ocupado. Sai bem cedo de manhã e só volta tarde da noite, ultimamente. Tem algo errado?
Wu Ruo se levantou e respondeu ao ver Hei Xuanyi entrando:
— Alguns dos companheiros fantasmas dele morreram. Ele suspeita que um inimigo do próprio clã esteja por trás disso. Por isso está investigando do lado de fora.
Saiu do salão e perguntou a Hei Xuanyi:
— Você descobriu quem matou seus companheiros fantasmas?
Mas foi Hei Xuantang quem respondeu:
— Ainda não. Mas temos quase certeza de que o assassino é do nosso clã. Parece que, dessa vez, muita gente fugiu da nossa linhagem.
— É muito difícil lidar com isso? — perguntou Wu Ruo.
— O maior problema é que somos alvos fáceis e não sabemos quem eles são. Isso não nos favorece.
— Devem estar nos observando de algum lugar próximo — disse Hei Xuanyi.
— Ruo, você devia pedir pro meu irmão te acompanhar sempre que sair de casa — sugeriu Hei Xuantang.
— Eu também sou um alvo? — perguntou Wu Ruo.
— Sim. Eles…
Hei Xuanyi interrompeu Hei Xuantang e disse:
— Antes de voltar pra casa, comprei um ingresso para o mercado negro. Está interessado em dar uma volta por lá?
— Estou! — respondeu Hei Xuantang, animado.
— Eu não estava perguntando pra você — Hei Xuanyi o olhou de lado.
— Você escolhe o seu marido antes de mim…
Wu Ruo olhou de Hei Xuantang para Hei Xuanyi. Estava claro que estavam escondendo algo dele por preocupação. Assentiu e disse:
— Já que faz tempo que não saímos, é uma boa oportunidade para dar uma volta. Vou perguntar aos meus pais se eles também querem ir.
— Me incluam — disse Numu, saindo do salão. — Tem tanta coisa no mercado negro que a gente não vê na capital. É bom levar bastante dinheiro… e algo pra vender também.
Logo depois, voltou ao seu pátio para arrumar as coisas.
Wu Ruo foi ao pátio dos fundos conversar com Wu Qianqing. Mas apenas Wu Xi e Eggie se interessaram em acompanhá-los.
Quando voltaram ao pátio da frente, Hei Xin e Hei Gan já haviam preparado a formação e colocado o ingresso do mercado negro na entrada. Todos entraram na formação. Quando ela foi ativada, desapareceram.
O mercado negro ficava na fronteira, em algum ponto entre os canais dos quatro clãs. Quem quisesse ser transportado até lá precisava comprar um ingresso e ativar a formação correta.
O mercado era dividido em quatro regiões: humana, monstruosa, demoníaca e fantasma. De acordo com as regras, qualquer pessoa transportada a partir do clã humano só podia circular dentro da região humana.
Não era permitido atravessar para outras regiões para comprar ou vender mercadorias.
O acesso às quatro regiões só era liberado quando o proprietário do mercado negro autorizava. Mas isso acontecia raramente — talvez uma vez por ano, ou até a cada dois anos.
Assim que chegaram ao mercado negro, Hei Gan comprou chapéus com véu para todos na entrada. Todos usaram o chapéu, até mesmo Eggie, que pôs um pequeno para cobrir o rosto. Lá dentro, todos na rua também usavam esse tipo de chapéu.
— Por que todo mundo usa esse chapéu com véu? — perguntou Wu Xi, curiosa.
Hei Xuantang explicou:
— É uma regra imposta pelo dono do mercado negro. Assim, se evitam muitos problemas. Por exemplo, se inimigos se encontrarem cara a cara, com o véu cobrindo o rosto, não se reconhecem. Aí não acontece briga.
— Entendi.
— Vou dar uma volta sozinho pra ver se consigo vender alguma coisa — disse Numu.
— Então nos encontramos na entrada por volta das duas horas — disse Hei Xuanyi, assentindo.
— Pai, quero comer aquele bolinho! — disse Eggie, empolgado, apontando para uma barraca de comida.
Hei Xuantang apertou o narizinho dele e zombou:
— Onde quer que vá, só pensa em comida.
Wu Xi ficou curiosa com o visual bonito do doce e disse:
— Eu também quero um.
— Então vamos comprar alguns — disse Wu Ruo.
Hei Xin pagou por dois bolinhos grandes.
O vendedor ambulante recebeu o dinheiro e fritou dois bolinhos na hora.
Wu Ruo e Hei Xuanyi se afastaram um pouco para esperar, observando o que havia por perto e procurando algo interessante para comprar. De repente, Wu Ruo foi esbarrado com força. Se não fosse por Hei Xuanyi segurá-lo, teria caído no chão.
Um homem havia trombado com Wu Ruo. Pediu desculpas:
— Me desculpe. Não vi você. Está tudo bem?
Wu Ruo não respondeu. A voz do homem lhe soava familiar. Fez apenas um gesto com a mão, indicando que estava tudo certo.
O homem parecia apressado. Olhou para Wu Ruo e depois para algum ponto à frente. Disse:
— Desculpa, estou com pressa.
Em seguida, virou-se rapidamente e foi embora. Naquele momento, Wu Ruo viu seu rosto através do véu preto do chapéu com cortina.
Wu Xia?
Wu Ruo ficou um pouco surpreso.
Desde o incidente com Ba Se, não via Wu Xia novamente.
Mas… por que ele estava ali? E a quem servia agora?
— Ruo, acho que conheço a voz daquele homem — disse Wu Xi, enquanto comia o bolinho ainda quente.
— Sim. É uma voz familiar — respondeu Wu Ruo. Mas não quis trazer de volta o passado horrível, então não contou a ela que aquele homem era Wu Xia.
— Ruo, esse bolinho está delicioso. Quer um pedaço?
— Não é fácil comer com esse chapéu com véu. Pode aproveitar — recusou Wu Ruo.
De repente, um barulho alto soou ali perto. Soava como uma briga intensa. As pessoas ao redor se afastaram, mantendo distância.
Wu Ruo olhou e viu que o som vinha da mesma direção para onde Wu Xia havia ido. Imediatamente, puxou Hei Xuanyi e foi na direção do tumulto para ver mais de perto.
Capítulo 139: O mercado negro
Fonts
Text size
Background
Comeback of the Abandoned Wife
Depois que Wu Ruo morreu, ele renasceu naqueles dias sombrios em que era o mais inútil e o mais gordo — justamente a versão de si mesmo que mais odiava.
Perdeu sua senha?
Por favor, digite seu nome de usuário ou endereço de e-mail. Você receberá um link para criar uma nova senha via e-mail.
Atenção! Indicado para Maiores
Comeback of the Abandoned Wife
contém temas ou cenas que podem não ser adequadas para muito jovens leitores, portanto, é bloqueado para a sua protecção.
Você é maior de 18?