Capítulo 41
O relógio digital na parede da sala de reuniões parecia ter estagnado, mas o calor que subia pelo meu colarinho dizia o contrário. Na tela gigante, três rostos de empresários impassíveis despejavam números e projeções que se misturavam em um zumbido monocórdio. Esfreguei os olhos, sentindo a areia latejante sob as pálpebras, as bordas dos gráficos já começavam a dançar em um borrão cinzento.
A porta rangeu. Uma mulher de cabelos claros entrou, os nós dos dedos brancos apertando uma prancheta contra o peito. A cor havia fugido de seu rosto, deixando-o do tom do papel que carregava. Apertei o vinco entre minhas sobrancelhas.
— O que foi agora? — Minha voz saiu áspera, como papel de lixa.
— Senhor, desculpe interromper. Mas tenho algo urgente…
— A tela à minha frente ainda está ligada — apontei com o queixo, sem desviar o olhar dos investidores. — Seja o que for, espere no corredor.
A substituta de Helena deu um passo atrás, os lábios entreabertos sem emitir som, pareciam que as palavras estavam grudadas em sua garganta.
— Disseram… é uma emergência… é seu…
— Silêncio — cortei-a, o tamborilar dos meus dedos na mesa acelerando. Aquela substituta era só hesitação e gaguejos. — Fale depois.
Ela se encolheu, a sombra desaparecendo pela fresta da porta. Ela saiu balbuciando algo sobre uma emergência. A impaciência crescia em mim, como uma onda prestes a quebrar. Onde estava Helena? Fazia dois meses que não a via. A substituta não era mais do que uma sombra de sua competência.
Meia hora depois, o silêncio na sala surgiu. Um a um, os rostos digitais se apagaram em flashes de luz negra. Recostei-me na cadeira, sentindo o couro frio contra as costas, e pressionei as têmporas. O vazio da sala parecia maior agora. Faltava aquele olhar que costumava me ancorar: os olhos de Oscar, sempre fixos, sempre atentos, carregando uma calma que eu nunca precisei pedir para traduzir.
A ausência dele era um eco doloroso, agora era um vago lembrete do que perdi. Ele sempre esteve ali, mesmo quando eu não pedia.
Peguei o celular. Duas chamadas perdidas de um número desconhecido. Antes que eu pudesse retornar, a tela brilhou com o nome de Estêvão, o único que restou da minha família depois do terrível acidente.
— Vamos jantar hoje? — a voz dele veio sem preâmbulos. — Estou de volta ao país.
— Não. Tenho pilhas de relatórios.
Houve uma pausa do outro lado da linha, seguido de um suspiro pesado.
— Você… não vai ligar para ele? É o aniversário dele.
Minha mão travou sobre a mesa. O ar pareceu ficar mais ralo.
— Hum — foi tudo o que consegui emitir, um som gutural que encerrava o assunto.
— Tudo bem. Não vou insistir. Só queria que você soubesse.
— Obrigado — murmurei, a garganta apertada e desliguei.
A recepção estava vazia, nos corredores da empresa não tinha mais ninguém. No estacionamento, o concreto ecoava meus passos. Perto do meu carro, uma silhueta alta aguardava.
O meu coração deu um solavanco contra as costelas. Aquela postura, o cabelo, o corte do casaco…Ergui as sobrancelhas, a esperança se misturando à ilusão.
— Oscar? O que faz aqui? — perguntei.
A figura se virou. Sob a luz fria do estacionamento, o encanto se quebrou. A pele era clara demais, o olhar fugidio demais, cravado na ponta dos próprios sapatos. O nó no meu peito se transformou em uma pedra de gelo.
— Desculpe — soltei, a voz carregada de um cansaço súbito. — Confundi você.
— Espere! — Ele deu um passo à frente, as mãos gesticulando freneticamente. — É sobre… sobre o Oscar.
Parei com a mão na maçaneta do carro. Ele mordeu o lábio inferior até quase sangrar e a tensão no ar aumentou.
— Não sei se você ainda lembra de mim… em um quarto de motel, num vídeo que você recebeu um tempo atrás.
A confusão tomou conta de mim. O que ele estava dizendo? A memória não se encaixava. Eu nunca tinha visto aquele homem.
— Eu tive medo de contar antes — ele continuou, a voz subindo um tom, instável. — No vídeo que você recebeu… não era o Oscar transando com aquele homem. Era eu! Eu fui o dublê. Helena me contratou porque somos parecidos. Ela disse que não haveria problemas, que era apenas um trabalho… no fim, o seu marido nunca esteve naquela cama.
Havia uma culpa nítida na profundidade do seu olhar. O mundo ao meu redor pareceu perder o som. As imagens do vídeo que destruíram meu casamento — os lençóis bagunçados, a traição pública, o desprezo que despejei sobre Oscar durante anos — voltaram como um soco.
— Então era você — sibilei.
Meu punho agiu antes do meu cérebro. O estalo do impacto contra a mandíbula dele ecoou no estacionamento vazio. Ele cambaleou, as mãos cobrindo o rosto enquanto se dobrava.
— Achou que eu ia ficar feliz? — a indignação fervia. Minha voz agora era um rosnado trêmulo. — Sabe o que as pessoas fizeram com ele? O que eu fiz com ele? Ele abandonou a família, largou a própria vida por mim… e eu o transformei em um pária por causa de uma montagem?
O homem soluçou, encolhido sob a luz pálida. Eu desviei o olhar, sentindo uma náusea profunda. Não era apenas ele que era feio naquele momento. Era o reflexo de cada olhar de julgamento que eu havia permitido dentro da minha empresa, contra o homem que apenas me amou.
Flashbacks surgiram, imagens do dia em que ele tentou me explicar, mas eu não escutei. A memória da noite no motel, horas de tortura assistindo ao vídeo que Helena me entregara, voltava agora como um pesadelo. A raiva pulsava em minhas veias, uma chama incontrolável.
No nosso apartamento, as palavras saíam de mim como veneno. Oscar escutava em silêncio, a expressão vazia, os olhos perdidos em um abismo de decepção. E eu, incapaz de olhar para ele, cuspia palavras duras: “Se não era você, quem poderia ser?”
Ele tentava agradar, cada prato que cozinhava, tudo feito com tanto cuidado… e eu, indiferente. Pensava que ele tentava compensar uma traição que nunca aconteceu.
O silêncio do estacionamento tornou-se um zumbido agudo nos meus ouvidos. O dublê levantou-se e deu um passo à frente, mas sua imagem começou a oscilar sob a luz fluorescente, como se ele fosse apenas um fantasma mal projetado.
— O senhor não está me ouvindo? — A voz dele vinha de longe, abafada por um oceano de arrependimentos que subia pelo meu peito.
— Por que agora? — Minhas palavras foram pedras pesadas que mal consegui empurrar para fora.
— Helena morreu. — O nome dela soou como um gatilho. — Hoje, no apartamento de vocês. Ela… ela se matou. Mas antes, atirou em duas pessoas. Uma morreu na hora. A outra… seu marido…
O chão pareceu inclinar-se. Cada palavra dele era um golpe físico que me roubava o ar. Oscar. O nome ecoou na minha mente como um grito em um corredor vazio. Pela primeira vez, minhas mãos não obedeceram ao meu comando, elas tremiam, uma vibração incontrolável que subia pelos braços e se alojava nos ombros.
O trajeto até o hospital foi um borrão de luzes de semáforos e neblina. O cheiro de desinfetante e éter me atingiu como um tapa ao cruzar as portas automáticas. Era um cheiro incômodo e ruim.
A cada passo pelos corredores, o ar se tornava mais sufocante, e o médico, com um semblante triste, parecia carregar o peso da morte de Oscar. Thomas me estendeu um maço de papéis frios.
Meus olhos saltaram pelas palavras técnicas no relatório da autópsia: descolamento de placenta por Hematoma Retroplacentário, asfixia fetal, perfuração por Arma de Fogo. Termos clínicos para descrever o inferno que eu ignorei. Lembrei-me da secretária tentando me avisar na reunião, do meu gesto impaciente mandando-a calar a boca.
Chegamos a uma porta ao final do corredor, Zhang era uma mancha de desolação sentada no chão contra a parede fria. A mulher vibrante que eu conhecia fora substituída por uma estátua de olhos opacos e vermelhos.
— Por que parou? — A voz dela era um chicote, seus olhos, vazios de vida, me encararam. — Não tem coragem de se despedir? Ele suportou tudo isso. E onde diabos você estava? — A indignação dela era incalculável, e eu não tinha como me defender.
Engoli em seco e entrei.
O ar dentro do necrotério era penoso, parado. Sobre a mesa de metal, uma silhueta estava coberta por um lençol branco de algodão. O médico puxou o tecido.
A pele de Oscar tinha a tonalidade da cera. Seus olhos, que um dia foram portos seguros de doçura, agora estavam fundos, emoldurados por olheiras que contavam anos de sofrimento e injustiças. Ele parecia exausto, como se finalmente tivesse permissão para soltar o peso do mundo.
Toquei os cabelos negros de Oscar. Eram tão macios quanto na última vez em que permiti que ele se aproximasse, acariciei com os dedos sua pele fria, seus lábios secos, e a dor se transformou em uma avalanche de arrependimento. Cresceu o desejo de ter sido diferente, de ter acreditado nele.
Ao lado dele, um pequeno embrulho de mantas repousava. Um menino. Tão pequeno que caberia na palma da minha mão. Tinha os traços de Oscar e, por um segundo cruel, desejei que ele abrisse os olhos. A realização de que eu era pai me atingiu junto com o primeiro soluço. Uma gota de lágrima caiu sobre a bochecha gélida do bebê, mas não houve calor para secá-la.
“Eu não me arrependo” a voz dele, daquela ligação em que o cortei bruscamente, latejou nas minhas têmporas. Ele estava me ligando para dizer que seríamos pais, e eu respondi com o silêncio do desprezo.
O toque no bebê me fez perceber a profundidade do que havia perdido. Era o filho do homem que eu amava.
— Vou cuidar de tudo — Zhang disse atrás de mim, o tom carregado de um asco que eu sabia que merecia. — De Luciana também. Ela morreu tentando protegê-lo de Helena. Ela o amou do jeito que você nunca soube. Não vá ao funeral, você não será bem vindo, isto não é um pedido.
— Faça como desejar — cada palavra saiu vulneravelmente. Ela amava Oscar, ela o amou corretamente.
Saí do hospital com as pernas de chumbo. O apartamento estava exatamente como antes, limpo e com um cheiro forte de desinfetante. Olhei o quarto que ele planejou, a cozinha onde ele passava horas tentando acertar meu tempero favorito, o vazio que agora gritava seu nome.
Encostei a testa na porta fria, deixando o cabelo esconder os olhos, enquanto meus ombros cediam como se carregassem um peso insuportável. O tapete sob meus pés começou a ganhar pequenas manchas circulares e escuras, as mãos cobrindo o rosto como se tentasse segurar os pedaços de mim mesmo. Um som rouco e abafado escapou por entre meus dedos — um ruído que lembrava o de algo se quebrando. Dez anos de uma espera silenciosa que eu nunca retribuí.
O ruído do relógio na sala seguia marcando um tempo que, para Oscar, finalmente tinha parado. E para mim, agora, cada segundo seria apenas o eco da sua ausência.
Capítulo 41
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...