Capítulo 55
— Mas o que deu em vocês? Largar a faculdade e vir para cá? E cadê o Eduardo? Por que ele não parou essa maluquice?
Estêvão nem desviou os olhos do brilho da tela para responder.
— Ficou lá. Na Europa.
— Eu não pago aquele homem para tomar chá com leite enquanto vocês jogam os estudos no lixo! — O soco do meu pai na mesa fez os copos tilintarem. — Eu esperaria isso do Estêvão, mas você, Eugênio? Você era o pilar!
— Eu, pai? — Estêvão finalmente ergueu o rosto, um sorriso enviesado nos lábios, mas logo o reflexo das redes sociais voltou a dançar em suas lentes.
— Olhem para mim quando eu falo!
Guardamos os aparelhos no bolso num movimento sincronizado. Pela primeira vez, Dominic não rebateu. Ele mantinha o olhar fixo no pai, mas não havia desafio ali; havia uma espécie de exame minucioso, como se redescobrisse cada linha de expressão no rosto dele. Um canto de sua boca se elevou de leve. Ele parecia… em paz sob o bombardeio.
— Desculpe, pai. Nós erramos — murmurei, desviando os olhos do transe estranho do meu irmão.
— Finalmente a razão deu as caras! Sabem a vergonha que passei hoje cedo? Onde estavam meus filhos? O pessoal inteiro sabia, menos eu! Ainda tive que aturar as asneiras de Pedro! Amanhã, sem falta, os três pegam o primeiro voo de volta.
Meu pai marchava de um lado para o outro, os passos pesados fazendo o assoalho ranger.
— Eu não vou — a voz de Dominic saiu calma, como um ponto final. Não havia espaço para contestações, nem um pingo de hesitação.
Meu pai travou no meio do passo. Seus olhos perfuraram os de Dom.
— O quê? Os três vão! — Ele deu um passo à frente, inflando o peito. — Desde quando eu perdi a autoridade sobre meus filhos?
Dominic endireitou a coluna, os ombros largos bloqueando a luz do abajur atrás dele. Estêvão tensionou o corpo, a mão apoiada no braço do sofá, pronto para saltar se os punhos fossem fechados. Me alarmei; Dominic e nosso pai iam discutir, como de costume. Era sempre assim. Ali, diante de mim, eu via o meu irmão de sempre.
— Passei a vida baixando a cabeça para suas ordens, seus planos — Dom falou baixo. Não havia o trovão de costume na voz dele, apenas um peso cansado. — Meus irmãos também. Não podemos escolher o nosso caminho uma única vez, pai? Só uma?
O rosto de meu pai, antes corado, empalideceu até um tom acinzentado.
— Agora resolveu se revoltar?
— Não. — Dom soltou o ar lentamente, os ombros cedendo. — Vou ficar mais duas semanas. Depois, eu volto.
O silêncio que se seguiu foi geral. Dominic, o mesmo homem que costumava impor sua vontade, agora recuava com uma humildade que nos deixou atônitos. Encarei o rosto dele e, logo em seguida, desviei o olhar para o nosso irmão mais novo. Estêvão franziu a testa, tentando decifrar o enigma em que o irmão mais velho se tornara.
— Estêvão, Eugênio. Arrumem as malas. Partimos amanhã.
Despertei. O rosto de Zhang brilhou na minha mente. Senti um calor no peito, uma sensação que anulou qualquer ideia de viajar. Ela era como minha raiz e eu não conseguiria deixá-la agora.
— Desculpe — minha voz saiu instável, um fio que eu mal conseguia dominar. — Eu volto com o Dominic. Juntos.
Meu pai me encarou por longos segundos, então soltou um suspiro longo, os ombros perdendo a rigidez. Ele se deixou cair no sofá – ao lado de Estêvão, a mão massageando as têmporas.
— Contanto que voltem na data certa… — murmurou, vencido. — Estêvão vai ficar, claro. Vocês três não se largam.
Estêvão não perdeu a chance. Com aquele jeito solto e atrevido, passou o braço pelo pescoço do nosso pai, puxando-o para um abraço de lado que desfez qualquer resquício de mau humor. Meu pai, vencido, rendeu-se àquela descontração contagiante. Eu senti a pressão no meu peito aliviar; o clima na sala, enfim, ficou leve e fácil de respirar.
— Obrigado, pai — disse Dominic.
Ele deu dois passos e, antes que qualquer um pudesse prever, envolveu nosso pai em um abraço. O vi ficar estático, as rugas da testa se aprofundando em choque. Estêvão foi puxado para o bolo de braços e ficou petrificado, os olhos arregalados.
— É a primeira vez que você me abraça, filho… — a voz do meu pai saiu abafada contra o ombro de Dom.
— No passado, o senhor raramente deu chances — respondeu Dom, e havia um som de saudade antiga em cada sílaba.
Levantei e me juntei àquele abraço. O calor daqueles corpos, algo que eu mal lembrava como era, trouxe uma onda de alívio que quase fez meus olhos ficarem úmidos. Pela primeira vez, o silêncio entre nós não era uma parede de distanciamento ou críticas mudas, mas preenchido por uma humanidade nova. Olhei para os três. Estêvão tinha os olhos úmidos, refletindo a luz da sala. Éramos estranhos morando sob o mesmo teto, competindo para ver quem era mais duro, mais frio, mais parecido com a estátua que nosso pai fingia ser.
Nossas conversas sempre soaram profissionais; a voz do meu pai só ecoava pelo corredor para corrigir a postura de um ou cobrar o desempenho de outro. Crescemos sendo obedientes, aprendendo a buscar o calor humano nos balcões de bares ou em braços estranhos, longe daquela frieza de escritório que impregnava a sala de estar.
Mas agora, a atmosfera em torno dele parecia ter mudado de intensidade. Observar meus irmãos rodearem aquele homem que sempre pareceu uma rocha e, mais do que isso, vê-lo não recuar… foi um choque. Ele não se esquivou. Pela primeira vez, os ombros dele, antes duros e autoritários, cederam àquele momento de afeto.
Meus dedos formigavam com a vontade de que o tempo parasse ali. Lembrei do susto que levei quando Dom, dias atrás, sentou na minha cama e me disse, pela primeira vez, que me amava. Aquilo rompeu a nossa distância, o momento em que a barreira entre nós finalmente cedeu. Ali, vendo todos envoltos em um abraço desajeitado e inédito, eu só conseguia torcer para que o jeito fechado do nosso pai estivesse ficando, enfim, mais ausente.
Meu celular vibrou no bolso, iluminando o tecido. Escapei para a cozinha antes que o que sentia me traísse e me deixasse incapaz de falar.
— Boa noite! — A voz de Zhang era um sol vindo do outro lado da linha. — Mais cedo, você pediu para ligar. Está tudo bem?
— Zhang… eu preciso te contar uma coisa. É importante. — Encostei as costas na geladeira gelada, sentindo minhas pernas amolecerem. Como dizer que eu tinha data para partir? Ela ainda não sabia, e era preciso contar o quanto antes. Eu a conhecia: se não soubesse logo, ela ficaria ressentida.
— Pode falar… — Ela esperou.
Antes que eu pudesse formular a frase, a voz de Oscar ecoou ao fundo: “Você viu a caixa azul? Eu não encontrei.”
— O Oscar? — perguntei, o peito apertando de novo.
— Sim! Você não vai acreditar: Oscar me convidou para morar com eles, mas os planos mudaram de última hora. Ele e a mãe dele decidiram vender a casa, então eu os convidei para morar na casa da minha avó! Oscar aceitou prontamente. A mãe dele resistiu um pouco, mas cedeu depois de tanta adulação. Diante de nós dois, o coração dela amoleceu. — Ela riu, um som doce que aqueceu meus ouvidos. — A mudança começou hoje, estou na casa do Oscar empacotando suas coisas. Está tudo uma bagunça, mas… é como se eu tivesse uma família novamente.
Meus dedos, que antes apertavam o celular com força, relaxaram contra a tela quente. O ciúme, que sempre subia como uma maré ácida, simplesmente recuou, deixando apenas uma calmaria estranha.
Do outro lado da linha, ela soltou uma risada ao pronunciar a palavra “família”. Percebi que o Oscar era o apoio dela agora. Fechei os olhos, sentindo a preocupação quanto à viagem diminuir; eu podia viajar, porque ela não estava mais sozinha. Mas, para que pudéssemos continuar juntos, precisava contar para ela logo.
— Eugênio? — A voz dela me chamou, mas Estêvão surgiu na porta da cozinha, esticando o pescoço para ler a tela.
— Falando com quem? — Ele perguntou.
— Não te interessa! — Desliguei rápido, sem tempo para responder o chamado de Zhang.
— Desligou na hora! É namorada, certeza! — Ele me deu um empurrão amigável no ombro e atacou uma maçã na fruteira.
— Pare de ser xereta. — Ajustei os óculos, que escorregaram com o esbarrão. — Não é namorada. Ainda.
Ele mostrou os dentes em uma risada, com aquele brilho cativante de diversão nos olhos. Ávido por uma reação, passou o braço pelos meus ombros abusadamente e me deu um leve puxão, convidando-me a caminhar. Voltamos para a sala. Dom e papai continuavam no sofá, com o tom de voz baixo, num diálogo calmo. O gelo tinha derretido, e, pela primeira vez em anos, o apartamento não parecia um escritório, mas um lar.
Capítulo 55
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...