Capítulo 51
As rodas do táxi andaram, cantando sobre o asfalto quente assim que o sinal abriu. Pela janela, os prédios de tamanhos irregulares pareciam uma cerca, espremendo as calçadas lotadas de pedestres que apressavam o passo. Depois de horas de voo, estávamos de volta ao epicentro de tudo. Minha mente, porém, já estava no apartamento; precisávamos apenas deixar as mochilas para que eu pudesse começar a busca por Oscar.
— Ainda não consigo entender o motivo dessa súbita decisão! — Eugênio disparou, as mãos gesticulando freneticamente no banco de trás.
— Eu também não. — Estêvão desviou o olhar do vidro para mim, estreitando os olhos. — Poderíamos ter vindo nas férias, com calma.
— Vieram porque quiseram. Não arrastei ninguém. — Minhas palavras saíram neutras ao apontar os fatos. Voltei a encarar a fila interminável de carros, as luzes de freio piscando como olhos grandes e vermelhos no trânsito.
Meu irmão soltou um suspiro derrotado, cruzando os braços com força contra o peito, enquanto Estêvão mergulhava no brilho azulado da tela do celular, os polegares movendo-se rápido demais.
Meus pensamentos, contudo, já estavam focados no Oscar. Eu precisava saber se ele estava bem. No futuro, naquela realidade que eu deixara para trás, a última imagem que eu tivera dele fora a frieza de um necrotério. Aquela visão ainda queimava na minha retina, me perseguindo incansavelmente. Eu não suportaria a ideia de que o mesmo destino o alcançasse aqui.
— Ei! O senhor está me ouvindo? — A voz de Eugênio subiu um tom, cortando meus devaneios.
O taxista segurava o volante com apenas uma mão, o pescoço curvado para prender o celular contra o ombro, rindo de algo que ouvia. O carro deu um solavanco. Eugênio inclinou-se para a frente, com a mão grudada no banco do motorista.
— O senhor pode desligar isso? O trânsito está…
O homem nem sequer virou o rosto. O carro avançou, ignorando uma faixa de pedestres. Eugênio insistiu, a voz agora firme. Quando o motorista finalmente se dignou a olhar pelo retrovisor, o táxi já ia perigosamente entre dois ônibus.
— É uma ligação importante, patrão! Relaxa — ele resmungou, voltando a atenção para o aparelho enquanto o sinal lá na frente piscava em amarelo.
— É contra a lei e você está colocando a gente em risco! — Estêvão interveio, insatisfeito.
— Eu conheço o meu asfalto! — o motorista berrou, o rosto ficando vermelho pelo retrovisor. — Não preciso de babá no meu carro!
O impacto veio antes do grito. Um baque surdo, seco, seguido pelo som de algo estourando sob os pneus. O táxi parou com um solavanco que jogou nossos corpos para a frente. O silêncio que se seguiu foi total por um minuto, quebrado apenas pelo ruído dos motores dos carros no trânsito.
Olhamos para a frente. Um pequeno vulto estava caído de bruços, a poucos centímetros do para-choque.
Abrimos as portas quase ao mesmo tempo. Era um menino. Ele não chorava; em vez disso, esticava o braço com urgência para debaixo do carro.
— Você está ferido? — perguntei, ajoelhando-me, o coração martelando através da camisa.
— Não — ele respondeu sem olhar para mim, a voz abafada pelo chão.
Estêvão apalpou os braços do garoto com dedos trêmulos, procurando por ossos partidos. Eugênio fez o mesmo com as pernas, mas o menino nem sequer estremeceu.
— Minha bola! O carro passou por cima dela!
Ele se levantou num salto, com as roupas sujas de poeira, mas o corpo intacto. Foi um milagre de milímetros.
— O garoto está bem! — O motorista soltou um suspiro ruidoso, limpando o suor da testa com as costas da mão. — Foi só um susto, viram?
Ele girou o corpo, já voltando para o banco do motorista com os olhos arregalados de pavor. Pegou as mochilas e as jogou para fora.
— Cuidem dele! Eu não volto para o xadrez por causa de uma bola! — O motorista arrancou, deixando para trás o cheiro de pneu queimado e o pagamento da corrida.
— Ali, minha bola… — O menino caminhou até um pedaço de borracha murcha e rasgada. Ele a pegou, os lábios tremendo. — Tio, vocês a destruíram.
Ele puxou a barra da minha camisa, o tecido esticando sob seus dedos pequenos. Os olhos dele brilhando de lágrimas contidas. Pedi desculpas, me sentindo parcialmente culpado.
— O que exatamente aconteceu aqui? — Estêvão perguntou, guiando-nos gentilmente para a calçada, longe do fluxo dos carros.
— Eu estava brincando… ela escorregou e saiu pulando. Eu só queria pegar ela — o pequeno explicou, olhando para os restos do brinquedo em suas mãos.
Eugênio explicou que o “moço do carro” tinha sido o culpado. O menino assentiu, mas seus olhos começaram a vagar pelas pessoas, as sobrancelhas se juntando em preocupação.
— Perdeu mais alguma coisa? — perguntei.
— Sim… mas não os vejo. — A voz dele afinou, quase desaparecendo no barulho do trânsito.
Abaixei-me até meus joelhos tocarem a calçada, ficando exatamente na altura dele. Eu não me sentia calmo, mas tentei acalmá-lo.
— Vamos achar quem você procura. Para onde você estava indo?
Ele mostrou um sorriso tímido, um arco curto nos cantos da boca, e apontou um dedo trêmulo para a esquina. Seguimos o caminho até um restaurante, cujas cadeiras ocupavam parte da calçada.
— Eu estava ali. — Ele apontou para uma mesa específica, perto do balcão.
A atendente quase derrubou sua bandeja ao nos ver. O alívio no rosto dela foi tão nítido que ela precisou se apoiar no balcão. Enquanto ela ligava para os responsáveis, sentamos com o pequeno Nicolas. Estêvão e Eugênio pediram algo para comer, e oferecemos um prato ao menino.
Observei Nicolas devorar a comida com as bochechas infladas, os olhos brilhando a cada mordida. Quando ele percebeu que eu o vigiava, abriu um sorriso largo, sujo de molho. Senti uma fisgada no peito. Imaginei meu próprio filho, os primeiros passos que nunca vi, o calor dele ao carregá-lo nos braços. A dor da perda era um gosto amargo que eu engolia a força.
Passei a mão pelos cabelos macios de Nicolas. Ele não recuou. Seus traços eram finos, quase artísticos. Um calor estranho aqueceu meu peito, uma sensação acalentadora.
— Nicolas! — Uma voz feminina, aguda e carregada de urgência, ecoou às minhas costas. — O que dissemos sobre se afastar?
Vi Eugênio arregalar os olhos e entreabrir os lábios, o garfo esquecido sobre a mesa, suspenso entre os dedos.
— Você quase nos matou de susto! — A segunda voz fez meu sangue congelar. Eu reconheceria aquele timbre em qualquer lugar do mundo.
Virei-me lentamente. Nicolas já corria, jogando-se nos braços de Oscar.
Os dois se fundiram num abraço apertado. Zhang aproximou-se, envolvendo ambos. Os braços pequenos do menino prendiam os dois como se fossem uma só peça. Uma família. O pensamento afundou em meu peito.
— Eu tive medo, Oscar! Achei que não ia achar vocês! — O menino soluçava agora. Oscar cobriu o rosto dele de beijos, murmurando palavras doces, o rosto iluminado por uma vivacidade que eu não via há uma década. Ele parecia… em paz.
Zhang foi a primeira a nos notar. Seu corpo ficou rígido.
— Oscar… — Ela tocou o ombro dele, a voz num sussurro de alerta.
Ele seguiu o olhar dela. O sorriso de Oscar morreu no mesmo instante e seu rosto pareceu perder o brilho em um segundo. Ele deu um passo involuntário para trás, apertando Nicolas contra o peito como se eu fosse uma ameaça física.
Ver o brilho nos olhos dele se apagar ao me encontrar foi como levar um soco no estômago. Minha presença era o veneno que estragava o momento deles.
— Obrigado por cuidarem do Nicolas — Zhang disse, o olhar agradecido oscilando entre nós três.
— Obrigado — Oscar repetiu. A palavra pareceu arranhar sua garganta, saindo seca, quase inaudível.
— De nada — respondi, minha própria voz soando como se viesse do fundo de um poço. Um refluxo amargo queimava meu esôfago.
— Que bom que deu tudo certo. Temos que ir agora — Estêvão cortou o silêncio, levantando-se e quebrando o transe.
— Foi um prazer, Nicolas — eu disse. O menino sorriu para mim, alheio ao clima estranho entre os adultos.
Saímos do restaurante sob o sol quente. Zhang caminhava ao nosso lado, contando como Nicolas desapareceu durante uma entrega de marmitas. No passado, ela me olhava com brasas nos olhos; agora, falava comigo com uma cortesia morna, como se eu fosse um velho conhecido. Um simples ex-colega de classe.
Oscar, porém, era um túmulo. Se para Zhang eu era um velho conhecido, para Oscar eu não era nada. Ele caminhava à frente, Nicolas aninhado em seu pescoço. Ele se inclinava para Zhang, rindo de algo que o menino dizia, mas suas costas permaneciam tensas, uma barreira intransponível contra mim. Ele se recusava a deixar nossos olhares se cruzarem.
— Nós dobramos aqui — Zhang parou, apontando para a rua lateral.
Eles começaram a se afastar. Observei as silhuetas diminuindo contra o horizonte da cidade. Eugênio deu um passo à frente, parando ao meu lado. Surpresos, olhamos para ele. Seus olhos brilhavam com uma determinação que eu não via há muito tempo.
— Zhang, espere! — ele gritou.
Capítulo 51
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...