Capítulo 22: Ovos manchados de sangue
Desde que chegaram ali, eles já tinham feito várias refeições preparadas pela mãe das trigêmeas.
Embora cada refeição tivesse um sabor próprio, uma coisa era certa: quase todos os ingredientes usados eram extremamente “veganos”; ou seja, nenhum dos pratos continha qualquer vestígio de carne vermelha. Se tivessem sorte de ter um ovo no prato, isso já era considerado uma refeição equilibrada ideal para emagrecimento. Na verdade, até mesmo um único ovo já era melhor do que qualquer uma daquelas refeições sem carne — Xu Xiaocheng já havia reclamado disso inúmeras vezes, completamente insatisfeita com a falta de carne.
No entanto, a refeição de hoje era claramente diferente, pois o que flutuava naquele caldo claro e fumegante eram almôndegas de um vermelho vivo. A cor delas era estranhamente atraente, às vezes revelando um tom profundo de carmesim. O aroma rico atingiu as narinas de todos, estimulando os sentidos. Se não tivessem acabado de testemunhar uma cena de assassinato horrivelmente grotesca, todos certamente já teriam se rendido à tentação e começado a comer.
“Comam,” disse a mulher. “Hm? Por que ninguém está comendo? Eu fiz isso só para vocês.” Seu cabelo estava desgrenhado, e seu rosto carregava um sorriso estranho. Ela ficou ao lado da mesa e insistiu levemente: “Vamos, comam. Está muito delicioso.”
Ninguém levantou os hashis; todos estavam imóveis como estátuas.
Embora as almôndegas parecessem inegavelmente apetitosas, todos estavam obviamente pensando na mesma coisa assustadora — de que tipo de carne aquilo teria sido feito?
“Hm? Que estranho? Por que vocês não estão comendo?” Completamente confusa, a mulher continuou insistindo. Ela arrumou o cabelo atrás da orelha, curvou-se levemente e pegou seus hashis, alcançando uma almôndega.
“Está muito gostoso.”
Ela levou a almôndega à boca e a devorou inteira. Pedaços da carne vermelha e suculenta ficaram presos entre seus dentes brancos; o jeito como ela mastigava alto enquanto a gordura escorria pelos lábios fazia parecer que aquilo era algo extremamente delicioso.
A visão nauseante fez Xu Xiaocheng novamente cobrir a boca com as mãos, tentando conter a vontade de vomitar. Os outros também não estavam melhores, mas a mulher não parecia perceber. Ela pegou outra almôndega e a colocou na boca, com uma expressão de puro prazer enquanto engolia vorazmente.
“Crunch. Crunch.”
A cada almôndega que ela comia, seu rosto ficava mais satisfeito. Lá do fundo de sua boca vinha um som surdo, semelhante ao de ossos frágeis sendo mastigados. Xu Xiaocheng finalmente não aguentou mais aquele som perturbador. Empurrou a cadeira e correu para o banheiro.
Um a um, os outros também se levantaram da mesa, querendo ficar o mais longe possível daquela mulher e de sua panela fumegante de almôndegas.
Percebendo finalmente o terror deles, mas aparentemente incapaz de entender o motivo, a mulher murmurou para si mesma:
“A comida que eu fiz não está gostosa? Mas todos gostam, todos gostam de comer!”
A sala ficou em silêncio absoluto. Ninguém disse uma palavra. Naquele momento, todos sentiam falta daquele pão seco e sem graça de antes; pelo menos aquilo era algo simples, sem problemas, e não causava tanta repulsa.
Enquanto alguns ainda estavam sentados à mesa, as duas irmãs restantes apareceram. De mãos dadas, ficaram imóveis na porta, observando em silêncio a mãe se empanturrar.
Sendo o mais próximo delas, Lin Qiushi as observou discretamente pelo canto dos olhos. Depois de um tempo, confirmou exatamente o que Ruan Nanzhu havia dito: uma das meninas tinha pó brilhante no ombro, enquanto a outra tinha no cabelo. Lin Qiushi lembrou que Ruan Nanzhu havia dito que a que tinha pó no ombro era Xiao Shi e a que tinha pó no cabelo era Xiao Tu — o que significava que a menina assassinada só podia ser a mais velha das trigêmeas, Xiao Yi.
Como antes, as duas irmãs idênticas desapareceram de forma tão repentina quanto surgiram. Depois de ficarem um tempo na porta, simplesmente sumiram no ar.
O almoço foi tão desagradável que todos acreditavam que o jantar não poderia ser pior. Mas quem poderia imaginar que a anfitriã traria um grande pote de caldo de ossos fumegante.
A sopa estava cheia de ossos, carne e rabanetes cozidos, e novamente o aroma rico atacava as narinas de todos.
Eles já tinham pulado várias refeições, e ver aquele pote de caldo fez suas expressões ficarem ainda mais feias, ainda mais pálidas do que quando viram o ensopado anterior.
Zhang Xinghuo não conseguiu deixar de xingar baixinho:
“Todo santo dia não tinha porra nenhuma de carne quando eu queria comer… e agora tem uma caralhada disso. Olha só quanta carne a gente tem hoje.”
“Você tem coragem mesmo de comer isso?” Tang Yaoyao também estava irritada. “Deus sabe do que isso é feito.”
A mulher viu que ninguém pegava os hashis, mas não tentou mais convencê-los. Em vez disso, como se ninguém mais estivesse ali, simplesmente pegou a concha, serviu uma boa quantidade e tomou o caldo. Mesmo sem ninguém ter provado, estranhamente parecia delicioso.
“Ah, que delícia.” A mulher suspirou satisfeita. “Que pena que nenhum de vocês está comendo.”
Assim, os indivíduos famintos que não comiam há um dia inteiro ficaram apenas assistindo a mulher devorar uma panela inteira de sopa cheia de carne e ossos.
Depois que ela terminou de comer, todos se reuniram e, em silêncio, começaram a mastigar o pão seco e intragável.
“Sabem, essa sopa até parece gostosa.” Zeng Ruguo disse, relutante em abandonar a comida na mesa. “Será que a gente realmente não pode comer nem um pouco? Nem uma provinha?”
“Você nem sabe do que diabos isso é feito.” Tang Yaoyao retrucou, exasperada. “É tão difícil assim ser homem e aguentar alguns dias? Não pode ter paciência? Espera até voltarmos ao nosso mundo original, aí você faz o que quiser. Quer comer até o estômago explodir, quer beber até não aguentar mais, quer até mergulhar numa banheira de ensopado de almôndegas? Vai fundo. Ninguém vai te impedir.”
“Além disso, e quanto ao corpo da garotinha? Para onde a mãe dela levou o cadáver?” Xu Xiaocheng perguntou em voz baixa.
Ela então franziu o nariz e fingiu olhar para a panela de sopa na mesa sem qualquer interesse, como se aquilo não tivesse nada a ver com ela.
“Se o corpo for encontrado, vocês acham que ainda dá pra comer isso?”
Lin Qiushi mostrou uma mistura de impotência e admiração. Ele pensou consigo mesmo: essa garota realmente tem coração de leão. Mesmo que ele próprio encontrasse o corpo, definitivamente não gostaria de provar nem um pouco daquela sopa. Não importava o quão aromática ela fosse, ou quantas vezes alguém respirasse aquele cheiro — ninguém sabia ao certo quais ingredientes crus haviam sido usados ali.
“Se for encontrado?” Tang Yaoyao refletiu. “No começo eu pensei que o problema fosse as trigêmeas, mas agora sinto que o problema na verdade é a mãe delas.”
“Que tal procurarmos o cadáver primeiro?” Ruan Nanzhu propôs de repente. “Além disso, o lugar não é tão grande.”
Ninguém sabia o que aconteceu com o corpo da menina depois que o chão foi limpo do cadáver mutilado da criança. Felizmente, a área não era muito grande, então seria relativamente fácil encontrar.
“Tudo bem, vamos procurar.” Tang Yaoyao concordou com a ideia de Ruan Nanzhu. “Já que estamos aqui e ainda não examinamos o local, vamos dar uma olhada rápida e tentar encontrar pistas.”
Então o grupo começou a revirar o lugar, vasculhando toda a área em busca de qualquer vestígio do cadáver.
O lugar não era grande o suficiente para alguém se perder, pois havia apenas três quartos e dois salões. A cozinha foi o principal foco da investigação. Com a intenção de procurar mais pistas, Lin Qiushi entrou na cozinha e logo viu alguns ingredientes. Quase todos eram simples, orgânicos e, aparentemente, extremamente velhos e deteriorados. Não era surpresa que eles não conseguissem aproveitar, muito menos engolir aquela comida. Vendo aquilo, não era estranho que tudo servido ali tivesse um gosto tão ruim.
Ao lado da cozinha ficava o banheiro. Não havia nada particularmente especial ali, exceto uma grande banheira chamativa.
Manchas pretas irreconhecíveis cobriam a banheira, como se ela não fosse usada há muito tempo. Lin Qiushi se aproximou para olhar melhor. Depois de observar cuidadosamente, não pôde deixar de pensar que aquelas manchas pretas pareciam sangue; ainda assim, ele não podia ter 100% de certeza de que sua suspeita estava correta.
Eles procuraram meticulosamente por toda a área, vasculhando cada canto e revirando tudo. Nenhum lugar ficou intocado, mas ainda assim não conseguiram encontrar a sacola onde o corpo da menina havia sido colocado.
“Mas onde diabos está isso?” Tang Yaoyao resmungou, claramente frustrada. “Tem mais algum lugar pra olhar?”
Ruan Nanzhu pensou profundamente por um momento. De repente, endireitou o corpo e foi em direção à cozinha.
“Por que você está indo pra cozinha de novo?” perguntou Tang Yaoyao. “A gente já olhou tudo lá…”
Quem imaginaria que apenas um segundo depois de Ruan Nanzhu entrar na cozinha, sua voz clara ecoaria para todos.
“Encontrei.”
Sem demora, Lin Qiushi o seguiu e viu Ruan Nanzhu parado ao lado da porta da geladeira. A porta estava aberta, revelando algo dentro.
Um saco preto pesado.
Era o mesmo saco que a mulher havia usado no dia anterior para carregar os pedaços do corpo da filha. E agora ele estava enfiado dentro da geladeira.
“Quem diria que estava na geladeira…” Tang Yaoyao sentiu o estômago embrulhar. “Eu não quero mais comer nada do que ela cozinhar.”
Ruan Nanzhu puxou imediatamente o saco preto para fora da geladeira.
Ao ver isso, Lin Qiushi perguntou:
“O que você está fazendo?”
“Verificando.” Ruan Nanzhu respondeu calmamente, abaixando a cabeça. “Vocês não queriam comer carne?”
Zeng Ruguo, que antes tinha dito que queria carne, soltou uma risada constrangida. “Não é que eu realmente tenha que comer…”
Ruan Nanzhu ignorou completamente o outro, como se ele não existisse, e desamarrou o saco, revelando o conteúdo bagunçado para todos verem. Dentro havia carne espalhada e empilhada, pedaços de um corpo mutilado que jamais poderia ser completo novamente, a ponto de ser impossível identificar cada parte. Sem dúvida, era o trágico cadáver da garotinha.
Mesmo diante de um corpo tão sangrento, Ruan Nanzhu não piscou; sua expressão mostrava total calma. Ele examinou o saco cuidadosamente e então olhou para os outros.
“Não parece faltar nada importante aqui, o que significa que ela não usou a filha como ingrediente da sopa de ossos.”
Os outros: “…”
Tang Yaoyao olhou para Ruan Nanzhu e sorriu com ironia antes de comentar com sarcasmo:
“Zhu Meng é calmo demais, não acha?”
Ruan Nanzhu respondeu friamente:
“Se eu não fosse assim, eu já estaria morto.”
Ele então ficou em silêncio por um momento, refletindo.
“Digamos que a mãe realmente tenha matado a própria filha. A questão é: por quê?”
“Quem sabe, talvez ela só seja louca?” Tang Yaoyao respondeu irritada. “Vamos apenas ficar longe dela.”
“En.” Ruan Nanzhu concordou.
Ninguém comeu nada naquele dia, exceto por alguns pedaços de pão sem graça. Quando a noite chegou, todos estavam famintos e sem energia, completamente exaustos e no limite. E o pior de tudo é que a panela de sopa ainda estava na mesa, provocando-os o tempo todo com seu aroma delicioso.
Tudo em que conseguiam pensar era em como a mulher parecia feliz enquanto tomava aquele caldo. Incapazes de aguentar mais aquela provocação, os outros logo disseram que estavam cansados e que iriam dormir. Assim, um após o outro, foram se recolhendo aos quartos.
O estômago de Lin Qiushi também não parava de roncar de fome. Depois de terminar um pedaço de pão sem sabor, ele voltou em silêncio para o quarto, foi direto para a cama e se deitou de costas, planejando dormir.
Ruan Nanzhu deitou-se suavemente ao lado dele e de repente perguntou:
“Você sabe por que antigamente as famílias tinham tantos filhos?”
Diante de uma pergunta tão aleatória, Lin Qiushi respondeu de forma preguiçosa:
“Não sei…”
Ruan Nanzhu se aproximou até ficar a apenas um sopro de distância dele. Então inclinou ainda mais a cabeça e, encostando a boca no ouvido de Lin Qiushi, soprou levemente e murmurou de forma manhosa:
“Porque antigamente não existiam eletrônicos, então não havia mais nada para fazer à noite.”
Lin Qiushi: “…”
Ruan Nanzhu: “E que coincidência, olha nós dois agora…”
Lin Qiushi, sem se alterar, tirou o celular do bolso e disse calmamente que ainda tinha um eletrônico com ele.
Ruan Nanzhu não desistiu:
“Ah, mas seu celular ainda tem bateria?”
A expressão de Lin Qiushi não mudou nem um pouco:
“Eu trouxe carregador…”
Ruan Nanzhu ficou em silêncio. Depois de um momento, fez beicinho, como se tivesse sido profundamente injustiçado.
“Você sabe, porque você fica sempre no celular, nunca fala comigo mais.”
Sem saber o que responder, Lin Qiushi ficou olhando para ele. De repente, teve uma ilusão em que realmente tinha uma namorada fofa para mimar. E, naquele momento, essa “namorada” estava fazendo birra — emburrada porque não recebia atenção suficiente, reclamando que queria mais carinho do namorado.
“Tá bom. Então do que você quer falar?” Lin Qiushi guardou o celular.
Ruan Nanzhu abriu um sorriso brilhante:
“Quer apostar que alguém vai morrer em breve?”
Assustado, Lin Qiushi piscou várias vezes para processar aquilo. Ele definitivamente não esperava que Ruan Nanzhu, que segundos antes parecia tão fofo, dissesse algo tão chocante como assunto casual.
“Eu aposto que alguém definitivamente vai morrer.” disse Ruan Nanzhu, estendendo os braços e envolvendo a cintura de Lin Qiushi, puxando-o para mais perto. Então baixou a voz e sussurrou:
“Porque os ovos já estão manchados de sangue.”
Lin Qiushi não respondeu, apenas refletiu sobre o que aquilo significava.
Ruan Nanzhu também não explicou. Apenas sorriu levemente e disse com calma:
“Durma. Falo com você amanhã.”
Depois disso, fechou os olhos e adormeceu profundamente.
Ruan Nanzhu já estava completamente apagado, mas Lin Qiushi estava longe de conseguir dormir.
O quarto estreito e fechado parecia um caixão apertado, sufocante. Quem tivesse claustrofobia certamente se sentiria sem ar ali.
Felizmente, Lin Qiushi não era claustrofóbico; ainda assim, sentia um desconforto e uma pressão estranha. A escuridão já havia tomado o céu, e a névoa ficava cada vez mais densa, encobrindo tudo ao redor e tornando impossível ver claramente a paisagem. Como sempre, apenas aquele único prédio isolado existia naquela escuridão enevoada, completamente separado do resto do mundo.
A noite estava estranhamente silenciosa, mas esse silêncio dava uma sensação ilusória de segurança. Lin Qiushi rezava para que aquela tranquilidade durasse até o amanhecer.
Claro, isso era apenas uma esperança ingênua — porque as palavras de Ruan Nanzhu logo se mostraram verdadeiras.
Por volta das três da manhã, Lin Qiushi acordou de repente. Seus ouvidos captaram um som extremamente desagradável que fez seu coração subir pela garganta.
Parecia algo afiado raspando na parede. Um som surdo, mas penetrante. A cada segundo, o ruído ficava mais alto, mais próximo — como se já estivesse quase ao alcance dele. Parecia haver apenas uma fina parede separando Lin Qiushi da origem daquele som.
Os olhos de Lin Qiushi se abriram de repente. Ele observou o ambiente e levou um minuto inteiro para perceber que não estava sonhando.
Ruan Nanzhu ainda dormia profundamente ao seu lado. Lin Qiushi ficou em dúvida se deveria acordá-lo ou não. Mas enquanto hesitava, o som de raspagem ficou ainda mais rápido e irregular, como se quem estivesse do outro lado tivesse perdido a paciência e acelerado o trabalho.
“Scritch scritch scritch.”
Aquele som penetrante não parava.
Finalmente, Lin Qiushi estendeu a mão e sacudiu levemente Ruan Nanzhu:
“Nanzhu, acorda.”
Ruan Nanzhu abriu os olhos lentamente. Apesar de ter sido acordado, seus olhos estavam tão claros quanto jade; era como se a pessoa que estava dormindo profundamente segundos atrás não fosse ele.
“O que foi?”
“Tem um barulho estranho vindo do outro lado.” Lin Qiushi respondeu. “Parece alguém martelando a parede.”
Ruan Nanzhu olhou para a parede ao lado deles. Como o prédio era bastante antigo, as paredes desgastadas não eram tão espessas, então até sons leves conseguiam atravessar com facilidade, dando a impressão de que a origem do barulho estava bem perto. Ele estendeu o braço e encostou a palma da mão na parede. Não demorou muito para sua expressão mudar levemente.
Ele ordenou: “Afasta. Sai um pouco dessa parede.”
Lin Qiushi assentiu e obedeceu. “O que foi?”
“Tem definitivamente alguma coisa do outro lado.” Ruan Nanzhu disse. “Só não sei o que é.”
Os dois acenderam a luz. Quando o brilho forte iluminou o quarto, fixaram toda a atenção na parede de onde vinha o som estranho. Eles continuaram encarando atentamente, enquanto o barulho de raspagem não parava nem por um segundo.
Se fosse apenas um som irritante e constante, não seria um grande problema. Mas Lin Qiushi logo entendeu por que Ruan Nanzhu o manteve longe da parede.
A parede fina começou a se lascar, e um pequeno buraco quase imperceptível foi se formando. Em seguida, uma ferramenta fina e pontiaguda — um tipo de punção — apareceu pelo buraco minúsculo, estendendo-se lentamente…
Como o quarto era pequeno e apertado, o lado da cama de Lin Qiushi ficava encostado diretamente na parede. A ponta era afiada como uma lâmina e absurdamente longa, indo muito além do alcance de um braço, mirando cruelmente exatamente no ponto onde a cabeça de Lin Qiushi estava apoiada.
Ao ver isso, o rosto de Lin Qiushi ficou cinza de susto. Se ele ainda estivesse deitado ali, completamente alheio ao que acontecia, já teria morrido.
Quando a punção alcançou o alvo, ela recuou silenciosamente pelo buraco. Mas, como não havia sangue nela, ela imediatamente voltou a perfurar o mesmo ponto várias vezes antes de se retirar novamente. Ao perceber que ainda não havia sangue, a pessoa do outro lado finalmente desistiu de atravessar o crânio dele e recolheu a ferramenta.
Um silêncio tenso permaneceu após o desaparecimento da punção. Depois de alguns segundos, Lin Qiushi perguntou:
“Sumiu?”
Ruan Nanzhu franziu a testa. “Espera.”
“Deixa eu dar uma olhada.” Lin Qiushi de repente teve uma ideia. Ele se abaixou e espiou pelo pequeno buraco na parede; aquele simples olhar quase fez sua alma sair do corpo. O que deveria ser uma visão do outro lado era, na verdade, um olho ensanguentado encarando de volta. Havia uma insanidade pura naquele olhar sinistro, causando terror absoluto em quem o visse.
O olho o encarou por um bom tempo. Percebendo que não conseguia matá-lo, desapareceu no instante seguinte, como se nunca tivesse estado ali.
Lin Qiushi quase se mijou de medo. Suor frio escorria pelas costas, e suas mãos tremiam violentamente. Sua voz saiu trêmula enquanto ele xingava sem parar:
“Porra… merda… puta que pariu… o que foi isso? Um fantasma? Um humano?”
Ruan Nanzhu: “Não sei. De qualquer forma, não saia daqui até o amanhecer.”
Lin Qiushi passou a mão tremendo pela testa, limpando o suor frio. “Com certeza…”
Aquilo parecia cena de filme de terror. Ele jamais imaginou que teria assento na primeira fila para ver alguém brincando de ‘olhinho mágico’ do outro lado da parede — e ainda por cima sendo o alvo.
“Aliás, como você é tão leve pra dormir?” perguntou Ruan Nanzhu. “Você sempre acorda tão fácil. E o barulho nem era tão alto assim.”
“Eu tenho audição muito boa.” Lin Qiushi disse.
“Parece mesmo.” Ruan Nanzhu murmurou. “Você é sempre o primeiro a acordar.”
Lin Qiushi suspirou e olhou uma última vez para o buraco na parede. “Ainda bem que eu acordei.” Senão, ele provavelmente teria um buraco na cabeça agora.
Mas assim que soltou esse alívio, ouviu novamente o som de raspagem. Só que, dessa vez, o barulho parecia mais distante, como se o agressor estivesse agora perfurando a parede de outra pessoa.
“Filho da puta… esse desgraçado ainda não desistiu.” Lin Qiushi rosnou baixo. “O que a gente faz? Avisamos os outros?”
Ruan Nanzhu ficou em silêncio por um momento olhando para ele.
“Fica aqui. Eu vou lá fora ver.”
“Não.” Lin Qiushi recusou imediatamente. “Vamos juntos. Dois é melhor que um. Se algo acontecer, pelo menos a gente se ajuda.”
Ruan Nanzhu ergueu uma sobrancelha, divertido, e sorriu: “Não está com medo?”
Lin Qiushi respondeu: “Medo do quê? Você não está comigo?”
Ao ouvir aquilo, o sorriso de Ruan Nanzhu ficou ainda mais profundo do que a noite.
Ele se inclinou para frente e murmurou com a voz rouca:
“Você sabe o quão absurdamente irresistível você fica quando confia nos outros assim, sem nenhuma hesitação? Se continuar me provocando desse jeito, eu não vou conseguir me segurar.”
Atônito, Lin Qiushi soltou automaticamente:
“Hã?”
Ruan Nanzhu deu de ombros, como se não fosse nada:
“Esquece. Não foi nada.”
Os dois caminharam até a porta e a abriram lentamente, produzindo um rangido ensurdecedor. O som alto da porta de ferro se abrindo ecoou pelo corredor completamente escuro, e o leve arranhar na parede parou imediatamente.
Ruan Nanzhu saiu primeiro, e Lin Qiushi o seguiu logo atrás. O corredor estava sem nenhuma luz, completamente envolto em sombras densas. Para iluminar o caminho, Lin Qiushi tirou o celular e ativou a lanterna, assumindo a frente e iluminando o caminho.
Felizmente, o corredor não era infinito, então, mesmo ficando no fim dele, era possível enxergar tudo de uma ponta à outra — ou seja, tudo ali era visível, sem lugar para se esconder.
Lin Qiushi se lembrou de que o som vinha do lado direito e deu dois passos naquela direção.
“Espera um segundo.” Ruan Nanzhu de repente segurou o braço de Lin Qiushi, puxando-o para trás. “Tem alguém ali.”
Lin Qiushi olhou na direção indicada e, de fato, viu uma figura agachada no canto. Ele estreitou os olhos e observou a silhueta antes de respirar fundo, surpreso:
“Não é uma das trigêmeas?”
“Sem dúvida.” Ruan Nanzhu ficou em posição de alerta. “Querida, o que você está fazendo aí?”
A figura no canto se levantou lentamente. O vestido delicado que ela usava caía suavemente até as coxas, e o cabelo estava perfeitamente preso em duas tranças fofas, mas o rosto permanecia inexpressivo, e os olhos estavam vazios como sempre.
Ao ser notada, ela caminhou suavemente até os dois e parou bem na frente deles.
“Não consigo dormir.” disse a voz infantil, com um leve traço de inocência. Ela se aproximou de Lin Qiushi e levantou a cabeça, olhando diretamente para ele. “Não consigo dormir.”
“Volte para o seu quarto.” disse Lin Qiushi. “Já está tarde, não é seguro ficar aqui fora.”
Ao ouvir isso, a garotinha olhou para a porta do próprio quarto. No fim, não disse nada. Apenas se virou e voltou na direção de onde tinha vindo.
Lin Qiushi e Ruan Nanzhu a observaram desaparecer novamente na escuridão.
“Era ela?” Lin Qiushi ficou confuso. “Por que ela faria isso…”
Ruan Nanzhu apertou os lábios.
“Ela não tem pó no corpo.” A implicação era clara. A garota encontrada naquela noite não era Xiao Shi nem Xiao Tu, mas Xiao Yi — a menina morta que havia sido esquartejada.
Lin Qiushi: “…Talvez uma das outras tenha tomado banho e trocado de roupa?”
Ruan Nanzhu soltou uma risada baixa e sombria:
“Ah, eu espero que sim.”
Por causa desse incidente, Lin Qiushi não conseguiu dormir pelo resto da noite.
Por outro lado, Ruan Nanzhu parecia ter uma coragem absurda. Ele o puxou para seus braços, se aconchegou nele e dormiu profundamente — nada parecia conseguir tirá-lo do sono tranquilo. Mesmo quando amanheceu, ele ainda relutava em sair da cama.
“Não dá. Preciso de um beijo do meu querido Qiushi pra conseguir levantar,” reclamou Ruan Nanzhu, se revirando na cama.
Lin Qiushi olhou para ele com uma expressão dolorida, claramente sofrendo com a atuação dramática.
“Por favor, você pode parar de pedir carinho com essa aparência?”
Ruan Nanzhu: “Por quê? Não gosta do seu Mengmeng fofo?”
Ele sorriu de forma delicada e lamentável, com um olhar que apertava o coração de qualquer um. Seus olhos brilhantes começaram a se encher de lágrimas — o golpe final que derrubaria qualquer espectador.
Sinceramente, alguém deveria dar um Oscar pra esse nível de atuação.
Lin Qiushi: “Mengmeng. Levanta.”
Ruan Nanzhu: “…”
Depois de enrolarem bastante na cama, os dois finalmente foram ao banheiro e tomaram todo o tempo do mundo para se arrumar. Enquanto escovavam os dentes, Ruan Nanzhu decidiu continuar provocando Lin Qiushi. Colou o corpo no dele e murmurou de forma insinuante:
“Linlin… você foi bem selvagem ontem à noite.”
Antes que Lin Qiushi pudesse responder, Zeng Ruguo, que estava escovando os dentes ao lado, ouviu a conversa nada discreta. Na hora, sua mandíbula caiu e ele ficou alternando o olhar entre os dois. Depois tossiu de leve e comentou de forma sugestiva:
“Os jovens hoje em dia são mesmo cheios de energia…”
Irritado, Lin Qiushi respondeu entre os dentes cerrados:
“E em que momento eu fui selvagem?”
Ruan Nanzhu deu um tapinha brincalhão no braço de Lin Qiushi e cobriu o rosto com uma falsa expressão de vergonha.
“Ah, que malvado! Como você pode insistir para que outra pessoa diga isso em voz alta e bem claro? Não me diga que você quer que o mundo inteiro saiba sobre nós?”
Lin Qiushi rangeu os dentes com tanta força que quase quebrou a escova de dentes na boca.
Diferente do dia anterior, quando serviram a sopa de almôndegas, naquele dia eles receberam pão sem gosto e sem cheiro no café da manhã. Mas depois dos acontecimentos perturbadores do dia anterior, todos acharam aquele pão simples e seco estranhamente satisfatório… pelo menos não havia nada estranho nele.
“Tenho algo para contar a vocês.” Durante a refeição, Tang Yaoyao começou a falar. “Fui verificar a geladeira antes de comer e… o corpo desapareceu.”
“Sumiu?” Os olhos de Xu Xiaocheng se arregalaram. “O que você quer dizer com ‘desapareceu’? Não me digam que vamos ser servidos com carne no almoço de novo…”
Ao mencionar carne, o estômago de todos começou a embrulhar.
“Não posso afirmar com certeza. Pode ser só um mal-entendido meu.” Tang Yaoyao tentou acalmar o grupo. “Além disso, alguém não examinou o corpo ontem? Não estava faltando nenhum pedaço, certo?”
“Quem sabe.” respondeu Ruan Nanzhu. “A menos que você mesma consiga encontrar algum pedaço faltando naquele monte de carne moída?”
No meio da discussão, as duas irmãs idênticas saíram do quarto.
Lembrando-se de algo naquele momento, Lin Qiushi se levantou e fingiu ir pegar o controle da televisão, passando perto das duas meninas no caminho. Aproveitando o segundo em que passou por elas, ele examinou seus corpos.
No entanto, ficou completamente chocado com o que viu. Essas duas garotas… uma tinha pó brilhante no ombro, e a outra tinha glitter no cabelo — então quem era a que eles encontraram no corredor? Quem estava cavando um buraco na parede realmente era a irmã que havia morrido, Xiao Yi?
Ao lembrar daquele saco cheio de carne e órgãos mutilados dentro da geladeira, um frio percorreu o estômago de Lin Qiushi; sua garganta subiu e desceu enquanto ele engolia em seco.
Ruan Nanzhu lançou um olhar interrogativo para Lin Qiushi, que apenas balançou levemente a cabeça em resposta, confirmando silenciosamente suas suspeitas terríveis. No entanto, Ruan Nanzhu não pareceu surpreso. Apenas sorriu calmamente e disse:
“O pão seco de hoje está bem saboroso.”
“Esse pão seco não tem o mesmo gosto de sempre?” reclamou Tang Yaoyao.
“Claro que não.” Ruan Nanzhu discordou, balançando o dedo. “A última refeição antes da morte sempre parece muito mais deliciosa do que qualquer refeição comum.”
Capítulo 22: Ovos manchados de sangue
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