Capítulo 1
Capítulo 1
O vento do final de fevereiro não era tão cortante quanto o do inverno rigoroso, mas trazia uma frieza de faca cega cortando a carne.
He Yu apertou o saco plástico do seu “shouzhuabing”, enfiou-o no bolso e caminhou para o interior do Condomínio Felicidade.
O caminho de pedras do condomínio, castigado pelo tempo, estava em frangalhos, deixando apenas um amontoado de buracos cobertos pela neve, como se fossem pequenas armadilhas. No horizonte, nuvens carregadas pressionavam o céu, indicando que a neve cairia a qualquer momento.
Irritado, ele soprou ar quente nas palmas das mãos.
O aquecimento desse condomínio azarado estava quebrado há meio mês e ninguém aparecia para consertar. Se nevasse de verdade, nem precisariam voltar às aulas; a manchete de amanhã seria: “Estudante do segundo ano do ensino médio morre congelado em casa: distorção da natureza humana ou declínio moral?”.
As lentes grossas de quinhentos graus ficaram embaçadas. Em meio à visão turva, um vulto colidiu com ele vindo da diagonal à frente, exalando uma aura marginal de “quem ficar no meu caminho, morre”.
Mesmo com os óculos embaçados, ele percebeu que o sujeito vestia apenas uma jaqueta de couro em uma temperatura de dez graus negativos. A tatuagem chamativa no pescoço, sob o efeito lúdico das lentes foscas, parecia a Peppa — a Peppa Pig.
O “Peppa Pig” ainda segurava um cano de aço e, mesmo naquele dia sombrio, usava óculos escuros enquanto virava o rosto levemente em sua direção.
He Yu baixou a cabeça.
Esse tipo de bandido de rua geralmente não possui racionalidade humana; agem como animais: quem olhar nos olhos deles, leva uma surra.
Só quando se afastaram é que ele fingiu procurar algo e olhou para trás. A névoa nos óculos havia dissipado e, pelo canto do olho, viu que o cano de aço na mão do “Peppa Pig” estava manchado de vermelho.
Houve sangue.
O Condomínio Felicidade, tirando o nome, não tinha nada de feliz. Dois dias atrás, um grupo de delinquentes espancou o último segurança até ele ir para a UTI. Desde então, o lugar tornou-se o autêntico “Condomínio das Brigas”.
Quem mandou o condomínio ser tão perto da Primeira Escola Secundária de Tongyan? Como diz o ditado: onde há muitos estudantes, há muitos problemas…
O céu parecia ainda mais escuro. O vento norte soprava nos ouvidos com um efeito paralisante; bastavam três rajadas para perder a sensibilidade.
He Yu enfiou a mão no bolso e tocou o shouzhuabing.
Ainda estava um pouco morno.
Se não voltasse logo, esfriaria de vez.
Ele deu alguns passos rápidos, mas parou bruscamente um segundo antes de pisar nos degraus da entrada.
A porta enferrujada do primeiro andar estava entreaberta. No corredor escuro como breu, a luz há muito estava quebrada; só era possível ver vagamente um pé calçado com um Converse preto de cano alto estendido no chão, com os cadarços brancos manchados de vermelho.
Puta merda, uma cena de crime? Alguém morreu?
Os cinco sentidos de um Omega são aguçados. Ele ia pegar o celular para ligar para o 110 quando parou; um fio quase imperceptível de feromônio de Alfa flutuava no ar.
O feromônio era muito fraco, ele não conseguia descrever o aroma, apenas sentiu que a temperatura externa caiu mais um grau por causa dele.
Que forte, He Yu farejou. Se o dono não estivesse em péssimas condições, provavelmente teria sido pressionado ao chão ali mesmo. Qual seria a origem da pessoa lá dentro?
Mantendo a atitude de não querer problemas, mas sabendo que uma vida estava em jogo, He Yu entrou cautelosamente.
Ele estava tenso demais agora há pouco; só ao se acalmar sentiu o cheiro de sangue no ar. O feromônio sutil devia estar se espalhando junto com o sangue.
Após garantir que não havia ninguém por perto, seu olhar pousou no dono do Converse.
Ele se agachou para examinar os ferimentos do rapaz.
O jovem era alto e magro, de ombros largos e cintura fina. Vestia uma calça cargo preta com manchas de sangue e poeira nas laterais e, na parte superior, apenas um suéter preto. Ele estava de olhos fechados, com a cabeça inclinada contra a parede e o rosto coberto de sangue; a mão esquerda, caída ao lado, também estava ensanguentada.
A atmosfera de filme de terror era suavizada pelas marcas das roupas do rapaz.
“Caramba, isso aqui compra quantos pares de Converse? O mix de marcas atravessa até as classes sociais…”
Com o rosto coberto de sangue, He Yu primeiro examinou a cabeça do rapaz; além do cabelo ser muito preto e parecer macio ao toque, não notou nada grave.
Ele resolveu segurar a cabeça do jovem para verificar se havia ferimentos na nuca, enquanto com a outra mão pegava o celular para ligar para o 120.
O rapaz, que parecia totalmente inconsciente, abriu os olhos de repente. Mesmo com o rosto ensanguentado, dava para ver que o formato de seus olhos era muito bonito; a curvatura dos cantos fez com que He Yu não sentisse medo, mas sim que, se aquele homem fosse um fantasma, seria do tipo que mataria alguém de tão bonito.
Antes que pudesse discernir se eram olhos de fênix ou de flor de pessegueiro, o rapaz agarrou violentamente a mão que ele estendera.
“Ah!!! Porra!!!” He Yu gritou, arregalando os olhos. Metade era susto, metade era dor.
Mesmo ferido assim, ele ainda tinha força para apertá-lo; a vantagem natural dos Alfas é uma merda.
“Caralho, eu vou chamar, chamar, chamar o 120!” He Yu tentava soltar a mão enquanto explicava: “Solta primeiro, porra! Solta minha mão! Dói! Dói, dói, dói!”
“Tente… chamar uma ambulância… para você ver…”
Após proferir essa ameaça arrogante, o rapaz, nada arrogante, desmaiou de novo.
He Yu ficou atônito por dois segundos e engoliu em seco.
Seu pensamento atual não era “ver o quê?”, mas sim: Essa voz é potente.
Era um pouco parecida com a voz do sujeito com quem ele teve um namoro online fracassado; ambas graves e magnéticas.
Desta vez o rapaz apagou de vez. He Yu o examinou repetidamente por um longo tempo e ele não acordou.
Havia um corte de faca no braço esquerdo, que não parecia grave; hematomas no ombro perto do pescoço; o sangue no rosto devia ser de outra pessoa, e não havia feridas no crânio.
Parecia trágico, mas não havia grande perigo, exceto pelo risco de morrer congelado se fosse deixado ali.
Não havia identidade no bolso do rapaz, mas a carteira continha mais de dez cartões bancários e diversos cartões de membro. He Yu tirou fotos de dois cartões ao acaso; se algo acontecesse depois, poderia denunciar à polícia pelos números dos cartões.
Já que ele não queria ir ao hospital, tudo bem; ele também não estava a fim de ligar para o 120, pois uma viagem custava centenas de yuans.
He Yu o apoiou pelo braço para levantá-lo.
Contando com os cinco yuans do shouzhuabing no bolso, ele mal conseguia reunir cinquenta yuans. O que cinquenta yuans fazem em um hospital? Não pagam nem um raio-X, quanto mais o transporte.
E esse cara também é uma figura: tantos cartões e nem um centavo em espécie.
O rapaz parecia magro, mas pesava uma tonelada nas costas. He Yu rangeu os dentes e pensou: Considere isso uma boa ação.
O feromônio gélido o invadiu no instante em que seus corpos se aproximaram, trazendo uma aura feroz que o envolveu subitamente.
Lá fora, uma fração do cheiro já fazia a temperatura cair; agora, em contato direto, a agressividade avassaladora do feromônio de um Alfa de nível Super S atingiu o ápice, como se estivesse na Antártida durante a noite polar, congelando todos os seus sentidos.
Se fosse qualquer outra pessoa ali, Alfa ou Omega, certamente desmaiaria no instante seguinte.
He Yu sentiu que algo estava errado. Em vez de desmaiar, o instinto gravado em seus genes fez seu corpo esquentar, a ponta do nariz ficar úmida e as pernas tremerem.
Deu ruim.
No momento seguinte, sem qualquer defesa, ele caiu de joelhos.
Acabou batendo a testa no chão diante do desconhecido.
“Eu… cacete… uh!”
Sem tempo para pensar por que reagiu tão intensamente ao feromônio de um Alfa estranho, o rapaz, agora sem apoio, desabou sobre ele. He Yu foi esmagado com tanta força que revirou os olhos e quase deu um chute para trás.
Recolhendo o pé, ele limpou o sangue do nariz e sentiu o colarinho arder de calor.
Recolhi um ancestral.
Em poucos segundos de contato, He Yu percebeu que quem estava em suas costas era um Alfa de nível Super S.
Existem menos de cem no país, com o número diminuindo anualmente; são tão raros quanto pandas gigantes. Se essa sorte fosse para ganhar skins em jogos, ele tiraria uma “Lenda Dourada” em cada tentativa.
Sorte que era ele; caso contrário, qualquer outro Omega estaria agora no chão, sangrando pelo nariz e incapaz de se levantar.
O feromônio desses Alfas de elite é assim: autoritário e irracional. Não importa se você é Alfa ou Beta, primeiro ajoelhe-se.
Para He Yu, todos os ABO são iguais. Sendo Super S ou não, ele tinha que levá-lo para dentro para salvar sua vida.
Ele lutou para se levantar, arrastou o rapaz até a porta e abriu a fechadura com a chave — sim, ele mora no térreo, o sujeito literalmente desabou na porta da casa dele.
Após deitá-lo no sofá, He Yu foi ao banheiro buscar duas toalhas e se agachou ao lado para limpar o rosto do rapaz. Pela estrutura óssea, com contornos profundos e angulares, dava para ver que o Alfa era muito bonito.
E ele era alto, com pernas excepcionalmente longas. Isso é vantagem genética; quanto mais forte o Alfa, mais perfeitos os genes. Um físico robusto é a chave para proteger o Omega, enquanto uma aparência excelente é o requisito para atraí-lo.
He Yu não tinha interesse nesses Alfas no topo da pirâmide; ele já praticava o celibato como Omega há um ano.
Ao terminar a limpeza, um rosto deslumbrante revelou-se sem obstáculos. He Yu olhou e travou.
“Esse… esse é o Irmão Chu???”
Chu Yi, aluno do segundo ano da Tongyan. Um dos raros Alfas Super S da cidade. No primeiro ano, ele teve um surto súbito de período de sensibilidade que mandou todos os Alfas de um andar inteiro para a enfermaria — uma existência nível “bug”.
A família dele ainda era podre de rica. Ele era o tipo de figura lendária que toda escola tem, em um nível totalmente diferente de um “invisível” como He Yu.
He Yu franziu a testa, encarando o rosto de Chu Yi em silêncio.
Na escola, esse cara era do tipo que atraía multidões de Omegas para tirar fotos escondidas só por beber água. Em outras palavras, havia milhares de olhos sobre ele todos os dias.
Se Chu Yi apenas transferisse cinco milhões como gratidão por salvar sua vida, estaria tudo resolvido. Mas se ele o cumprimentasse na escola — ou melhor, se apenas olhasse para ele duas vezes —, He Yu deixaria de ser um “invisível” para se tornar… uma lâmpada de alta potência sob os holofotes.
Andando e brilhando por todo canto.
Sem contar os inimigos, os fãs da escola já seriam o suficiente para acabar com ele. Ele, um “anônimo” que trabalhava à noite e recuperava o sono na carteira da escola, com seu “corpo cansado”, não aguentaria essa agitação.
Ele não resistiu e cutucou a testa de Chu Yi.
“Ai, como fui trazer um ancestral para casa?”
“Que tal… jogá-lo lá fora de novo?”
He Yu riu da própria piada.
“Ah, sério, o que eu faço agora?”
Capítulo 1
Fonts
Text size
Background
Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
...