Capítulo 40
— Você e sua amiga vão pagar! — O grito de Helena ricocheteou nas paredes, as veias de seu pescoço saltadas como cordas tensas. — Se não tivessem batido nela, se não a tivessem humilhado… ela ainda estaria aqui! Ela se suicidou por causa de vocês!
— Não sabíamos que vocês eram irmãs! — Zhang retrucou, o peito subindo e descendo em arfadas curtas. O ar na sala pesava, denso e abafado, como se o próprio oxigênio estivesse sendo consumido por uma fumaça invisível.
— Não é nossa culpa se ela era tão louca quanto você! — ressaltei.
— Não fale dela assim! — Helena avançou, os dentes trincados. — Ela amava o Dominic. Eu também. Por ela, e por mim, tentei arrancar ele de você, mas você é como uma praga que não morre!
Helena envolveu o pescoço de Zhang com o braço, apertando até que a pele passasse do pálido ao escarlate. Eu assistia a tudo estático, a revelação de que as duas nutriam aquela obsessão pelo mesmo homem me atingiu como um murro.
— Solte-a! Isso é loucura, Helena! — gritei, minha voz arranhando a garganta.
— Cale-se!
Um estalido seco cortou o ar. O zumbido que se seguiu silenciou o apartamento. Por um breve segundo, o mundo pareceu congelar, mas o alvo mudou diante dos meus olhos.
Luciana moveu-se rápido, uma sombra se interpondo entre mim e o perigo. Ela não gritou. Vi-a apenas contraindo o rosto, com os olhos arregalados em pura incredulidade. O corpo dela cedeu, perdendo o prumo, e deslizamos juntos. O chão, antes sólido, pareceu subir para nos encontrar em uma lentidão assustadora.
Tentei me apoiar para levantar, mas minha mão deslizou em algo morno e viscoso. O piso branco desapareceu sob uma mancha vermelha, de uma abertura no pescoço de Luciana. Pressionei o corte com as palmas das mãos, mas o fluido quente escapava por entre meus dedos, ignorando meu esforço.
Um som agudo e quebrado saiu da minha garganta. Zhang, ainda sob o domínio de Helena, cobriu a boca com a mão, os olhos fixos no líquido que se expandia.
— Luciana, olhe para mim! Não feche os olhos! — Minha voz falhava, soando como um grito trêmulo.
Ela soltou um suspiro, um último fôlego que se perdeu no ar. Suas pupilas subiram, revelando apenas o branco dos olhos, e o calor que emanava de sua pele dissipou-se, dando lugar a uma rigidez de estátua sob meus dedos.
— Velha maldita! — O grito de Helena chicoteou minhas costas. Ouvi os passos dela se aproximando, mas meu corpo pesava e não me virei.
Uma queimação de brasa viva partiu meu abdômen ao meio. Tossi, e o gosto metálico de ferro inundou minha boca. Quando afastei a mão da barriga, meus dedos estavam tingidos de vermelho.
— Pare, Helena! — Zhang a empurrou com um baque surdo e caiu de joelhos ao meu lado. — Olhe o que você fez! Você atirou nele! — As lágrimas dela criavam trilhas limpas em seu rosto angustiado.
Ruídos de passos apressados ecoaram pelo corredor. Helena girou o corpo, a arma em punho refletindo o brilho pálido da lâmpada. Um sorriso torto, que não alcançava seus olhos vidrados, puxou os cantos de sua boca.
— Ninguém vai me prender, Oscar.
O terceiro estampido foi breve. O corpo dela desabou como um fardo de carne jogada ao chão. Onde antes havia uma testa lisa, restou um relevo irregular de osso e pólvora. Um fluido cinzento misturou-se ao vermelho, preenchendo as órbitas abertas de Helena.
A porta escancarou-se, mas o mundo já se transformava em fragmentos nebulosos. O rosto de Zhang era apenas uma sombra distante. Senti o tempo esticar, as luzes do teto girando como redemoinhos até que o breu engolisse tudo.
Acordei com um clarão branco perfurando minhas retinas. O brilho era ofuscante e cruel, transformando o simples ato de abrir os olhos em tortura.
— Não feche os olhos… — A voz do Dr. Thomas parecia vir de dentro de um túnel, abafada e oca.
Eu estava em uma cama fria. Sentia uma pressão estranha no abdômen, o deslizar do aço abrindo caminho através das camadas de carne, como se eu fosse um livro sendo desfolhado.
Vi o médico erguer um pequeno vulto, dentro de uma placenta. O tapa do doutor ecoou na sala, mas o silêncio que se seguiu foi sufocante. O ar parecia ter sido sugado do quarto. Thomas moveu-se freneticamente entre máscara de oxigênio e injeções. O tempo se arrastou. Então, o som veio: um choro agudo, fino como um fio de seda. Tentei respirar com ele, mas meus pulmões pareciam cheios de agulhas.
— Está perdendo a consciência! — O aviso da enfermeira foi a última coisa que ouvi antes de afundar em um vazio sereno.
Afundei num silêncio absoluto, longe de qualquer angústia. Despertei com o cheiro acre de hospital invadindo minhas narinas e pelo som compassado de um monitor cardíaco que insistia em me trazer de volta.
— Oscar… acorde! — O apelo de Zhang era um sussurro úmido.
Abri as pálpebras pesadas. Vi Zhang ao meu lado, os olhos vermelhos e inchados. A agulha espetada em meu braço incomodava minha pele e meus movimentos. Mas aquilo foi esquecido quando pensei no bebê e sem mais delongas, perguntei:
— Cadê ele?
Ela desviou o olhar. O silêncio caiu sobre nós como uma laje de granito. O Dr. Thomas entrou logo depois, os ombros caídos e o rosto fechado em pesar.
— A placenta descolou com o trauma, Oscar. O sangramento impediu o oxigênio de chegar. Tentamos tudo, mas…
Ele trouxe um corpinho pequeno coberto de mantas. O peso em meus braços era quase nulo quando o peguei. Com as mãos trêmulas, afastei o tecido.
Ele era perfeito. Fios de cabelo negros, macios como penugem e uma pele que parecia esculpida em cera fina. A bochecha, menor que a ponta do meu polegar, estava gélida — o mesmo frio que eu sentira em Luciana.
Zhang sussurrou ao meu lado que ele era lindo, mas sua voz parecia vir de outra sala.
Fiquei observando aquelas mãos minúsculas e imóveis. O calor que escorria pelo meu rosto não era febre; eram gotas que batiam na manta dele como chuva em um telhado. Eu o abracei, tentando envolver aquele pequeno botão de rosa com todo o meu calor, mas a pele dele permanecia indiferente ao meu toque.
— Zhang… — Olhei para ela através da cortina de lágrimas. Meus olhos voltavam para o bebê, implorando por qualquer sinal de vida. — Eu só queria que ele abrisse os olhos. Só uma vez.
Cada carícia trazia consigo uma onda de amor e dor. Havia esperado meses por aquele encontro e, o que deveria ser um momento de alegria se tornava um adeus.
Minha visão começou a escurecer pelas bordas, estreitando-se até que o rosto do meu filho fosse apenas um ponto de luz. Estudei aquele rosto delicado, ele era pequeno, perfeito, uma miniatura de porcelana que eu não podia soltar.
Enquanto isso, o fogo no meu abdômen subia, incontrolável, transformando meu corpo em cinzas. Mas eu não me importava. Se aquele era o preço para segurá-lo, eu pagaria em dobro.
— Oscar! Enfermeira, chame o médico! — O grito de Zhang foi ficando cada vez mais baixo, como se uma porta pesada de carvalho estivesse sendo fechada entre nós.
O monitor ao lado deu um suspiro longo e contínuo. Fechei os olhos e, finalmente, a dor parou de incomodar.
Capítulo 40
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...