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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 53

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Antes que ela e Oscar sumissem de vista, minha voz escapou antes que eu pudesse contê-la. O autocontrole, que sempre foi meu norte, simplesmente evaporou sob o sol amarelado.

— Zhang, espere!

Ela estancou. Oscar parou logo atrás, tentando decifrar meu súbito impulso. Eu não sabia o que Dominic pretendia voltando agora, mas se eu não agarrasse aquela chance, o futuro continuaria sendo apenas uma miragem tremeluzente: aquilo que eu desejei dizer, mas me calei.

— O que foi? — ela perguntou.

— Podemos… conversar? A sós?

Senti o peso de cinco pares de olhos sob a claridade implacável. Estêvão e Dominic franziram o cenho; para eles, eu era o livro aberto que, de repente, revelava uma página escrita em código. Há anos eu trancava esse segredo, e o sol da tarde parecia estar derretendo a fechadura.

— Tudo bem — Zhang respondeu.

Um coro de “O quê?” soou, mas eu já caminhava, ignorando o suor que começava a brotar na minha nuca. Ela deu um aperto rápido no braço de Oscar — um pedido silencioso de espera — e me seguiu.

Minhas mãos estavam úmidas e escorregadias. O trajeto até a praça vizinha pareceu esticar-se sob o céu azul e sem nuvens. Quando encontramos um banco sob a sombra rala de uma árvore, minhas pernas pareciam feitas de gelatina.

— Vamos, fale — ela começou.

A brisa quente trouxe o perfume dela e brincou com as mechas negras do seu cabelo, que dançaram por um segundo antes de repousarem sobre seus ombros. O tom dela era calmo, mas seus olhos me estudavam com uma curiosidade que me deixava nu.

— Eu… não planejei chegar até aqui. Não achei que você aceitaria sair do caminho — admiti, desabando no banco.

Sempre me orgulhei da minha lógica fria, a mesma que meu irmão, Dominic, ostentava como armadura. Mas Zhang? Ela era o curto-circuito no meu sistema. Perto dela, eu não era o “Eugênio racional”, era apenas um garoto tropeçando nas próprias palavras.

— E por que eu não viria? Éramos próximos no ensino médio, não? — Ela inclinou a cabeça, um gesto que sempre fazia quando resgatava memórias. Aquela inclinação suave, o jeito como ela semicerrava os olhos… o tempo tinha sido generoso, polindo a beleza que eu já conhecia.

— Por que está me olhando com essa cara de bobo? — Ela levantou a sobrancelha bem delineada, os olhos fixos em mim. Ver-me ali, refletido naquele olhar, causou-me um arrepio, os pelos dos meus braços pareciam desabrochar.

Senti o sangue subir para as orelhas.

— Desculpe. É que… você continua linda. Não, na verdade, o tempo só te fez melhorar.

O rosto dela tingiu-se de um vermelho súbito.  Ela desviou o olhar para os próprios tênis, murmurando algo sobre eu estar dizendo “coisas estranhas”. Mas a vontade de esclarecer tudo queimava mais forte que o sol. Estendi a mão e, com a ponta dos dedos, toquei seu queixo, virando seu rosto devagar para que nossos olhos se encontrassem sem sombras.

— O que você quer, Eugênio? — A voz dela era um sopro.

— Por muito tempo, achei que você e o Oscar… — As palavras entalaram. — Achei que vocês eram um casal.

— O que eu tenho com o Oscar é um laço de amizade profundo — ela explicou, voltando a observar a vegetação da praça que balançava sob o calor. — Mas não entendo por que isso te incomoda agora.

— Porque eu sou um idiota! — O desabafo saiu alto, fazendo um pássaro levantar voo de uma árvore próxima. — Eu deveria ter dito há anos. Eu sou apaixonado por você desde que dividíamos a mesma fileira. Sua alegria, seu jeito de ser… tudo isso conquistou o nerd que eu era. E que ainda sou.

Falei tudo de uma vez, sem dar espaço para o medo. O silêncio que se seguiu prolongou-se. Ela ficou muda, os olhos fixos em mim, brilhando sob a luz da tarde.

— Isso é… repentino, Eugênio…

A palavra caiu como uma nuvem cobrindo minha cabeça. Minha esperança apagou. Ajustei os óculos, que teimavam em escorregar pelo nariz suado, e encarei o chão. As sombras sob a árvore se alongaram e perderam o contorno, enquanto o sol, agora mais baixo, tingia o chão de dourado.

— Entendi. Eu só… senti que precisava dizer. Guardar isso aqui dentro — toquei meu peito — estava me sufocando.

Me levantei, pronto para ir embora, mas um aperto firme em minha mão me deteve.

— Espera — ela pediu. — Anos atrás, eu quase tomei coragem. Quase contei para um garoto magricela de óculos que eu gostava muito dele. Mas ele parecia tão frio, tão distante… que eu desisti. E agora, esse mesmo garoto volta e diz tudo isso?

Meu coração deu um pulo, como uma criaturinha ansiosa, errando uma batida por um instante. Ela deu dois tapinhas no banco ao seu lado; sentei-me, o movimento quase automático.

— Zhang… você está falando de mim?

Ela olhou ao redor, verificando a praça deserta antes de voltar os olhos para mim.

— Tem algum outro homem de óculos neste banco? — Ela soltou um bufo curto, mas o sarcasmo logo cedeu espaço a um sorriso brincalhão, que desenhou uma curva suave no canto de sua boca.

Segurei as mãos dela. Eram macias e quentes. Tentei controlar meus lábios, mas um sorriso involuntário insistia em escapar. Por um tempo, o único som era o da cidade ao longe. Ficamos ali, contemplando um ao outro sob a claridade, sentindo nossos corações batendo no mesmo ritmo.

— Agora eu preciso voltar, o Oscar deve estar derretendo naquela esquina — ela disse, soltando-se devagar com um pequeno sorriso.

— Você corresponde aos meus sentimentos, então? — perguntei, querendo deixar tudo bem claro.

— Sim. Mas vamos com calma por enquanto — ela pediu. — Não vamos falar nada agora, pretendo conversar com o Oscar quando ele estiver com mais tempo livre. Ultimamente, ele quase não para. 

— Compreendo — disse e peguei meu celular do bolso. — Eu perdi o seu contato, pode me dar?

Ela apanhou o aparelho e digitou rapidamente o número, assim que o peguei, sorri para o nome de Zhang brilhando na tela. Trocamos números com a rapidez de quem teme que o outro desapareça. Caminhamos lado a lado, com uma distância segura para não desconfiarem de nada. Eu a segui com os olhos até que ela encontrasse Oscar.

Logo depois, eu estava espremido no táxi com Estêvão e Dominic ao meu lado direito.

— O que você queria com ela? — Dominic perguntou, parando de olhar pela janela para me dissecar.

— Vocês voltaram com caras estranhas. Brigaram? — Estêvão se inclinou para frente, a curiosidade brilhando nos olhos.

Encostei a cabeça no vidro, observando o reflexo do sol de fim de tarde nas vitrines das lojas.

— É pessoal. E não, não houve briga nenhuma.

Eles me encararam por mais um tempo, mas o segredo estava bem guardado sob meu sorriso contido, enquanto o táxi avançava pela cidade que parecia subitamente mais bela e menos quente.

 

 

 

Capítulo 53
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

Chapters

  • Capítulo 53
  • Capítulo 52
  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 47 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 46
  • Capítulo 45
  • Capítulo 44
  • Capítulo 43
  • Capítulo 42
  • Capítulo 41
  • Capítulo 40
  • Capítulo 39
  • Capítulo 38
  • Capítulo 37
  • Capítulo 36
  • Capítulo 35
  • Capítulo 34
  • Capítulo 33
  • Capítulo 32
  • Capítulo 31
  • Capítulo 30
  • Capítulo 29
  • Capítulo 28
  • Capítulo 27
  • Capítulo 26
  • Capítulo 25
  • Capítulo 24
  • Capítulo 23
  • Capítulo 22
  • Capítulo 21
  • Capítulo 20
  • Capítulo 19
  • Capítulo 18
  • Capítulo 17
  • Capítulo 16
  • Capítulo 15
  • Capítulo 14
  • Capítulo 13
  • Capítulo 12
  • Capítulo 11
  • Capítulo 10
  • Capítulo 09
  • Capítulo 08
  • Capítulo 07
  • Capítulo 06
  • Capítulo 05
  • Capítulo 04
  • Capítulo 03
  • Capítulo 02
  • Capítulo 01

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