Capítulo 50
Eu não sabia se estava atravessando a linha tênue entre a vida e a morte, ou se aquela imagem nebulosa era apenas um resquício da consciência que se apagava. Não havia nada, não havia a dor que senti ao cair no poço; apenas um vão incrivelmente silencioso.
Tentei gritar, mas o silêncio daquele buraco negro — que parecia uma câmara subterrânea — era uma criatura faminta. O espaço engoliu minha voz antes que ela saísse dos meus lábios. Sem eco. Sem retorno.
Foi quando o silêncio começou a fazer barulho.
Sem o ruído do mundo exterior, meu próprio corpo tornou-se barulhento. O primeiro sinal de que eu estava voltando à vida foi um chiado agudo nos ouvidos, o cérebro implorando por som. Logo depois, ouvi o estalo seco da minha própria mandíbula. E então, o tambor: o som violento do meu coração batendo dentro de mim, o fluxo do sangue correndo como um rio subterrâneo pelas minhas veias. Eu não via a luz, mas ouvia, com nitidez, a minha própria vida pulsando pelo meu corpo.
O único fio que me prendia a algo era um calor fraco, suave, vindo de algum lugar.
Senti o calor envolver minhas mãos, um calor tão vivo que quase me fez esquecer que eu não deveria sentir mais nada. Eu me agarrei àquele calor.
A sensação foi sumindo, tornando-se distante conforme o vazio me puxava de volta, vasto e profundo. Fechei os olhos, aceitando o fim.
Então, o nada estilhaçou.
Um ruído vindo de algum lugar perfurou o vazio. A negritude dissolveu-se em fragmentos de luz. Subitamente, o peso do mundo desabou sobre meu peito. Meus pulmões, antes vazios, arderam com a entrada violenta de oxigênio.
Despertei de um salto, o peito subindo em uma lufada de ar desesperada. O ar frio tocou meu rosto e a claridade invadiu minhas íris. Ofegante, encarei o teto. Aquela moldura de gesso branco… as paredes pintadas com a tinta branca que eu mesmo tinha escolhido…
— Finalmente você acordou! — A voz de Ricardo veio acompanhada de um suspiro de alívio. — Estou chamando você há minutos. Comecei a pensar que algo estava errado.
Virei o rosto devagar. Ricardo estava lá, folgando a gola do terno sobre a silhueta magra, os fios negros impecáveis. No passado — no meu passado —, ele morrera cedo demais, consumido pela negligência com a própria saúde em nome de um trabalho que nunca lhe devolveu nada. Sem querer desviar os olhos dele, vi como sorriu para mim, como as linhas de expressão nos lábios se aprofundaram, como seus dedos finos soltaram a gola. Era realmente o Ricardo que eu conhecia, de carne e osso, vivo.
— Onde… onde eu estou? — Minha voz saiu rouca, enquanto eu tateava os lençóis de algodão egípcio.
— No seu apartamento no sul da Inglaterra. Você bebeu demais ontem à noite? Você está estranho.
Não respondi. Joguei-me sobre ele, apertando seu corpo esguio num abraço que o fez soltar um ganido de surpresa. O cheiro de sabonete de glicerina e o aroma do café nele eram reais.
— Que saudade, Ricardo… que saudade! — As lágrimas pinicaram meus olhos e o apertei mais forte, amassando o tecido de seu terno alinhado. — Onde está meu irmão? Cadê o Eugênio?
Eu o soltei, sem conseguir conter a força que erguia os cantos dos meus lábios. Ricardo recuou um passo, as sobrancelhas quase atingindo a linha do cabelo.
— Ele… ele ainda está no quarto, Dominic.
Saí em disparada, mas parei no batente da porta. Apontei o dedo para ele, firmando a voz:
— A partir de hoje, você tem um check-up mensal. Eu mesmo vou conferir as receitas médicas!
Dei-lhe uma piscadela, sem me importar se estava agindo de forma estranha, e segui pelo corredor. Meu peito tinha uma vibração que se espalhava pelo meu corpo a cada passo; fazia anos que eu não me sentia assim, transbordando alegria.
Cada quadro na parede, cada móvel eram lembranças que ganhavam vida novamente. Abri a porta no fim do corredor sem bater.
Eugênio dormia profundamente. O peito subia e descia num ritmo calmo. Era surreal. Anos atrás, eu tinha visto aquele mesmo corpo imóvel sob o metal retorcido de um carro. Minha garganta apertou. Eu tinha uma chance.
Pulei sobre ele, afundando o colchão.
— Acorda!
Meus dedos tinham vida própria e não pararam um instante sequer ao percorrer a pele do rosto, do pescoço, dos cabelos e tudo mais, completamente empolgados.
— O que… Dominic?! — Ele gritou, os olhos arregalados de susto, tentando se desvencilhar. — Ficou maluco?
Ignorei os protestos e o prendi em um abraço de urso, distribuindo beijos curtos em suas bochechas enquanto ele me empurrava com força. Sentia o calor da sua pele, a respiração dele perto de mim. Todas aquelas sensações eram reais!
— Eu te amo, Eugênio! Muito!
— Você está bêbado? Saia daqui!
Um som de descarga parou nossa agitação. Congelei no lugar.
— Você tinha companhia? — Sentei-me ereto, a curiosidade superando o choque. — Por que não me disse que estava com uma mulher?
Eugênio bufou, ajeitando o cabelo bagunçado.
— Não é uma mulher.
Arregalei os olhos, olhando do meu irmão para a porta do banheiro.
— Você nunca me disse que…
— Cale a boca! — Eugênio rosnou. — Não tire conclusões precipitadas!
Alguém saiu do banheiro apenas de toalha, secando o rosto.
Quando Eugênio fechou os lábios, o homem na porta soltou uma gargalhada alta, curvando o corpo de tanto rir. Era Estêvão.
— Cara, você realmente pensou isso dele? Logo do Eugênio? — Ele apontou para o peito do nosso irmão, os lábios abrindo-se em um sorriso.
Eugênio alcançou os óculos na mesa de cabeceira.
— Você esqueceu que no banheiro de Estêvão teve um vazamento? Ou esqueceu que ele é um folgado que usa o chuveiro dos outros?
— Eu esqueci de muitas coisas…
— Isso é sério? — Eugênio me avaliou, duvidoso.
Sem prestar atenção, sem me importar com o silêncio que se seguiu ou com os olhos deles sobre mim, meu pé tocou o chão. Senti a maciez do tapete e só então percebi que estava descalço; vim com tanta pressa que esqueci completamente disso. A frieza do tapete me lembrou da mesma frieza com a qual tratei meu irmão mais novo. Da distância entre mim e Estêvão. Parei diante dele e olhei-o sem tocá-lo. Ele ainda estava tão jovem, tão vivaz; lembrei-me que, nessa época, ainda éramos próximos.
— Mas… — olhei entre eles. — Dessa vez, não pretendo esquecer o essencial.
— Você exagerou na bebida ontem, por isso fala coisas estranhas. Viu, Eugênio? Ele não tem tolerância alta.
Estêvão lançou um olhar entre nós e abanou a cabeça, rindo, saindo para o seu quarto para se vestir. Pedi desculpas a Eugênio, entre risos nervosos sobre o mal-entendido, depois que ficamos sozinhos.
Descemos. Pulei os degraus de dois em dois; o aroma de torradas e café fresco preenchia a sala de jantar. O sabor da primeira garfada foi uma explosão; eu não sabia que se podia sentir tanta falta de um ovo mexido.
— Coma mais devagar, ou vai morrer engasgado antes da aula — brincou Estêvão, montando um sanduíche colossal.
— É melhor nos apressarmos — Eugênio checou o relógio de pulso. — O seminário na universidade começa em uma hora.
Pousei o garfo. O tilintar do metal contra a porcelana fez o ambiente silenciar parcialmente. Limpei a garganta para que os três me olhassem.
— Eu vou largar a faculdade.
Ricardo, que servia o meu suco de kiwi, parou com a jarra inclinada no ar. Eugênio congelou com a xícara a meio caminho da boca, trocando um olhar desacreditado com Estêvão, que parou de mastigar; de boca cheia, sem conseguir falar, ele apenas arregalou os olhos, esperando a reação de Eugênio.
— O que quer dizer com isso? — meu irmão perguntou.
— Quero dizer que volto para casa hoje. Para o nosso país natal.
— Você enlouqueceu? — O protesto de Eugênio foi imediato, mas não me amedrontou.
— As passagens já estão emitidas no meu celular. O voo sai em três horas.
Capítulo 50
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...