CAPÍTULO 18 - Cidade das Sereias
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Andre olhou para Bai Liu com uma fome tão evidente que parecia estar encarando comida.
Ele soltou uma risada rouca.
“Ainda não estou satisfeito.”
“E se um homem-peixe aparecer no meio da noite e virar meu barco…”
“… eu vou puxá-lo para cima, arrancar sua cabeça com uma mordida e devorá-lo inteiro.”
Embora estivesse falando sobre matar uma sereia, seus olhos permaneciam fixos no pescoço de Bai Liu.
Como se não fosse o pescoço de uma sereia que ele pretendesse arrancar.
Mas o de Bai Liu.
Os pensamentos de Bai Liu começaram a ficar lentos.
Era claramente consequência da queda em seu valor de sanidade.
Foi então que percebeu algo.
Andre possuía um aroma incrivelmente atraente.
Por um breve instante, Bai Liu sentiu vontade de mordê-lo.
Devorá-lo.
Se até ele estava sendo afetado daquela forma, então, aos olhos de Andre — que já havia sofrido uma alienação muito mais avançada — Bai Liu provavelmente parecia uma refeição ainda mais irresistível.
Andre estava tentando comê-lo.
Mas a resistência física de Bai Liu, sua inteligência e até mesmo seus reflexos haviam diminuído drasticamente.
Todos os atributos em seu painel estavam ficando vermelhos.
Seu valor de sanidade já estava perigosamente próximo dos sessenta pontos.
Se passasse a noite sozinho no mar enfrentando um monstro como Andre, que já havia concluído sua transformação, certamente morreria.
Precisava haver uma solução.
Alguma forma de lidar com Andre.
Mas todas as informações dentro de sua mente pareciam estar escondidas atrás de uma cortina translúcida.
Ele conseguia enxergar as respostas.
Mas não conseguia alcançá-las.
Tinha a vaga impressão de que havia preparado um plano para lidar com Andre.
Só que não conseguia se lembrar qual era.
Bai Liu piscou novamente.
Cambaleou levemente.
Então respondeu em voz baixa:
“Está bem.”
As pessoas reunidas diante das pequenas televisões quase tiveram um ataque ao vê-lo balançar daquele jeito.
Wang Shun vinha acompanhando Bai Liu desde o início.
Sabia que ele era um jogador extremamente talentoso.
Já havia visto inúmeras pessoas enfrentarem a Cidade Sereia.
Mas nunca alguém com uma força mental tão impressionante.
Wang Shun prendeu a respiração.
Sem desviar os olhos da tela.
“Ele está sendo alienado.”
“A sanidade dele está caindo para sessenta.”
“Ele está prestes a começar a ver alucinações.”
Ao redor de Wang Shun havia uma multidão de jogadores observando.
Um dos jogadores que assistia ao lado dele falou com um tom complicado:
“Sessenta pontos de sanidade.”
“A Linha da Vida e da Morte.”
Sessenta era o limite entre o real e o ilusório.
Acima desse valor, os jogadores enfrentavam apenas monstros.
Abaixo dele, precisavam enfrentar as próprias alucinações.
E isso era muito pior.
Monstros possuíam fraquezas.
Essas fraquezas podiam ser descobertas.
Investigadas.
Exploradas.
Mas as alucinações eram criadas pela própria mente.
Ninguém sabia onde estava a fraqueza de seus próprios delírios.
Nem o que era real.
Nem o que era falso.
Era por isso que jogadores com alta resistência mental possuíam uma vantagem tão enorme.
E também por isso que Bai Liu havia chamado tanta atenção desde o início.
Jogadores facilmente assustados.
Ou facilmente contaminados pela influência mental dos monstros.
Frequentemente tinham sua sanidade reduzida abaixo de sessenta.
Depois disso, a taxa de mortalidade disparava.
Muitos acabavam enlouquecendo ou morrendo aterrorizados pelas próprias alucinações.
Por isso, entre os jogadores, aquele limite era conhecido como:
A Linha da Vida e da Morte.
A plateia suspirava com pesar.
“Ele foi muito bem até agora.”
“Demorou bastante para a sanidade dele cair abaixo de sessenta.”
“Sem itens para restaurar a sanidade, ela só vai continuar diminuindo.”
“Parece que ele está com um pé na cova.”
“A Cidade Sereia tem uma taxa de conclusão de cinquenta por cento.”
“Mas para novatos que não conhecem a estratégia…”
“… a taxa de sobrevivência é menor que um por cento.”
“Não teve um novato que conseguiu passar da última vez?”
“Teve.”
“Mas qual foi o resultado?”
“Foi o único entre mais de cem novatos que conseguiu concluir a fase.”
“E saiu do jogo com apenas vinte e cinco pontos de sanidade.”
“Completamente louco.”
“Esse novato provavelmente vai enlouquecer também.”
Enquanto isso, os marinheiros pareciam assistir a um espetáculo divertido.
Prepararam dois pequenos barcos.
Um para Andre.
Outro para Bai Liu.
Os dois seriam deixados sozinhos naquelas águas profundas.
Bai Liu parecia confuso.
Ficava parado junto à grade do navio.
Com uma expressão quase vazia.
Chegou até a pedir um cobertor extra aos marinheiros.
Disse que talvez sentisse frio durante a noite.
O marinheiro olhou para ele com deboche.
Depois colocou dois ou três cobertores grossos dentro do barco.
E falou com um sorriso estranho:
“Tenha uma boa noite, Sr. Bai.”
“E durma bem.”
“Isso se conseguir acordar amanhã.”
Bai Liu apenas sorriu.
“Eu vou acordar.”
Ao redor do navio principal estavam presos diversos pequenos barcos.
Cada um deles ocupado por pescadores que pareciam criaturas das profundezas.
Os pescadores possuíam uma aparência assustadoramente semelhante à de Andre.
Na escuridão da noite, apenas pequenas lanternas iluminavam os barcos.
Sob aquela luz fraca, seus olhos brilhavam com um verde fantasmagórico.
Os barcos balançavam suavemente com as ondas.
Mas os pescadores permaneciam imóveis.
Completamente imóveis.
Todos encaravam Bai Liu.
Que permanecia em pé no barco, abraçado ao cobertor.
As guelras que começavam a surgir perto de suas orelhas tremiam levemente.
Abrindo e fechando.
Produzindo um som quase imperceptível.
Como predadores que acabavam de encontrar uma presa.
Andre estava em outro barco, não muito distante de Bai Liu.
Havia saliva escorrendo pelos cantos de sua boca.
Seus olhos brilhavam com o mesmo tom verde sinistro dos pescadores.
Ele encarou Bai Liu e sussurrou com a voz rouca:
“Bai Liu…”
“Pegue esse seu cobertor idiota e vá dormir no fundo do mar.”
O grande navio começou a se afastar lentamente.
Antes de partir, um marinheiro gritou que voltaria para buscá-los na manhã seguinte.
Bai Liu observou os arredores.
Além de Andre, havia vários pescadores em pequenos barcos que não haviam acompanhado o navio principal.
Eles permaneciam ali.
Remando lentamente.
Aproximando-se cada vez mais.
Cercando-o.
Mesmo com a mente enevoada pela alienação, Bai Liu conseguia entender perfeitamente a situação.
Naquele lugar, ele era a criatura mais fraca.
Uma simples “larva”.
Se passasse a noite cercado por aqueles pescadores famintos, seria despedaçado e devorado em menos de meia hora.
E isso sem contar Andre.
Que o observava o tempo todo.
Como um predador esperando o momento certo para atacar.
Pular no mar para escapar também não era uma boa ideia.
Bai Liu ainda estava sofrendo os efeitos da alienação.
Ele conseguia respirar normalmente pela boca e pelo nariz.
Mas as guelras próximas às orelhas não pareciam possuir nenhuma função respiratória.
Pelo menos não ainda.
Ele não sabia se conseguiria respirar debaixo d’água.
E mesmo que conseguisse…
Jamais seria capaz de nadar mais rápido do que Andre ou do que aqueles pescadores completamente transformados.
Pular do barco significaria apenas trocar uma morte por outra.
Morrer afogado no mar.
Ou morrer sendo devorado na superfície.
Além disso, Bai Liu ainda precisava cumprir a missão relacionada ao Navio do Amor Verdadeiro.
Ou seja, enquanto lutava desesperadamente para sobreviver, ainda teria que passar a noite inteira tentando conquistar Andre.
Tudo isso enquanto sua sanidade continuava despencando.
Era praticamente impossível.
Wang Shun abaixou lentamente a caneta com a qual vinha fazendo anotações.
Soltou um suspiro sincero.
“Que pena.”
“O melhor item para vencer essa aposta seria a Bolha d’Água.”
“Ela afasta os homens-peixe.”
“Com duas delas e três ativações seria possível sobreviver até o amanhecer.”
“É caro.”
“Custa cento e quarenta pontos.”
“Mas funciona.”
“Se Bai Liu não tivesse gastado seus pontos de forma tão aleatória antes, teria sido fácil passar por esta parte.”
O jogador ao lado dele concordou.
Segurando o próprio peito, balançou a cabeça.
“No fim das contas, ele ainda é um novato.”
“É normal cometer erros.”
“Esse Bai Liu tem seus momentos brilhantes.”
“Mas na maior parte do tempo parece estar improvisando.”
“Um defeito típico de iniciantes.”
“Acho que acabou aqui.”
Os poucos espectadores que ainda restavam começaram a se dispersar.
Estavam prestes a ir embora.
Então algo aconteceu.
O barco de Andre balançou violentamente.
Uma figura saltou para cima dele.
Não.
Não era uma pessoa.
Era uma sereia.
A criatura abriu a boca repleta de dentes afiados.
Sorrindo.
E atacou Andre.
Os espectadores que estavam saindo congelaram imediatamente.
Wang Shun empurrou os óculos para cima e avançou alguns passos.
“O que está acontecendo?!”
“Os pescadores e Andre não deveriam estar atacando os jogadores?”
“Por que essa sereia está atacando Andre?”
A sereia era feroz.
Ela surgiu das profundezas.
Virou-se sob a superfície da água.
E saltou para dentro do barco de Andre.
Pegando-o completamente desprevenido.
Então cravou os dentes em seu pescoço.
Andre soltou um grito horrível.
As guelras em seu corpo tremiam sem parar de dor.
Sangue negro e fétido jorrou para todos os lados.
Espalhou-se pelo barco.
Parte dele caiu no mar.
Misturando-se com a escuridão das águas.
O cheiro de sangue espalhou-se rapidamente.
E naquele instante…
Todos os pescadores reagiram.
Um som estranho ecoou de suas gargantas.
Como se estivessem engolindo saliva.
Seus olhos começaram a se mover lentamente.
Todos.
Sem exceção.
Voltaram-se para o barco de Andre.
O cheiro de comida vindo dele era irresistível.
Os barcos que antes cercavam Bai Liu mudaram de direção.
Um após o outro.
Convergindo para Andre.
Então veio o som.
O som de mastigação.
Alto.
Violento.
Ensurdecedor.
As sereias começaram a se lançar sobre o barco.
Arranhando.
Mordendo.
Rasgando.
Andre entrou em pânico.
Tentou saltar para o mar.
Mas várias sereias agarraram seus tornozelos.
Puxando-o de volta.
Mais e mais criaturas subiam para o barco.
Como uma maré viva.
Andre ergueu os braços.
Gemendo.
Choramingando de dor.
Sua fala já era incompreensível.
E então desapareceu.
Engolido completamente pela montanha de sereias famintas que o devorava.
CAPÍTULO 18 - Cidade das Sereias
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Me Tornei um Deus em um Jogo de Terror
Depois de perder o emprego, Bai Liu acabou envolvido com um jogo de transmissão ao vivo de terror imparável, cheio de diversos monstros e jogadores com intenções...