Capítulo 58
Capítulo 58
He Yu sentia que caminhava em meio a uma névoa negra, sem fim e sem gravidade. Ele sabia que havia pegado no sono, não estava morto, e Chu Yi estava deitado ao seu lado, por isso, a princípio, caminhava despreocupado.
Não sabia como estava Chu Yi. A ferida no pescoço fora suturada na ambulância e parecia dolorosa; quanto às costas e aos braços, estavam cobertos de sangue, mas sua visão estava turva e ele não conseguira ver bem onde estavam os ferimentos…
Começou a ficar ansioso novamente, andando de um lado para o outro e, no meio do caminho, começou a correr. Por que raios não consigo sair daqui? Nos filmes, bastava sair para acordar. Ele não teria morrido dormindo, teria? E Chu Yi, o que faria sozinho?
He Yu deu dois chutes na névoa negra para descarregar a raiva. De repente, sentiu uma coceira no rosto. Estendeu a mão para tocar, mas não encontrou nada; ainda assim, a sensação permanecia. Era macio, e o toque lhe era um pouco familiar, o que o tranquilizou.
Foi sob essa sensação de familiaridade e conforto que ele abriu os olhos. À sua frente, não havia nada além da luz ofuscante do sol. A claridade atravessava suas pupilas e atingia diretamente o crânio, causando uma dor latejante que o fez fechar os olhos imediatamente.
Em seus ouvidos, ecoou como uma alucinação o som de um cano de metal batendo em seu braço; seu pulso doeu por reflexo. Porra, fiquei com trauma.
“He Yu?” Uma voz rouca e grave o trouxe de volta à razão.
He Yu esforçou-se para abrir os olhos apenas uma fresta, filtrando a luz e, na penumbra, distinguiu o rosto de Chu Yi. O coração, que estava em suspenso, finalmente se acalmou; o namorado estava ao seu lado, e isso o tranquilizava mais do que qualquer outra coisa.
He Yu levantou a mão para segurá-lo e senti-lo.
“Ah———— porra!” He Yu soltou um grito de dor, deixando o braço cair sem forças na cama. Chu Yi segurou a parte que não estava ferida para impedir que ele fizesse alguma besteira ao se mexer descontroladamente.
He Yu respirou fundo algumas vezes; a dor no pulso era tanta que ele pensou ter sido amputado.
“Não se mexa, o efeito da anestesia acabou de passar, você teve uma fratura,” disse Chu Yi, tocando seu braço. Sentou-se, colocou a palma da mão sobre os olhos dele e perguntou em voz baixa: “Sente mais algum desconforto? Seus olhos doem? E as pernas?”
“Não…” Ao ouvir a voz dele e ver sua figura, He Yu ficou completamente aliviado. A mão direita não se movia e doía tanto que ele sentia vontade de decepá-la; a esquerda conseguia mover-se apesar da dor. Ele levantou a mão esquerda e segurou a mão de Chu Yi que cobria seus olhos, tateando-a cuidadosamente. Ao sentir algumas feridas evidentes, soltou-a rapidamente e, com a voz rouca, mentiu: “Só o pulso dói um pouco, o resto está bem.”
Mentira pura. Suas costas pareciam ter levado quarenta e nove marteladas de um grande martelo de ferro; agora, até inspirar fundo fazia o peito doer e tremer. A perna que levara a pancada ele nem ousava mexer; ao menor movimento, sentia uma dor que percorria os tendões, uma fisgada que subia da panturrilha até o topo da cabeça.
Chu Yi devia estar muito mais ferido que ele. O coração de He Yu apertou-se e ele perguntou rapidamente: “Irmão, já consigo abrir os olhos. Onde você está sentindo dor? Deixe-me ver, eu preciso ver.”
“Eu já estou bem,” disse Chu Yi, afastando a mão, cujos dedos acariciaram o rosto dele com saudade antes de se retirarem, cada movimento carregado de ternura. “Está com fome?”
“Estou,” He Yu respondeu sinceramente, enquanto se adaptava à luz e inclinava a cabeça para perguntar: “Irmão, você já comeu?”
Depois de abrir os olhos, além de perceber que era dia, ele não se importou com mais nada, concentrando todo o seu olhar em Chu Yi, examinando-o de cima a baixo com urgência. A cama de Chu Yi fora encostada à sua, e ele estava sentado ao seu lado, com o rosto bonito mais pálido do que nunca, olheiras profundas e um cansaço impossível de esconder.
No dorso da mão exposta, havia vários cortes com crostas. O pescoço estava envolto em gaze, escondendo a ferida horrível, mas He Yu ainda se lembrava de como aquele lugar sangrava descontroladamente no dia anterior. O pijama largo de hospital bloqueava a visão de outros ferimentos; ele estendeu instintivamente a mão direita para levantá-lo, o que resultou em um novo grito de dor: “… Porra!!!”
“Pare de se mexer, não tenho feridas graves, não me dói nada,” disse Chu Yi, segurando o braço dele. Os dois irmãos eram imbatíveis em contar mentiras: ontem pareciam múmias e hoje Chu Yi já se movimentava para ajudar He Yu a ajeitar o cobertor. As feridas pareciam ter acendido um rastilho, explodindo em dores sucessivas, fazendo seu couro cabeludo formigar, mas sua voz nem sequer tremeu: “O médico vem logo. Daqui a pouco pergunto o que você pode comer. Assim que eu puder sair, eu mesmo cozinho para você.”
“Deixe-me ver seu braço e suas costas,” insistiu He Yu, deitado na cama, franzindo o cenho. “Eu vi tudo, estava cheio de sangue. Onde você se machucou?”
“Você mesmo disse, foram só o braço e as costas,” Chu Yi arqueou as sobrancelhas, mudando de assunto. “Você dormiu o dia todo.”
“Um dia inteiro?” He Yu usou a mão esquerda para bagunçar o cabelo. Isso significava que fora internado ontem. “Até que não foi tanto tempo. Eu cheguei a ver a polícia, para onde eles—” foram.
A frase foi interrompida quando o médico abriu a porta. Atrás dele, vinham policiais armados e investigadores. Por um instante, He Yu sentiu-se como um terrorista tentando explodir o hospital, e Chu Yi como o refém inocente que ele sequestrara.
“Acordou. Como se sente agora?” O médico entrou, mas manteve distância ao fazer as perguntas.
Sente tontura? Enxerga com clareza? Sente náuseas? Onde dói?
He Yu respondeu a cada pergunta como um aluno aplicado, observando Chu Yi pelo canto do olho. A expressão de Chu Yi não revelava nada, mas He Yu percebeu seus músculos tensos e o leve franzir de sobrancelhas. Uma aversão absoluta a estranhos.
Os livros de fisiologia diziam que, após um surto, um Alfa passava por um longo período de recuperação física e mental. Era necessário reconstruir a confiança nos outros.
“Irmão,” He Yu murmurou após responder a uma pergunta, “chegue mais perto, vamos ficar colados.”
Chu Yi aproximou-se imediatamente, acariciando o cabelo dele com suavidade e emitindo um som baixo de concordância. He Yu moveu a cabeça, esfregando-a contra a mão dele. Durante esse período, o Alfa precisava do conforto do seu Ômega, e He Yu era especialista nisso; ele era o colete à prova de balas do namorado.
Depois de examinar He Yu, o médico passou a interrogar Chu Yi, cujas respostas eram curtas e frias, com um olhar afiado como uma lâmina direcionado às pessoas na porta. He Yu alegou que não se sentia confortável deitado e pediu que Chu Yi o segurasse para encostá-lo em seu peito; só então Chu Yi relaxou um pouco.
O médico lançou um olhar de aprovação para He Yu, que ficou sem jeito de aceitar o elogio. Na verdade, ele também se sentia mal, inseguro e com impulsos violentos; apenas o contato com Chu Yi acalmava seu coração e aliviava suas emoções. Os dois eram, sem dúvida, um casal sofrido.
Que sofrimento, mas ao menos o amor é doce. O Irmão Yu já passara por muita coisa nos seus dezoito anos, então não deu tanta importância ao trauma, focando em acalmar a si mesmo e ao namorado.
Depois do médico, veio o investigador com uma pilha de papéis: termos para assinar, questionários e testes de estado mental. He Yu achou que seriam todos para Chu Yi, mas acabou recebendo uma pilha também.
“Hã?” Ele olhou para a montanha de papéis, perplexo. “Eu também tenho que preencher? Eu sou o Ômega.”
“Sim,” a investigadora sorriu com simpatia. “Dada a sua capacidade de combate, que não fica atrás da de um Alfa, decidimos observar os dois simultaneamente. Você é muito forte, rapaz.”
“… Ah, obrigado,” He Yu ficou sem graça, mas não conteve o orgulho. Lançou um olhar para o namorado e sussurrou: “Eu sou foda mesmo.”
“É incrível,” Chu Yi encostou o queixo no topo da cabeça dele, concordando. “Estou morrendo de medo.”
O inquérito durou mais de três horas. Com um Alfa de nível Super S fora de controle, os investigadores precisavam de cautela total para determinar se ele ainda era agressivo, se precisava de detenção temporária ou se podia ficar no mesmo quarto que um Ômega… Além disso, havia o Ômega incomum: um rapaz que parecia frágil e magro, mas que derrubara cinco suspeitos, um dos quais ainda estava na UTI…
Do lado do Alfa, o cenário fora ainda mais brutal: o jovem desarmado abrira caminho a sangue para salvar seu parceiro. O cheiro de sangue no local fora tão forte que até os policiais se chocaram, sem acreditar que aquela tentativa de assassinato brutal fora planejada pela própria mãe do Alfa.
O investigador escreveu na última folha: “Estado estável, necessita de observação periódica”. Despediu-se brevemente e saiu.
He Yu suspirou aliviado. Observação periódica não era nada demais; no máximo, teria de ir ao Centro de Controle de Feromônios aos fins de semana para preencher formulários. Se fosse detenção, seria um problema; ele e Chu Yi seriam separados e passariam o dia em interrogatórios… Além de Chu Yi, ele próprio enlouqueceria.
Assim que a porta se fechou, foi aberta novamente por Yuan Li, Xin Tao e os outros, todos ansiosos. Antes que o médico pudesse dizer “não se aproximem”, Yuan Li já se atirara sobre a cama chorando aos berros: “Da Yuuuu!”
“Ei, estou aqui, não morri,” He Yu riu do desespero dele, segurando a mão de Chu Yi e dando um leve aperto. “Camarada, você está chorando cedo demais. Guarde esse luto para daqui a cem anos.”
“Como vocês estão?” Xin Tao também se aproximou.
“Não precisam mais chorar,” Chu Yi olhou para eles e deu uma risada leve. O médico relaxou; como eram amigos íntimos, o Alfa não reagiu negativamente.
Yuan Li debruçou-se sobre a cama, examinando He Yu de cima a baixo. O outrora imponente Yuan Li chorava como um bebê: “Como deixaram você assim? Onde dói? Sua mão parece uma bola de tanto curativo. Deixe-me ver…”
“Só machuquei a mão,” He Yu manteve a mentira. “Exceto a mão, nada dói.”
Ah, minhas costas, meus braços, minha perna… dói pra cacete.
Li Jinhang agarrou Yuan Li pelo colarinho, jogou-o para trás e sentou-se na beira da cama com expressão séria: “Vocês dois foquem em descansar, deixem o resto com a gente!”
“Com vocês? Vocês vão conseguir peitar todos aqueles policiais lá fora?” Chu Yi bufou em sua provocação diária. “Vão lá, eu confio em vocês.”
Li Jinhang fuzilou Chu Yi com o olhar: “… Você devia ter apanhado mais! Seu ingrato!”
He Yu viu Yuan Li cair como uma bola nos braços de Cheng Haoyan. Felizmente, Haoyan agiu rápido e o amparou. Yuan Li, sem tempo para agradecer, voltou a se debruçar sobre He Yu para conferir se o parceiro ainda tinha fôlego.
He Yu tentou acalmá-lo, sem perder a chance de se exibir para Chu Yi: “São só arranhões. Eu já levei paulada na cabeça e não deu nada. Seu Irmão Yu aguenta o tranco.”
“Depois daquela vez você parou de crescer!” Yuan Li gritou, tocando na ferida.
“Pqp, eu estou muito satisfeito com a minha altura!” He Yu olhou rápido para Chu Yi.
“Você não é baixo, é muito gato,” disse Chu Yi.
He Yu virou-se com confiança. Yuan Li apenas suspirou: “Tá bom, seu namorado tem sempre razão.”
“O que dizem sobre o caso?” A pergunta de Chu Yi trouxe o clima de volta à realidade, tornando o ambiente tenso.
“Jiang Yiyun foi detida pela polícia. A empresa está um caos total, todos estão—” Xin Tao foi interrompido.
Chu Yi: “A empresa não importa.”
“Certo, direto ao ponto,” prosseguiu Xin Tao. “Seu pai voltou da romântica Paris com o seu enésimo ‘amor verdadeiro’ e decidiu intervir.”
He Yu sentiu um aperto no peito e olhou para Chu Yi. A expressão dele não mudou; ele tratava o pai e a mãe da mesma forma: estranhos desconhecidos.
“Os acionistas que apoiam Jiang Yiyun tentaram livrá-la, mas seu pai trouxe o pessoal do lado do seu avô para exercer pressão. Sob essa pressão, o resultado do exame de Jiang Yiyun saiu ontem à noite. Não soube os detalhes técnicos, mas está confirmado que ela tem problemas mentais. Pela gravidade do caso, por mais que os advogados tentem, ela não escapará da internação perpétua. Vocês estão seguros.”
O quarto mergulhou em um silêncio profundo. He Yu ainda processava. Acabou assim? A poderosa Jiang Yiyun foi presa? Chu Yi está livre? Eles ganharam a liberdade?
Ao se recostar na cama, sentiu a dor percorrer as costas, braços e pernas novamente. Ele aguentava bem a dor, então apenas inspirou fundo em silêncio. Mas algo não parecia certo. O que significava “acabou”?
He Yu cerrou os dentes. Ele e Chu Yi quase morreram. Se Chu Yi não tivesse perdido o controle e chegado a tempo, o segundo golpe teria destruído as mãos de He Yu, e o terceiro poderia ter sido uma facada fatal. Ele não sabia os detalhes do que o irmão passara, mas certamente fora atacado por muitos. Se não tivesse reagido daquele jeito… ele nem queria imaginar. Um frio percorreu suas costas.
A lei é rigorosa quanto a agressões contra Alfas e Ômegas menores de 20 anos; mesmo com transtornos mentais, o destino é o hospital psiquiátrico judiciário. Ele rezou sinceramente: que Jiang Yiyun nunca mais saísse, para que Chu Yi pudesse ter uma vida feliz.
“Alguns acionistas querem que você assuma sua posição na empresa,” Xin Tao quebrou o silêncio, olhando para Chu Yi. “O que você decidiu?”
“Não quero,” respondeu Chu Yi de forma curta e grossa.
“… Imaginei,” Xin Tao riu. “É uma batata quente.”
He Yu não entendeu o motivo da recusa, mas não questionou, pois Chu Yi sempre tinha seus motivos.
“Se eu aceitar, terei que ser o tutor legal da Jiang Yiyun,” explicou Chu Yi em seu ouvido.
He Yu estremeceu e levantou a cabeça bruscamente: “Caro camarada, de agora em diante eu te sustento! Esquece essas ações malditas!”
Chu Yi deu uma risada suave: “Hum.”
He Yu segurou a mão dele, preocupado. Sustentar alguém que tentou matá-lo? Ele tinha medo de ter pesadelos à noite. Não temia fantasmas, mas temia ter que cuidar de Jiang Yiyun.
Que situação de merda.
Nota do Autor:
O autor olha para as estrelas e diz: “Cheguei! Que sofrimento para esses dois coitadinhos.”
(Fiquem tranquilos, o pai dele é apenas um espírito livre, não vai causar problemas aos rapazes.)
Capítulo 58
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Perdi meu disfarce na frente do colírio da escola
【Completo + Extras】
He Yu sofre de Desordem de Feromônios Ômega.
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