Capítulo 52
Meu irmão e Zhang se afastaram. Meus olhos seguiram o movimento deles até sumirem de vista. O que ele teria para dizer a ela? Talvez estivessem desenterrando memórias do colegial, mas o vinco na testa de meu irmão sugeria algo mais particular. Guardei a pergunta para depois.
O silêncio caiu sobre nós como uma parede física. Oscar batucava os dedos na coxa, alternando o olhar entre o chão e o menino. Ao lado, Estêvão mergulhava na luz azul do celular, o polegar deslizando freneticamente pela tela, os olhos vazios de quem apenas mata o tempo.
— Estou com sede, Oscar! — Nicolas puxou a gola de sua camisa, apertando o tecido vermelho nos dedos miúdos.
— Eu busco algo — Oscar prontificou-se. Ele desceu o menino do colo e envolveu a mão pequena dele na sua, já dando o primeiro passo.
— Espere, o Estêvão pode ir.
— Eu? — Estêvão piscou, despertando do transe digital. Encarei-o com firmeza, sustentando o olhar até que ele guardasse o aparelho. — Ah… entendi. Vem, Nicolas! Vamos buscar água para o seu tio mandão antes que ele murche de sede.
Oscar hesitou. Seus dedos não soltaram a mão de Nicolas de imediato; a articulação de seus nós dos dedos ficou branca. Ele abriu a boca para protestar, mas Estêvão já guiava o menino com um passo animado. Qualquer insistência agora soaria inoportuna, um gesto desnecessário.
— Vou trazê-lo inteiro, prometo — Estêvão lançou um sorriso largo, quase contagiante, e partiu.
Oscar ficou. Seus ombros subiram, a postura rígida de quem está em uma sala de espera há horas. Ele não relaxou. Em vez disso, vigiava a esquina por onde eles desapareceram, consultando o relógio de pulso a cada trinta segundos, embora o ponteiro mal tivesse completado uma volta.
Eu mal conseguia respirar. Ele estava ali. O corte do cabelo, o queixo erguido, aquela aura de quem não pede permissão para existir. Ele parecia ter crescido, ou talvez o mundo tivesse encolhido ao redor dele.
— Eles estão demorando… — A voz dele cortou o ar, curta, os olhos fixos no horizonte de asfalto.
— Podemos trocar uma palavra, Oscar? — Minha voz saiu granulada, um som que parecia vir de uma garganta árida há anos. Minhas mãos, escondidas nos bolsos, tremiam.
Ele girou o rosto lentamente. Uma sobrancelha subiu, criando uma linha de ceticismo em sua testa.
— Você acabou de falar cinco — ele respondeu. Os lábios rosados se comprimiram em uma linha reta, finalizando o assunto antes mesmo de ganhar vida.
Engoli em seco. Senti a secura na garganta tornar-se um bolo, um obstáculo físico, mas não desisti de continuar.
— Oscar, eu… — As palavras se atropelaram. Eu tinha o roteiro de uma vida inteira na cabeça, mas diante dele, eu era um amador esquecendo as falas.
O Oscar que eu conhecia teria baixado o olhar; este Oscar me encarava de volta com uma clareza que me desarmava. Não havia sombra de dúvida nos olhos dele, apenas uma determinação calma e firme, um amor-próprio que brilhava como uma joia fria.
— Pare de me encarar e diga logo. Isso está ficando bizarro. — Ele cruzou os braços, focando toda a sua atenção em mim.
A firmeza daquele olhar me fez perder o chão. Eu abria e fechava a boca, mas o som morria no peito. O tique-tique do relógio dele parecia uma batida constante, cada vez mais alta.
— Desculpe — o sussurro escapou, quase um suspiro. — Perdoe-me, Oscar… eu, é… — o arrependimento queimava na ponta da língua.
As pupilas dele se dilataram. O impacto daquelas palavras foi visível, ele recuou meio centímetro, confuso. Percebi o erro: eu estava entregando um spoiler de um livro que ele ainda nem tinha começado a ler. Comecei a agitar as mãos, tentando “apagar” minhas palavras no ar.
— Quero dizer… desculpe por tomar seu tempo. Eu me perdi nos pensamentos. — Falei rápido, as palavras saindo truncadas.
A expressão dele esfriou instantaneamente. Ele desviou o rosto, me excluindo de seu campo de visão como se eu fosse um borrão na paisagem.
— Voltamos! — O grito de Estêvão veio da calçada. Ele balançava uma sacola, enquanto Nicolas lutava contra uma bola de sorvete que derretia sobre seus dedos sujos.
— Vocês demoraram — Oscar disse, a voz gélida. Ele praticamente arrancou Nicolas do lado de Estêvão, segurando a mão do menino com uma impaciência silenciosa.
— Foram cinco minutos, Oscar. O garoto não se decidia entre morango ou chocolate — Estêvão deu de ombros, estendendo-me uma garrafa suada. — Aqui sua água, Dom.
Encostei o plástico gelado nos lábios. Não tinha sede, mas precisava do choque da água fria para desfazer o nó em minha garganta. O líquido desceu raspando.
Ao longe, Zhang e Eugênio surgiram. Caminhavam lado a lado, mas a distância entre eles e a rigidez de seus passos mantinha uma certa tensão. Eles traziam no rosto uma sombra que não estava lá antes. O que quer que tivessem dito um ao outro, o ar ao redor deles tinha mudado totalmente.
Capítulo 52
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...