Capítulo 39
O relógio marcava meio-dia. O tique-taque preenchia o vazio da sala enquanto Luciana não voltava do comércio da esquina. Sentei-me no sofá, o estômago roncando, mas a ideia de almoçar sem ela parecia errada.
Foi na quietude daquela espera que me dei conta: dois meses haviam se passado desde o último adeus à minha mãe e as palavras amargas trocadas com Dominic. Toquei meu peito, a dor de antes tinha dado lugar a uma dormência oca, como uma cicatriz que já não repuxa mais. O tempo, esse artesão invisível, tinha feito seu trabalho silencioso de aliviar minha dor sem que eu percebesse.
Um ruído na fechadura interrompeu meus pensamentos. A porta se abriu e Zhang surgiu com o rosto radiante, seguida por Luciana, que trazia um sorriso largo e um bolo simples, adornado por chamas trêmulas em velas coloridas.
Enquanto Luciana sustentava o bolo, Zhang saiu novamente e voltou, espalhando balões coloridos pelo ar. As duas começaram a cantar. O som das palmas e a melodia alegre fizeram o sangue subir às minhas bochechas. Mesmo em silêncio, acompanhei o ritmo com as mãos, envolvido pelo calor daquele gesto.
— Parabéns pra você… — as vozes delas se uniram em um uníssono carinhoso.
Fechei os olhos por um segundo, fiz um pedido mudo e soprei com força, vendo as chamas se apagarem em uma pequena nuvem de fumaça branca. Zhang me apertou em um abraço entusiasmado, e o toque de Luciana logo em seguida trouxe um conforto inesperado.
— Parabéns pelos trinta e um anos! — exclamaram juntas.
Fiquei feliz e muito satisfeito com a pequena celebração. Agradeci por lembrarem da data e pela bonita surpresa.
A mesa já estava posta, exalando o aroma do tempero caseiro. Sugeri guardarmos o bolo para a sobremesa. Zhang fez um bico, jurando que o sabor era “majestoso”, mas cedeu, sentando-se à mesa.
A conversa fluía leve, mas meu foco começou a se desviar depois de uma fisgada aguda abaixo do ventre. Observei as duas: Luciana mantinha os olhos fixos no prato, mastigando com uma disciplina quase mecânica, enquanto Zhang gesticulava, preenchendo o ambiente com sua energia. A simplicidade daquela cena era perfeita, até que a pontada no meu abdômen se transformou em um aperto esmagador.
Tentei me levantar para ir ao banheiro, mas minhas pernas fraquejaram. A dor não passou; ela se intensificou, pulsando como uma batida descompassada.
Luciana parou de mastigar. O garfo caiu de sua mão com um tilintar metálico. O sangue fugiu de seu rosto, deixando-a pálida como o açúcar do bolo. Olhei para baixo e vi: um líquido espesso e escuro escorria, espalhando-se pelas minhas calças em uma linha de urgência e medo. O silêncio na sala tornou-se pesado.
— Luciana… não me sinto bem. Vamos ao hospital, por favor — minha voz falhou, reduzida a um fio de ar.
— O bebê? Agora? — Luciana se levantou de um salto, os olhos arregalados de puro choque. — Zhang, rápido! Pegue as bolsas no quarto dele! Vamos para o hospital!
Zhang correu para o corredor, o celular na orelha ligando para o táxi, desaparecendo enquanto eu me segurava na borda da mesa, os nós dos dedos brancos. Segundos depois, ela voltou com as duas bolsas penduradas nos ombros. No mesmo instante, a campainha tocou.
Um som estridente. Persistente. Trim. Trim. Trim. O barulho martelava meus ouvidos enquanto eu tentava respirar em meio às contrações.
— Abre logo, Zhang! Deve ser o táxi! — gritou Luciana.
Zhang largou as bolsas no sofá e correu para a porta. Ao girar a chave, o ar da sala pareceu congelar instantaneamente. Não era o táxi.
Helena entrou, e sua presença foi como uma lufada de ar polar. Eu não a via há meses, mas a imagem diante de mim era o retrato do caos: cabelos desgrenhados, roupas encardidas e pés feridos, como se tivesse atravessado um matagal descalça. Seus olhos, no entanto, brilhavam com uma lucidez cruel. Um brilho malévolo de quem encontrou o que buscava.
Ela caminhou para dentro, empurrando Zhang para o lado com um sorriso que não refletia nos olhos.
— Você não parece muito bem, Oscar — a voz dela era um sussurro destilado em veneno.
— O que você quer aqui? — Luciana deu um passo à frente, a voz trêmula de impaciência e medo. — Estamos com pressa!
— Cale-se, sua velha — Helena sibilou. O movimento foi rápido: de trás das costas, ela sacou uma pistola preta. O metal frio brilhou sob a luz da sala, silenciando qualquer protesto. — Te suportei por anos, Oscar. Decidi me conformar e ficar apenas ao lado de Dominic, mas aí você e sua amiga agridem minha irmã! Agora, devo fazer você pagar.
Ela balançou a arma, mapeando o espaço entre nós. Com a mão livre, agarrou Zhang pelos cabelos, puxando-a com violência.
— Pare com isso! — tentei gritar, mas meu corpo se curvou em uma nova contração. — Resolva isso comigo, deixe elas fora disso!
— Quem eu quero torturar é você — ela se aproximou, a arma oscilando perigosamente. — Vem aqui, seu estúpido. Não fugi daquela ala psiquiátrica para perder tempo com essa aqui.
Tentei dar um passo, mas minhas pernas eram como espaguete. A dor no abdômen era uma lâmina quente me rasgando ao meio.
— Vim pela minha irmã, Oscar — o tom dela subiu, um trovão de fúria. — Ela se matou e a culpa é sua! Vou destruir cada pedaço do que você ama! — Ela fixou o olhar no meu ventre, e um sorriso doentio surgiu. — Não imagino como diabos você engravidou, mas farei questão de matar esse inseto antes que ele nasça.
Capítulo 39
Fonts
Text size
Background
A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...