Capítulo 19
Capítulo 19
Os dois estavam em silêncio quando, de repente, ouviu-se um grito de espanto vindo da pista de dança. Curto, quase abafado pela música.
He Yu, porém, captou-o prontamente. Endireitou o corpo, fez um sinal com os olhos para Wu’er vigiar Yan Xueyuan e correu direto para lá.
Na cabine mais reservada, um homem barrigudo segurava uma bela Omega, inclinando-se para beijá-la à força. O pulso fino e alvo da Omega já exibia marcas vermelhas; ela estava aterrorizada, clamando por socorro. Algumas pessoas ao redor viram, mas fingiram não ver; quem saberia se não era algum tipo de fetiche?
He Yu aproximou-se e puxou a Omega para si, enquanto com a outra mão pressionou com força a articulação do sujeito asqueroso, afastando a mão dele com um movimento brusco.
“Quem é o desgraçado?!” O tarado estremeceu de dor e virou-se, segurando o próprio braço.
“Não costuma vir muito aqui, não é?” He Yu protegeu a Omega, lançando-lhe um olhar de desdém. “As regras da casa estão bem claras na porta. Já tem idade para não agir como um cego asqueroso.”
“Seu maricas de merda! Quem você pensa que é para falar assim comigo?!” O homem acenou e um guarda-costas surgiu atrás dele.
Um cheiro adocicado de leite invadiu as narinas de He Yu. Pelo canto do olho, ele percebeu que vários Alfas próximos estavam com os olhos avermelhados, encarando a pessoa atrás dele com desejo.
Cio forçado. Ela fora drogada.
O Omega era meio palmo mais alto que He Yu, mas agora estava completamente entregue, escorado nele. Sua boca abria e fechava, a respiração estava ardente, os suspiros vibravam nos ouvidos de He Yu e o rosto estava banhado em lágrimas. He Yu percebeu que ele implorava: “Socorro”.
He Yu suspirou. Sinalizou para um colega chamar a ambulância enquanto mantinha o Omega protegido. O tarado, visivelmente embriagado, começou a proferir insultos imundos, chegando a dizer: “Você também é um merdinha, vou te foder tanto que nem sua mãe vai te reconhecer!”.
Liu’er observava de lado, imóvel, encarando o sujeito como se visse um cadáver.
Trabalhando ali há tanto tempo, He Yu já vira de tudo; nem mudou de expressão. Enquanto afagava as costas do Omega para acalmá-lo, liberou seu próprio feromônio para aliviar o sofrimento dele. Seu feromônio continha partes de “pseudo-Alfa”, que não agravavam o estado do Omega e ainda mitigavam a dor temporariamente, servindo como um paliativo.
“Maldito, que #¥%@*&……%@#” O homem, com a fala enrolada, chamou o guarda-costas.
“É proibido brigar dentro do bar. Quem desobedecer arque com as consequências,” He Yu apontou para a saída com deboche. “Se quer morrer, pule de um prédio lá fora. Se quiser se matar aqui dentro, ainda teremos que recolher o lixo.”
“Você sabe quem eu sou?!” A face gorda e repugnante transbordava malícia.
“Aqui,” He Yu apontou para o chão com um sorriso provocador, “quem eu não conheço é porque não tem importância nenhuma.”
“Porra! Acabem com ele!” gritou o tarado.
O guarda-costas atrás dele permaneceu estático, visivelmente constrangido. O gordo, possesso de raiva, nem esperou por ele; avançou e desferiu um soco!
He Yu abaixou-se com agilidade, esquivou-se passando por trás e chutou com força a dobra do joelho do homem, derrubando-o no chão. Com um movimento rápido para a cintura, ele sacou o aparelho e o encostou no sujeito. O homem convulsionou por alguns segundos e, como um pedaço de carne podre, ficou inerte no chão.
He Yu guardou o bastão elétrico e acenou para o guarda-costas.
“Irmão Yu.” O guarda-costas não sabia onde enfiar a cara.
“Trabalhar com isso também dá, ganha-se mais que no bar,” disse He Yu, pegando o Omega semiconsciente nos braços. Ao passar pelo colega, murmurou: “Só que a consciência pesa um pouco.”
O guarda-costas não respondeu, envergonhado. Aquele homem fora seu subordinado por um tempo, mas foi demitido após ser pego roubando bebidas. He Yu conhecia quase todos que trabalhavam no ramo naquela área.
O fluxo de clientes era grande, e tanto clientes quanto funcionários eram divididos por castas. Herdeiros VIPs como Jiang Yue Nan e Yan Xueyuan só podiam ser atendidos por ele ou outros Betas; Alfas eram proibidos de se aproximar. Seu cargo era estrategicamente ambíguo. Por um lado, era apenas um segurança; por outro, as pessoas que protegia eram tão influentes que, indiretamente, ele acabara conhecendo muita gente da alta sociedade, que até o cumprimentavam ao chegar.
“Irmão Yu, já joguei o lixo fora,” alguém gritou.
“Ótimo, jogue bem longe,” He Yu respondeu sem olhar para trás.
Só após colocar o Omega na ambulância é que He Yu retornou; em menos de dez minutos, a confusão fora totalmente dissipada. Ao passar pela cabine central, um homem refinado lhe estendeu um cigarro, sorrindo: “Trabalhando muito, Peixe?”
“Não tenho descanso,” He Yu aceitou o cigarro sem acender, trocando um olhar cúmplice. “Quando chegou?”
“Acabei de chegar.” O homem olhou para onde estava Yan Xueyuan e sorriu: “Pode voltar ao serviço.”
Ao retornar, He Yu deu de cara com o olhar inquisidor de Yan Xueyuan.
“O que você faz exatamente?”
“Sou apenas um segurança,” He Yu deu de ombros. “Você viu como é perigoso para um Omega beber aqui sozinho. Se houver um cio forçado, até seguranças Alfas perdem a linha. Sendo Omega, eu facilito as coisas.”
“Eu conheço aquele homem,” Yan Xueyuan semicerrou os olhos. “O herdeiro do Grupo Zhenming. Vocês são íntimos?”
“Quem sou eu na fila do pão?”, He Yu riu, tomando água. “Quem vem sempre acaba ficando amigo dos seguranças.”
Yan Xueyuan duvidou. O herdeiro de um império oferecendo cigarro a um segurança com tamanha familiaridade? He Yu apenas deu de ombros. Eles não eram íntimos; o cigarro provavelmente era um agradecimento por He Yu ter salvo a namorada dele no mesmo local tempos atrás. Para ele, era apenas o seu trabalho cuidar das “Colheres de Ouro” sob sua guarda. Mas como o homem insistia em agradecer, He Yu não recusaria um cigarro.
Momentos depois, Yan Xueyuan disse: “Quero te pedir um favor.”
“Qual?”
“Finja ser meu namorado. Vinte mil por mês,” propôs ela com naturalidade.
He Yu manteve a pose, mas por dentro estava chocado. Ricos são todos viciados em contratos?
“……Meu namorado é muito possessivo,” mentiu He Yu. Cunhada, não me ferra. Eu não ganho do Chu Yi na briga e, se ele ficar bravo, vai ser tão fofo que vou querer abraçar e não soltar. “Realmente não dá.”
Yan Xueyuan lamentou, mas logo sorriu: “Então, sejamos amigos.”
“Olá, amiga,” He Yu aceitou.
Ela ficou mais um pouco e, ao sair, tirou o próprio colar e o entregou a ele: “Não aceite ‘não’ como resposta.”
He Yu aceitou por obrigação. Naquele lugar, homens e mulheres agiam como “CEOs autoritários”; recusar era um insulto. Ele era só um segurança, não podia se dar ao luxo de ofendê-los.
Quando ela saiu, He Yu foi ao fundo respirar e tirou uma foto do colar para pesquisar o valor. Quase caiu para trás. Era o modelo mais novo de uma grife de luxo; nada demais, apenas cerca de um milhão de yuans…
Ricos fazem amizade assim agora? He Yu mandou uma mensagem.
He Zuizui: Eu não entendo de joias, o colar é valioso demais, não posso aceitar.
Sem resposta. He Yu ia ligar quando Feng Cang apareceu.
“Está livre sábado e domingo?”
“Quem sabe?”, brincou He Yu.
“Se tem algo, desmarque,” Feng Cang deu um sorriso cínico. “Pediu folga demais, vai pagar no fim de semana.”
He Yu pensou que Chu Yi era compreensivo e não teria problemas, então aceitou. No sofá próximo, um casal AO estava em um momento íntimo. Pela experiência, He Yu viu que eram namorados e desviou o caminho. O celular vibrou.
Pato Mergulhador?: Vamos correr de carro amanhã à noite?
He Yu coçou a cabeça. Droga. Tinha aceitado o turno do Irmão Feng rápido demais. Como diz o ditado: “A maioria dos problemas vem de dizer ‘sim’ rápido demais e ‘não’ devagar demais”.
He Zuizui: Amanhã tenho compromisso… Estou sofrendo.jpg
Pato Mergulhador?: Compromisso? Quer que eu vá com você?
He Yu sentiu um aperto no coração.
He Zuizui: Não dá. Meu coração quebrou, pato.jpg
Pato Mergulhador?: Aquela pessoa que devia te acompanhar finge que não vê nada.jpg
He Zuizui: Irmão, sério, se eu pudesse eu iria com você com certeza. Chorando muito.jpg
He Zuizui: Olha minha sinceridade.gif
Pato Mergulhador?: ……
Pato Mergulhador?: Estou bravo.jpg
Eita, o bonitão ficou bravo. O humor desse Alfa era um mistério. He Yu digitou rápido.
He Zuizui: Vamos correr durante o dia!
Pato Mergulhador?: Você não vai dormir?
He Zuizui: Eu aguento ficar sem dormir. Eu sou foda.jpg
Após um longo silêncio, a resposta veio.
Pato Mergulhador?: Venha aqui durante o dia.
Pato Mergulhador?: [Localização]
Era um condomínio de luxo. He Yu não estranhou; achou que seria o ponto de encontro. Ele não se importava de perder o sono. Encontrar alguém com quem se tinha sintonia era raro. Ele não percebia, mas com essa devoção, na antiguidade ele seria o típico imperador que perderia o trono por uma concubina favorita.
Saiu às quatro, chegou às cinco. Comeu um miojo de conserva, tomou banho e apagou. Vida de trabalhador é osso, especialmente sem o seu “Alfa doméstico” por perto.
Acordou ao meio-dia. Viu duas chamadas perdidas de Chu Yi. He Yu despertou no ato. Ao pular da cama, tropeçou e quase deu uma cabeçada na janela.
“Bom dia, passarinho!” He Yu levantou esfregando o joelho e ligou para Chu Yi. Atendeu no primeiro toque.
“Irmão, Irmão! Acordei agora! Desculpe!”
“Achei que estivesse botando um ovo, de tanto ‘Irmão, Irmão’.” disse Chu Yi.
Pelo tom, ele não parecia bravo. He Yu suspirou aliviado e soltou um som de “piu piu”.
“Estou lá embaixo,” disse Chu Yi. “Se arrume e desça.”
O ritmo de He Yu acelerou instantaneamente. Vestiu sua roupa cafona, lavou o rosto e voou escada abaixo. Chu Yi estava lá, ninguém sabia há quanto tempo. Viver com ele era confortável; ele ligava duas vezes e, se não atendessem, esperava sem pressionar. Nada como um certo Yuan Li, que ligaria até sua cabeça explodir.
O Mercedes Classe G brilhava no condomínio humilde. Chu Yi estava ao volante. He Yu correu para o carona: “Bom dia… não, boa tarde!”
“Bem cedo, hein?”, ironizou Chu Yi, entregando um saco de papel. “Come algo.”
Eram quatro pãezinhos. He Yu devorou um por um enquanto Chu Yi saía com o carro. He Yu não pôde deixar de admirar o perfil dele. Chu Yi vestia um moletom preto e calça esportiva. Suas mãos no volante eram uma obra de arte: dedos longos, fortes e alvos.
Todo dia ao acordar eu penso: meu namorado de contrato é um monumento, pato!
He Yu olhou para seu casaco marrom que o deixava gordo e sua calça jeans sobrando no calcanhar e sentiu vergonha de si mesmo. Antes ele não ligava, mas agora queria voltar e vestir algo decente para não parecer que vinha de outro planeta em relação ao Chu Yi. Pareciam o Príncipe Encantado e o Gênio da Lâmpada (na versão pobre).
Chu Yi dirigia com suavidade. Após os pãezinhos, He Yu sentiu o sono voltar.
“Estamos chegando,” avisou Chu Yi. “Não durma.”
He Yu sentou ereto. Cinco minutos depois, entraram em um condomínio de alto padrão. Chu Yi o levou para o apartamento. Ao entrar, entregou-lhe chinelos de pelúcia com patinhos amarelos: “Minha casa. Fique à vontade.”
He Yu achou que era uma piada com chinelos infantis, até ver Chu Yi calçar um par idêntico, mas marrom. Ele segurou o riso. Esse Alfa é fofo demais, pato! Mas os chinelos serviam perfeitamente. Será que ele comprou para mim? He Yu parou de sonhar acordado.
O apartamento tinha trezentos metros quadrados. A decoração azul e branca o fazia sentir-se em um aquário. O estilo era abstrato e despojado: tapete azul com uma baleia gigante, paredes em degradê, sofás curvos e móveis de design exótico. À primeira vista era estranho, mas logo se tornava acolhedor. He Yu percebeu que a casa gritava “aversão a regras”.
Uma senhora de avental apareceu: “Jovem Mestre, a refeição está pronta.”
Chu Yi assentiu. He Yu achou curioso. Na casa de Jiang Yue Nan o chamavam de “Jovem Mestre Chu”, aqui era apenas “Jovem Mestre”. Em qualquer um soaria arrogante, mas em Chu Yi a nobreza era natural. He Yu quase esquecia que ele era podre de rico, já que ele agia como um “parceiro doméstico” perfeito quando estavam juntos.
Sentaram-se para comer. A mesa estava farta, com pratos que exalavam um aroma divino. Após comerem, Chu Yi perguntou: “Que horas foi dormir?”
O tom era de preocupação genuína. He Yu sentiu um calor no peito. “Quase seis da manhã.”
“Está cansado de viver?” ironizou Chu Yi. “Estamos no nono andar. Quer que eu te ajude a pegar um atalho?”
He Yu engoliu em seco, deletando a sensação de “calor no peito”. Após o almoço, He Yu perguntou: “Irmão, quando vamos correr?”
Chu Yi o levou até um quarto que parecia o principal.
“Irmão, por que aqui?”
Chu Yi o puxou pelo braço. “Não vamos corr—” Antes que He Yu terminasse, Chu Yi o ergueu e o jogou na cama. O colchão era tão macio que ele quicou. He Yu nem sentiu dor, só teve vontade de pular de novo.
“Durma.” Chu Yi o cobriu.
“Mas a corrida…”
Chu Yi franziu a testa, irritado: “Você quer morrer?”
Quero… mas também quero dormir. He Yu agradeceu mentalmente ao namorado pela cama. O lençol azul tinha o perfume limpo do Alfa, trazendo uma paz imediata.
He Yu dormiu até as quatro da tarde. Ao acordar, sentiu o corpo leve. Lembrou que não era sonho: estava na casa de Chu Yi. Saiu do quarto e viu o Alfa no sofá, de pijama bege, lendo calmamente. Parecia uma foto de revista.
He Yu engoliu em seco e se aproximou. Olhou o título do livro: 《Como virar noites sem sofrer morte súbita?》.
Capítulo 19
Fonts
Text size
Background
Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
...