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A primavera sem Flores

Capítulo 12

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Novel Info

— Droga, Otávio, você não tem açúcar em casa, não?

 

 

— Ah, para de drama! Eu tomo café assim todos os dias!

 

 

— Por isso que você é amargo desse jeito! Pelo amor de Deus, coloca açúcar aqui pra mim, minha cabeça tá estourando.

 

 

— Eu não sou amargo. E coloca você! Olha o açucareiro aí na sua frente. Virei seu empregado agora?

 

 

— Depois fala que não é azedo!! Não tem nem tato com as visitas.

 

 

— Você não é visita. Eu fui obrigado a te trazer pra cá.

 

 

— Tá bom, tá bom, já entendi.

 

Eduardo tomou o café, comeu dois sanduíches e uma fatia de bolo de cenoura que Otávio tinha comprado na padaria.

 

— Pega aqui!

 

 

— O que é isso?

 

 

— Remédio. Você não falou que tava com dor de cabeça?

 

 

— Valeu.

 

 

— Agora que tomou o remédio, desembucha! Por que você tava sozinho no bar do Felipe? O que aconteceu com os idiotas dos seus amigos? Você não ia sair com eles? Por que você bebeu daquele jeito? E o seu pai, como ele foi parar nessa história?

 

 

— Calma! Uma pergunta de cada vez! Tá parecendo um interrogatório, eu hein.

 

 

— Eduardo…

 

 

— Ok, ok! Resumindo: nós fomos até um bar do tio do Matheus, eu bebi algumas doses, mas juro que foi pouca coisa. Meu pai tava no bar e começou a me humilhar, falando que eu não tinha responsabilidade, que eu tava passando vergonha… Cara, eu não tava com cabeça pra discutir com ele e decidi ir embora pra minha casa, mas tinha trânsito, e eu acabei descendo do carro e achando o bar em que o Felipe trabalha.

 

 

— Filho da puta!… Agora eu sei por que você tava daquele jeito. Mas ninguém te acompanhou até em casa? Pra que amigos nessa hora, né?

 

 

— Eu que queria ficar sozinho.

 

 

— Não, Eduardo, você precisava de apoio. De alguém que desse uma lição no seu pai, isso sim.

 

Eduardo ficou em silêncio enquanto o observava. Aquele assunto mexia com ele, sua raiva era tangível.

 

 

— E você achou que a solução dos seus problemas seria encher a cara? Logo você, que não aguenta bebida!

 

— Eu só queria dissipar a mente… Mas acabei exagerando. Eu já falei, não faço mais isso.

 

 

— Eu já escutei. E a cabeça? Tá doendo muito?

 

 

— Já tinha parado quando você me deu o remédio.

 

 

— Por que tomou, então?

 

 

— Porque você me deu, ué!

 

 

— Eu não sei o que eu faço com você, sinceramente.

 

 

Eduardo só olhava para a cara de Otávio enquanto abria um sorriso. Observou tudo ao seu redor: o lugar era pequeno, mas extremamente organizado, os livros arrumados por cor e tamanho, discos de vinil usados como quadro… O ambiente refletia totalmente a personalidade de Otávio.

 

 

— Sua casa é legal. Por que nunca me trouxe aqui?

 

 

— Mal cabe eu, por que eu ia trazer alguém aqui?

 

 

— Não exagera, não é tão pequeno.

 

 

— É sim.

 

 

— Você reclama do tamanho, mas colocou uma big cama de casal aqui.

 

 

— Eu gosto do conforto, odeio dormir apertado.

 

 

— Seii… Essa cama é pra trazer as suas peguetes aqui, não é? Confessa!

 

 

— Por que você pressupõe que são “as”?

 

 

— Como assim?

 

 

— Por que você pressupõe que eu só trago mulheres aqui?

 

 

Eduardo arregalou os olhos, surpreso. Engoliu em seco antes de perguntar:

 

 

— Otávio… você é gay?

 

 

— Na verdade, eu também fico com mulheres. Então acho que seria Bi, tecnicamente.

 

Otávio disse com a maior naturalidade do mundo. Eduardo, por outro lado, estava perplexo.

 

 

— E por que você nunca me disse nada?!

 

 

— Porque você nunca perguntou!!

 

 

— Ah, não! É sério que é essa a explicação que você vai me dar?

 

 

— Ok. Você lembra do dia em que a gente se conheceu?

 

 

— Sim, você bateu em três caras que me encurralaram na frente da boate. Mas o que isso tem a ver?

 

 

— Você lembra do que me disse quando tava chorando?

 

 

— Não, eu fiz questão de esquecer. Aquilo foi deplorável.

 

 

— Pois é. Você me disse: “Isso sempre acontece comigo, moço… Os homens sempre se aproximam de mim ou porque querem dinheiro ou porque acham que podem me tratar como um objeto. Meu ex era um desses idiotas que me bateu. Me diz, como eu posso confiar em alguém?”

 

 

— Merda!… Agora eu lembrei. Que cena horrível, fiquei com o olho roxo por duas semanas.

 

 

— Eu decidi não falar nada porque você poderia achar que eu tava mal-intencionado ou algo assim. Mas eu só quis ajudar mesmo. E, desde então, a gente nunca mais tocou no assunto “relacionamento”.

 

 

— Nossa… Você lembra palavra por palavra!

 

 

— Lembro.

 

 

— Eu sempre imaginei que você fosse hétero.

 

 

— É, eu sei.

 

 

Eduardo ficou paralisado, pensativo. Era muita coisa para processar. Será que essa nova informação mudaria a forma como ele veria o amigo? Sua cabeça funcionava a milhão.

 

 

— Ei, Eduardo!!

 

 

— Oi?

 

 

— Tô falando com você!!!

 

 

— Desculpa, minha cabeça voou longe.

 

 

— Percebi. Eu disse pra você ir tomar banho!

 

 

— Por quê? — Eduardo disse, em um tom mais assustado que o normal.

 

 

— Porque você está fedendo! Quer continuar assim?

 

 

— Não, não…

 

 

— Toma, pega aqui. Essa toalha é nova. Minhas roupas não fazem seu estilo, mas vão servir. Depois você me devolve, você tem mais roupa do que eu.

 

Otávio entregou tudo na mão de Eduardo sem sequer esperar uma resposta. — Tem uma escova de dentes fechada ali também, se quiser pode usar.

 

 

— Por que você tem essas coisas ainda novas?

 

 

— Promoção “leve dois, pague um”. Eu gosto de pesquisar promoção. Você vai tomar banho ou não vai?

 

 

— Tô indo, tô indo… Até parece que o meu cheiro tá tão ruim ass… É, eu tô fedendo mesmo.

 

 

Otávio assentiu com a cabeça enquanto Eduardo fechava a porta do banheiro.

Do lado de dentro, a cabeça de Eduardo fervia.

 

“Droga, como eu vou encarar ele agora? Será que o Arthur tinha razão? Não, esquece. Nós já nos conhecemos há três anos, nossa relação não precisa mudar só porque agora eu sei que ele gosta de homens. Porra, nunca achei que ia pronunciar essas palavras… O Otávio?! Não, eu não imaginava.”

 

Otávio, por outro lado, também estava afundado em seus próprios pensamentos, receoso do que tinha feito.

 

“Caralho, eu precisava falar isso justo agora? Acho que o que aconteceu ontem mexeu com a minha cabeça. Aquela cena não sai da minha mente.”

 

 

Eduardo tomou seu banho. Sentia seu corpo grudento e realmente o cheiro de bebida estava impregnado. Vasculhou o pequeno armário no banheiro; nas gavetas, tudo muito bem organizado: produtos para cabelo e perfume em uma gaveta, higiene em outra.

 

“Ele sempre tem que ser tão organizado? Caramba, ele tem até secador de cabelo?”

 

continuou vasculhando, curioso.

 

“Essa gavetinha eu não vi… Olha só: uma toalha de rosto com nome bordado, barbeador, camisinha… Espera, o quê?! Acho que vou parar de mexer nessas coisas.”

 

Eduardo vestiu as roupas que Otávio lhe havia emprestado. Ficaram um pouquinho mais largas do que imaginara.

 

“O Otávio tem o peito desse tamanho? Não lembrava de ser tão menor que ele assim. Bom, pelo menos estou vestindo roupas limpas. E bem cheirosas, por sinal… O Otávio tem um ótimo gosto para perfumes.”

 

— Finalmente! Achei que ia ter que chamar o SAMU pra te resgatar.

 

 

— Eu precisava tirar o cheiro da bebida.

 

 

Eduardo saiu com os cabelos ainda úmidos caindo pelo rosto. Quando Otávio o viu com suas roupas, sentiu um leve arrepio percorrer o corpo. Sua cabeça o estava sabotando e ele não conseguia evitar.

 

 

— Elas ficam melhores em mim

 

disse Otávio, tentando disfarçar o olhar demorado que lançava sobre o corpo do amigo.

Eduardo, por outro lado, manteve seus olhos fixos. A camiseta que Otávio vestia era idêntica à que ele usava, mas nele se encaixava perfeitamente ao corpo; percorreu os olhos pelos ombros largos do amigo. O tecido marcava levemente os músculos do abdômen, que rotineiramente se escondiam embaixo do moletom largo que Eduardo estava acostumado a vê-lo vestir. Voltou sua atenção para os braços cobertos de tatuagens. Lembrou das palavras de Letícia: “Então você conhece todas elas…”

Se obrigou a voltar à realidade quando percebeu que Otávio o encarava há alguns segundos.

 

 

— Acho que é porque são suas roupas, não minhas. A propósito, ainda bem que você me deu esse cinto, mas tô me sentindo num saco de batatas.

 

 

— Eu imaginei que elas ficariam um pouco largas.

 

 

— Você sempre tem um bom senso de tamanho.

 

 

“Fica mais fácil quando se tem a oportunidade de medir com as próprias mãos”, Otávio pensou consigo mesmo.

 

 

— Que cheiro bom é esse?

 

 

— Macarronada. Acho que já deve estar pronta.

 

 

— Não sabia que você sabia cozinhar!

 

 

— Tive que aprender pra não morrer de fome!

 

 

— Idiota.

 

 

— Pega aqui um prato e experimenta logo.

 

 

— Nossa, isso tá sensacional! Você manda bem na cozinha, nunca ia imaginar.

 

 

— Você deve estar com fome, isso sim.

 

 

Eduardo deu mais algumas garfadas enquanto soltava pequenos sorrisos. Manteve seus olhos fixos no rosto de Otávio, que cortou o silêncio:

 

 

— Pergunta logo!

 

 

— O quê?

 

 

— Você tá me olhando com essa cara, tá querendo perguntar alguma coisa.

 

 

— Como você sabia?

 

 

— Eu te conheço! O que quer saber?

 

 

— Por acaso você já chegou a namorar um cara?

 

 

— Se eu soubesse que você ia ficar pensando nisso, não teria te contado.

 

 

— Foi mal, não precisa responder se não quiser.

 

 

— Eu nunca namorei ninguém. Nem homem, nem mulher. Meus envolvimentos eram apenas por sexo, e só isso.

 

Eduardo continuava o olhando com o garfo suspenso no ar.

 

— Também não precisa me olhar com essa cara, né? Eu nunca enganei ninguém. As pessoas com quem eu fiz isso tinham o mesmo objetivo. Eu nunca consegui depositar confiança o suficiente para ter um relacionamento com alguém.

Eduardo conhecia de cor esse sentimento: o de não poder confiar nas pessoas de verdade.

 

 

— Eu te entendo. Não tô julgando, só não imaginei que você tinha esse lado. Achei que fosse mais tímido.

 

 

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E outra: isso já tem um tempo também. Ultimamente meu tempo se divide entre trabalho e faculdade, e só isso.

 

 

— Você não precisa se explicar pra mim.

 

 

— Não tô me explicando, só não quero que pense que sou um babaca.

 

 

— Eu não pensei. Nunca pensaria.

 

 

— Come seu macarrão. Vai esfriar e eu não vou esquentar de novo!

 

 

Eduardo sorriu enquanto levava o garfo novamente à boca.

 

 

…

 

 

(Alguns minutos após o almoço)

 

 

— Otávio! Você viu meu celular?

 

 

— No criado-mudo! Coloquei pra carregar, você nunca tá com bateria.

 

 

— Valeu. Vou chamar um carro, preciso resolver umas coisas da faculdade para amanhã.

 

 

— Eu te levo! Não precisa chamar um carro.

 

 

— Mas eu não tô acostumado a andar de moto!

 

 

— Que foi? Tá com medinho?

 

 

— Digamos que eu seja o tipo de pessoa que tem amor à vida.

 

Eduardo mostrava o dedo do meio enquanto vinha em sua direção com um bloco de notas e uma caneta.

 

 

— O que é isso?

 

 

— Anota seu endereço direito pra mim. Se acontecer alguma emergência, preciso pelo menos saber como chegar.

 

 

Otávio sempre escondia seu lado cuidadoso por baixo da carapaça do sarcasmo e da impaciência.

Os dois seguiram em direção ao apartamento de Eduardo. Otávio era um piloto habilidoso e experiente. Eduardo sentia o vento bater no rosto e a sensação era muito boa; agarrou-se à cintura de Otávio ao passar por uma curva mais fechada. Otávio estava extasiado. Eduardo se sentia protegido em seus braços, e a sensação era acolhedora.

 

 

— Tá entregue, Cinderela!!

 

 

— Por que Cinderela?

 

 

— Porque ela vira abóbora depois da meia-noite.

 

 

— Ela não, a carruagem!

 

 

— Você entendeu!!

 

 

— Otávio, muito obrigado mesmo por ter me ajudado ontem e hoje. Eu tenho muita sorte de contar com você.

 

 

— Não precisa ficar sentimental! Você sabe que pode contar comigo… Só não vai chorar!!

 

 

— Seu idiota!

 

 

— Eu já vou indo. Tchau, estrelinha cadente. Vê se descansa.

 

 

— Tchau, Otávio!

Capítulo 12
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A primavera sem Flores

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  1. Otávio é um nerd negativo e mau humorado, sempre no seu canto sem amigos por perto.

Eduardo é o mais popular da Faculdade

sempre positivo, bem...

Chapters

  • Capítulo 12
  • Capítulo 11 O Resgate e a Manhã Seguinte
  • Capítulo 10 O Pós-Evento e a Sombra do Passado
  • Capítulo 09
  • Capítulo 08
  • Capítulo 07
  • Capítulo 06
  • Capítulo 05
  • Capítulo 04
  • Capítulo 03
  • Capítulo 02
  • Capítulo 01
 

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