Capítulo 289: Um sonho previsto
No corredor, o Velho Hei conversava com Wu Ruo sobre o que havia acontecido recentemente na loja.
— Senhor, alguém veio perguntar sobre as runas da Vovó Fantasma.
— Perguntaram sobre as runas ou sobre quem as desenhou? — indagou Wu Ruo.
— Só queriam saber quem era o responsável por desenhá-las. Inclusive me pagaram muito dinheiro por essa informação. Pareciam estar desesperados para descobrir a resposta.
Wu Ruo supôs que poderia ser o dono do mercado negro.
Nesse instante, Jixi entrou no corredor com o olhar vago.
— Você não deveria estar dormindo agora? — Wu Ruo franziu a testa, confuso.
Jixi não respondeu, apenas se sentou ao lado de Wu Ruo e se serviu de uma xícara de chá.
Wu Ruo continuou conversando com o Velho Hei.
Jixi pousou a xícara e olhou para o Velho Hei, depois para Wu Ruo. De repente, tocou o rosto de Wu Ruo.
Wu Ruo segurou sua mão e se tocou.
— Tem alguma coisa no meu rosto?
O Velho Hei examinou atentamente o rosto de Wu Ruo por um momento e balançou a cabeça.
— Nada.
Jixi piscou e seus olhos turvos pareceram recuperar a clareza.
— Você tinha uma sujeira no olho.
— … — Wu Ruo soltou a mão dele e esfregou os olhos.
Jixi olhou ao redor por um tempo, com expressão confusa. Por fim, levantou-se e saiu.
Wu Ruo trocou um olhar com o Velho Hei. Nenhum dos dois entendia o que estava acontecendo.
— Vamos continuar — disse Wu Ruo.
Pouco depois, Jixi entrou novamente com a mesma expressão vazia, sentou-se no mesmo lugar e se serviu de outra xícara de chá.
Wu Ruo o observou por um momento, então voltou a conversar com o Velho Hei:
— Você deveria aproveitar a oportunidade para coletar livros de técnicas de cultivo antes que a competição termine.
— Entendido. Ainda é a primeira hora da manhã. Vou coletar o máximo de livros que puder — prometeu o Velho Hei.
Wu Ruo sorriu.
Jixi pousou a xícara novamente e voltou a tocar o rosto de Wu Ruo.
Wu Ruo agarrou seu pulso mais uma vez e perguntou:
— O que exatamente você está fazendo?
— Ei… — Jixi respondeu, com o rosto vazio — vou ao banheiro.
— … — Velho Hei.
— Pode ir. Não quer que eu te leve até lá, quer? — Wu Ruo suspirou, sem saber o que dizer.
— Ele sabe onde fica o banheiro? Posso levá-lo — sugeriu o Velho Hei.
— Não precisa — disse Jixi, esfregando o rosto antes de sair. No caminho, esbarrou em Yeji, que tinha vindo procurá-lo.
Yeji o observou e, não vendo nada de errado, o arrastou de volta para o quarto.
Jixi tirou o cinto, hesitou por um momento e então o recolocou.
Yeji, que já estava deitado, achou aquilo estranho.
— Por que ainda não foi dormir?
— Preciso ir ao banheiro — respondeu Jixi, olhando em volta com confusão.
— … — Yeji sentou-se na cama. — Mas você acabou de ir.
— Eu… fui falar com Ruo. Dorme sem mim. Já volto.
Ele impediu Yeji, que estava prestes a se levantar.
— Não precisa vir. Eu volto logo.
Jixi saiu voando e, no meio do caminho, retornou para o corredor.
Wu Ruo o observou e entregou uma garrafa de elixires ao Velho Hei:
— E você? Como tem estado? Vai ascender em breve?
— Provavelmente em dois ou três meses, se eu continuar me esforçando. Nunca imaginei um progresso tão grande no passado. Graças a você, tenho melhorado muito — respondeu o Velho Hei, sorridente.
— Concentre-se na prática. Quando atingir o nível cinco ou seis, poderá viver até duzentos anos.
— Vou me dedicar com afinco.
Jixi se sentou e se serviu de mais uma xícara de chá.
Wu Ruo apontou para as duas xícaras à frente dele:
— Você já usou essas duas xícaras há pouco. O chá ainda está quente.
— Oh — murmurou Jixi, largando a xícara. Logo tentou tocar o rosto de Wu Ruo novamente.
Wu Ruo, já antecipando o gesto, segurou seu pulso.
— Jixi?
O Velho Hei franziu o cenho. Estava claro que havia algo errado com Jixi naquele dia.
— Por que está segurando minha mão? — Jixi puxou o braço de volta e olhou para o Velho Hei e ao redor do corredor.
— … — Wu Ruo permaneceu em silêncio.
— Senhor, tenho muitas coisas para fazer na loja. Posso deixá-lo sozinho para que descanse — disse o Velho Hei, levantando-se.
Wu Ruo também se levantou e bocejou.
— Vou tirar um cochilo.
Ele e o Velho Hei saíram do corredor. Assim que Wu Ruo fechou a porta, viu Jixi voando de volta para o pátio dos fundos.
Wu Ruo então entrou no quarto. Ao ver seu homem dormindo, sorriu e esqueceu Jixi por um momento. Tirou a roupa, beijou o parceiro e se deitou ao seu lado.
Hei Xuanyi entreabriu os olhos, reconheceu seu companheiro de vida e o puxou para seus braços.
Naquela noite, aconteceria a competição entre os dez primeiros colocados das categorias infantis, nível um e nível dois. Como os cultivadores de nível baixo mal utilizavam o poder espiritual em combate, a maioria recorria a técnicas de luta corporal. Por isso, o público geralmente não se interessava por essas disputas. No entanto, alguns apostavam nesses combates. Aqueles que queriam ganhar dinheiro apostavam em seus favoritos e iam assistir à competição.
Wu Ruo não tinha interesse em apostar, mas mesmo assim foi até a Cidade Fronteiriça à noite. E Jixi o seguiu.
Jixi estava agindo de um jeito realmente estranho. Ninguém veio porque as lutas de nível baixo eram entediantes. Mas Jixi veio. Ele nunca teria feito algo tão entediante no passado. Yeji gostaria de ter vindo, mas precisava vigiar as crianças durante o treinamento.
Wu Ruo olhou para Jixi, que o seguia aonde quer que fosse.
— Há algo que você gostaria de comprar?
Jixi finalmente demonstrou alguma emoção em seu rosto vazio. Balançou a cabeça para Wu Ruo.
Sem dar mais atenção a ele, Wu Ruo caminhou até a plataforma. Não viera ali para assistir à competição, e sim para encontrar o dono do mercado negro.
O Gerente Lu não demonstrou surpresa alguma ao ver Wu Ruo enquanto conversava com o árbitro. Parecia já esperar que Wu Ruo aparecesse. Quando ele se aproximou, disse:
— Venha comigo.
Wu Ruo e Jixi trocaram um olhar e seguiram até uma tenda ao lado da plataforma.
O Gerente Lu serviu uma xícara de chá para cada um deles.
— Por favor.
Wu Ruo tomou um gole de chá e perguntou:
— Estou aqui para falar com o dono do mercado negro. Ele está por aqui?
Embora sua mãe tivesse pedido para ele conversar com o dono do mercado negro numa próxima oportunidade, Wu Ruo não sabia quando isso aconteceria. Por isso viera buscar respostas agora. Se o dono do mercado negro também tivesse perguntas para ele, adoraria vê-lo.
— Se ele souber que é assim que o chama, vai se irritar com você. Mas, infelizmente, ele não está por perto — disse o Gerente Lu.
— Quando ele volta?
O Gerente Lu franziu a testa e respondeu:
— Pode ser que não volte mais.
— Como assim? — Wu Ruo se levantou de súbito e perguntou.
— Descobriram que ele usou uma habilidade secreta que nosso clã não pode empregar em público. Então o levaram de volta ao clã para ser punido, ainda esta manhã.
— Habilidade secreta? Que tipo de habilidade secreta? — Wu Ruo pensou na habilidade do mundo pré-imortal.
O Gerente Lu não respondeu à pergunta, mas prosseguiu:
— Ele já havia previsto que seria levado de volta ao clã se usasse essa habilidade secreta. Também sabia que você viria em busca de respostas. Por isso, pediu que eu esperasse por você aqui. Mas, antes de tudo, tenho algumas perguntas para te fazer.
— Por favor — Wu Ruo se sentou e disse.
— Você é o dono da Mercearia nº 1?
— Sim — respondeu Wu Ruo sem hesitar.
O Gerente Lu tirou uma runa e disse:
— Vi alguém usando esse tipo de runa há alguns dias e a comprei por um preço alto. O homem me disse que a comprou na Mercearia nº 1. E eu confirmei isso na própria loja. Minha pergunta é: quem desenhou essa runa?
— Antes de responder, preciso saber se o dono do mercado negro conhece a existência da runa — respondeu Wu Ruo.
— Ainda não contei a ele. Não queria que ele se alegrasse por algo tão significativo. Se ele soubesse, não voltaria ao clã, não importa o quanto os outros tentassem impedi-lo — respondeu o Gerente Lu.
Wu Ruo pegou a runa e disse:
— Foi desenhada por uma mulher que me salvou. Ela me pediu para vendê-la.
— Quem é ela? Qual o sobrenome? E como ela é? — perguntou o Gerente Lu, ansioso.
— O sobrenome dela é You. O nome completo é You Yingran. O rosto dela está desfigurado. Mas a família dela disse certa vez que ela se parecia comigo.
— É ela. É ela mesmo! Maravilhoso! Ela não está morta! — O Gerente Lu olhou para Wu Ruo e perguntou: — Você já sabe, não é?
— Suponho que ela possa ser minha avó — disse Wu Ruo.
O Gerente Lu olhou para Wu Ruo com seriedade e disse:
— Já que sabe quem ela é, por que não conta ao meu Mestre? Você sabe que ele a procura por toda parte há mais de quarenta anos?
— Mas ele se recusa até mesmo a admitir que minha mãe é filha dele. Como eu poderia contar a ele sobre outra pessoa? — Wu Ruo explicou.
— Por quê? Por que ele se recusa a aceitar minha senhora como filha? — O Gerente Lu não conseguia entender. — Você disse que o rosto dela está desfigurado?
— Sim. A família dela me contou que ela queimou o rosto ao se expor ao sol enquanto procurava pela filha. E até hoje ela se recusa a consultar um médico.
— Posso vê-la?
Wu Ruo balançou a cabeça e disse:
— Receio que vá assustá-la. E se isso acontecer, será muito difícil encontrá-la novamente.
— Mas meu Mestre está desesperado para vê-la.
— Ela também quer ver o dono do mercado negro, porque já o viu de longe várias vezes enquanto ele ia até a plataforma para as competições. Mas deve ter um motivo para não contar nada nem à própria filha, nem ao homem que ama.
— Quer dizer que ela vai evitá-los pelo resto da vida? — O Gerente Lu estava furioso.
— É claro que não. Mas, antes de qualquer coisa, precisamos convencê-la a tratar o rosto. Caso contrário, ela se sentirá inferior ao reencontrar o dono do mercado negro.
O Gerente Lu concordou com Wu Ruo. Além disso, agora que sabiam onde ela estava, não havia pressa em vê-la.
— Já respondi às suas perguntas. Agora é minha vez de fazer algumas — disse Wu Ruo.
O Gerente Lu lançou um olhar para Jixi.
— Ele não dirá nada.
O Gerente Lu se acalmou e declarou com seriedade:
— Vou te contar tudo o que sei.
Wu Ruo perguntou de imediato, com receio de que ele se arrependesse:
— Você sabe quem é o Filho Celestial? Por que ele quer me matar? Ele é o Filho Celestial dos Ocultos?
— Sim. Ele é o Filho Celestial escolhido pelos Ocultos depois que minha dama deixou o clã. Seu nome é Qian Chen e ele deixou o clã para se cultivar no mundo exterior quando tinha cerca de vinte anos — respondeu o Gerente Lu.
— Minha mãe me disse que, se ele é o Filho Celestial dos Ocultos, então seu objetivo de me matar é por um motivo ridículo. Mas como ela não pode falar sobre o clã, pediu que eu perguntasse ao dono do mercado negro. Então me pergunto se o dono do mercado negro sabe por que o Filho Celestial deseja tanto me matar — disse Wu Ruo.
— Meu Mestre não sabe exatamente por quê, mas pode imaginar. O Filho Celestial deve estar preocupado com o seu próprio sonho previsto.
— Seu sonho previsto? — Wu Ruo franziu o cenho, confuso. — Isso significa o quê? Um sonho de força?
— Não. Um sonho que você pode prever — explicou o Gerente Lu.
— Quer dizer que ele pode sonhar com algo que vai acontecer no futuro?
— Sim — respondeu o Gerente Lu. — O Filho Celestial e a Mulher Celestial podem sonhar com seu futuro. Minha dama também.
— Quando diz “dama”, está se referindo à minha mãe?
— Sim. Ela sonhava, desde os doze anos, que se apaixonaria por um jovem. E naquele sonho, seus sentimentos eram muito reais. Então, desde pequena, passou a ter afeto por aquele jovem. O sonho só parou quando ela conheceu esse rapaz ao sair para treinar no mundo exterior.
— Então o homem do sonho era meu pai?
— Sim.
— Isso é algo que eu nunca tinha ouvido antes — Wu Ruo estava espantado.
O Gerente Lu o encarou e continuou:
— Se seu pai não fosse o homem com quem minha dama sonhava, meu Mestre jamais teria aceitado o casamento. Porque o poder de seu pai é fraco demais comparado aos Ocultos. Ele não tem força para proteger minha dama.
Wu Ruo não gostou da ideia de verem seu pai com desprezo, mas conseguia entender os sentimentos do dono do mercado negro. Ele também era pai — qualquer pai desejaria que seus filhos tivessem uma vida feliz e sob grande proteção.
— Minha dama disse uma vez que havia dois finais em seu sonho: um em que toda sua família morria miseravelmente, e outro em que todos viviam felizes para sempre.
Wu Ruo ficou tão chocado que teve dificuldade para processar tudo.
Isso significava que sua mãe já sabia que a família inteira seria assassinada por alguém?
— Uma vez, ela ficou tão abalada com o sonho ruim que quase perdeu a sanidade ao se concentrar na prática.
— Como isso aconteceu?
— Ela pensou em tentar matar os assassinos antes que o sonho ruim se tornasse realidade.
— … — Wu Ruo hesitou, então perguntou: — Ela sonhou com quem matou toda a família?
— Ela só conseguia sonhar com o rosto vazio do assassino, mas não sabia exatamente sua aparência. Mais tarde, meu Mestre a impediu. Desde então, ela nunca mais teve aquele sonho ruim, ou raramente o bom. Ela apenas sonhava com seu futuro marido e com o quanto se amavam profundamente.
— Como o dono do mercado negro conseguiu impedir o sonho? — perguntou Wu Ruo.
Sonhar não era algo que se pudesse controlar… O dono do mercado negro teria esse poder sobre os sonhos dos outros?
— Ele disse à minha dama que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para transformar o sonho ruim num final feliz. Desde então, tem buscado todas as formas possíveis de mudar o destino.
Wu Ruo ficou tão surpreso que não conseguiu emitir som algum. Aquilo lhe lembrou de sua vida passada, quando o dono do mercado negro o enviou para esta vida. Seu coração se encheu de calor e respeito por seu avô.
O Gerente Lu tomou um gole de chá e continuou:
— A razão pela qual o Filho Celestial está tão decidido a te matar provavelmente tem a ver com o seu sonho previsto. E ele foi levado ao limite por esse sonho, pois já tem uma ideia clara de quem precisa matar dentro dele.
Capítulo 289: Um sonho previsto
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Comeback of the Abandoned Wife
Depois que Wu Ruo morreu, ele renasceu naqueles dias sombrios em que era o mais inútil e o mais gordo — justamente a versão de si mesmo que mais odiava.
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