Capítulo 42
Capítulo 42
Os “irmãos” acabaram por acalmá-la um a um, e com uma promessa de cada, a menina finalmente conseguiu superar a dor do desamor. Quando a levaram para casa, ela se agarrou à porta e gritou, ainda desconfiada: “Vocês não podem me enganar!”
“Não vamos te enganar, agora entra e vai dormir,” Chu Yi disse, segurando a cabeça dela e a empurrando para dentro, antes de instruir a babá: “Prepare algo leve para ela comer.”
He Yu observava por trás, curvando silenciosamente os cantos da boca. Chu Yi era, na verdade, uma pessoa extremamente carinhosa; tirando a casca da língua afiada, no fundo ele gostava bastante de crianças. Basta pensar: ele fala de forma ácida com Jiang Yue Nan, mas em qual das birras dela ele não cedeu?
No fim das contas, ele era apenas durão por fora e mole por dentro.
Ai, como meu Irmão pode ser tão bom?
“Da próxima vez temos que ficar de olho mesmo,” He Yu disse, deitado na cama, sem conseguir dormir por causa da agitação da garota. “Desta vez foi na OTE, e por acaso eu mencionei o assunto com o Liu’er; senão, ninguém saberia, e se acontecesse algo, nem saberíamos onde socorrê-la.”
“Os pais dela são tão ricos, como não pensaram em contratar um guarda-costas ou algo assim para a menina?”
“Eles se divorciaram quando ela tinha seis anos,” Chu Yi disse. “Ela ficou com o pai.”
“Ah?” He Yu virou-se para olhá-lo por um momento e depois voltou a encarar o teto. “Família de pai solo, então.”
“O pai dela está ocupado procurando a amante número três, quatro, cinco… até a número cem. Não tem tempo para cuidar dela. Eu vou visitá-la sempre que posso,” Chu Yi estava deitado há menos de dez minutos quando estendeu a mão e segurou o pulso de He Yu. Com o polegar sobre a pulsação, ele sentiu o ritmo por um tempo antes de continuar: “Mas não dá para controlá-la. Ela está crescendo, e não sei de quem herdou esse temperamento; ela é muito selvagem.”
Ele fez uma pausa e acrescentou: “Parecida com você.”
“… Eu acho que a minha ‘selvageria’ é bem discreta,” rebateu He Yu.
“Se for exagerada, eu te bato,” Chu Yi apertou o osso do pulso dele, em uma ameaça que não soava nem um pouco ameaçadora. Após um tempo, continuou: “A única ‘proteção’ que o pai dela oferece é não deixá-la sair. Em casa ela está segura, mas o estado psicológico dela não entra na conta.”
“Se fosse eu, eu enlouqueceria trancado assim.” He Yu franziu o cenho. Será que, em cada dez ricos, pelo menos cinco não batem bem da cabeça? Mas pensando bem… o irmão mais novo da mãe de Chu Yi ser normal é que seria a verdadeira anomalia.
“Ela também está quase surtando, por isso eu a levo para sair de vez em quando,” disse Chu Yi. “Uma vez por mês é o que dá para aguentar.”
He Yu ficou em silêncio. Na verdade, ele sentia pena dessas crianças que só tinham dinheiro e nada mais. Era irritante dizer isso, mas essas coisas são como beber água: só quem bebe sabe se está gelada ou fervendo. Imagina ser colocado em um pote de vidro com tudo do bom e do melhor, mas proibido de sair. Quem gostaria disso? Seres humanos são animais sociais; se você impede uma criança ativa de interagir e se comunicar, é óbvio que, cedo ou tarde, vai dar problema. E problema dos grandes.
He Yu lembrou-se subitamente de que conhecia Chu Yi há um bom tempo, mas nunca tinham levado Jiang Yue Nan para sair. Ele não resistiu e perguntou: “Por que parou de levá-la?”
“Minha mãe,” ao tocar nesse assunto, ambos ficaram mais sérios, como se tivessem envelhecido dez anos subitamente. “Meu tio contou para ela, fez fofoca, e ela deu o veredito direto.”
Chu Yi tossiu, parecendo querer rir, com um humor estranhamente bom apesar do tema.
“Chu Yi, como eu te eduquei? Crianças são crianças e devem obedecer aos mais velhos, pois eles se preocupam com vocês. Sua irmã é imatura, como você pode permitir as loucuras dela? Você sabe o quanto seu tio está preocupado?”
“Eu não vi preocupação nenhuma nessa história.” He Yu sentiu um aperto no peito; bastava mencionar Jiang Yiyun para ele se sentir sufocado.
Chu Yi não respondeu, continuando a “atuação” com convicção; provavelmente estava precisando desabafar: “Seus pais se sacrificam tanto por vocês, trabalham duro todos os dias, e vocês não conseguem dar o retorno mais básico: serem ajuizados. Você me decepcionou muito. Vá refletir sobre o que fez.”
“Se levar a Nan Nan para sair de novo, você não sairá mais de casa também.”
“Cacete!” O ar sufocado de He Yu finalmente explodiu; agora, qualquer coisa que envolvesse Chu Yi o deixava fora de si. “Sua mãe não devia ir para um hospital? Não tem vaga na psiquiatria ou o quê? Isso é cárcere privado, não é? É cárcere, fala sério!”
Chu Yi moveu a mão para a boca dele, tocando seus lábios. He Yu se calou, percebendo que talvez tivesse passado do ponto. Por pior que ela fosse, ainda era a mãe de Chu Yi; não era apropriado falar assim. A sensação de asfixia voltou com tudo.
“Falou bem,” disse Chu Yi. “Continue.”
He Yu estagnou, percebendo que Chu Yi estava o incentivando a continuar os xingamentos. Em 0,01 segundo, notou que Chu Yi não estava brincando e sentiu-se aliviado; sua respiração ficou tão leve que parecia que viveria mais vinte anos.
“Olha, sua mãe tem esse temperamento competitivo, mas, na verdade, quanto mais alguém é assim, mais precisa de carinho e amor,” disse He Yu, incorporando um conselheiro sentimental, gesticulando no ar. Se houvesse uma fila de mulheres casadas chorando na frente dele, seria um grupo de apoio perfeito. “Mas o seu pai… bem, ele não a ama.”
“Ele não ama ninguém, só gosta de novidades.” Chu Yi forneceu informações extras para que a conclusão do “conselheiro He” fosse mais precisa.
“Certo, ele é um homem rebelde que ama a liberdade, enquanto sua mãe é uma mulher de negócios que precisava de um porto seguro para poder focar na carreira,” He Yu parou de gesticular e suspirou. “Não é um desencontro total? Eu não te dou o que você quer, e você não me dá o que eu quero… Um beco sem saída. E nessa situação, quem tenta ser razoável ou leva as coisas a sério é quem sai mais machucado.”
“Por isso, o pouco de sanidade que sua mãe tinha foi drenado pelo seu pai. Agora só restou a ambição de criar um império empresarial,” He Yu deu um tapinha na mão de Chu Yi, que estava quente. “Ela com certeza te amava antes, mas agora… não pergunte. Se perguntar, a resposta é que ela já amou um dia.”
Chu Yi não disse nada. O conselheiro He Yu se aproximou para confortá-lo: “Irmão, mas pense pelo lado bom: se você conseguir se libertar, imagina o quão feliz será no futuro.”
“O quão feliz?” Chu Yi perguntou.
“Sua mãe não vai mais te controlar, você herdará uma fortuna imensa, tem um grupo de irmãos maravilhosos, você…” He Yu hesitou e riu baixo: “Você vai abraçar o sol da felicidade todos os dias.”
Chu Yi o encarou e murmurou um “hum”. He Yu deu de ombros, puxou a coberta para cobrir o Alpha e continuou tagarelando: “Não tenha medo, o destino é muito generoso com os caras bonitos. Veja eu, por exemplo; só estou vivo até hoje por pura misericórdia divina. O Criador adora jovens honestos como eu.”
Chu Yi riu: “Durma logo. Boa noite.”
He Yu: “Boa noite.”
Após dizer isso, ele se deitou, olhou para o teto por um tempo e, sem chegar a conclusão nenhuma, fechou os olhos para contar carneirinhos. Não funcionou. Quando tinha preocupações, seu QI parecia descer até a Fossa das Marianas.
Na verdade, o que ele queria ter dito era: “Você tem tantos bons amigos, e você tem a mim”.
Mas pensando bem — na verdade, não teve muito tempo para pensar. Ele achava que a relação entre eles, desde o começo, parecia pouco confiável. Agora que tinham se “mordido”, hormônios inexplicáveis começaram a agir, e Chu Yi passou a tratá-lo como se estivessem namorando de verdade. O que tornava tudo ainda mais instável. As barreiras entre eles não tinham caído, e novos problemas surgiram.
Talvez seja o destino do peixinho aqui, He Yu suspirou ironicamente.
Suas divagações nunca duravam mais de dez minutos. No décimo minuto e um segundo, ele apagou. No décimo minuto e dez segundos, ele rolou naturalmente para os braços de Chu Yi. No vigésimo segundo, ele abraçou a cintura do Alpha. No trigésimo segundo, ele levantou a barra do pijama de Chu Yi, enfiou a mão e começou a apalpar o abdômen e a lombar do outro.
No décimo primeiro minuto, Chu Yi abriu os olhos, puxou He Yu para o seu colo, apoiou o queixo no topo da cabeça dele e fechou os olhos.
He Yu pensava de forma simples: se ambos sentiam esse afeto mútuo por causa da marcação temporária, bastava esperar um tempo — que ele não sabia quanto — para que o sentimento passasse. Quando chegasse a hora, eles se separariam naturalmente, de forma suave. Ambos tinham um autocontrole incrível, então nada de grave aconteceria.
Não adiantava sofrer agora; o que tivesse que ser, seria.
He Zuizui aproveitou o momento até a segunda-feira seguinte, quando o Festival Esportivo de Primavera da Escola de Tongyan começou oficialmente. Na verdade, tirando o trabalho, He Yu não era fã de esportes; primeiro porque não precisava de músculos para atrair ninguém, segundo por pura preguiça.
“Aquelas cadeiras ali, tragam cinco!” Li Jinhang estava no meio da multidão dando ordens como um patrão. He Yu se surpreendeu com a capacidade de comando de Jinhang, que era inversamente proporcional à sua inteligência.
“Mais foco! Alinhem isso direito! Você é um Omega por acaso? Seus movimentos parecem estar em câmera lenta!”
“O nosso Jinhang manda e desmanda há tanto tempo sem levar uma surra por um bom motivo,” He Yu comentou com Chu Yi enquanto se sentavam em um canto sossegado, observando Jinhang zumbir como uma abelha furiosa.
“Ninguém quer mexer com vocês,” He Yu respondeu a si mesmo. “Afinal, um Alpha de elite já é assustador, mas vocês são três juntos, e o mais absurdo é que ainda tem um nível S+. Caramba, é de se ajoelhar aos pés de vocês.”
“Ajoelhar onde?” A cabeça de Chu Yi, que estava imóvel, virou-se subitamente para ele com os olhos semicerrados.
He Yu levou cinco segundos para perceber a malícia — sentiu o rosto queimar com o teor da frase. “Cof, foi só uma metáfora,” disse ele. “Uma metáfora… não muito apropriada.”
Chu Yi não respondeu. Ficou recostado preguiçosamente, com uma mão no queixo e a outra brincando com os cordões do moletom de He Yu. Ele parecia um grande leopardo entediado — sua aura de combate era tamanha que He Yu não conseguia associá-lo a um simples gato, apenas a um felino selvagem.
O estado de espírito dos felinos é contagiante; em segundos He Yu também ficou com sono, esfregou os olhos e perguntou: “Irmão, está com fome?”
“Você está?” Chu Yi parou o que estava fazendo.
“Não, só com um pouco de sono,” He Yu admitiu.
“O revezamento de 400 metros é à tarde. Vamos sair daqui.” Chu Yi levantou-se. He Yu o seguiu, percebendo que seu Irmão ia levá-lo para “fugir” da escola.
Bem, “fugir” não era a palavra certa; seu Irmão segurou a mão dele e passou tranquilamente diante de toda a diretoria da escola. O diretor até acenou para ele com um sorriso radiante, mais afetuoso do que se olhasse para o próprio filho.
E no segundo seguinte:
“CHU YI! HE YU!!! VOCÊS DOIS QUEBRANDO AS REGRAS DE NOVO!!!” Zeng Guanghong surgiu do meio dos professores como uma entidade furiosa, correndo em direção a eles envolto em uma aura de autoridade.
He Yu não pôde evitar cantar mentalmente: A luz da retidão, ilumina a terra!
Capítulo 42
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Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
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