Capítulo 45
O estalo do botão do fogão ao desligar o fogo foi o ponto final daquela manhã. O vapor da panela trazia o aroma terroso do alecrim, eu parei por um segundo, apenas observando a finalização do prato. Meus movimentos já não eram mais travados, a pele do meu abdômen, agora livre dos pontos, não repuxava mais. Estava liso, curado.
Olhei para minha mãe, que ajeitava os últimos detalhes de um prato belíssimo ao meu lado. Ver nossas mãos trabalhando juntas na bancada me trouxe o reflexo daquela noite de semanas atrás. Lembrei de como meus ombros ficaram leves quando confessei a ela sobre a intersexualidade.
Eu conseguia ver a lembrança como se ainda estivesse lá: a sala, o cheiro do perfume de Zhang no ambiente. A forma como mal conseguia desviar os olhos dela, a força que tive dificuldade para conter nos meus braços. Soltá-la me pareceu um suplício. Sem desviar os olhos, sentei-me no sofá, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam úmidos. Zhang sentou-se no chão, encostada na minha perna, uma presença que me dava força para falar. A reação dela foi a mesma das minhas lembranças.
— Mãe, eu não sou exatamente como você pensa — eu disse na época, a voz falhando. — Eu sou…
Lembrei-me do momento exato em que a palavra intersexual flutuou entre nós. Minha mãe não recuou. Ela não desviou o olhar. Ela apenas pousou a xícara na mesa — um som no silêncio — e me observou intensamente, com um olhar que transmitia o seu afeto. Zhang segurou minha mão naquele instante, o polegar dela fazendo círculos na minha pele, um lembrete mudo de que eu tinha seu apoio.
Nos dois dias que passei no hospital, foi como emergir de águas profundas e turvas. A primeira coisa que senti foi o meu corpo pesado e, por instinto, minha mão buscou o ventre. Sentia o luto pelo filho que nunca nasceria novamente — tinha sido o ponto mais difícil, mas com elas eu consegui suportar. As duas estavam lá, mesmo sem saber as raízes da minha dor. Lembrei-me das lágrimas de Zhang se misturando às minhas, e do abraço da minha mãe que veio logo em seguida, um abraço que não pedia explicações, apenas oferecia abrigo.
O apoio delas foi uma presença constante que me permitiu chegar aqui, inteiro.
Três batidas firmes na porta da frente quebraram o transe e me trouxeram de volta ao presente.
Pelo vão da cozinha, observei o homem que entrou. Ele tinha uma postura impecável, mas os ombros estavam relaxados. Eu sentia que já o tinha visto, uma sombra de reconhecimento que não conseguia fixar. Minha mãe foi até a geladeira buscar o bolo decorado, os olhos brilhando de orgulho profissional.
— Quem é o cliente, mãe? — perguntei baixo, enquanto eu polvilhava uma pitada de flor de sal sobre a carne.
— O nome dele é Pedro — ela respondeu, ajeitando a embalagem. — Conheci ele faz uns meses. É a quarta vez que ele vem buscar encomenda. No começo eu estranhei, sabe? Um empresário daquele porte, com aquele carro na porta, poderia comprar em qualquer doceria de luxo da cidade. Mas ele diz que não troca meus bolos por nada.
Ela deu uma espiada para a sala, onde ele esperava sentado no sofá, observando um quadro na parede.
— E não é só o dinheiro, Oscar. Ele é… diferente. Humilde, conversa com todo mundo, trata a gente com uma gentileza que não se compra.
Ela saiu carregando o bolo, me deixando sozinho com meus pensamentos. Pedro. O nome e o rosto finalmente se encaixaram na minha memória. No futuro que eu conhecia, aquele homem atingiria o ápice absoluto do mercado antes de uma queda vertiginosa que o deixaria na miséria. Ele era um gigante prestes a crescer, mas ainda ignorante sobre as armadilhas no caminho.
— Oscar, venha aqui! — o chamado da minha mãe me tirou da análise.
Fui até a sala. Ela sorria de orelha a orelha.
— Pedro, este é o meu filho, o Oscar.
Estendi a mão, esperando um cumprimento formal de negócios, mas Pedro era uma explosão de carisma. Ele apertou minha mão com firmeza e, logo em seguida, me deu dois tapinhas amigáveis nos ombros, rindo de algo que minha mãe disse. Ele era fácil de ler, fácil de gostar. Um ímã de pessoas.
— Seus bolos são obras de arte, Sófia! — Pedro exclamou, voltando-se para ela.
— Ah, mas o Oscar… ele é melhor do que eu — ela soltou, orgulhosa. — Devia provar o que ele acabou de tirar do fogo ali na cozinha.
Tentei intervir, sentindo o rosto esquentar sob o tom orgulhoso dela.
— Mãe, não exagera, o Pedro tem pressa…
— Eu nunca tenho pressa para uma boa comida, rapaz — Pedro me cortou, os olhos brilhando de curiosidade genuína. — Se você é metade do que ela diz, eu faço questão de provar.
Voltei para a cozinha e montei um prato pequeno, mas milimetricamente organizado. Enquanto eu o servia na mesinha de centro na sala, um pensamento frio e lógico atravessou minha mente: Pedro não era apenas um cliente. Ele era a minha chance.
Observei-o dar a primeira garfada. Ele fechou os olhos por um segundo, mastigando devagar. O silêncio na sala parecia esticar.
— Isso aqui… — ele apontou com o garfo — tem alma. É técnico, mas tem tempero de verdade!
Era a chance. Eu não a deixaria passar.
— Fico feliz que tenha gostado — disse, mantendo a voz calma, mas firme. — Na verdade, Pedro, eu estava pensando… um restaurante do seu nível precisa de um padrão de marmitas executivas que mantenha essa qualidade para os clientes que não têm tempo de sentar à mesa. Eu poderia desenvolver isso para você.
Ele parou, o garfo a meio caminho. Olhou para o prato, depois para mim, os olhos semicerrados como se estivesse calculando. O empresário carismático deu lugar, por um breve instante, ao homem de negócios.
— Um teste — ele disse, finalmente, limpando os lábios com o guardanapo. — Me traga dez amostras na segunda-feira. Se o sabor for o mesmo deste prato, a gente conversa sobre contrato.
Depois que ele saiu, o som do motor potente se afastando, minha mãe se virou para mim, boquiaberta.
— Oscar… que inteligência foi essa? Você pescou o tubarão logo na primeira oportunidade! — Ela riu, me abraçando de lado.
Recolhi os pratos e os lavei, minha mãe me acompanhou. Ela ainda tinha os lábios curvados para cima, uma expressão orgulhosa e um brilho nos olhos. Enquanto ela guardava os pratos, o semblante dela relaxou ainda mais, como se um peso invisível tivesse sido removido.
— Sabe, filho, é um alívio ver essa oportunidade surgindo agora — ela comentou, secando as mãos no avental. — A mãe do Nicolas ligou hoje cedo. Eles se organizaram por lá e ela não vai mais precisar que eu fique com ele todos os dias. A partir de agora, só vou cuidar dele raramente, em algum imprevisto.
Ela olhou em volta, para a nossa cozinha que agora exalava o aroma de sabão líquido, e sorriu.
— Mãe, vou ajudá-la sempre que a senhora precisar. Conte comigo. — Sorri para ela, colocando a última louça no escorredor e enxugando as mãos no pano de prato.
— Obrigada, Oscar. É bom saber que não vou mais precisar dividir meu tempo entre ser babá, os meus bolos e vender minhas lulas. Com você aqui, ao meu lado, o trabalho não pesa tanto.
Eu sorri, mas meus olhos estavam fixos na porta da sala, por onde Pedro passara. Aquilo era só o começo. Mesmo que o trabalho como babá de Nicolas estivesse com os dias contados, eu iria cuidar dele eventualmente, assim, minha mãe teria descanso, e eu… eu tinha planos sendo traçados na minha mente depois do aparecimento de Pedro. Eu não ia apenas cozinhar, ia lutar para conseguir algo nesta vida, e agora eu sabia exatamente por onde começar.
Capítulo 45
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...