Capítulo 11: A Última Noite
A noite cobre a aldeia Powhatan.
O céu está repleto de estrelas.
A lua ilumina as cabanas e as trilhas silenciosas entre elas.
A maioria dos habitantes já está dormindo.
Mas nem todos.
Em sua cabana, Pocahontos está sentado sozinho.
Não consegue dormir.
Cada vez que fecha os olhos, vê Kocoum.
Vê a luta.
Vê John sendo levado pelos guerreiros.
E ouve novamente as palavras de seu pai.
“Por sua causa…”
Seu coração dói.
Então ele se levanta.
Sem fazer barulho.
E sai da cabana.
A aldeia está silenciosa.
Apenas o som distante dos grilos quebra a quietude da madrugada.
Pocahontos caminha pelas sombras.
Passando pelas fogueiras quase apagadas.
Até chegar a uma pequena cabana usada para manter prisioneiros.
Dois guerreiros vigiam a entrada.
Eles o reconhecem imediatamente.
Guerreiro: — Pocahontos.
Pocahontos: — Quero vê-lo.
Os dois trocam olhares.
Hesitantes.
Mas acabam abrindo passagem.
Lá dentro…
John Smith está sentado próximo à parede.
As mãos amarradas.
O rosto cansado.
Mas seus olhos se iluminam quando vê Pocahontos entrar.
John Smith: — Pocahontos…
Pocahontos se aproxima lentamente.
Por alguns instantes nenhum dos dois fala.
A tristeza é grande demais.
Então Pocahontos se ajoelha diante dele.
Seus olhos estão marejados.
Pocahontos: — Me desculpe.
John balança a cabeça imediatamente.
John Smith: — Não.
Pocahontos: — Eu deveria ter impedido tudo isso.
John Smith: — Você não podia saber o que aconteceria.
Pocahontos: — Eu trouxe você para aquele lugar.
Sua voz falha.
Pocahontos: — Eu deveria ter deixado você ir embora naquele dia.
John o observa com carinho.
Mesmo naquela situação.
Mesmo sabendo o que o espera ao amanhecer.
Sua maior preocupação ainda é Pocahontos.
John Smith: — Não é culpa sua.
Pocahontos: — Kocoum está morto.
John Smith: — Eu sei.
Os dois permanecem em silêncio.
A dor daquela perda paira entre eles.
Depois de alguns instantes…
John fala novamente.
John Smith: — Eu não me arrependo de ter conhecido você.
Pocahontos ergue os olhos.
John Smith: — Nem por um segundo.
As lágrimas finalmente escorrem pelo rosto do jovem indígena.
Pocahontos: — Não diga isso.
John Smith: — É verdade.
Pocahontos: — Amanhã…
Ele não consegue terminar a frase.
John entende.
E sorri tristemente.
John Smith: — Amanhã ainda não chegou.
Pocahontos segura suas mãos.
Com força.
Como se não quisesse soltá-las jamais.
Mas naquele exato momento…
Uma voz ecoa atrás deles.
Furiosa.
Chefe Powhatan: — POCAHONTOS!
Os dois se viram imediatamente.
O líder está parado na entrada.
Seu rosto demonstra raiva.
Mas também decepção.
Uma profunda decepção.
Os guerreiros abaixam a cabeça.
Claramente intimidados.
Powhatan entra na cela.
Seus olhos permanecem fixos no filho.
Chefe Powhatan: — O que você está fazendo aqui?
Pocahontos se levanta.
Pocahontos: — Pai…
Chefe Powhatan: — Eu fiz uma pergunta.
Pocahontos: — Eu precisava vê-lo.
Chefe Powhatan: — Precisava?
A voz do líder se torna ainda mais dura.
Chefe Powhatan: — Depois de tudo o que aconteceu?
Pocahontos: — Pai, por favor…
Chefe Powhatan: — Não!
O silêncio toma conta da cela.
Até John fica imóvel.
Powhatan aponta para John.
Chefe Powhatan: — Este homem trouxe sofrimento ao nosso povo.
Pocahontos: — Ele não matou Kocoum.
Chefe Powhatan: — Ele estava lá!
Pocahontos: — Ele tentou impedir a luta!
Chefe Powhatan: — Basta!
A voz do chefe ecoa pelas paredes.
Pocahontos se cala.
Mas não recua.
Powhatan respira profundamente.
Tentando controlar a própria emoção.
Chefe Powhatan: — Eu perdi um guerreiro.
Chefe Powhatan: — Minha tribo perdeu um filho.
Seu olhar encontra o de Pocahontos.
Chefe Powhatan: — E você continua defendendo este estrangeiro.
As palavras machucam.
Porque parte da dor do líder vem do sentimento de traição.
Pocahontos reúne coragem.
Pocahontos: — Eu o amo.
O silêncio se torna absoluto.
Até o vento lá fora parece parar.
John arregala os olhos.
Os guerreiros ficam imóveis.
E Powhatan simplesmente encara o filho.
Sem dizer uma palavra.
Por vários segundos.
Longos segundos.
A expressão do líder mistura choque, tristeza e confusão.
Como se todas as certezas que possuía tivessem acabado de ser abaladas.
A madrugada continua avançando.
E, pela primeira vez, pai e filho se encontram em lados completamente opostos de um mesmo destino.
Capítulo 11: A Última Noite
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POCAHONTOS
No ano de 1607, quando navios ingleses chegam às terras da Tribo Powhatan em busca de riquezas, dois jovens de mundos completamente diferentes têm suas vidas transformadas para sempre.
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