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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 38

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Faziam dias que as paredes do meu quarto eram meu único horizonte. Não tinha mais uma figura materna, não tinha outros parentes. Eu me sentia como um pássaro que perdeu o ninho, batendo as asas em um céu que não levava a lugar algum.

Constantemente me perdia nos pensamentos, nas lembranças com minha mãe. As reminiscências dela eram folhas secas; às vezes faziam barulho, outras vezes apenas apodreciam no silêncio.

Eu flutuava entre o sono e o delírio, até que um peso quente e real pressionou meu peito. O cheiro de álcool misturado a um perfume caro e agressivo invadiu meus sentidos antes mesmo que eu abrisse os olhos.

Dominic estava ali, curvado, os lábios pressionando o tecido da minha camisa. O pânico subiu pela minha garganta como bile.

— O que está fazendo? — Minha voz saiu trêmula.

Ele ignorou. Começou a desabotoar a camisa social com movimentos erráticos. O estalo dos botões parecia o som de algo quebrando dentro de mim. Quando ele avançou, meu corpo agiu sozinho. Eu o empurrei com uma força que não sabia que tinha.

— Você nunca me rejeitou antes! — ele vociferou, o rosto transfigurado pelo desgosto. — Por que está se afastando? Existe outro, não é?

A acusação me atingiu como um tapa. Para ele, minha resistência só poderia significar “outro dono”, nunca a minha própria vontade. Me senti sujo, como se houvesse um preço estampado na minha testa. Para Dominic, meu corpo nunca foi um templo, apenas uma mercadoria com contrato de exclusividade.

— Fique longe! — gritei, mas ele não parou.

Ele me segurou com força e me obrigou a encará-lo. Mergulhei naqueles olhos claros, mas eles não eram mais capazes de ler a minha alma.

Aquilo foi a gota d’água. Em um movimento desesperado, soltei-me e escancarei a janela. O vento do décimo terceiro andar rugiu para dentro, gelado e convidativo. Subi no parapeito, sentindo o vazio às minhas costas.

— Se der mais um passo, eu pulo! — Minhas unhas cravaram na pedra fria.

Dominic estancou. O predador deu lugar ao homem acuado.

— Oscar, desça daí. Não faça nenhuma loucura…

— A loucura foi suportar você por tantos anos! — retruquei, o cabelo chicoteando meu rosto. Eu olhei para baixo, para as luzes distantes da cidade, e por um segundo, a queda parecia o único caminho para a paz. Eu queria minha mãe. Queria o silêncio que ela encontrou.

Meus olhos ainda estavam sem foco, como a contemplar o nada, algo além daquelas luzes, lá embaixo. O meu corpo começou a tremer levemente, mãos e pés ficando gelados.

O vento puxava as minhas roupas, em um convite insistente e apressado. As estrelas iam escondendo-se atrás das nuvens, para não serem testemunhas.

— Não faça isso! — O grito de Luciana rasgou o ambiente. Ela estava à porta, as mãos cobrindo a boca, os olhos transbordando terror. — Oscar, eu imploro, olhe para mim!

Olhei para ela e, a bondade em seu olhar me tocou. A essa altura, sabia que não podia agir precipitadamente. Tinha algo importante comigo, protegido dentro de mim. Não era mais apenas eu.

— Vá embora, Dominic — ordenei, a voz agora fria como o vento lá fora. — Não me procure até a criança nascer. Não há mais nada entre nós.

Luciana avançou, ela parou entre nós dois, numa postura protetora com o próprio corpo, implorando com os olhos para que ele saísse. Ele lançou um último olhar nebuloso para o parapeito e, finalmente, recuou para o corredor.

Assim que a porta bateu, a adrenalina desabou. Saltei do parapeito para dentro do quarto, meus joelhos estralando contra o chão firme. O impacto doeu, mas foi a dor da vida, não da morte.

Arrastei-me até a cama e Luciana me envolveu.

— Ele não sabe, Oscar? Você não contou para ele?

— Não. Ele não precisa saber mais nada sobre minha vida.

Enterrei o rosto em seu ombro, deixando que o calor dela finalmente dissipasse o frio do meu corpo.

 

 

 

Capítulo 38
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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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