Capítulo 42 — O Peso das Palavras
A porta do quarto se fechou lentamente.
Otávio permaneceu próximo à entrada, sem se aproximar de Mateus.
O quarto estava mergulhado em silêncio.
As cortinas permaneciam fechadas, deixando o ambiente escuro, iluminado apenas pelo abajur ao lado da cama.
Mateus continuava sentado no chão, abraçando os próprios joelhos.
O envelope com os exames estava sobre a cama, amassado pelos dedos que o haviam apertado inúmeras vezes.
Otávio respirou fundo.
Otávio: O Vinícius me contou o que aconteceu.
Nenhuma resposta.
Mateus sequer levantou a cabeça.
Otávio voltou a falar, desta vez em um tom mais baixo.
Otávio: Você não desceu para jantar.
Mateus respondeu sem olhar para ele.
Mateus: Não estou com fome.
Otávio permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois caminhou lentamente até a cama, mantendo uma distância respeitosa.
Otávio: O médico explicou tudo?
Mateus deu uma risada amarga.
Mateus: Explicou.
Silêncio.
Mateus levantou os olhos.
Estavam vermelhos e inchados.
Mateus: Você já sabe, não é?
Otávio assentiu.
Otávio: Sei.
Mateus pegou o envelope sobre a cama e o jogou na direção de Otávio.
Os exames caíram no chão.
Mateus: Então olha.
Olha o que aconteceu com a minha vida.
Otávio abaixou-se, recolheu o envelope e o colocou novamente sobre a cama.
Não disse nada.
Mateus levantou-se de repente.
As mãos tremiam.
Mateus: Eu não queria isso!
A voz ecoou pelo quarto.
Mateus: Eu tenho dezoito anos!
Dezoito!
Eu mal comecei a viver.
Voltei para a escola há poucos meses.
Finalmente fiz um amigo.
Comecei a acreditar que minha vida podia melhorar.
Agora…
Ele interrompeu a própria frase.
As lágrimas escorriam sem parar.
Mateus: Agora parece que tudo acabou.
Otávio ouviu cada palavra sem interrompê-lo.
Mateus caminhava de um lado para o outro, tentando controlar a própria respiração.
Mateus: Todo mundo decide por mim.
Meus pais decidiram.
Depois você decidiu.
Agora meu próprio corpo decidiu.
E ninguém perguntou o que eu queria.
Otávio respondeu calmamente.
Otávio: Eu reconheço que você sente que perdeu o controle da própria vida.
Mateus olhou para ele com raiva.
Mateus: Não é só o que eu sinto.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Otávio permaneceu em silêncio.
Mateus respirou fundo.
Mateus: Você consegue imaginar o medo que eu estou sentindo?
Eu não sei cuidar nem de mim direito.
Como esperam que eu cuide de duas crianças?
O quarto voltou a ficar silencioso.
Depois de alguns segundos, Otávio falou.
Otávio: Eu sou seu marido.
Mateus fechou os olhos.
Otávio continuou.
Otávio: E, se essa gestação continuar, também sou o pai desses filhos.
Essa responsabilidade não é apenas sua.
Mateus deu uma risada cheia de tristeza.
Mateus: Responsabilidade…
É só essa palavra que vocês conhecem.
Responsabilidade.
Dever.
Obrigação.
Mas ninguém pergunta como eu estou.
Ninguém pergunta se eu tenho medo.
Otávio permaneceu olhando para ele.
Mateus enxugou o rosto.
Mateus: Eu estou apavorado.
A voz falhou.
Mateus: Eu não sei o que fazer.
Otávio deu um passo à frente, mas parou antes de diminuir a distância entre eles.
Lembrava-se claramente do dia em que Mateus havia dito que não queria ser tocado.
Por isso, manteve espaço entre os dois.
Otávio: Eu não vou decidir por você nesta conversa.
Também não vou ignorar o que você está sentindo.
Mateus respirou profundamente.
Otávio continuou.
Otávio: Só quero que saiba de uma coisa.
Você não vai enfrentar esse momento sozinho.
Mateus abaixou a cabeça.
O choro voltou, mais silencioso desta vez.
Ele estava exausto.
Não apenas fisicamente.
Mas emocionalmente.
Otávio permaneceu no quarto por alguns instantes, sem dizer mais nada.
Pela primeira vez desde que se conheceram, os dois estavam diante de um problema que nenhuma ordem, dinheiro ou estratégia poderia resolver.
Restava apenas enfrentar, juntos ou separados, as consequências daquela notícia.
Capítulo 42 — O Peso das Palavras
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Correntes de Ônix
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