Capítulo 36
Capítulo 36
“Vocês não vão morar aqui mesmo?” Jiang Yue Nan fez beicinho, dizendo descontente: “Vou ficar tão entediada quando vocês se forem. Bando de Alphas sem coração.”
“Nós sem coração?” Xin Tao riu, perguntando com segundas intenções: “Então quem é que tem coração?”
Jiang Yue Nan não tinha malícia suficiente e não percebeu o subtexto da raposa velha. Cruzou os braços fingindo maturidade: “Outros Alphas! Que sejam responsáveis, tenham atitude e sejam gatos!”
“Você está falando de mim, o seu Irmão Jinhang?” A mão grande de Li Jinhang bagunçou o cabelo dela sem piedade; um novo ninho de galinha acabava de nascer.
“Com certeza não é você! Não toque na minha cabeça! Assim eu não cresço!” Jiang Yue Nan afastou a mão dele e bufou. “Vão logo, e se forem, não olhem para trás.”
“Se eu olhar, eu passo a te chamar de Irmão”, Chu Yi puxou o capuz do moletom dela, cobrindo sua cabeça e empurrando-a para dentro. “Vamos.”
O objetivo de vir era fazer algo fora do comum para provocar Jiang Yiyun, mas Chu Yi olhou para a câmera de segurança e decidiu abandonar o plano.
Ao sair da mansão, He Yu soltou um suspiro de alívio; se tivesse que dormir ali, provavelmente teria insônia. Desde a conversa amigável com Chu Yi, ele sentia seu corpo aquecer; teria febre de novo.
Quando não se sentia bem, preferia ficar em sua própria casa — mesmo sendo um jovem criado sob o socialismo, não escapava de certas superstições: se tiver que morrer, que seja em casa. Por isso, ele já tinha instruído Yuan Li: se um dia alguém acabasse com ele ou se ele mesmo fizesse alguma besteira fatal, que Yuan Li levasse suas cinzas para dar uma volta em casa após a cremação, para encerrar o ciclo e evitar que ele voltasse como fantasma.
Yuan Li disse na época: “Pode viver tranquilo. Se você morrer, eu nem te cremo, te jogo direto no mar para alimentar os peixes. É econômico e ecológico.”
Tsc, ingrato.
Ao chegar em casa, todos comeram, beberam e cada um foi para seu canto. Cheng Haoyan levou a planta para perto do sofá para observá-la de perto. He Yu lavou uma maçã para cada um e voltou silenciosamente para o quarto carregando meia melancia, duas peras e duas maçãs.
“Irmão,” ele ergueu a bandeja como se oferecesse um tesouro, “só sobrou esse pedaço de melancia, trouxe tudo para você.”
Chu Yi estava deitado na cama e acenou: “Venha aqui.”
He Yu foi saltitante. Ao parar na beira da cama, teve vontade de perguntar: “Vossa Majestade deseja que este súdito o sirva durante a refeição?”, mas claro que esse tipo de comportamento suicida não aconteceria.
“Que horas vamos ao hospital amanhã?” perguntou ele.
Chu Yi pegou um pedaço pequeno de melancia com o garfo, mastigou devagar e só então respondeu: “Vamos na hora que você acordar.”
He Yu comemorou internamente, mas continuou falando: “Acho que, com a minha habilidade, com certeza—”
“Com certeza não acorda antes das dez”, Chu Yi o interrompeu, imitando o gesto de He Yu ao dar tapinhas no lado interno da cama. “Suba.”
He Yu colocou a melancia na mesinha ao lado de Chu Yi e subiu pelo pé da cama. A experiência da noite anterior ainda estava viva em sua memória; ele jurou que nunca mais passaria por cima de ninguém nesta vida, nem mesmo do Yuan Li.
Chu Yi comia em silêncio. Com a luz acesa, He Yu não conseguia pegar no sono facilmente na frente dele; ainda lhe faltava um pouco de “cara de pau” para ser tão despreocupado. Quando o silêncio se tornava constrangedor, He Yu costumava puxar assunto.
Deitado de lado, ele olhou para Chu Yi e perguntou: “Irmão, você ouviu o que a Jiang Yue Nan me disse, né?”
Venha, garota, chegou a hora de salvar seu Irmão Yu do fogo cruzado.
Chu Yi murmurou um “hum”. Após tanto tempo de convivência, He Yu já conseguia ler a aura assassina por trás daquela expressão plácida.
“Acho que o caráter daquele moleque não vale nada”, analisou He Yu, franzindo o cenho. “Ela te contou? No começo ela foi atrás dele e foi rejeitada. Tsc, o moleque é cego? Nossa menina é nota dez em tudo.”
“Haoyan já investigou”, disse Chu Yi. “Vamos ver isso no fim de semana.”
“Eu também pensei nisso. Eles vão sair no fim de semana, e aquele pirralho não me parece boa coisa. Não fico tranquilo se não vigiar”, disse He Yu.
Os “irmãos” chegaram a um consenso. Chu Yi foi se lavar, voltou, apagou a luz, deitou-se de lado e fechou os olhos em um movimento fluido.
He Yu encostou-se na parede, recitando mentalmente: Eu não estou com frio, não preciso chegar perto do aquecedor humano, eu não estou com frio, preciso manter distância do Chu Yi, eu não estou com fome…
Nesta noite, ele realmente não sentia frio. Pelo contrário, sentia um calor insuportável, um calor agoniante que dava vontade de arrancar a roupa e tomar um banho gelado. Mas ele ficou quieto. Devia ser a febre do resfriado; ele tomou dois remédios à noite, mas o efeito ainda não tinha batido.
O Irmão Yu, incorporando um velho médico, autodiagnosticou-se e decidiu que, sendo forte e saudável, nada aconteceria. Uma situação como a de ontem, de dar trabalho para Chu Yi no meio da madrugada, não se repetiria.
O motivo? O Irmão Yu tinha amor-próprio.
…
“He Yu! Acorde! He Yu!”
He Yu dormia profundamente quando ouviu alguém chamá-lo. A voz era familiar e, caramba, era muito agradável de ouvir.
“He Yu! Você está com febre! Acorde!”
Ele forçou os olhos para abrir e quase gritou de dor. Seus globos oculares pareciam lagos secos; cada piscada era uma dor aguda. Sua visão estava embaçada como um vidro fosco, permitindo ver apenas vultos.
O alerta máximo de seus nervos soou. Instintivamente, ele levantou a mão para conter a pessoa que o segurava, mas, no instante seguinte, a temperatura do quarto caiu bruscamente. Uma névoa branca e fria pareceu surgir diante dele, aliviando o calor escaldante e o mal-estar.
Era Chu Yi.
“Irmão…” Ele baixou a mão, sentindo o corpo mole como macarrão. Só conseguia se apoiar no peito de Chu Yi, com a garganta ardendo em secura. “O que… aconteceu?”
Aquelas poucas palavras, ditas de forma trêmula, consumiram metade de suas forças. Ele começou a respirar ofegante. He Yu sentia como se houvesse uma bola de fogo escondida em seu corpo prestes a explodir, querendo cremá-lo vivo.
Cacete, ele sentiu uma onda de irritação. Que tipo de doença aparecia tão rápido? Até doenças terminais têm fases. O destino devia estar querendo levá-lo agora que ele estava vivendo melhor do que nos últimos dezoito anos.
A dor latejante em sua cabeça piorou subitamente. Ele xingou algo de forma incoerente, mordendo o lábio para não gemer, até que um fio de sangue escorreu. Ele não percebeu que o quarto estava inundado por um aroma intenso de melancia misturado ao aroma de mar gelado de Chu Yi, resultando em uma fragrância doce e refrescante.
Mas nenhum dos dois tinha tempo para apreciar aquela fusão. Chu Yi pegou duas peças de roupa e o vestiu às pressas, colocou um casaco qualquer em si mesmo e saiu correndo com He Yu nos braços.
Com feromônios tão fortes, os outros três na sala já haviam acordado, mas mantiveram distância por decoro. Ao vê-los sair, Xin Tao perguntou imediatamente: “O que houve? He Yu teve um surto de febre de união?”
“Não sei”, disse Chu Yi com o maxilar tenso, falando rápido enquanto caminhava para a porta. Cheng Haoyan abriu a porta rapidamente e o grupo correu para fora do condomínio. “O médico disse que a maior possibilidade é febre de união aguda.”
Li Jinhang conseguiu parar um carro particular. O dono abriu a janela furioso: “Vocês ficaram loucos, porra—”
Xin Tao avançou sobre ele sem tempo para conversa, agarrando-o pelo colarinho: “Hospital Municipal. Se errar o caminho, eu corto um dedo seu.”
Embora os jovens parecessem estudantes, a aura de Alphas dominantes era avassaladora. O homem hesitou por um segundo e destrancou as portas. Xin Tao sentou-se na frente vigiando o motorista, enquanto Chu Yi se sentou atrás com He Yu nos braços.
“Vão primeiro,” Li Jinhang fechou a porta com as mãos trêmulas. No frio intenso, eles vestiam apenas pijamas e casacos finos; o vento cortava a pele. “Eu e o Haoyan vamos pegar outro carro.”
“Cuidado”, disse Chu Yi.
Sob as ameaças de Xin Tao, o motorista avançou dois sinais vermelhos em direção ao hospital, mas He Yu sentia que estava chegando ao limite. Ele ouvia o que Chu Yi dizia e sentia o que faziam, mas seu corpo estava fervendo. O ar que ele expirava parecia lava; sua garganta queimava tanto que ele tremia.
Ao forçar os olhos, sua visão estava tingida de vermelho-sangue, mal conseguindo distinguir a silhueta de Chu Yi.
Febre de união aguda. Cacete, agora ferrou, não vou resistir.
Em minutos, seu corpo começou a tremer violentamente. A respiração tornou-se difícil, como se mãos invisíveis estivessem apertando sua garganta, roubando o oxigênio e esmagando seus órgãos internos.
Ele realmente sentia que ia morrer…
“Irmão…” He Yu usou o resto de suas forças para segurar a mão de Chu Yi. A dor era tanta que dava vontade de chorar, mas seus olhos estavam secos e ardendo. Ele apenas repetia, fraco e teimoso, o nome que lhe trazia paz: “Chu… Yi… Chu Yi… Eu… eu não…”
“Está tudo bem, tudo bem,” Chu Yi o apertou com força, encostando a testa no pescoço dele, confortando-o com a voz embargada. “Estamos quase no hospital, quase lá, aguenta só mais um pouco…”
Os músculos do rosto de He Yu não obedeciam mais; seus lábios tremiam e ele não conseguia falar. Ele queria abraçar Chu Yi e dizer para ele não ter medo; queria que Chu Yi voltasse a ser debochado e dissesse: “Se você morrer, eu jogo seu macarrão instantâneo fora”.
Então ele se sentaria e diria: “Irmão, não estou mais atuando, não joga fora”.
Chu Yi agora não parecia nada com o “Chu Yi” de sempre, e isso fazia o coração de He Yu doer intensamente. Com as mãos trêmulas, Chu Yi o envolvia, repetindo como em transe: “Vai ficar tudo bem, com certeza vai ficar tudo bem… aguenta, por favor…”
He Yu queria dizer que morrer não era grande coisa; ele não tinha amarras, não fazia diferença estar vivo ou morto. Seu irmão, no fim das contas, era como ele: apenas um jovem de 18 anos precoce. Por mais forte que fosse, ninguém está pronto para ver um amigo morrer nos braços.
Se Deus existe, que eu não morra na frente do Chu Yi, por favor.
Desta vez parecia ser o fim. He Yu não sabia mais se seus olhos estavam abertos. Na visão de Chu Yi, o branco dos olhos dele estava totalmente tomado por um vermelho escarlate, como se fosse explodir.
Os feromônios de Chu Yi foram liberados totalmente desde o início, envolvendo o corpo de He Yu, mas o alívio durou pouco; agora não faziam mais efeito. O médico mencionara a febre de união, mas normalmente isso atrai Alphas e deixa o Omega fraco. Por que He Yu sentia tanta dor, como se fosse entrar em combustão, e não atraía nenhum Alpha?
Deus, você é um desgraçado. He Yu amaldiçoou os céus. De tantas horas para morrer, tinha que ser justo na frente de Chu Yi? Se ele fosse para o céu, daria um soco no Criador.
“Ele está fervendo. Tem algum lenço úmido?” Chu Yi perguntou.
Xin Tao pegou um pacote no porta-luvas e, ao estender a mão para He Yu, teve seu pulso agarrado bruscamente. He Yu puxou com tanta força que quase deslocou a articulação dele.
“He Yu!” Chu Yi segurou a mão dele. “É o Xin Tao, não é um estranho, é o Xin Tao.”
He Yu estava rígido, dentes cerrados. O cheiro de um Alpha estranho o transformou em uma fera ferida, pronta para atacar qualquer um que não fosse Chu Yi.
“Sou eu, o Chu Yi. Calma, me escuta, solte.” Chu Yi abriu as mãos dele gentilmente; estavam assustadoramente quentes. Os olhos de He Yu estavam fixos, sem foco, mergulhados em vermelho.
He Yu soltou e desabou novamente contra ele. Ele não sabia de onde tirara aquela força, apenas que seu instinto dizia que nenhum Alpha além de Chu Yi era seguro — embora, sem eles, ele estivesse morrendo.
Dói. Dói tudo. A dor parecia estar rasgando seu corpo.
…
De repente, seu corpo pareceu leve. O calor e o frio se alternaram e a queimação diminuiu estranhamente. Ele piscou, sentindo uma umidade no nariz e nos lábios, como o último suspiro de vida de uma divindade antiga regando solo seco.
Os sentidos entorpecidos de He Yu perceberam Chu Yi estagnar por segundos antes de gritar: “Pare! Pare naquele hotel ali na frente!!!”
Ele sentiu Chu Yi carregá-lo para um lugar protegido do vento e ouviu a voz dele — era a primeira vez que ouvia Chu Yi soar tão descontrolado.
“O cartão! Um quarto duplo! Ninguém entra!”
“Senhor, por favor, seus documentos, ou nós—”
“Cacete, me dá o cartão do quarto agora!”
“Senhor—”
“O CARTÃO!”
“Tudo bem, segundo andar à esquerda. Deseja que chamemos um médico?”
A voz da recepção ficou para trás. No segundo andar, Xin Tao abriu a porta rapidamente. No momento em que Chu Yi ia entrar, Xin Tao não conteve a pergunta: “Você vai mesmo fazer isso?”
“Vou.” Chu Yi assentiu, com o rosto parcialmente na sombra.
No segundo seguinte, a porta foi fechada com força. He Yu entendeu imediatamente.
Marcação temporária. Chu Yi ia marcá-lo temporariamente.
Não, não pode. A primeira palavra que veio à sua mente foi “não”. Uma marcação temporária entre um Alpha e um Omega com compatibilidade acima de 70% teria um impacto imensurável na vida de ambos. Às vezes, sentimentos perdem feio para os hormônios.
Ele era um plebeu, destinado a uma vida simples. Chu Yi era de outro mundo; casaria com um Omega de elite, herdaria empresas e teria uma vida inimaginável. Se Chu Yi era o príncipe no cavalo branco, He Yu era, no máximo, o cavalariço.
He Yu gostava de dinheiro, sim, mas tinha ética. Não usaria essa situação para prender o resto da vida de um Alpha.
“He Yu,” Chu Yi o segurava no colo, o nariz roçando sua nuca. Sua voz rouca se acalmou de repente. “Eu preciso te marcar.”
“Não…” Não pode, Irmão. He Yu tentou segurar a mão dele, a voz quase sumindo. “Irmão… isso… não pode…”
“…”
“Mesmo que não possa, terá que poder.”
Nota do Autor:
O autor, segurando sua caneca de chá e sorrindo: “Acredito que todos já sabem o que vem a seguir. Para comemorar, amanhã o autor aqui vai distribuir vários redbags. (Aprendi a fazer ganchos nos capítulos).”
He Yu: “Se o destino deixar meu Irmão triste, eu acabo com o destino.”
Chu Yi: “Se for para te salvar, eu te dou não só o resto desta vida, mas a próxima também.”
Capítulo 36
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Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
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