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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 54

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O calor da cozinha pedagógica aumentava com o passar das horas, preenchido pelo aroma de ervas e pelo tinir metálico das facas. Eu estava focado no meu filé de peixe, com a pele seca, quase pronto para a fritura. O professor passou pela minha bancada, mas não desviei o olhar.

Enquanto removia a cauda do peixe, lembrei de Zhang. Do pedido de Eugênio, do andar estranho dela quando voltaram e do silêncio que ela manteve quando perguntei, assim que chegamos em casa. Se bem que… pelo olhar dos dois… devia ter alguma coisa. Pior ainda: pensar neles me fazia lembrar de Dominic. Com um golpe, cortei o que restava do peixe; a cabeça do animal voou alto com o impacto.

O que ele queria voltando agora? Ele só deveria retornar daqui a alguns anos! E que atitude estúpida foi aquela? Gaguejando desculpas, agitando as mãos no ar. Por um instante, admito, me surpreendi.

Distraído, deixei o óleo esquentar demais enquanto minha mente vagava. Num momento de desatenção, confundi os frascos brancos e, em vez de um toque de tempero, despejei uma colher de açúcar na frigideira fervente. O desastre foi imediato. O açúcar caramelizou e queimou instantaneamente, produzindo uma fumaça preta e ácida que subiu como uma nuvem negra, impregnando o ar com um cheiro enjoativo de queimado. Meu rosto esquentou de vergonha.

O alarme de incêndio soltou um bipe curto, e o Chef Rodrigues cravou os olhos em mim.

— Oscar! Que amadorismo é esse? Quer incendiar a minha cozinha? — o grito dele se sobrepôs ao burburinho dos meus colegas. — Por onde anda sua mente? Na cozinha, é crucial estar presente, não apenas fisicamente!

— Desculpe, Chef Rodrigues — respondi. Com um movimento rápido, joguei um pano úmido sobre a frigideira fumegante para abafar a fumaça.

— Limpe isso, já estamos quase no fim da aula. — Rodrigues virou as costas e dedicou sua atenção aos outros alunos.

Peguei uma garrafa de óleo lacrada para trocá-lo. Em seguida, limpei a bancada o mais rápido que pude. Quando o professor chegou perto, eu já estava selando o peixe em óleo limpo. O som da pele estalando na medida certa o agradou. Posso ter sido o último a sair da sala, mas sentia-me satisfeito com o resultado. Só que, nas próximas aulas, eu deveria deixar os assuntos pessoais fora da cozinha, para não ser chamado a atenção, como aconteceu hoje.

Do lado de fora dos portões da Universidade, Juliana emparelhou o passo comigo, os dela olhos brilhando com um sorriso que forçava uma covinha na bochecha.

— Oscar, o seu prato ficou incrível hoje. Você poderia participar do meu grupo de estudos. Suas dicas seriam muito bem-vindas. O que acha de ir hoje?

Ajustei a alça da mochila, pensando que os livros de gastronomia finalmente iriam parar de castigar os meus ombros e dar lugar à leveza de um lindo final de semana à frente.

— Hoje não dá. Tenho compromisso com a minha mãe — respondi, devolvendo o sorriso.

— Que pena! Você sempre usa esse mesmo roteiro. As meninas vão fazer um abaixo-assinado contra você — ela inflou as bochechas, fingindo um descontentamento que me arrancou uma risada.

Esse não era o primeiro convite, nem a primeira recusa. Até agora, apenas um convite foi aceito, e foi agradável e divertido. Eu era o único homem no grupo de estudos delas, um detalhe que rendia piadas constantes, mas, para mim, pouco importava.

Mas, quando colocava o convite em uma balança, o resultado era inegociável. Era quase um ritual. Se não todos os dias, eu tentava passar o máximo de tempo possível com minha mãe e Zhang. Para mim, não havia prioridade maior.

— Sem chance de recurso, Juliana. Vou passar quarenta e oito horas com a mulher mais incrível do mundo: minha mãe.

— Contra isso não há argumentos. Eu me rendo! — Ela ergueu as mãos em sinal de trégua enquanto atravessavamos a rua.

Não chegamos ao ponto de ônibus. O ronco abafado de um motor de alto desempenho vibrou no asfalto, e um sedã preto reluzente deslizou até o meio-fio.

O vidro fumê desceu com um zunido elétrico, revelando Pedro. Ele tirou os óculos escuros, exibindo olhos de quem raramente via tristeza, com um brilho febril no olhar.

— Oscar! Enfim te encontrei! — ele exclamou, com as mãos batucando no volante de couro. — Preciso de você. Vou a uma feira de negócios agora e quero que você e sua mãe me acompanhem.

Hesitei, mas antes que eu pudesse formular uma desculpa, minha mãe acenou do banco de trás, já abrindo a porta para mim. Despedi-me de Juliana com um aceno rápido e, em instantes, a faculdade era apenas um borrão no retrovisor.

Ao entrar no pavilhão da feira, o ar misturado de aromas e o burburinho de vozes em terno e gravata trouxeram um misto de nostalgia familiar e análise profissional. Meus olhos saltavam de estande em estande.

Ali, um administrador cujo rosto estampava capas de revistas; acolá, uma vitrine luxuosa que escondia uma logística de buffet desastrosa.

Sem perceber, comecei a cochichar observações no ouvido de Pedro: quem ali tinha potencial, quem estava apenas vendendo aparência e onde estavam as falhas de logística de cada estande.

Inclinei-me para mais perto, baixando o tom de voz.

— Aquele estande de massas? O fluxo de saída vai travar em uma hora. E aquele importador de frios… a conversa dele é melhor que o produto. Fique de olho no rapaz do canto, o da pequena queijaria; ele tem o estoque organizado e o olhar de quem sabe o que é uma boa produção.

Pedro parou no meio do corredor, ignorando o fluxo de pessoas. Ele me encarou por um longo segundo, processando as informações.

O sucesso das minhas marmitas no restaurante dele era uma prova do meu paladar, mas ali, no campo de batalha dos negócios, entre estratégias de mercado, ele percebeu que minha visão ia muito além do que tinha visto até agora e pareceu me ver pela primeira vez.

— Oscar… — ele murmurou, a voz grave. — Você não apenas cozinha. Você tem um faro para isso. Quero que seja meu aprendiz oficial, meu braço direito. Vou te abrir as portas dos bastidores e você me ajuda a elevar o nível de tudo o que faço.

Eu sorri, achando a proposta ironicamente deliciosa. Se ele soubesse que, em outra vida ou circunstância, eu é que deveria ser o chefe dele… mas apenas assenti. Era o terceiro degrau que eu precisava. Quem sabe se, no futuro, eu não acabaria sendo o chefe dele?

A atmosfera de triunfo, porém, esfriou quando avistamos uma silhueta imponente perto da área VIP: o pai de Dom. Pedro empertigou-se na hora; um brilho idolatrado dominou os olhos do meu companheiro.

— Veja, Oscar! Aquele é um dos gigantes! — Pedro apontou, a voz subindo um tom de excitação. — Você precisa conhecê-lo!

— Onde? Não vejo nada de especial — minha mãe comentou, os olhos vagando pelos balcões de degustação, totalmente alheia à hierarquia de poder ali presente.

— Ali, o homem de terno marinho sob medida! Com o olhar de quem comanda o país! — Pedro insistiu.

Minha mãe localizou o alvo, deu de ombros e voltou sua atenção para um mostruário de sobremesas.

— Mãe, fique aqui degustando os doces. Vou acompanhar o Pedro por um instante — sussurrei, inclinando-me para depositar um beijo em sua bochecha.

Senti o cheiro suave de lavanda que a acompanhava. Ela sustentou meu olhar por um segundo a mais, dando um aperto leve em meu pulso.

— Vá — ela articulou, os lábios já se curvando em um sorriso sereno.

Antes mesmo que eu pudesse responder, ela se virou para a mesa de cristal. Seus dedos, ágeis e experientes, pinçaram um brigadeiro decorado com folhas de ouro. Ela não o comeu de imediato; ergueu o doce contra a luz, girando-o lentamente para analisar a decoração do chocolate, com o olhar aguçado de quem desmascara um ingrediente mediano em segundos.

A paz daquele momento foi interrompida por um puxão em meu cotovelo. Pedro estava entusiasmado, o nó da gravata ligeiramente torto pela ansiedade.

— Menos degustação, mais contatos, Oscar! — ele sibilou, me arrastando pelo carpete grosso.

Eu mal conseguia manter o passo sem tropeçar enquanto ele abria caminho entre os convidados como um trator. Quando me dei conta, Pedro me arrastou até Dário.

— Dário! Que honra. O pai dos “Três Pilares” raramente agracia eventos assim — Pedro disparou, com um sorriso largo demais.

— Obrigado, mas já estou de saída — Dário respondeu com um sorriso gélido, seus olhos passando por Pedro como se ele fosse apenas parte da multidão.

— Compreensível! Mas antes, veja: este é meu aprendiz. Um gênio dos negócios! — Pedro deu um tapa sonoro nas minhas costas, quase me empurrando para a frente. — Largou a contabilidade pela gastronomia e já é um fenômeno!

Dário finalmente me olhou. Suas pupilas se estreitaram levemente, num escrutínio silencioso. Mantive a coluna ereta e ofereci apenas um aceno polido, o mínimo necessário para não ser rude, o máximo para não parecer interessado.

— Se o que Pedro diz é verdade, você terá um futuro brilhante — Dário disse, as palavras saindo mecânicas.

— E como terá! Eu mesmo serei seu instrutor, embora ele pareça nem precisar de mim! Oscar tem um brilho e uma mente que faz qualquer um ficar de boca aberta! — Pedro soltou uma gargalhada e, num gesto de intimidade inexistente, bateu no ombro de Dário.

O rosto de Dário endureceu instantaneamente. O maxilar travou, e o brilho de desprezo em seus olhos foi tão nítido que o ar pareceu perder alguns graus de temperatura.

— Logo ele será um pilar também! — Pedro continuou, cego ao desconforto alheio.

— Quem sabe… — Dário ofereceu um sorriso que não chegou aos olhos. — Com licença.

— Eu entendo, eu entendo! — Pedro o impediu de sair, coçando a cabeça onde os fios brancos começavam a vencer os pretos. — Quer ir ver os filhos. Soube que os “Três Pilares” voltaram ao país. Tão jovens e já tão famosos! Seria uma honra um jantar com eles, não?

A máscara de Dário oscilou. Suas sobrancelhas se contraíram por uma fração de segundo — o sinal de uma rachadura que Pedro, em sua empolgação, não soube ler. Dário não fazia ideia de que os herdeiros tinham fugido da universidade e voltado às escondidas.

— Veremos — Dário respondeu, a voz mais baixa, quase um rosnado contido.

— Estarei esperando! Sabe, li numa revista que já faz dezenove anos desde aquela queda de avião… os pais do Estêvão. Que tragédia horrível — Pedro balançou a cabeça, o tom carregado de uma melancolia genuína, mas desastrosa. — Vocês eram quase família. Deve doer até hoje.

O silêncio que se seguiu foi grande. Dário parecia ter se transformado em rocha.

— Esse assunto está enterrado — a voz de Dário saiu fria e direta. — Eu o criei desde criança. Ele é meu filho. E ninguém tem coragem de sugerir o contrário.

— Claro, claro! Eu concordo plenamente! — Pedro se apressou em dizer, a voz subindo de oitava pela tensão que finalmente começava a sentir, embora não entendesse a origem. — Para mim, ele sempre será seu filho!

Dário lançou um olhar de puro desdém a Pedro, uma mistura de nojo e irritação, e saiu sem dizer mais uma palavra. Observei suas costas rígidas enquanto ele se afastava apressado. Pude ouvir o som do celular sendo sacado e o tom ríspido com que ele chamou o motorista.

— Viu só, Oscar? — Pedro sussurrou para mim, parecendo subitamente sábio. — Ele sempre fica sensível com o assunto do acidente. Nunca mencione isso perto dele.

Suspirei, olhando para o meu mentor. Ele me dava um conselho que acabara de ignorar inconscientemente na frente de um dos homens mais poderosos da sala. Pedro era um tanto brusco nos modos, mas sua bondade compensava esse defeito. Ele tanto atraía quanto afastava as pessoas, prejudicando os próprios negócios. No futuro, ele teria que aprender a ser mais diplomático ou acabaria falindo.

Enquanto Pedro se perdia em sua falta de tato, eu olhava para a silhueta da minha mãe, que agora levava outro doce à boca com uma elegância simples, e sentia os meus projetos começarem a se construir sob meus pés.

 

 

 

Capítulo 54
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

Chapters

  • Capítulo 55
  • Capítulo 54
  • Capítulo 53
  • Capítulo 52
  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 47 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 46
  • Capítulo 45
  • Capítulo 44
  • Capítulo 43
  • Capítulo 42
  • Capítulo 41
  • Capítulo 40
  • Capítulo 39
  • Capítulo 38
  • Capítulo 37
  • Capítulo 36
  • Capítulo 35
  • Capítulo 34
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  • Capítulo 04
  • Capítulo 03
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