Capítulo 40
Capítulo 40
He Yu percebia perfeitamente as mudanças em Chu Yi, mas não se dava conta das suas próprias.
Quando chegaram em casa depois da escola, Chu Yi, em um acesso de generosidade, preparou o jantar para cinco pessoas. O arroz veio de um delivery, somado a um grande saco de carne seca que Yuan Li trouxe, com opções de porco e boi. Todos se amontoaram ao redor de uma mesinha, comendo e jogando conversa fora.
He Yu notou que, quando Chu Yi estava com esse grupo de conhecidos, ele conseguia dizer algumas palavras — ou melhor, se esforçava para dizer.
“Vocês dois não esqueçam de tomar os remédios”, Li Jinhang lembrou com seriedade, sempre preocupado. “Nós três estamos de olho, não quebrem as regras, ouviram?”
“Sabemos,” He Yu encheu um copo de água e brindou com ele. “Pode ficar tranquilo, eu sei muito bem o que estou fazendo.”
Ele lançou um olhar para Chu Yi, que comia com os olhos baixos, e assentiu confiante, indicando que, apesar de Chu Yi não estar normal, ele saberia manter o equilíbrio.
Li Jinhang: “…”
Desta vez, quem estava sendo enganado por si mesmo finalmente não era ele.
“Vocês dois cometeram uma infração hoje ao meio-dia”, Li Jinhang mudou de assunto seriamente; Xin Tao dissera que não adiantava tentar alertá-los agora, seria desperdício de energia. “Da próxima vez que ficarem sozinhos, não pode passar de dez minutos.”
“Quando a gente for dormir junto, você vai sentar do lado com um banquinho para vigiar?” Chu Yi lançou um olhar para ele, e a temperatura da sala caiu bruscamente.
“Cacete! Não dá para falar com calma?!” Li Jinhang murchou na hora. Xin Tao tirou o casaco e jogou sobre a cabeça dele; ele se encolheu e só então se acalmou um pouco, tremendo enquanto apontava para Chu Yi: “O que… o que você… ganha me congelando desse jeito, porra!”
“Paz.” Chu Yi resmungou.
“Cacete! Eu vou—”
“Se não for comer o tomate, eu como tudo.” Xin Tao, calmamente, pegou o último pedaço de tomate com açúcar.
Jinhang foi distraído na hora, pegou os pauzinhos e roubou o pedaço, colocando-o na boca e dizendo de forma abafada: “Zhu meng, dou shi die de.” (Sonha, é tudo do papai.)
He Yu observou tudo e ficou cada vez mais convencido de que Jinhang e Xin Tao eram dois personagens com muita história para contar. E a história deles provavelmente estava no mesmo livro.
“Um passo em falso e a vida se destrói… Dançar para sobreviver… Dançarinas também são gente… A dor no coração…”
He Yu tateou o bolso e tirou o celular com dificuldade: “Alô? Liu’er, o que foi?”
Chu Yi franziu levemente o cenho. Aquele Liu’er era um Alpha.
“Irmão, aquela ‘colherzinha’ que você pediu para eu vigiar apareceu de novo, a garotinha Omega. Desta vez trouxe um moleque, os dois estão sentados abraçados, e não me parece boa coisa…”
“Merda!” He Yu quase esmagou o copo na mão, olhou para os quatro Alphas e rangeu os dentes: “Jiang Yue Nan foi para a OTE com aquele moleque.”
Os quatro estagnaram simultaneamente. Quando levantaram a cabeça, a fúria ardia em seus olhos.
Chu Yi foi o mais rápido. Pegou o celular e disse com a voz sombria: “Fique de olho. Se aquele moleque ousar encostar nela, dê um corretivo. Eu assumo a responsabilidade.”
Liu’er estranhou a voz desconhecida, mas tinha o dom de reconhecer pessoas. Em dois segundos, lembrou que era o acompanhante de He Yu daquele dia e assentiu imediatamente: “Missão dada é missão cumprida.”
“Chego aí já, peça para alguém te render e entre no bar.” He Yu levantou-se num salto.
“Beleza, Irmão Yu, não precisa correr, eu estou de vigia”, disse Liu’er.
Como He Yu não ficaria ansioso? Que tipo de lugar era a OTE? Jiang Yue Nan realmente estava pedindo problemas. Ela achava que aquele pivete podia protegê-la? Se desse algo errado, ele seria o primeiro a fugir. Além disso, uma estudante de ensino fundamental, delicada… não faltavam clientes que gostavam de Alphas novos por lá… No fim, não haveria proteção nenhuma, os dois acabariam chorando abraçados.
Sem nem arrumar a mesa, todos saíram. Dividiram-se em dois táxis: He Yu e Chu Yi em um; Xin Tao, Li Jinhang e Cheng Haoyan no outro.
Normalmente, um Omega recém-marcado temporariamente não deve ir a lugares caóticos, pois o excesso de feromônios Alpha pode causar mal-estar. Mas a constituição física peculiar de He Yu podia até demorar para se manifestar, mas nunca falhava. Sua reação à febre de união aguda foi infinitamente mais dolorosa e perigosa que a de outros, mas em troca ele ganhou uma resistência absurda; até o cheiro de melancia mais comum podia causar desconforto a um Alpha comum e subjugá-lo.
Um Alpha comum diante dele era como ele diante de Chu Yi — um pintinho que podia ser abatido a qualquer momento. Por isso, trabalhar na OTE agora não seria problema nenhum para ele.
Só que, no caso de Chu Yi, era imprevisível; ele já ficara de mau humor só de ver o representante de literatura hoje cedo. Se He Yu fosse trabalhar de verdade, Chu Yi seria capaz de demolir o bar. He Yu não percebeu que seu pensamento mudara de “não quero que ele seja possessivo” para “meu irmão é tão ciumento, tenho que dar um jeito de acalmá-lo”.
O motorista fez manobras no limite da lei por meia hora até o grupo se reunir na porta da OTE.
“Esse é lugar para ela vir?” Li Jinhang olhou para as pessoas em volta e achou que ninguém ali prestava, soltando um palavrão.
“Da última vez, se eu não estivesse vigiando, quem sabe o que teria acontecido”, He Yu estava tão tenso que queria fumar. “E ela ainda teve a audácia de vir de maria-chiquinha. Só de olhar já fico preocupado.”
“Hã?” Jinhang virou-se, confuso.
“Ontem mesmo prendemos um tarado que atacava menores de maria-chiquinha, e hoje ela aparece assim”, He Yu não se conteve e enfiou a mão no bolso de Chu Yi procurando cigarros. Não achou nada; Chu Yi parara de fumar desde que He Yu adoeceu. Ele apenas coçou o nariz. “Na hora pensei que os pais dessa garota deviam ter algum problema para não cuidarem dela.”
“Problemas graves”, disse Chu Yi. “Vamos entrar.”
Liu’er e Sizi estavam de plantão e o cumprimentaram: “Irmão Yu, o Irmão Feng não te deu folga?”
“Deu,” He Yu não parou para conversar, respondendo às pressas: “Vim buscar alguém.”
Entraram bem na hora do movimento, o bar estava lotado. A banda no palco seguia um estilo pesado, com som no máximo e luzes coloridas que faziam a cabeça latejar. He Yu já estava acostumado; em segundos localizou Liu’er e, seguindo o olhar dele, avistou os dois jovens sentados juntos.
“Ali!” gritou He Yu.
Os “irmãos” olharam na mesma direção.
“Na verdade, não deveríamos interferir no namoro dela”, gritou Xin Tao também, competindo com o cantor que berrava “Hey young blood! Doesn’t it feel!” nos ouvidos deles. “Ela precisa perceber sozinha que esse tipo não presta.”
“Tem razão!” gritou He Yu. “Vou lá sondar primeiro! Ver em que pé está a relação deles!”
“Beleza!” gritou Li Jinhang. “Como vai fazer?”
“Vocês fiquem aqui por enquanto! Não deixem ela perceber que viemos dar o flagra!” He Yu os levou para um reservado escondido e puxou Chu Yi para os fundos.
Ao entrar na sala de descanso dos funcionários, o volume caiu drasticamente. Comparado ao barulho lá fora, parecia um paraíso silencioso.
“Irmão, vou trocar de roupa primeiro.”
“Vá.”
He Yu abriu seu armário, pegou um uniforme limpo e se trocou. Ao sair, o clima estava pesado. Liu’er, com seus 1,90 m, estava parado à porta sem saber o que fazer, olhando para Chu Yi, que estava sentado em sua cadeira batendo os dedos na mesa ritmicamente. Era a postura de quem interroga um criminoso. Liu’er era um Alpha; era natural se sentir intimidado por aquela aura.
“O que está acontecendo lá fora?” He Yu quebrou o silêncio, resgatando o colega.
Liu’er quase chorou de alívio. Ele não sabia quem era esse amigo de He Yu, mas mesmo sem demonstrar agressividade, apenas um pouco de feromônio liberado o fazia querer se ajoelhar. O que ele não sabia é que, para um Alpha nível S+, não existe “comportamento inconsciente”; tudo o que envolve feromônios é deliberado.
“Seus amigos disseram que estão vigiando, pediram para eu ver se vocês já terminaram aqui”, disse Liu’er.
“Terminamos. Vou lá falar com ele primeiro”, disse He Yu.
Quando He Yu se aproximou, o moleque estava tentando, abusadamente, abraçar Jiang Yue Nan pelo ombro para beijá-la. O Irmão Yu, furioso, deu um tapa na cabeça dele.
“Ei, garotinho, o que pensa que está fazendo? Não permitimos isso por aqui.”
Zheng Ruiqi segurou a cabeça e virou-se bruscamente, encarando He Yu. He Yu estava parado ali com o uniforme de segurança, olhando para ele com desdém. Sua expressão e postura diziam claramente: “Não fique tenso, eu não sou uma boa pessoa”.
O olhar de Zheng Ruiqi vacilou e, em menos de um segundo, ele murchou, embora sua mão ainda estivesse no ombro de Jiang Yue Nan. A garota olhou para trás, viu que era He Yu e abriu um sorriso, agarrando a mão dele: “Irmão Yu!!! Achei que você não trabalhava hoje!!!”
“E você queria que eu viesse ou não?” He Yu riu; era um grande ator e sua performance era impecável. “Não disse que ia sair no fim de semana? Por que veio para cá? É perigoso.”
Enquanto falava, analisava o moleque. Em um minuto, resumiu seu caráter: covarde, metido e aproveitador. Nenhuma qualidade.
“O Ruiqi está comigo”, Jiang Yue Nan olhou para o garoto com as bochechas coradas. “Não é perigoso.”
“Ele consegue te proteger?” He Yu não contestou, apenas preparou a armadilha.
“O Ruiqi é um Alpha, claro que consegue!” Jiang Yue Nan caiu direto no buraco.
“Hum, que bom,” He Yu assentiu, apoiando o braço no encosto do sofá perto dela, mas fixando os olhos em Zheng Ruiqi. Tirou um cigarro que pegara do Irmão Feng, colocou na boca e perguntou: “Em que série você está, pequeno?”
“Oitava”, Zheng Ruiqi respondeu tentando engrossar a voz.
He Yu soltou um som de deboche. O moleque mal saíra das fraldas e já queria dar uma de sedutor com voz grave, sem nem olhar para o próprio nível. Ele já vira a foto desse Ruiqi e achara apenas razoável, sustentado por uma aura de “descolado” mal ensaiada que só enganava meninas ingênuas como Jiang Yue Nan. Agora, vendo pessoalmente, a foto parecia mil vezes melhor que o original. Jiang Yue Nan devia ter perdido o senso estético de tanto olhar para o rosto divino do irmão dela.
“Menores de idade são proibidos aqui”, He Yu disse com o cigarro entre os dentes, olhando-os de cima para baixo com um sorriso irônico. “E agora? Eu expulso vocês ou vocês saem por conta própria?”
Zheng Ruiqi alternava entre o pálido e o roxo. Metido a valente por anos, era a primeira vez que encontrava alguém realmente intimidador. Ele ficou ali, travado de vergonha.
“Irmão Yu, você não teria coragem de me expulsar”, Jiang Yue Nan segurou a mão dele, usando toda a fofura que não usara com os outros Alphas. “Senta aqui e conversa comigo!”
O coração de He Yu amoleceu. Ele nunca contou a ninguém, mas sempre invejou o vizinho de infância que tinha uma irmãzinha que vivia pedindo doces. Naquela época, ele queria mimar a criança, mas não tinha um centavo no bolso, nem migalhas de doce. Por isso, ele gostava tanto de Jiang Yue Nan. E por isso… Ruiqi, né? Você deu azar de cruzar o caminho do Irmão Yu.
“Tá bom, tá bom,” He Yu sentou-se entre os dois e bagunçou o cabelo dela. “O Irmão Yu adora te mimar.”
“Vai para o lado direito,” Jiang Yue Nan o empurrou de leve, sussurrando. “Quero ficar perto dele.”
“Por que? O Irmão senta aqui e você já me descarta?” He Yu recostou-se, folgado, e apontou para longe. “Seguinte: seu irmão veio trabalhar comigo hoje. Vou te dar um desafio: se você conseguir encontrar ele com a ajuda do Liu’er, eu faço o que você quiser e ainda levo vocês dois para conhecerem os fundos do bar. Topa?”
A garota ficou boquiaberta. Ouvir que poderia ir à área restrita a deixou eufórica. Ela levantou, chamou Liu’er e correu para a multidão atrás do irmão. He Yu mandou mais três seguranças atrás dela; a proteção era mais rigorosa do que para qualquer cliente VIP que já passou por ali.
No sofá, sobraram apenas os dois. He Yu acendeu o cigarro, deu uma tragada e, sem olhar para o lado, disse casualmente: “Você sabe que a Jiang Yue Nan tem um irmão, né?”
“Sei, da Escola de Tongyan”, Zheng Ruiqi tentou parecer superior, mas a arrogância em sua voz era imatura. “Uma escola comum.”
“E você sabe que o irmão dela é um Alpha nível S+?” He Yu virou a cabeça e arqueou a sobrancelha. “Do tipo que te esmaga sem precisar mover um dedo.”
Zheng Ruiqi estagnou, e o copo em sua mão tremeu.
“E ele ainda tem vários amigos, todos Alphas de elite”, He Yu sorriu de forma enigmática. “Mas não precisa ter medo, os Irmãos são todos muito bem-humorados.”
Zheng Ruiqi recuou instintivamente no sofá.
“Eu sou o encarregado do bom humor,” He Yu apontou para longe com um sorriso gentil. “Eles são os encarregados da brutalidade.”
Nota do Autor:
Pode me chamar de Kongkong, Wuwu, ou Kongwuwu, mas não me chame de “Irmão Pássaro”! Que falta de respeito! (Você que me chamou assim, eu estou de olho em você. I’m watching you).
Capítulo 40
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Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
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