Capítulo 47 Extra
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- Capítulo 47 Extra - Primeira Confissão
O sol do meio-dia pairava sobre o pátio, mas, no alto do terraço, uma brisa insistente cortava o calor, bagunçando os fios de cabelo e trazendo o murmúrio das vozes que subiam dos corredores.
Lá embaixo, o movimento era frenético: grupos se amontoavam sobre apostilas riscadas, olhos cansados devorando fórmulas de última hora. O calendário na parede da entrada, com os dias riscados um a um até a formatura, aumentava a ansiedade. Para alguns, o tempo escorria como areia fina; para outros, cada minuto passava como as águas de um rio parado.
— Vou falar com ele antes da cerimônia. — Zhang bateu a palma da mão no banco de madeira descascada, fazendo a poeira levantar.
Ela se inclinou para frente, os olhos brilhando com uma intensidade que Oscar não conseguia sustentar. Ele desviou o olhar, sentindo as mãos úmidas. Dentro dele, algo se debatia — um enxame de asas invisíveis batendo contra as paredes do estômago, subindo até a garganta.
Enquanto Zhang desenhava planos no ar com gestos largos, Oscar oferecia apenas um repuxar de lábios que quase não chegava aos olhos.
— Eu acho que não consigo, Zhang…
— Eu vou com você! Fico do seu lado o tempo todo.
Oscar imaginou a cena por um segundo e sentiu um calafrio.
— Não! — Oscar soltou uma risada nervosa, quase um engasgo. — Uma confissão a três? Seria vergonhoso!
O sinal tocou, agudo e impiedoso, rasgando a conversa.
Os dias seguintes foram uma sucessão de batimentos cardíacos erráticos. À noite, Zhang encarava o teto, ensaiando o rosto de Eugênio na escuridão, sentindo o peito dar solavancos cada vez que imaginava o encontro. Oscar, por outro lado, sentia o aperto aumentar. Sempre que cruzava com Dominic nos corredores, o ar parecia carregar-se de estática, e, no momento de abrir a boca, as palavras derretiam.
No último dia, todos estavam no meio da cerimônia de formatura, recebendo seus diplomas. Os corredores estavam desertos e silenciosos, exceto pelo som da adrenalina martelando nos ouvidos de Oscar.
— É agora ou nunca — sussurrou Zhang.
— Boa sorte — ele respondeu, a voz falhando.
Eles se envolveram em um abraço apertado, um refúgio antes da confissão. Oscar sentiu o perfume de frutas do shampoo dela e, num impulso de gratidão e desespero, beijou a bochecha da amiga.
Naquele instante, Eugênio dobrou a esquina.
O rapaz estacou. Viu a mão de Oscar acariciando os cabelos negros de Zhang e o rosto dele inclinado sobre o dela. O brilho nos olhos de Eugênio se apagou instantaneamente, como uma vela soprada pelo vento. Do outro lado, Dominic também assistia à cena, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de confusão e dor.
Dominic deu meia volta em silêncio, os passos pesados ecoando no sentido oposto. Nenhum dos irmãos se viu, mas ambos carregavam a mesma certeza amarga que sufocava qualquer resto de coragem: os boatos eram reais. Eles se amam.
Oscar viu Eugênio se afastando e deu um leve empurrão no ombro da amiga. Zhang respirou fundo e correu.
— Espera! — ela gritou, parando na frente dele, o peito subindo e descendo com força, o rosto corado pelo esforço. — Você… você caminha rápido demais.
Ela tentou sorrir, buscando a conexão de sempre, mas Eugênio mantinha o corpo rígido, o olhar fixo em um ponto vazio atrás dela.
— Fale logo, estou com pressa — ele disparou. As palavras saíram secas, cortantes como as lâminas.
— Eu soube que você vai para a Europa depois da cerimônia… mas antes, eu queria muito te dizer uma coisa. — Zhang mordeu o lábio inferior, um sorriso trêmulo começando a surgir.
— É verdade. Alguns boatos nesta escola não são mentira — ele retrucou, a voz carregada de uma amargura que ela não reconheceu.
Zhang franziu o cenho, o nariz enrugando levemente. A frieza dele era uma barreira de gelo que ela tentava quebrar com o calor do seu nervosismo.
— Você deve estar ansioso… ou triste por ir embora de repente — ela arriscou, tentando suavizar o clima.
— Me sinto feliz por ir embora — ele a interrompeu. Cada palavra parecia um espinho saindo da garganta. — Não tem absolutamente nada que me faça querer ficar aqui.
Eugênio cruzou os braços com força, apertando os próprios bíceps para esconder o tremor das mãos. Ele selou os lábios, prendendo o grito de “eu te amo” que lutava para sair.
O sorriso de Zhang murchou. Seus ombros caíram, e a luz que parecia emanar dela se extinguiu.
— Entendi… — Sua voz baixou para um sussurro oco. — Sabe, eu esqueci o que ia dizer. Não era nada importante. Boa viagem para a Europa.
Ela baixou a cabeça, deixando que o cabelo caísse como uma franja sobre os olhos que começavam a arder. Sem esperar resposta, ela deu meia volta e correu para longe. O que era aquilo que sentia? Aquela dor no peito era um mistério. Jamais a sentira antes, era um aperto ardente que, por um instante, a fez esquecer de tudo, menos da vontade de chorar.
Eugênio ficou parado sob o céu azul impiedoso. Ele cravou os dentes no lábio até sentir o gosto de sangue, impedindo-se de chamá-la. O sol, indiferente, iluminou as lágrimas silenciosas que finalmente venceram a barreira e riscaram seu rosto, selando o adeus que o tempo se encarregaria de tornar definitivo.
Capítulo 47 Extra
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...