Capítulo 48 Extra
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- Capítulo 48 Extra - - Primeira Confissão
No segundo andar, o mundo parecia ter retido o fôlego. O corredor da diretoria estendia-se como um deserto de cerâmicas polidas, banhado por colunas de luz dourada que atravessavam as janelas. Em extremidades opostas, Oscar e Dominic eram estátuas. A ausência de palavras parecia fazer o silêncio zumbir nos ouvidos.
Dominic deu o primeiro passo. O estalo do seu tênis soou como um tiro no vazio. O peito de Oscar subia e descia em um ritmo descompassado, e seus olhos travaram nos de Dominic. Havia um incêndio silencioso naquela troca de olhares, uma urgência que tornava o ar difícil de respirar.
Os lábios de Oscar se entreabriram. Dominic parou, prendendo o fôlego, esperando que o som finalmente quebrasse a tensão, mas a voz do outro morreu antes de nascer.
— Dominic… — a voz de Oscar saiu rouca quando conseguiu falar, quase um sussurro. — Eu preciso te falar uma coisa.
— Pode falar. Estou ouvindo.
Aquela era sua chance. Ele tinha que aproveitar, pensou Oscar. Ao longo de três anos, seus sentimentos nunca ganharam voz. Se não fosse agora, quando seria? Depois de tanta espera e daquele desejo ardente no peito, por que não falava desinibidamente? Quando estava com Zhang, toda vez que citava o nome de Dom, soltava um suspiro; as palavras criavam asas e voavam! Mas ali, nada saía.
Nesse ínterim, Dom não entendia o que Oscar teria para falar. Em três anos, houve apenas troca de olhares. Dominic nunca tivera coragem de convidá-lo para sair, não por medo, mas pelos boatos. Zhang sempre estava ao seu lado e todos no colégio diziam que eram namorados — e os boatos eram reais. Ainda assim, sentia que, talvez, pudesse se declarar agora. Mesmo que fosse rejeitado, precisava falar.
Com essa constatação, Dominic deu mais dois passos. Oscar, com as mãos tremendo levemente ao lado do corpo, recuou um passo. Reuniu forças e, quando a coragem estava na ponta da língua, um vulto atravessou seu campo de visão.
— Achei você! — A irmã de Helena surgiu do nada, a voz estridente estilhaçando o momento. Ela agarrou o pulso de Dominic com força. — O professor está te caçando por todo canto, vamos!
Ela o puxou. Dominic hesitou por um segundo e olhou por cima do ombro para Oscar, mas seus pés seguiram os passos dela. Oscar permaneceu parado, observando as costas de Dominic desaparecerem enquanto sentia as frases não ditas se acumularem em seu estômago. O enxame de asas invisíveis iam morrendo um a um.
Enquanto Oscar caminhava, submerso e de cabeça baixa, à procura de Zhang, Helena saía da sala vazia do diretor com um brilho risonho nos olhos, alimentado pela desilusão dele. O que ela fazia ali era um mistério, mas, pela fresta da porta, assistira a tudo. Por um instante, temeu que algo acontecesse entre os dois e seu coração se apertara. Durante três anos, ela se alimentou dos boatos no colégio sem jamais se sentir ameaçada, sabendo que entre Oscar e Zhang havia apenas amizade — embora ninguém mais acreditasse nisso. Mas, hoje, pareceu que o boato finalmente morreria e Dominic descobriria a verdade. Graças à irmã, porém, isso não aconteceu. Seus lábios se curvaram, revelando dentes brancos em um sorriso satisfeito enquanto ela seguia os rastros de Ana e Dom pelo corredor.
Dentro da sala dos professores, o silêncio era diferente: era pesado e artificial. Dominic percorreu o local vazio com o olhar e depois fixou-o em Ana. A sala tinha cheiro de papel xerox e as mesas e cadeiras estavam impecavelmente organizadas, prontas para o encerramento do ano letivo. Suas sobrancelhas se juntaram em um vinco agressivo.
— Por que me trouxe aqui? — A voz dele soou seca, quase um comando.
Ele puxou sua mão com tal força que os dedos dela foram forçados a ceder.
Ana não recuou. Suas bochechas queimavam em um tom carmesim e suas mãos, escondidas nas costas, torciam-se nervosamente. Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma intensidade que fazia Dominic querer desviar o rosto.
— Eu gosto de você. Por favor… aceite os meus sentimentos. — As palavras saíram em um fôlego só. — Desde o primeiro dia, eu não consigo pensar em mais nada.
— Não. — O tom de Dominic foi seco, despido de qualquer hesitação. Ele sempre se sentira desconfortável sob o olhar dela, uma observação constante que o fazia sentir-se vigiado, não amado.
— Não? — O rosto de Ana empalideceu.
— Não. Eu não suporto você. — Ele girou nos calcanhares, a maçaneta estalando sob sua mão.
No corredor, ele passou por Helena como se ela fosse parte da pintura, sem sequer notar sua presença.
Lá dentro, o som de um soluço engasgado rompeu o silêncio da sala. Helena entrou devagar, encontrando a irmã com os ombros caídos e o olhar opaco.
— Ele me rejeitou, Helena… disse que não me suporta — soluçou Ana.
Helena sentou-se ao lado dela, o olhar perdido na parede oposta.
— Eu avisei. Ele fez o mesmo comigo.
Ela abraçou a irmã, e Ana desabou, o choro transformando-se em um lamento baixo e amargo. Apesar da dor, Ana ainda guardava um resto de esperança. Não tinha desistido totalmente e voltaria a se declarar. Mesmo que levasse meses ou anos, ela não desistiria dele! Helena, por sua vez, mantinha o pensamento fixo em uma resolução: ela mudaria aquilo. Dominic não as trataria daquela maneira. Algum dia, ela se tornaria a sombra dele, seu braço direito.
O sinal tocou pela última vez, e a massa de alunos inundou a calçada, deixando a escola para trás.
Enquanto isso, Dominic buscava Oscar pelos corredores, mas só o encontrou no pátio externo. De longe, o viu caminhando ao lado de Zhang. Os moletons deles se roçavam a cada passo, a proximidade sugerindo uma intimidade que Dominic não conseguia alcançar.
— Vamos embora? — A voz de Eugênio brotou ao seu lado. Ele também observava a dupla, com um brilho triste no olhar, alheio aos sentimentos de seu irmão mais velho, Dominic, e submerso nos seus.
— Vamos — Dominic respondeu. Sua voz soou vazia, conformada. Ser rejeitado doeria menos do que ver aquilo.
Dominic concluiu que, o que quer que Oscar tivesse a dizer, ele agora tinha certeza de que pertencia a outra pessoa.
Oscar, ao chegar em casa, sentiu a atmosfera mudar antes mesmo de fechar a porta. O cheiro de álcool e o som de móveis sendo arrastados indicavam o tumulto. Seu padrasto estava de pé no meio da sala, com o rosto vermelho de fúria.
— Sua mulher imunda! — o homem berrou.
— Não fale assim da minha mãe! — Oscar avançou, mas o braço da mãe se interpôs, firme.
— Não vale a pena, Oscar. Pare.
— Está dizendo que eu não valho nada?! — O homem avançou, movido por um impulso cego. O punho dele cortou o ar em direção ao rosto de Sófia.
Oscar entrou na frente. O impacto do soco no maxilar o fez cambalear, sentido o gosto de sangue na boca.
Foi o limite. Sua mãe o puxou pelo braço, trancando-os no quarto enquanto os gritos e chutes do lado de fora da porta continuavam. O homem vomitava coisas que pareciam sem sentido, algumas sílabas soltas passavam pelas frestas da porta.
No quarto, em silêncio, Sófia abriu uma gaveta e estendeu um envelope a Oscar. Ao ler o documento da faculdade e o formulário do dormitório, o coração dele apertou.
— Você está me mandando embora, mãe?
Ela sentou-se na beira da cama, os olhos cansados mas decididos.
— Você vai ter paz lá. Vai poder estudar sem medo, sem brigas. É o melhor.
— Eu não posso te deixar com ele!
— Eu vou lidar com isso, Oscar. Não se preocupe, filho. — Ela sustentou o olhar, estendendo a mão para limpar a linha fina de sangue no seu lábio inferior. Os olhos dele tremeluziam, ansiosos.
Ela não mencionou as dívidas do ex-marido, nem os cobradores que rondavam a casa ocasionalmente. Para que ele voasse, ela teria que ser o escudo que protegia suas costas. Não importava a distância, se seu filho estivesse em paz, o resto pareceria sem importância.
Pouco tempo depois, as malas foram feitas. Oscar partiu para o dormitório da faculdade, levando consigo o laço familiar que desenvolvera com Zhang — a única que restara quando tudo mudou. Ela, por sua vez, havia se tornado mais reclusa após a morte da avó, enterrando-se nos livros na faculdade para não ter que sentir o vazio da casa.
Dominic e Eugênio partiram para o exterior. No aeroporto, Eugênio encarava o celular, os dedos pairando sobre o nome de Zhang, o desejo de ligar para ela queimando ardentemente, mas então a tela ficou escura e o desejo foi expulso para longe. Dominic olhava pela janela do avião, a imagem de Oscar e Zhang no pátio grudada em sua mente como uma fotografia velha.
Eles cruzaram o oceano levando malas cheias de roupas e corações transbordando de palavras sufocadas. O amor, que deveria ter florescido, tornou-se apenas uma lembrança do que poderia ter sido, se tivessem tido a coragem de falar antes que o silêncio se tornasse um muro.
Daquele grupo, apenas Estêvão não conseguia ficar parado, batucando os dedos no apoio de braço com um sorriso que teimava em permanecer. Enquanto os outros iam em silêncio, ele já mergulhava no mapa do campus, o peito vibrando com a mesma intensidade das turbinas lá fora.
Capítulo 48 Extra
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...