Capítulo 46
Quando passei pela primeira vez pelo portão da faculdade de gastronomia, quis sapatear, porque não era uma simples entrada. Para mim, parecia a linha de largada. O peso da mochila nas costas, com meu dólmã engomado, era leve e trazia uma sensação satisfatória para mim.
Caminhei pelo pátio sentindo o burburinho dos outros alunos, o som de conversas sobre temperos, técnicas e estágios. O ar ali cheirava a planos para o futuro. Quando entrei na cozinha industrial na primeira aula, o brilho das bancadas de inox me cumprimentou como um velho conhecido. Apenas mais novo e mais profissional que o da minha casa.
— Postos de trabalho, pessoal! — o instrutor anunciou, e o som de vinte e oito pessoas se movimentando criou uma sinfonia de organização.
Ajustei meu dólmã, sentindo o tecido firme contra o peito. Ao prender os botões, meus dedos roçaram a altura da cicatriz, agora escondida e silenciosa. Ela não era mais um estigma, era apenas a marca de que eu tinha deixado o passado para trás e estava refazendo minha vida aos poucos.
Minha primeira tarefa foi um mise en place básico. Enquanto minha faca batia ritmadamente contra a tábua, reduzindo cebolas a cubos milimétricos, percebi que minha mão não tremia. O domínio que eu exercia sobre a lâmina era o mesmo que agora exercia sobre minha vida, com uma agilidade quase impressionante.
Ao final do primeiro prato, limpei minha bancada com um zelo quase sagrado.
O calor da cozinha pedagógica era diferente do calor de casa, era uma pressão vibrante, carregada de expectativas e do som metálico de várias facas batendo em uníssono. O segundo desafio do dia estava escrito no quadro branco em letras garrafais: O Desosse e a Clarificação.
Eu estava diante de um frango inteiro. O instrutor, chamado Chef Rodrigues, com seus movimentos impacientes, caminhava entre as bancadas como um General em inspeção.
— A anatomia não perdoa erros, senhores — dizia ele, a voz projetada. — Se cortarem o tendão errado, a peça perde o valor. Se perderem a calma, perdem a técnica.
Respirei fundo, sentindo o dólmã apertado nos ombros. A faca de desossa em minha mão parecia uma extensão dos meus dedos. Olhei para a ave sobre a tábua e, por um segundo, a imagem da mesa de cirurgia de semanas atrás piscou na minha mente. A conversa entre minha mãe, eu e Zhang, a recuperação, os cuidados das duas comigo. Mas afastei as lembranças com um movimento de cabeça. Hoje, não queria deixá-las emergir. Foquei meus pensamentos no domínio da faca.
Meus dedos tatearam as articulações com precisão. Comecei o primeiro corte junto à quilha, sentindo a resistência da carne. Era um trabalho de milímetros. Enquanto meus colegas lutavam com ossos quebrados e respirações ruidosas, eu mergulhei em um silêncio absoluto. Cada movimento era um exercício de controle que eu tinha aprendido muito antes na vida: saber onde pressionar e onde ceder.
— Limpo — murmurou Rodrigues, parando atrás de mim.
Ele observou a carcaça que eu acabara de remover, perfeitamente íntegra, sem uma grama de carne desperdiçada. Não sorri, apenas assenti. O verdadeiro desafio vinha agora: o Consommé.
A clarificação exigia paciência. Eu observava a manta de claras de ovo e carnes moídas subir à superfície da panela, agindo como um filtro para as impurezas do caldo. Era um processo de limpeza. Eu estava ali, filtrando o que era turvo para deixar apenas a essência transparente e dourada.
Nesse momento de espera, pensei na semelhança entre aquilo, Zhang e minha mãe. O apoio delas era como aquele filtro, removendo os meus receios até que sobrasse apenas a minha confiança. Quando o tempo acabou, passei o líquido pelo pano de linho com uma delicadeza quase profissional.
O resultado no prato fundo era um líquido âmbar, tão límpido que se podia ver o desenho no fundo da porcelana.
— Técnica impecável, Oscar — Rodrigues sentenciou, provando uma colherada. — Você tem mãos de quem já entendeu que a cozinha é, acima de tudo, disciplina.
Saí da faculdade com o dólmã manchado dentro da minha mochila, mas com a mente cheia de ideias para futuras receitas. Ao passar pelo portão, Zhang estava me esperando em frente a um táxi. Ela sorriu assim que me viu.
— Minhas aulas terminaram mais cedo, então passei aqui para te buscar. Estou curiosa sobre como se sentiu… E então, chef? — Zhang perguntou assim que entrei no táxi, o sorriso maior que antes.
— Foi só o primeiro dia — respondi, fechando a porta e sentindo o perfume dela. — Mas eu me senti muito bem, já sei exatamente o que vou preparar para a próxima aula.
— Ainda não acredito que mudou para gastronomia, mas conhecendo o seu talento para cozinhar, me pergunto porque não fez isso antes — Zhang refletiu, me observando com um brilho prateado nos olhos.
— Eu sei, eu deveria ter feito isso muito antes.
Ia falar mais, mas não deu, pois o celular vibrou dentro da mochila. Eram notificações de Pedro, pedindo que eu fosse até a empresa para saber o resultado do teste das dez marmitas.
Vinte minutos depois, estávamos no endereço da mensagem. Eu e Zhang subimos o elevador panorâmico do edifício comercial onde funcionava a sede da empresa de Pedro. O reflexo no espelho mostrava nos dois, minha mão segurando a alça da minha mochila e Zhang admirando a vista lá embaixo.
A secretária apenas acenou para que eu entrasse, enquanto Zhang ficou do lado de fora me esperando. O escritório de Pedro era vasto, com janelas que engoliam a cidade, mas ele mesmo estava longe da imponência da sua sala. Ele estava em pé, junto à janela, com uma das minhas marmitas vazias sobre a mesa.
— Você me deu um problema, Oscar — Pedro disse, virando-se com um sorriso largo que preenchia o cômodo. Ele caminhou até mim e, novamente, deu aquele aperto de mão firme que agora parecia um selo de confiança. — Meus clientes aprovaram o seu tempero.
Ele apontou para a cadeira à frente de sua mesa.
— Todas as amostras foram vendidas. O feedback foi unânime: sofisticação com gosto caseiro. — Pedro sentou-se, cruzando os braços e me encarando com respeito. — Eu não dou parabéns por educação, dou por resultado. E o seu resultado foi impecável. Quero manter você e suas entregas de forma mensal. Vamos assinar um contrato de exclusividade para fornecimento?
— Com uma condição, Pedro — respondi, mantendo o tom calmo, sentindo as rédeas finalmente firme em meus dedos. — Quero autonomia total sobre o cardápio sazonal. Também vou assinar o contrato, mas sem exclusividade.
Pedro soltou uma gargalhada curta e deu um tapa na mesa.
— Além de cozinhar como um mestre, sabe negociar. Fechado.
Ao sair do escritório, o corredor parecia mais largo, mais iluminado. Zhang se conteve até entrarmos no elevador. Ela pulou nos meus braços assim que dei-lhe a confirmação que pedia. Quando me parabenizou, ela ria alto. Peguei o celular e liguei para casa. Minha mãe atendeu no primeiro toque.
— Mãe? — eu disse, parado ao lado de Zhang, observando o horizonte da cidade através do vidro. — Nós conseguimos o contrato. Inicialmente são poucas encomendas, mas isso é mais que o suficiente!
Pelo tom de voz dela, eu sabia que ela estava sorrindo. Eu tinha o apoio de Zhang na logística, o talento da minha mãe ao meu lado e, acima de tudo, o controle da minha vida.
Fim
Capítulo 46
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...