Capítulo 56
Pousei a última caixa de papelão sobre a mesa de madeira. Meus ombros protestaram com uma pontada de exaustão e passei as mãos pelos braços, encarando a fileira de caixas que nascia na sala e serpenteava até a entrada da cozinha. No mesmo instante em que minha mãe cruzou a entrada carregando mais uma, Zhang surgiu do corredor.
— Nossa, como isso aqui pesa. — Minha mãe soltou a caixa na mesa com um baque seco, enxugando uma gota de suor da testa. — Essa caixa vermelha é sua, Oscar?
— Sim. São alguns livros de contabilidade. Eu estava pensando em me desfazer deles, afinal, perderam a utilidade para mim.
— Tem certeza? Esses manuais ainda servem para muita coisa. — Zhang aproximou-se, movida pela curiosidade. Suas unhas rasgaram a fita adesiva e ela espiou o conteúdo.
— Você parece interessada. Pode ficar com eles, se quiser — sugeri.
— Posso mesmo? Então são meus. — Ela abraçou o volume pesado sem esboçar um único sinal de esforço e girou nos calcanhares, sumindo corredor adentro em direção ao seu quarto. Fiquei impressionado com a força dela, apesar da sua estatura.
Minha mãe deu de ombros, recolhendo uma torre de louças plásticas e seguindo para a cozinha. O brilho nos olhos dela deixava claro que sua única prioridade era organizar o novo espaço o quanto antes.
Olhei ao redor, sentindo uma onda de energia me aquecer diante das paredes novas. Peguei a caixa azul com meus livros de gastronomia e caminhei até o meu quarto. O espaço era pequeno, mas oferecia a medida exata para as minhas necessidades. Coloquei os livros sobre a escrivaninha do computador e empurrei a caixa vazia para o canto da cama com o pé. Em seguida, esvaziei as malas de roupas diretamente nas gavetas do guarda-roupa, estiquei os lençóis até que sumissem as rugas e escancarei a janela. Uma lufada de vento fresco invadiu o ambiente, espantando o cheiro de poeira e renovando o ar.
No meu peito, o ritmo dos meus batimentos parecia uma dança alegre e descontraída. Era real. Eu finalmente dividia o mesmo teto com a minha melhor amiga e, acima de tudo, com a minha mãe.
Fixar os olhos naquele teto novo me fez retroceder dois dias no tempo. Lembrei-me do momento exato em que, despido de qualquer pudor ou hesitação, disparei o convite para que Zhang se mudasse e viesse morar comigo na minha antiga casa. As pupilas dela haviam se dilatado em pura descrença, mas um vinco de satisfação desenhou-se em seus lábios antes que ela aceitasse com um “sim” soprado, doce e leve.
Para resolver dois problemas de uma só vez, levei a proposta até minha mãe. Fui além: insisti para que ela colocasse nossa antiga propriedade à venda e investisse em um endereço bem distante daquele bairro, um lugar onde os cobradores do meu ex-padrasto não nos encontrassem e batessem contra portas fechadas. Ela hesitou por horas, mastigando a proposta com aqueles olhos grandes e redondos fixos em mim, calculando os males até ceder.
O que não cruzou pela minha mente era que Zhang, ao pescar o plano no ar, bateria o martelo para que todos nós nos mudássemos para a casa dela. A casa que a avó dela lhe deixou como herança tornou-se meu novo lar. Não importa quanto tempo leve para minha mãe vender nossa antiga casa, o importante é que ela agora está vazia e estamos longe daquele bairro, longe de qualquer cobrador, longe até mesmo do meu próprio ex-padrasto.
Se no passado existiu alguém que foi contra esse plano, tentando sabotar nosso rumo, hoje não existe mais ninguém, nenhuma barreira. O que está acontecendo é real: Zhang e eu vamos compartilhar a mesma rotina, dentro da mesma casa.
— Perdido em pensamentos? — A voz de Zhang ecoou da soleira da porta. Virei o rosto para ela.
— Pensando em você. E já que apareceu… — bati com a palma da mão no colchão, indicando o espaço ao meu lado — senta aqui e desembucha o que está escondendo de mim.
— Eu? — Ela arqueou as sobrancelhas, apontando para o próprio peito enquanto se impulsionava para a cama, desabando ao meu lado. — O que te faz pensar que estou escondendo algo?
— Você anda desfilando por aí com esse olhar vidrado, anda pelos cantos sussurrando ao celular e, basta eu abrir a boca para sondar, você desvia o assunto na mesma hora. Como se isso não bastasse, seu celular vive cheio de mensagens, tocando a todo momento.
Ela soltou uma risada contida, suas mãos buscando as minhas e apertando os meus dedos.
— Você decifra meus passos antes de eu os dar… Eu não abri a boca antes porque você mal tem tempo para respirar e ainda esteve ocupado com essa mudança. Acabei decidindo segurar a onda.
— Pode soltar. Sou todo ouvidos.
Ela lançou um olhar rápido para a janela, onde a luz solar capturou o brilho de seus olhos.
Uma sombra de dúvida rodopiou em suas íris, dilatando suas pupilas por um instante, antes de se dissipar quando ela voltou o rosto para mim. Ela sustentou meu olhar, sem desviar, pronta para colocar as cartas na mesa.
— O Eugênio confessou que ainda sente algo por mim. — O aperto de Zhang nos meus dedos tornou-se tão firme que chegou a doer. — Ele me pegou totalmente desarmada. Disse que carrega esse sentimento trancado desde os tempos de colégio.
— Isso é excelente, Zhang… Você sempre guardou um espaço enorme para ele.
— Sim! Mas eu já havia enterrado qualquer expectativa com ele fincando raízes no exterior. De repente, ele ressurge do nada e joga isso nos meus ombros. Estou radiante, Oscar. Tenho vocês aqui comigo e agora tenho o Eugênio! Se me dissessem isso há dois meses, eu acharia que era um delírio.
Fiquei observando as palavras saltarem da boca dela sem pausas, o rosto corado pela vibração daquela euforia. Uma satisfação morna me invadiu por vê-la cercada por quem amava. Zhang merecia aquela colheita de felicidade depois de passar uma vida inteira amortecendo os meus tombos, sem ter tido a chance de trocar um “eu te amo” com o homem que amou tão intensamente, antes que ele partisse cedo demais na minha vida passada.
— Você faz jus a cada pedaço disso, Zhang. Isso e muito mais. Estou na torcida por vocês, até porque a estrada vai exigir coragem.
O sorriso dela murchou em um piscar de olhos, as sobrancelhas unindo-se em sinal de dúvida.
— Exigir coragem por quê?
— Porque os dois precisam estar dispostos a encarar um namoro à distância. Ou você esqueceu que a vida deles continua do outro lado do mundo? — Fiz uma pausa, observando-a. — Pelo menos foi o que pesquei nas entrelinhas quando o Pedro conversou com o Dário outro dia, durante a feira de negócios. Todos sabíamos que eles tinham ido estudar fora, apesar de ser estranho eles voltarem agora.
Soltei minhas mãos das dela e curvei os dedos para acariciar sua bochecha.
— Eu não pensei nesse detalhe… — O olhar dela caiu para os próprios joelhos. — Achei que o retorno deles fosse definitivo.
— Talvez seja. Eu posso ter capturado a informação errada. Para ser sincero, eu mal prestava atenção no diálogo deles; meus olhos estavam fixos na minha mãe, me distraí. É bem provável que a sua versão seja a certa — murmurei, embora uma ponta de certeza me dissesse o contrário.
Eu não tinha o direito de apagar o brilho que ameaçava voltar ao rosto dela, mesmo que, lá no fundo, eu desejasse que os três irmãos e o pai voltassem imediatamente para o exterior. Para o buraco de onde não deveriam ter saído. Se a minha intuição estava certa ou errada, o tempo nos cobraria a resposta, mais cedo ou mais tarde.
— Você tem razão, Oscar. Vou esclarecer isso na próxima vez em que nos falarmos.
— Faça isso — incentivei.
— Certo. Agora vou dar uma força para sua mãe com as panelas.
Zhang ameaçou se impulsionar para cima, mas, ao firmar o pé, seu calcanhar engatou na quina da caixa azul vazia dos livros de gastronomia. O corpo dela pendeu para a frente e o choque de que ia atingir o chão estampou-se em suas pupilas. Em um reflexo ágil, passei o braço pela cintura dela, puxando-a contra mim. O impacto fez com que ela desabasse direto no meu colo.
Quando ela abriu as pálpebras, a distância entre nós havia sumido. O rosto dela preenchia todo o meu campo de visão de tão próximo. Ela tentou esboçar um sorriso, e o movimento sutil fez com que a ponta dos nossos narizes se roçasse. Deixei que um sorriso também surgisse nos meus lábios, mas o desmanchei no milésimo de segundo seguinte quando, em um impulso incontrolável, fechei a distância e pressionei meus lábios contra os dela.
Os lábios entreabertos de Zhang não me rejeitaram; pelo contrário, para minha surpresa, ela não recuou: ela permitiu. Eu entendi sua permissão silenciosa e abracei com força a sua cintura. Meus dedos, um pouco atrapalhados pela pressa, acabaram levantando um pouco sua blusa de algodão e tocaram sua pele lisa e quente.
Ela respondeu envolvendo meus ombros com os braços, e a ponta dos seus dedos tocou o meu cabelo bem na nuca.
Estávamos tão perto, colados um no outro. Os lábios dela tinham uma sensação úmida e macia. Colei com mais força os meus lábios nos dela, sentindo os seus dentes, mas eles não ficaram no caminho por muito tempo. Os lábios dela se abriram mais, e eu pude sentir o quão molhado era lá dentro com a minha língua. Nossas línguas se encontraram e, no início, pareciam duas estranhas, duas desconhecidas. Afinal, elas nunca haviam se encontrado antes; aquela era a primeira vez, o primeiro contato delas.
As duas se abraçaram, timidamente. A timidez sumiu pouco depois, quando elas se tocaram e a de Zhang entrou na minha boca, explorando a minha. A língua dela vagou pelos meus dentes e pelo céu da minha boca, curiosa, atenta. Como uma pessoa que chega, desconhece o lugar e depois se apropria completamente de tudo.
Recolhi a minha língua lentamente e deliciosamente, apenas para mordiscar seus lábios. Ela não quis ficar para trás; delicada, mas habilidosa, Zhang reivindicou os meus lábios para si. Eu não fiz menção de resistir; entreguei-me a ela.
Não sabemos quanto tempo se passou, mas quando senti meus pulmões arderem, pedindo uma folga, fui obrigado a me afastar, apenas o suficiente para nós dois respirarmos.
Ela encostou a testa no meu ombro, talvez querendo esconder o rosto do meu. Sua face estava quente, e suas costas subiam e desciam calmamente. Os lábios dela estavam entreabertos e vermelhos, assim como os meus. Os braços dela apertaram levemente os meus ombros.
Ainda com a testa apoiada em mim, Zhang soltou o ar e me encarou com os olhos arregalados, quebrando o silêncio com uma risada repentina:
— Oscar, é sério que é você? Não um alien que abduziu o meu amigo tímido e retraído? E que beijo foi aquele? Até onde eu sei, e tenho certeza, você não sabia nem beijar! Era virgem!
Eu recuei um pouco, pego de surpresa. Ela estava certa, eu ainda era virgem, pelo menos o meu corpo. Nessa época, eu nunca tinha beijado ninguém, muito menos ido para a cama com alguém. Tentei disfarçar colocando uma expressão mais neutra e limpei a garganta.
— É verdade. Mas eu apenas segui você. Você conduziu tão bem o beijo que eu aprendi a seguir e olha no que deu! — Sorri, desviando o assunto. — Nunca pensei que ia ter meu primeiro beijo com você, Zhang! — Brinquei com ela, mas no fim, era verdade. — Não podia haver pessoa melhor. Tanto como pessoa, quanto como mulher, você é espetacular, Zhang.
— Para, você me elogia demais, assim, vou ficar com vergonha — ela desviou o olhar, as bochechas ficando ainda mais vermelhas.
O clima de brincadeira cedeu espaço para um silêncio mais sério. Ela buscou meus olhos novamente e sussurrou, entre uma pausa para respirar e outra:
— Por que… você fez isso? Você por acaso… se apaixonou por mim? — Zhang arriscou.
Não falei nada logo, pensando. Zhang sempre esteve ao meu lado, era a mulher ideal para mim. Mesmo que meu coração estivesse adormecido, ele reconhecia que Zhang era atraente. Eu deveria ser honesto com ela e comigo.
— Não… mas eu queria. Eu fiz isso para ter certeza que não sentia nada.
— Que bom! — Ela deu um suspiro anasalado contra meu ombro, relaxando o corpo. — Eu não sei como eu te rejeitaria se fosse o caso. Eu te amo, mas não desse jeito.
— Mas… — Apertei a cintura dela, trazendo-a para mais perto ainda. — Se eu tivesse me apaixonado por você, o Eugênio não teria chances contra mim. Você é uma mulher incrível, me apaixonar por você seria a cereja do meu bolo.
— Mas não é simples assim, não mandamos nos sentimentos.
— Não, Zhang. E isso é uma merda. Mas por que você deixou eu te beijar?
— Porque eu sabia que você queria. Você nunca tinha feito nada disso antes, seus olhos e suas mãos pareciam buscar algo. Agora… você tem certeza do que encontrou? — Zhang perguntou.
— Absoluta. Com esse beijo, eu não senti nada do que eu queria.
— Eu também não senti nada. Mas devo dizer que, se me apaixonasse por você, eu sei que seria muito feliz — Zhang confessou de maneira honesta, e o sorriso nos seus lábios me fez sorrir de volta.
— Eu também — admiti. Ao dizer isso, deslizei minhas mãos pelo seu rosto, pescoço e corpo. Elas pausaram brevemente ao encontrar a curva de seus seios, antes de deslizarem para sua cintura.
Não me importei e a abracei de novo; ela não me rejeitou. Fiquei sentindo o calor dos seus braços ao meu redor, fechei os olhos por um instante e, quando os abri, a porta se abriu.
Vi Pedro na porta. A boca dele formou um círculo redondo quando ele deu um passo para trás. Eu entendi sua reação. Todos sabiam que eu e Zhang éramos apenas amigos, mas agora, quem visse ia pensar que éramos muito mais que isso. Principalmente porque Zhang estava com sua blusa um pouco levantada, sua pele visível, sentada no meu colo e com os braços ao meu redor.
— Desculpe, eu não sabia… que vocês eram namorados, não queria interromper… — Pedro falou, gaguejando e segurando os papéis de maneira desajeitada. — É que… enfim, me desculpem.
Zhang despertou do transe ao ouvi-lo. Levantou do meu colo num salto e organizou suas roupas e seu cabelo, tentando disfarçar o desconcerto. Eu me levantei, mas sem pressa e sem vergonha alguma.
— É um mal-entendido, Pedro. Relaxa aí e entra — chamei-o, organizando minha camisa amarrotada e despreocupado.
— Oscar e eu somos apenas amigos. É que às vezes, nós dois perdemos a noção do senso comum e vamos além — Zhang sorriu para Pedro ao alisar seus cabelos, tentando acalmá-lo. — Além disso, gosto de outra pessoa…
— Zhang tem razão. Nós dois somos tão próximos que nos empolgamos, mas somos só amigos — afirmei. — Vamos, Pedro. Não fique sem jeito.
Pedro limpou a garganta, ainda vermelho, olhando para os próprios sapatos sociais. Aquela postura dele era raramente vista.
— Desculpe, eu não costumo entrar sem bater, mas sua mãe me deu permissão e a porta estava aberta… Desculpem a interrupção.
— Eu vou para a cozinha, Oscar. Vou deixá-los a sós — Zhang se despediu após cumprimentar Pedro uma última vez e saiu, fechando a porta para nos dar privacidade.
Só agora, com o ambiente mais calmo, Pedro pareceu se lembrar do motivo de estar ali. Olhei para os papéis em sua mão. Ele seguiu o meu olhar e, percebendo o meu foco, finalmente estendeu os documentos para mim, mudando o tom para os negócios.
— Esses são os papéis que pediu. Só não entendo por que não quis que eu os enviasse para você.
— Meu computador deu um problema e meu notebook está descarregado. Ainda não comprei outro carregador — disse ao pegar os documentos e lê-los. — Esses são os seus extratos bancários dos últimos anos?
Estava disposto a ajudá-lo a administrar seus bens financeiros, principalmente, prevenir sua falência. Pedro não podia ir à falência, ou eu não poderia usá-lo nos meus planos para o futuro.
— Sim, assim como você pediu. Sabia que você entendia de negócios, mas… Acho impressionante que você saiba administrar isso tendo estudado tão pouco essa área administrativa — Pedro observou. — Deixe só os outros saberem…
— Ninguém precisa saber, Pedro. Eu faço isso sem querer receber créditos, o melhor é manter apenas entre nós dois. — A expressão dele ficou confusa. — Não me olhe assim, além do mais, não há nada para se admirar, a gastronomia também aborda temas como administração.
Ele continuou me encarando e para não alimentar seu estranhamento, mantive-me calmo. Depois de alguns segundos, sua expressão amenizou e, admirado, Pedro disse:
— Oh, eu não sabia. Isso é muito bom! Assim, quando você abrir seu próprio restaurante, já vai estar muito bem preparado.
— Não.
— Não? — Pedro perguntou, sem entender.
— Eu não vou abrir um restaurante — falei, estudando os papéis — penso em fazer algo muito maior.
— Uma empresa?
— Talvez…. Talvez — respondi vagamente, mantendo o foco nos números.
Capítulo 56
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...