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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 42

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O saguão da empresa ainda respirava o escândalo de meses atrás. Em uma mesa de canto, uma revista esquecida trazia a foto de Oscar na capa com a manchete: “O homem que desafiou a biologia”.

Dominic fizera questão de escancarar a verdade após o caos, e o mundo respondeu com uma tempestade. Grupos de apoio erguiam cartazes com o nome de Oscar, transformando sua dor em um manifesto por respeito e direitos, enquanto dentro daquelas paredes de vidro, o silêncio dos funcionários era carregado de julgamento.

Quando passei pela recepção, o burburinho morreu. Seus olhos se fixaram em mim, aqueles olhares surpreendidos me irritaram. Eles claramente sabiam quem eu era.

— Tão olhando o quê, cambada de inúteis? — Brandei gesticulando com as mãos.

Cabeças se baixaram e ombros se encolheram, o medo de levar uma surra pairou no ar. Eu nunca gostei deles, e o modo como desviaram o olhar só alimentou meu desprezo.

Ao virar o rosto, o som de vidro se estilhaçando veio da sala da presidência.

— Eu avisei sobre essa manutenção! — O rosnado de Dominic atravessou a porta. Ele surgiu no corredor, o rosto retorcido em uma máscara de fúria, acuando um técnico que abraçava uma maleta de ferramentas. — Terminem logo com isso!

— Desculpe, senhor… o sensor está… — O homem gaguejou, recuando apressado para o fosso aberto.

Dominic ia gritar novamente, mas seus olhos travaram nos meus. A fúria evaporou, dando lugar a uma rigidez de estátua. Ele parecia ter envelhecido dez anos em dois, o terno impecável agora parecia grande demais para seus ombros caídos.

— O que faz aqui, Zhang? — Sua voz saiu seca, desprovida da antiga autoridade.

Ele me convidou para conversarmos em sua sala e entramos em seguida. O ambiente cheirava a café frio e negligência.

Ele claramente afundou-se no trabalho, sua mesa coberta de papéis e relatórios, como se cada tarefa fosse um tijolo a mais na construção de uma muralha que o isolava do mundo gritava isso.

Assim que ficamos a sós, sem dizer uma palavra, de forma ríspida estendi o pendrive.

— É do Oscar. Para você — disse, minha voz afiada pela animosidade. — Ele gravou durante a gestação. O médico avisou que talvez o corpo dele não suportaria, que era um risco. Mas ele escolheu o bebê, escolheu seguir em frente.

Dominic desabou na cadeira.

— Por que não me entregou antes?

— Porque não decidia se você merecia ou não. Era a única coisa que restou dele.

Dom encarou o pequeno objeto. Seus dedos tremiam tanto que ele precisou de duas tentativas para encaixar o pendrive no notebook. Quando a imagem de Oscar surgiu, o ar pareceu abandonar os pulmões dele.

“Dom…” A voz de Oscar era um sussurro vindo do além. “Você deve estar com aquela expressão frustrada agora, se perguntando por que eu ainda te assombro.” Oscar fez uma pausa, um meio sorriso triste iluminando o vídeo. “Estivemos juntos por quase duas décadas… e embora as coisas tenham terminado assim, eu só te peço uma coisa: cuide do nosso filho. Se não puder amá-lo, deixe que a Zhang o crie. Só não permita que o tratem como uma anomalia. Se houver alguém que possa protegê-lo, ficarei satisfeito. Ele é a única parte boa que sobrou de nós.”

A tela escureceu. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som de uma gota atingindo a mesa de mogno. Dominic não soluçava, ele apenas desmoronava em silêncio, as lágrimas lavando o rosto pálido. O homem arrogante que desprezara meu amigo não passava agora de um sobrevivente.

— Vou embora — anunciei, o peito apertado. — Não há mais nada para fazer aqui.

— Onde… onde eles estão enterrados? — Ele perguntou, a voz quebradiça, sem desviar os olhos da tela preta.

— Não direi e jamais falaria para você. — Minha resposta foi curta. Eu precisava sair dali, as lembranças naquele escritório me sufocavam. — Nós despedimos aqui.

Sai da sala. Dominic levantou-se num ímpeto, a mão estendida como se quisesse me segurar, mas eu já estava no corredor. O elevador de serviço estava com as portas entreabertas, as luzes da manutenção piscando. A pressa de fugir daquele lugar nublou meu julgamento. O elevador parecia estar pronto e não tinha ninguém da equipe de manutenção por perto.

Apertei o botão e as portas se abriram.

— Zhang, espere! — Dominic correu em minha direção. — Não entre aí! — Ele gritou.

Eu já tinha um pé dentro da cabine quando senti um puxão violento em meu braço. Dominic me jogou para trás com uma força desesperada.

Mas o impulso do resgate o traiu. No movimento de me empurrar para a segurança do carpete, o corpo de Dominic continuou avançando. Ele tentou cravar os calcanhares no chão, mas o piso metálico da entrada estava solto. Seus olhos se arregalaram, encontrando os meus por um milésimo de segundo — um olhar de puro terror e reconhecimento.

O vazio o engoliu.

Não houve um grito longo, apenas o som do vento cortado e, segundos depois, um impacto surdo e final vindo das profundezas do poço. Seis andares de gravidade silenciaram Dominic para sempre.

O técnico de manutenção correu, soltando um grito de horror que atraiu os funcionários como moscas. Eu me aproximei da borda, as pernas bambas. Lá embaixo, no fundo do túnel quadrado, o homem que um dia comandou impérios era apenas um vulto imóvel e quebrado.

O castigo de Dominic não foi a solidão; foi morrer tentando salvar a única testemunha do seu arrependimento.

 

Capítulo 42
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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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