Capítulo 43
As nuvens sobre o cemitério eram uma massa cinzenta que não queria deixar o sol passar. Cruzei os portões de ferro com as mãos mergulhadas nos bolsos do sobretudo, tentando ignorar o frio que não vinha do vento, mas dos túmulos. Ao redor, as lápides perfiladas pareciam me observar, sentinelas silenciosas cujas únicas companhias eram as flores, algumas manchas de musgo e os retratos desbotados pelo tempo.
Parei. À frente, uma silhueta masculina quebrava a monotonia do cinza. O homem estava de joelhos diante do túmulo de Dominic, o corpo curvado sob o peso de um buquê volumoso de rosas brancas. Franzi o cenho. Quem ainda gastaria flores com Dominic? Pensei que o estoque de amor — ou mesmo de tolerância — por ele tivesse se esgotado tempos atrás.
O estalar dos meus saltos na calçada fez o homem girar o rosto. Ele tinha a testa vincada, os olhos nublados pela interrupção.
— Quem é você? — tirei a mão do bolso, apontando para ele como se exigisse uma explicação pela sua presença ali.
Ele não respondeu de imediato. Depositou as flores com uma lentidão cerimonial e se ergueu, limpando a poeira dos joelhos. Ficamos ali, dois estranhos medindo distâncias, até que uma centelha de reconhecimento atravessou o olhar dele.
— Zhang? É você mesma?
Ele deu um passo à frente, os olhos percorrendo meu rosto com incredulidade.
— Você está… diferente. O cabelo curto, acima dos ombros… quase não se parece nada com a mulher de anos atrás. — Um meio sorriso surgiu nos lábios dele, tão pequeno que quase não alcançou os olhos. Eu conhecia aquela voz.
— Estêvão! Faz tantos anos desde que você foi morar no exterior. — O choque me fez suavizar o tom. — Você também mudou. Onde foi parar aquele brilho que você carregava?
O sorriso dele murchou instantaneamente. Ele desviou o olhar para os sapatos sociais pretos, agora sujos de poeira.
— Desculpe — sussurrei.
— Não peça desculpas. É a verdade. A alegria foi enterrada junto com meu irmão.
Caminhei até ele, parando lado a lado diante do nome entalhado de Dominic. O silêncio entre nós era mútuo.
— Eu entendo — murmurei, sentindo o nó na garganta. — Depois que o Oscar se foi, o mundo ficou vazio. Sinto como se estivesse caminhando sozinha em uma estrada sem fim.
Minha voz falhou na última palavra. Senti o calor das lágrimas pinçando meus olhos, mas forcei a vista para o horizonte. Estêvão buscou minha mão e a envolveu na sua. Um aperto firme, sólido.
— Mal nós falávamos no passado, não é? — ele disse, a voz baixa.
— Realmente… E depois do casamento de Dominic com Oscar, aí você sumiu de vez.
— Nunca tive com o Dom a proximidade que você tinha com o Oscar. Éramos distantes, quase estranhos. Mas saber que ele estava em algum lugar, respirando… era o que mantinha meu coração no lugar. Agora, não sobrou nada.
Ele inclinou a cabeça para a lápide vizinha. O nome de Dário, o pai, permanecia nítido no granito. Logo ao lado, li o nome de Eugênio. Senti uma fisgada no peito, como se uma cicatriz antiga tivesse sido reaberta à força.
— Faz tanto tempo que eles se foram — comentei, olhando para as datas.
— Desde aquele acidente… eu fecho os olhos e ainda sinto o cheiro de pneu queimado — os lábios de Estêvão tremeram. — E agora, estou mais sozinho do que nunca. Nem para escolher amizades eu tive talento.
— Você fala de Helena?
Ele assentiu vagamente.
— Saber que minha colega do colégio era uma assassina… a decepção dói, claro. Mas não chega perto da falta que o Dom faz. — Ele apertou minha mão com mais força, a voz ganhando um tom sombrio. — Lamento o que ela fez com o Oscar. Helena arrancou o coração dele muito antes de tirar sua vida, ela destruiu o casamento deles. E o Dom… por mais que não soubesse demonstrar, ele o amava à sua maneira torta.
Eles se amaram, tiveram a chance de estar um ao lado do outro, de se casar, de gerar uma família… mas eu, nunca tive. Minhas chances foram estranguladas no berço. Desviei meus olhos para a lápide de Eugênio, o peso do “e se” esmagando meus ombros.
— Você está sozinho agora? — perguntei, sem conseguir olhar para ele.
— Sim. E percebo que você também. — Ele seguiu meu olhar até o túmulo de Eugênio. — O tempo passou, Zhang, mas você nunca superou ele, não é?
— Nunca senti nada igual por mais ninguém. Algumas pessoas amam uma vez só e passam o resto da vida tentando entender o porquê.
Estêvão soltou minha mão para me envolver em um abraço. No início, fiquei rígida, mas meus ombros cederam contra o peito dele.
— Percebo agora que meus irmãos foram uns tolos — ele sussurrou contra meu cabelo. — Eugênio nunca teve coragem de se declarar. Ele sempre foi certinho demais e tinha medo da rejeição… quanto a Dominic, ele jurava que havia algo romântico entre você e o Oscar, quando era apenas uma amizade rara. Sinto muito por eles, os dois só entenderam isso tarde demais.
— Agora só restou o luto — me afastei o suficiente para olhar em seus olhos solitários. — O que você vai fazer? Agora que não restou mais ninguém.
— Vou embora. Vou vender as empresas que meu pai deixou e que o Dominic administrava. Não consigo entrar naqueles escritórios sem sentir o fantasma deles em cada cadeira vazia. Preciso de um lugar onde consiga suportar a solidão, que não seja tão pesado.
— Eu farei o mesmo. As lembranças aqui têm garras. Enquanto Oscar estava aqui, eu tinha um porto seguro, mas agora… vou voltar para a China.
Ficamos em silêncio, dois sobreviventes cercados por nomes esculpidos em pedra. Estêvão olhava para os túmulos da sua linhagem extinta, eu olhava para o nome do homem que levou meu coração para debaixo da terra, lembrando na sequência de Oscar, do seu filho, da sua mãe.
— Talvez — Estêvão murmurou, e uma lágrima escapou, traçando um caminho rebelde pela sua bochecha — a distância e o tempo diminuam nosso luto
Eu não respondi. Pensei vagamente que entre nós, não havia promessas de telefonemas ou reencontros. Éramos dois fios soltos de uma tapeçaria que se desfez por completo. O que nos unia eram os mortos, e os mortos não podem sustentar amizades.
Ele soltou minha mão devagar, como se estivesse desamarrando o último nó que o prendia àquela cidade. Deu um passo atrás, e por um segundo, seus olhos varreram as lápides de Dominic, Dário e Eugênio uma última vez.
— Adeus, Zhang.
— Adeus, Estêvão.
Ele se virou. O som de seus sapatos foi diminuindo, tornando-se um eco fantasmagórico até ser engolido pelo silêncio sepulcral do lugar. Eu não olhei para trás. Mantive meus olhos fixos no nome de Eugênio, sentindo o vento frio bagunçar meu cabelo curto.
O luto no meu peito não diminuiu, mas algo mudou. Sem Oscar para aliviar, a solidão agora era absoluta, pura e cortante. Caminhei em direção à saída oposta, deixando para trás os portões de ferro e as sombras daqueles que amei.
Enquanto atravessava a calçada, o mundo lá fora continuava ruidoso e indiferente, mas para nós, o livro havia sido fechado. Não haveria desfecho. Apenas o asfalto à frente e a distância a percorrer até o voo que me levaria de volta para meu país natal.
Capítulo 43
Fonts
Text size
Background
A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...