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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 44

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Tudo desapareceu. O bipe rítmico dos aparelhos e o murmúrio de vozes angustiadas mergulharam em um vácuo absoluto. A pressão insuportável no peito se dissipou, como se o peso de mil oceanos tivesse evaporado. Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam toneladas sob uma névoa escura e intensa.

Quando finalmente a luz feriu minhas pupilas, o teto branco e estéril do hospital tinha sido substituído por gesso descascado com manchas de umidade. Minhas mãos, antes pálidas e conectadas a acessos venosos, tatearam o lençol áspero de algodão barato. Subi a camiseta freneticamente. A pele da barriga estava lisa, firme. Nenhuma cicatriz de cirurgia, nenhuma dor ardente.

Fiquei imóvel, os olhos fixos na madeira da beliche de cima. Observá-la nunca me deixou tão animado. O cheiro de antes fora substituído pelo aroma de livros velhos e meias sujas, típico de um dormitório universitário.

Pela janela, o céu era uma mancha de nanquim sem estrelas. Ao lado, o brilho azulado de um laptop iluminava o rosto adormecido do meu colega de quarto. O som do ventilador fraco e o ranger da estrutura metálica quando me sentei confirmaram o impossível: eu estava de volta!

Meus pés tocaram o chão frio. O mundo girou e precisei me apoiar na mesinha de estudos, derrubando uma pilha de livros. O baque seco ressoou no quarto silencioso.

— Cara? O que você está fazendo? — Leonardo sentou-se num solavanco, fechando o notebook com um estalo e esfregando os olhos.

Minha garganta parecia cheia de areia.

— Que dia é hoje? — A voz saiu rouca, estranha aos meus próprios ouvidos.

A data no visor do celular brilhava com a constatação de uma segunda chance. Eu estava no segundo semestre. Antes do caos que foi meu relacionamento com Dominic. Lembrei-me da minha mãe, naquele parque, vendendo lulas para pagar minhas contas, enquanto eu, raramente ia vê-la e depois da formatura me afastei completamente dela.

— Você tá estranho — Leonardo comentou, estreitando os olhos. — Quer comer algo? Você mal tocou no jantar.

— Não. — Sorri, e senti os músculos do meu rosto desacostumados com o gesto. — Estou bem. Na verdade, estou ótimo!

Leonardo paralisou por um segundo, surpreso com o tom firme. Minha coluna estava ereta, os ombros relaxados. Eu não era mais o garoto melancólico que se escondia nos cantos, que carregava o mundo nas costas.

Abri o pequeno guarda-roupa e recolhi minhas roupas. A quantidade era pouca, a mochila, ao contrário do que imaginei, não pesou quase nada. Vesti meu moletom preto surrado e caminhei até a janela.

Meu colega levantou-se imediatamente, estranhando, ele me seguiu e parou atrás de mim.

— O que você vai fazer? É proibido sair depois das onze! Você vai ser suspenso, Oscar!

— Não importa, eu não volto mais — limitei-me a dizer.

Apoiei as mãos no parapeito e saltei. Senti o vento chicotear meu rosto e o impacto sólido da grama sob meus tênis. Eu era leve. Meus joelhos não protestaram, meu corpo era uma máquina jovem e ágil novamente. Vi meu colega uma última vez, sussurrando para eu voltar, mas não dei ouvidos. Sentia a boa e velha adrenalina pelas veias enquanto me movia rápido e silenciosamente, pelas sombras dos arbustos.

Pulei o portão enquanto o segurança, distraído com uma lanterna fraca, caminhava de costas para longe. A liberdade era um gosto metálico e doce na minha boca. Era delicioso!

O segurança gritou assim que me viu do lado de fora:

— Ei! O que pensa que está fazendo? Volte aqui!

Não parei e continuei correndo desimpedidamente pela calçada.

Tudo ao redor parecia lindo. A noite estava bonita e tinha poucas pessoas na rua. Meus pés voavam rápidos e livremente pelo asfalto. Eu precisava chegar sem demora ao meu destino, para poder acreditar no que meus olhos viam e no que minha pele sentia.

Corri até o Parque de Diversões. O ar gelado queimava meus pulmões, mas era um queimar vivo, vibrante. O Parque de Diversões surgiu como um oceano de luzes neon.

O aroma de açúcar queimado e petiscos fritos me atingiu antes mesmo de cruzar o portão. As luzes da roda-gigante giravam como um caleidoscópio neon, criando imagens simétricas, refletindo nas poças d’água no concreto. As cores mudavam constantemente conforme a roda-gigante girava, pintando o concreto ao longo de sua extensão. Meus olhos vasculharam a multidão, ignorando o brilho dela e os gritos na montanha-russa.

Eu a procurei entre os rostos borrados pela alegria alheia. O contraste entre as ruas pouco movimentadas e o Parque ficou visível. Ali, havia muitas pessoas, vagando entre as barracas e os brinquedos.

— Oscar? — A voz veio por trás, pequena e aguda.

Virei-me e encontrei um garotinho de bochechas redondas e olhos curiosos. Ele era baixinho, parecia ter sete anos.

— Eu te conheço? — Perguntei.

— Não. Mas minha babá me mostrou sua foto. Vem, ela tá logo ali! — ele disse, puxando a manga do meu moletom.

Ele me arrastou pela mão em meio a multidão. Cada passo fazia meu peito se espremer. O garotinho lembrava o filho que eu tive… o filho que agora era apenas uma lembrança de um futuro que eu não permitiria que se repetisse. Comprimi os lábios até arderem, mas a dor não foi capaz de dissipar o pensamento.

Logo à frente, ele parou bruscamente. Meus lábios se entreabriram quando desviei o olhar dele para o ponto onde seus olhos estavam fixos.

Então, eu a vi. Quando estava sucumbindo, eu não tinha mais fé, desprovido de qualquer esperança ou crença em um recomeço. Mas, ao vê-la, algo em mim reviveu. Uma chama calma, porém viva, reacendeu-se no peito, senti o sangue voltar a correr, como se eu estivesse despertando de um longo sono.

Esfreguei as pálpebras com as costas da mão, sem medir a força. Minha visão embaçou por um instante antes de se ajustar novamente. Ela estava de costas, organizando os espetinhos na chapa quente. O vapor subia, emoldurando seus cabelos que, nesta época, ainda não eram totalmente brancos.

— Mãe — minha voz quebrou.

Ela estava lá. Viva. Não era uma miragem, não era outra pessoa, não havia engano desta vez.  Ela se virou bruscamente. Os olhos dela se arregalaram, e o objeto que ela segurava escapou de suas mãos.

— Oscar? Filho? — O tom dela era trêmulo.

Não esperei. Mergulhei em seus braços, enterrando o rosto em seu pescoço. Ela cheirava a tempero, fumaça e casa. O calor dela era a única coisa real naquele mundo de sofrimento que eu tinha deixado para trás.

— Eu te amo — solucei contra seu ombro, apertando-a como se ela fosse desaparecer se eu soltasse. — Eu te amo tanto!

As lágrimas escorreram em exércitos, quentes e libertadoras. O calor do corpo dela e o cheiro de tempero era inacreditável, era o alicerce que eu tanto precisava. Sentir seus braços ao meu redor, sua gentileza naquele simples gesto, era algo que não podia ser traduzido em palavras. A pele dela ficou úmida onde colei meu rosto. Nenhum de nós se incomodou com aquilo.

— Tem algo errado, filho? Por que está chorando assim? — Ela afastou-se, as mãos calejadas e frias moldando meu rosto com urgência.

— Só saudade — sorri entre os soluços, sentindo o toque dela como um tesouro recuperado.

Eu não queria — nem conseguia — secar o rosto. Menos ainda desejei me afastar daquele toque ou daquele olhar, tão único quanto valioso. No passado, nunca nos abraçamos assim, nunca lhe disse que a amava. Que tolo fui! Apertei sua cintura, trazendo-a para perto, afundando-a em meus braços.

Senti o corpo dela travar por um breve instante, surpresa pela minha franqueza, mas logo ela relaxou. Encostou sua testa e seus braços, antes hesitantes, envolveram minhas costas com firmeza, como se tivesse digerido o que acontecia naquele momento.

Só percebi que exagerava na força quando minha mãe pediu para respirar e sugeriu que fossemos sentar.

Sentados na barraca, entre um cliente e outro, ela contou quem era o menino que estava com ela. Nicolas era filho de uma vizinha. Minha mãe estava cuidando dele, enquanto a mulher não voltava de viagem e resolvia uns assuntos de trabalho.

O menino voltou a vagar pelo parque novamente, os olhos brilhando, um brilho arteiro entre uma barraca e outra. Durante uma de suas saídas, minha mãe sondou o porquê eu não estava na Universidade. Então deixei a notícia cair como uma pedra em águas calmas:

— Vou largar a faculdade, mãe. Contabilidade não é para mim. Quero gastronomia. Quero ter um negócio próprio e cozinhar com você.

Ela me estudou em silêncio. Seus olhos buscavam explicações nas minhas linhas de expressão, mas encontrou apenas uma forte determinação.

— Tudo bem — ela disse enfim, segurando minha mão. — É a sua vida. Vou respeitar sua decisão.

Ficamos em silêncio, naquele momento, a compreensão da minha mãe foi emancipadora. O pensamento de voltar a conviver com ela esquentou meu coração, mas um pensamento frio se sobrepôs no instante seguinte. E de repente, o som da montanha-russa e os gritos ao longe pareciam subitamente incômodos. Me remexi no banco de madeira, com a lembrança do meu padrasto.

— Voltar a conviver com meu padrasto vai ser difícil, mas…

— Não se preocupe. Eu o mandei embora faz um ano.

— Sério, mãe? — Perguntei, inclinando-me para frente, os olhos arregalados, sentindo o banco de madeira sob mim vibrar levemente com a passagem de um carrinho de trilhos por perto.

— Sim, meu filho. Agora somos só eu e você. — Ela colocou sua mão no meu rosto e abriu um sorriso promissor.

Os grupos de amigos e casais rindo, gastando em pelúcias caras e ingressos triplos ao redor desapareceram por um instante. Eu vi a imagem do meu padrasto queimando na minha cabeça, se despedaçando e sumindo, assim como o medo súbito de encontrar a casa envolta em dívidas e gritos.

Ali, naquele momento, o parque pareceu mudar de textura.

As engrenagens da roda-gigante, que antes pareciam ranger com uma melancolia metálica, agora soavam como uma orquestra de engenharia perfeita. O movimento das pessoas tornou-se um pano de fundo vibrante. O vento que soprava do topo das torres de queda-livre trouxe um frescor que limpou os restos de ansiedade que ainda restavam.

— Eu não sabia que você tinha tido coragem — confessei, cobrindo a mão dela com a minha. — Pensei que ele ainda estivesse… você sabe, gastando tudo o que tínhamos naquelas apostas.

Minha mãe suspirou, mas o sorriso não abandonou seus lábios. Ela parecia ter tirado um fardo das costas.

— Aquilo acabou, Oscar. Ele apostou o dinheiro que eu tinha guardado para a sua faculdade! Foi ali que eu dei o basta. Mandei que ele saísse apenas com a roupa do corpo e as dívidas dele.

— Ele tentou voltar? — Perguntei, ainda cauteloso.

— Ele tentou — ela respondeu com firmeza. — Mas troquei as fechaduras e a polícia deixou claro que ele não era mais bem-vindo.

Com aquelas palavras, eu compreendi! No futuro, quando minha mãe morreu, já estava divorciada dele. Mas sem ninguém para protegê-la; o pior aconteceu. Mas agora poderia ser diferente!

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 44
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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