Capítulo 22
Capítulo 22
Carne de vaca ensopada com batatas, dois copos de suco de pêra feito na hora, tiras de pepino com conserva… He Yu sentou-se à mesa tomado por uma alegria inexplicável.
Continuava a regra de “não falar à mesa”, mas o ambiente hoje parecia mais ameno; a luz amarelada da casa antiga incidia sobre os dois, suavizando seus contornos. Chu Yi, quando não estava fazendo nada, era claramente um pouco frio, mas nesta casa, envolto pela atmosfera suave do pequeno espaço, essa frieza desaparecia. Transformava-se em uma ternura sutil que lembrava o entardecer do início de outono — tranquilo, macio, um conforto que dava vontade de se aninhar e relaxar.
Ele talvez estivesse realmente doente; ao voltar para o quarto, pegou a caneta e não conseguiu escrever nada. Só queria encostar na cadeira, fechar os olhos e aproveitar a vida.
Aproveitar a vida. Essas quatro palavras ele tentou vivenciar por dezoito anos, mas o que realmente se aproximava disso eram apenas aqueles poucos segundos de euforia após gastar dinheiro; um desfrute puro como o de hoje era a primeira vez.
He Yu não pôde deixar de pensar: Chu Yi é mesmo um cara incrível.
Chu Yi secou a louça, arrumou tudo ordenadamente no armário, tirou duas maçãs da geladeira e começou a lavá-las.
“I will keep quiet, You won’t even know I’m here……”
Chu Yi pousou as frutas, secou as mãos e foi atender o celular no quarto.
“Alô?”
“E aí?” Xin Tao perguntou. “O que o He Yu disse?”
“Acabe com ele. Amanhã de manhã vou à escola de esportes”, disse Chu Yi.
“Porra? Sério? Ele—” Xin Tao foi interrompido.
“Não encostou no He Yu”, a voz de Chu Yi esfriou, “mas teve pensamentos que não deveria.”
“……Esse desgraçado deve ter merda na cabeça”, Xin Tao hesitou, entendendo em seguida. “Como você não veio, nós também não fomos hoje. Amanhã vamos ensinar esse bosta a se comportar. Depois de resolvermos, leve o He Yu junto.”
Chu Yi resmungou um “hum”, desligou e ficou encarando o aparelho em silêncio. Por mais audacioso que Ding Wenlin fosse, ele jamais ousaria cometer o crime grave de abusar de um Omega, a menos que quisesse morrer.
Tudo o que aconteceu hoje parecia errado. Os dois iam e voltavam juntos da escola todos os dias. Como Ding Wenlin sabia que He Yu se separara dele hoje por acaso? E como calculou o tempo exato em que ele estaria longe o suficiente para não conseguir voltar imediatamente caso He Yu ligasse?
Alguém passou a informação. Alguém que sabia seu itinerário e a distância exata da escola…
O motorista!
Chu Yi sentiu um calafrio. Só havia uma pessoa capaz de controlar o motorista: sua mãe.
Ela, como esperado, não desistira. Ele estivera alerta e imaginara várias possibilidades, mas nenhuma seria tão cruel. Destruir um Omega inocente equivale a destruir sua vida inteira. Um plano tão insidioso arquitetado por sua própria mãe.
Ele e He Yu eram inseparáveis; apenas hoje se afastaram, o que significava que ela estava à espreita. Não se sabia desde quando o acordo fora feito, mas He Yu estava sendo vigiado de perto, com tentativas de eliminá-lo a todo momento.
Se hoje ninguém tivesse ido salvar He Yu… Chu Yi fechou os olhos. Se houvesse um “se”, ninguém sairia vivo.
Nas profundezas do oceano Ártico, no local mais sombrio, um redemoinho surgiu de repente, quebrando a tranquilidade frágil da superfície. O Alfa abriu os olhos; uma escuridão abissal se condensou em suas pupilas, um vermelho tingido de sangue, como se fosse o fim do mundo.
Um frio violento percorreu o ar, trazendo o cheiro de água gelada, avançando sem controle. Contudo, parou bruscamente ao tocar na parede que dava para o outro quarto, perdendo a ferocidade e envolvendo o ambiente com uma emoção terna e profunda…
O Alfa, com um desejo de posse extremo, não permitia que ninguém tocasse em seu Omega; ninguém podia sequer pensar nisso. Quem tentasse, pagaria o preço. Essa era a proteção que o Criador concedeu aos Omegas, frágeis por natureza. Ninguém ousava provocar um Omega que possuía um Alfa exclusivo.
Os genes poderosos carregavam a agressividade acumulada por gerações. O Alfa não buscava mais a competição, transformando essa natureza em proteção para quem amava. Quando um Alfa de elite é provocado, seus atos podem se tornar casos típicos de crimes brutais; e, devido ao QI elevado, muitos permanecem como mistérios sem solução por décadas…
A tela do celular brilhou. Chu Yi olhou e abriu a mensagem.
Velho Zhang: Documento.doc
Velho Zhang: Jovem Mestre, aqui estão as informações detalhadas sobre He Yu.
Chu Yi encarou a tela por cinco minutos, mas acabou bloqueando o celular sem abrir o arquivo. Um Alfa de elite controla totalmente suas emoções; quando está de mau humor, escolhe se manter ocupado: exercícios, velocidade, estudos, cozinha… O cansaço ajuda a esquecer o que incomoda.
Ele não foi confrontar Jiang Yiyun, pois seria inútil; ele tinha outros planos. Chu Yi entrou na cozinha, terminou de lavar as frutas, secou-as e colocou-as em uma fruteira. Levou-as até a porta de He Yu e bateu três vezes, ritmadamente.
A porta abriu rápido. A cabeça bagunçada de He Yu apareceu; ao ver a maçã na mão de Chu Yi, seus olhos brilharam e ele lambeu os lábios inconscientemente: “Para mim?”
“Sim,” Chu Yi não estava no melhor dos humores, mas não demonstrava. “Posso entrar?”
“Sim, claro.” He Yu riu e deu espaço para ele passar.
Chu Yi parecia ser alguém extremamente educado, incapaz de vasculhar o quarto alheio e ver o que não devia — como o uniforme do bar, o bastão elétrico ou o punhal… Ele colocou as frutas na mesa e olhou ao redor.
O quarto de He Yu era muito diferente da decoração vintage da sala: as paredes estavam cobertas de pôsteres de super-heróis, havia várias figures caras na mesa, um Homem de Ferro pendurado no armário, travesseiros do Capitão América e o cordão do abajur era uma teia do Homem-Aranha… Junto à janela, um pequeno cacto verde e cheio de vida — era difícil imaginar alguém tão desleixado cuidando bem de uma planta — embora fosse um cacto, que dispensa cuidados delicados.
“Irmão, senta onde quiser, fica à vontade.” He Yu dobrou o cobertor depressa, tentando fazer Chu Yi acreditar que o quarto já estava arrumado quando ele entrou.
Chu Yi olhou para ele. He Yu, percebendo que o quarto estava uma bagunça, começou a recolher freneticamente os cadernos espalhados pela cama. Para um Omega, a cama é um espaço sagrado; exceto pelo parceiro real, ninguém do sexo oposto deve tocá-la. Não se sabia se He Yu fora descuidado ou se fizera de propósito, mas ele oferecera o lugar sem cerimônias…
Chu Yi sentou-se na cadeira e, em um olhar casual, sua atenção foi atraída por um colar no canto da mesa. O colar parecia comum e estava debaixo de um saco de salgadinhos, amassado. Por um segundo, Chu Yi duvidou da própria memória. Mas ele não se enganaria: no aniversário da mãe de Xin Tao, foi exatamente esse colar que Li Jinhang deu de presente.
“Um milhão e trezentos mil deixados assim de qualquer jeito,” Chu Yi estreitou os olhos, ainda mais irritado. “He Zuizui, você está bem de vida, não é?”
He Yu travou, confuso: “O quê? Que um milhão?”
Chu Yi apontou para o colar com seus dedos longos, com um sorriso irônico e um olhar que dizia: “Me dê uma explicação”.
He Yu lembrou na hora. Tô ferrado. Após pegar o colar de Yan Xueyuan, não conseguiu falar com ela e esqueceu de devolver, deixando o objeto em qualquer lugar. Chu Yi realmente reconheceu o colar. Isso é que é azar.
“Isso… tem uma explicação.” He Yu assumiu um ar sério.
Na época ele não sabia que valia tanto; se soubesse, jamais teria aceitado. Claro que, para Chu Yi, o ponto principal era o fato de ele ter “aceitado o presente”, não o valor dele.
“Ah é?” Chu Yi o encarou.
“Irmão, tudo o que eu disse é verdade.” He Yu continuou fingindo profundidade.
Chu Yi apontou para a joia: “Posso ver?”
He Yu assentiu rápido: “Claro, olha à vontade.”
Dizer não seria suicídio. Chu Yi podia estar atuando, mas aquela compatibilidade de 98% era real, assim como seu instinto possessivo. Embora o autocontrole dele fosse incrível, nunca se sabe… A verdade é que He Yu simplesmente não conseguia dizer não a Chu Yi.
Chu Yi pegou o colar com o rosto sério, analisou por segundos e devolveu: “É melhor guardar isso.”
He Yu concordou, jogou o colar em uma caixa de guloseimas e o cobriu com um pacote de petiscos. Chu Yi silenciou por segundos e soltou um “tsk”: “Você é inacreditável.”
He Yu achou que Chu Yi não entendia a realidade das massas; nenhum ladrão imaginaria que um colar jogado na mesa valesse um milhão; ouro e prata a gente esconde, o que fica na mesa a gente assume que é de latão… Chu Yi não disse mais nada e saiu logo depois.
He Yu correu tirar uma foto do colar.
He Zuizui: [Imagem.jpg]
A resposta foi imediata; segunda-feira no bar devia estar tranquilo.
Irmão Feng: Não quero essas tralhas de mulher.
He Yu riu.
He Zuizui: Só queria te mostrar, não precisa ficar com inveja.
Irmão Feng: Vaza, se não tem o que fazer, vem trabalhar.
He Zuizui: É sério. A VIP de sexta, a Yan Xueyuan, me deu esse colar antes de sair.
Irmão Feng: Moleque, se continuar se gabando eu te dou um corretivo.
He Zuizui: Não se irrite, é sério. Eu pesquisei e essa coisinha vale mais de um milhão!
Irmão Feng: SUMA!
He Yu ria tanto que rolava na cama, entendendo agora o prazer que Chu Yi sentia ao irritar o Diretor Zeng.
He Zuizui: Não é para te irritar, mas você pode falar com ela? Eu não posso ficar com isso.
He Zuizui: Meu namorado quase me engoliu vivo quando viu.
Irmão Feng: Espera.
He Zuizui: Valeu, Irmão. Te mando um coração ardente.jpg
Chu Yi sempre achou que tinha um temperamento calmo, que nada o tirava do sério. Agora, parecia que as coisas mudaram. Encostado na cabeceira, mexia no celular; a tela mostrava o mar sob o sol. A cama do quarto de hóspedes era menor que a de He Yu, mal cabia ele direito, nada confortável.
Mas seu desconforto mental era mil vezes pior. Antes, ele achava que sua vontade o tornaria superior aos instintos de Alfa — como o fato de não ter períodos de sensibilidade. Achava que reações biológicas eram inúteis e que ele podia simplesmente ignorá-las.
Ele fora ingênuo. Toda a calma e indiferença do passado existiam apenas porque ele ainda não conhecera He Yu, o Omega com 98% de compatibilidade. Suas emoções eram arrastadas por cada gesto de He Yu: se ele estava feliz, Chu Yi sorria; se ele franzia o cenho, Chu Yi sofria; se ele estava em perigo, Chu Yi queria matar o culpado e trancar o Omega ao seu lado para sempre.
Ele estava perdendo o controle. Chu Yi fechou os olhos, as narinas dilatando involuntariamente em busca do cheiro do Omega. Comparado a outros Alfas, ele era racional, mas esses pensamentos eram loucura para alguém como ele. Loucura. Não deveria ter escolhido o He Yu.
Ele abriu os olhos, olhou para as informações enviadas pelo Velho Zhang e as encarou como se fossem uma escolha de vida ou morte. Trinta minutos depois, apertou o botão de excluir, levantou-se e foi bater na porta de He Yu.
A porta abriu novamente.
“Irmão, o que houve?” He Yu mastigava a maçã, segurando o celular, rindo com a boca cheia.
Chu Yi o encarou seriamente, em silêncio.
“Ei?” He Yu abanou a mão na frente dele. “Quer maçã? Tá muito doce.”
Com quem ele estava falando para estar tão feliz? O pensamento de Chu Yi desviou para um caminho sombrio. “É melhor você não falar comigo”, disse ele.
He Yu calou-se, engoliu a maçã e começou a refletir sobre o que fizera para irritar o Alfa. Será que foi a bagunça? Ele acha que sou um Omega desleixado que não merece um Alfa prendado? He Yu entrou em pânico.
Chu Yi o analisou por um longo tempo e disse, franzindo o cenho: “Eu estou muito bravo agora.”
He Yu travou. Não sabia por que, mas Chu Yi tinha aquele rosto aristocrático que, quando fazia bico, parecia uma criança dizendo: “Estou chateado, vem me agradar”. Era fofo demais!
He Yu hesitou por um segundo, mas não resistiu. Abraçou-o, ficando na ponta dos pés, com uma mão na nuca do Alfa e a outra dando tapinhas em suas costas, murmurando: “Calma, calma… não fica bravo, o Irmão faz carinho…”
Chu Yi: “……” Pior que a raiva passou mesmo.
He Yu parecia magro, mas o abraço era firme; ele tinha músculos. Por que um Omega frágil teria músculos? Chu Yi sabia que a resposta estava no arquivo que excluiu, mas não precisava mais dela. Queria que He Yu lhe contasse pessoalmente.
Ele hesitou, mas retribuiu o abraço, apoiando o queixo no ombro de He Yu e escondendo o nariz em seu pescoço. O cheiro de melancia era mais eficaz que qualquer calmante caro.
Em um canto esquecido do livro de biologia, dizia: “Alfas com Síndrome do Amor apresentam um lado oposto à sua força habitual; tornam-se sensíveis e inseguros, precisando que os Omegas os acalmem. Nesse processo, os laços se tornam profundos sob a influência de feromônios misteriosos”.
Nota do Autor:
Chu Yi: “Estou carente, vem me consolar!”
He Yu: “Não sei o que está acontecendo, mas vou fazer carinho!”
Obrigado a todos pelo apoio! Vou sortear brindes nos comentários! Beijos!
Capítulo 22
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Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
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