Você Está Interessada Nele?
Enquanto isso, Ah-Xia retornava ao pátio onde residia a Senhora Li, com o coração pesado. Por coincidência, Ah-Chun estava erguendo a cortina para sair e a avistou.
— Por que demorou tanto para entregar os petiscos? — repreendeu. — A Senhora está esperando o seu relatório!
O sobrenome da Senhora Li era Zhang. Tinha cinquenta anos completos e cuidava-se muito bem — ao menos, se comparada às mulheres da sua idade, não parecia tão envelhecida. Ainda assim, rugas teimosas subiam pelos cantos dos olhos, e seu corpo começava a se curvar levemente, embora mantivesse um semblante amável. Ao ver Ah-Xia entrar, ela sorriu gentilmente.
— Entregou? — perguntou.
Ah-Xia curvou-se respeitosamente.
— Sim, senhora. O senhor Tang ficou satisfeito e pediu-me que agradecesse pelo seu trabalho, madame.
— Ele tem nos ajudado tanto… mandar um pouco de comida todos os dias é o mínimo. Que incômodo seria esse? Venha cá, Ah-Xia, preciso lhe dizer uma coisa.
Ah-Xia aproximou-se apressadamente. Ao notar que a Senhora Zhang a observava com atenção, sentiu-se um pouco inquieta.
— O que deseja, madame?
A mulher manteve o sorriso.
— Não precisa ficar nervosa. Quero lhe fazer uma pergunta… você sente admiração por ele?
O coração de Ah-Xia disparou.
— M-madame? — gaguejou.
— Fale com sinceridade, não lhe farei mal. Sente ou não?
A voz da jovem saiu quase inaudível, como um sussurro de mosquito.
— Sinto…
— Ótimo. Ele é um oficial na capital e vive sozinho, sem ninguém próximo que cuide dele. Você tem dezessete anos — já deveria estar casada há muito tempo. Sei que gosta dele, mas com sua condição, seria impossível tornar-se sua esposa principal. Como concubina, porém, talvez fosse possível… ainda assim, você vem de uma boa origem e aprendeu muito ao meu lado nesses anos. Eu poderia libertá-la de seu contrato e permitir que se casasse com um bom homem, dona de uma pequena casa. É por isso que pergunto: quer servi-lo, ou quer se casar?
Lembrando-se da rejeição recente, Ah-Xia ficou vermelha como um tomate.
— Esta criada… foi ousada demais e já me atrevi a declarar meus sentimentos a ele!
A Senhora Zhang levou um susto.
— Ah, menina, o que há de errado nisso? Homens crescem e tomam esposas, mulheres crescem e se casam. Vi você crescer desde pequena. Tanto você quanto Ah-Chun, Ah-Qiu e as outras — fico feliz quando encontro um bom destino para cada uma. Vamos, conte-me, o que ele disse?
Ah-Xia caiu de joelhos, agarrando-se às pernas da patroa enquanto chorava.
— Senhora… ele não gosta de mim! Eu… eu quero morrer!
A mulher a ergueu com cuidado.
— Ora, não diga isso. Não há como reverter a situação? O que exatamente ele disse?
Em meio às lágrimas, Ah-Xia contou tudo o que havia acontecido.
Quando terminou, a Senhora Zhang suspirou.
— Então é verdade… ele realmente não tem esse tipo de interesse. Com sua beleza e seu temperamento, ele não deveria tê-la rejeitado — mas nem todos os homens do mundo são movidos por desejo. Há exceções. Tudo bem, encontrarei outro casamento para você. Escolha alguém da mansão de quem goste.
— Esta criada ousa implorar que a senhora interceda por mim… — murmurou Ah-Xia. — Que fale algumas palavras em meu favor ao senhor Tang.
A Senhora Zhang balançou a cabeça.
— Isso é apenas um carma de vidas passadas. Ouvi dizer que ele anda saindo cedo e voltando tarde, deve estar muito ocupado. Espere essa fase passar, e então mandarei chamá-lo.
Ah-Xia secou as lágrimas e sorriu.
— Agradeço imensamente, senhora! Lembrarei de sua bondade por toda a vida!
Um par de pés delicados caminhava silenciosamente pelo corredor de um bordel.
Vestidos luxuosos e finos roçavam-lhe os tornozelos, o tecido ondulando a cada passo e revelando, por breves instantes, os sapatos bordados que despertavam imaginações indevidas.
Parecia que ela não pisava em degraus, mas em nuvens.
Parou diante de uma porta, levantou a mão e bateu.
— Quem é? — perguntou uma voz do outro lado.
— Sou eu, Mamãe Lu — respondeu ela suavemente. Sua voz era macia e aveludada, típica das mulheres de Jiangnan. Mesmo irritada, soava provocante. Qualquer homem comum que a ouvisse sentiria metade dos ossos amolecerem.
Dessa vez, porém, a dona do quarto não veio abrir com seu costumeiro sorriso. Demorou um minuto inteiro antes de responder:
— Espere um pouco, já vou!
Através do papel colado nas janelas, era possível ver o vulto se aproximando. A porta se abriu com um rangido.
— Ah, é você, Qingzi. Entre, depressa!
— Está doente, Mamãe? Parece abatida — perguntou Qingzi.
A cafetina forçou um sorriso.
— Nada demais. Venha, sente-se! — gritou para fora. — Pequeno Seis, traga chá!
Qingzi levantou a mão.
— Não precisa, Mamãe Lu. Tenho algo importante para conversar agora.
A mulher deu uma risadinha.
— Fale logo. Desde quando preciso negar pedidos seus? Diga!
Qingzi hesitou por um momento, depois respirou fundo e disse:
— Quero comprar minha liberdade.
O sorriso de Mamãe Lu se desfez.
— O que disse?
— Quero me redimir — repetiu, firme.
A cafetina saltou da cadeira como se tivesse levado um choque.
— Não! Eu não permito!
Qingzi a fitou com serenidade.
— Mamãe Lu, combinamos que, se eu reunisse cinco mil taéis, a senhora me deixaria livre. — Retirou um bilhete bancário do decote. — Aqui está: uma nota verdadeira do Banco Huitong.
A mulher suavizou o tom.
— Ah, Qingzi… não é que eu duvide de você, mas de onde tirou tanto dinheiro? Não é pouca coisa. Essa quantia toda é para você — por que se apressar em sair? Mesmo que consiga a liberdade, de que vai viver? Fique mais alguns anos aqui.
“Já vi tantas meninas que compraram a liberdade e logo gastaram tudo, voltando sem valor. Mesmo que reabrissem o negócio, nunca cobravam o mesmo preço. Ouça o conselho da Mamãe: em vez de se libertar, seria melhor casar-se como concubina de algum senhor rico. Viveria bem.”
— Mamãe Lu — respondeu Qingzi com calma —, quantos homens bons frequentam bordéis? Por que tenta me enganar? Tenho dezenove anos, vivi isso por tempo demais. Trabalhei aqui desde jovem, e a senhora me conhece. Não pode me deixar viver em paz por alguns dias?
Vendo a determinação da moça, o semblante da cafetina se ensombrou. Os lábios tremiam como se fosse soltar impropérios, mas, após refletir, ela trocou a expressão por um sorriso cínico.
— Tudo bem, tudo bem. Já que chegou a esse ponto, não posso impedir. Você me acompanhou tantos anos, fico apenas com quatro mil taéis. Guarde mil para emergências.
Qingzi ficou surpresa. Não esperava tamanha generosidade de uma mulher tão apegada ao dinheiro. Emocionada, fez uma reverência profunda.
— Sou grata, Mamãe. Vivi sob seus cuidados por tantos anos e não sei como retribuir. Por favor, aceite os cinco mil. Tenho economias guardadas; não passarei fome.
Mamãe Lu pegou sua mão e a puxou para sentar-se.
— Fale a verdade com a Mamãe. Esse dinheiro foi dado pelo Don Zheng, não foi? Agora que ele morreu, essa história virou um escândalo. Isso pode nos trazer problemas.
— Claro que não, Mamãe Lu. Ele era um devasso — respondeu Qingzi, rindo sem humor. — Mesmo que tivesse dinheiro, jamais me daria tanto para eu me libertar. Esse dinheiro tem origem limpa. Não se preocupe.
A cafetina franziu o cenho.
— Ainda assim, não fico tranquila. Você sabe que ele passou a noite aqui, no dia anterior à morte. Isso é… ambíguo. Se a nobreza resolver investigar, podem nos envolver.
— Mas o caso não já foi resolvido? Disseram que o assassino foi o segundo filho da Mansão do Marquês de Wu’an, em conluio com a concubina do irmão mais velho. O que isso tem a ver conosco?
Mamãe Lu sorriu amarelo.
— Mesmo assim, ouvi dizer que os homens do Escritório da Bastilha do Norte ainda investigam. Acham que há algo suspeito. Eu cuido de suas finanças — como conseguiu reunir cinco mil taéis de uma vez? Não quero forçá-la a ficar, mas me explique direitinho. Se esse dinheiro for maldito, podemos todas ser arrastadas junto!
Qingzi ficou em silêncio por um instante.
— Não posso revelar a origem. Apenas posso dizer que veio de um cliente generoso, que tem interesse em mim. Queria me levar consigo, mas sua esposa é uma megera e o impede.
Mamãe Lu estreitou os olhos.
— Assim fico mais tranquila. Mas ainda tenho uma dúvida.
— Pode perguntar, Mamãe.
— Ouvi dizer que você comprou uma casa fora daqui. É verdade?
O rosto de Qingzi empalideceu.
— O que quer dizer com isso? Mandou me investigar?!
— Você é minha menina, e eu não posso perguntar? Seja sincera! De onde veio essa casa?
Qingzi levantou-se bruscamente, rindo com desdém.
— Não há mais nada a dizer. Já que não quer me libertar, voltarei outro dia. Espero que não se arrependa!
Antes que pudesse sair, uma voz masculina ecoou dentro do quarto:
— Se não explicar a origem do dinheiro e da casa, senhorita Qingzi, receio que não poderá ir embora hoje.
Dois homens surgiram por trás de um biombo. Um era alto e imponente, com uma espada na mão; o outro, vestido de verde-bambu, exalava uma elegância tranquila.
O rosto de Qingzi empalideceu. Quando tentou correr, dois guardas já bloqueavam a porta.
— Quem são vocês?! — gritou.
Tang Fan observou seus punhos cerrados dentro das mangas — sinal claro de tensão interior.
— Tang Fan, da Prefeitura de Shuntian. Há perguntas pendentes sobre o caso da Mansão do Marquês. Precisamos de sua colaboração.
— Mas o caso não foi encerrado?
— Ainda não — respondeu Tang Fan. — Descobrimos que há outro assassino. Talvez você o conheça.
Ela arregalou os olhos.
— O que isso tem a ver comigo?!
— Zheng Cheng teve um breve relacionamento com você. Uma noite de intimidade já cria laços. Diante disso, por que reage com tamanha frieza à sua morte?
— Está insinuando que fui eu quem o matou, senhor Tang? — perguntou, erguendo o queixo.
— Ele morreu por dois motivos — explicou Tang Fan. — Primeiro, o medicamento que tomava para fortalecer o yang foi adulterado com bupleurum, o que drenou sua energia vital. Segundo, alguém atingiu o ponto baihui no alto da cabeça dele diversas vezes, rompendo os canais do meridiano. Já capturamos os responsáveis pela troca da receita — o segundo filho, Zheng Zhi, e a concubina Hui. Mas nenhum dos dois sabia sobre acupontos, e tampouco estavam em posição de golpeá-lo enquanto ele dormia. Apenas alguém que dividia a cama com ele poderia ter feito isso. Três pessoas se encaixam: você, a concubina Yu e a amante Zhao.
— Então por que não vai interrogá-las em vez de me importunar?
— Porque as vigiamos nas últimas semanas — respondeu ele. — Ambas viveram normalmente, sem contatos suspeitos ou mudanças financeiras. Só você apresentou algo fora do comum: comprou uma casa e quer se libertar.
Nesse instante, dois guardas entraram.
— Senhor, encontramos isto no quarto dela!
Tang Fan assentiu.
— Onde?
— Sob o colchão, escondido entre a armação e o canto.
Ao ver o saquinho que traziam, Qingzi empalideceu de novo.
Tang Fan o abriu, cheirou e passou a Sui Zhou.
— Aposto que isso continha a substância usada para dopar Zheng Cheng — disse calmamente. — Você deve ter despejado o conteúdo há tempos, mas não limpou direito. Por que não se livrou do saquinho?
Ela sorriu com frieza.
— Um homem sem romantismo, senhor Tang. Um saquinho bordado por uma mulher é feito para quem ela ama — ou guardado como lembrança. Como poderia jogá-lo fora?
Tang Fan lembrou-se do saquinho de Ah-Xia e coçou o nariz.
— Então admite ser a assassina, senhorita Qingzi?
— Sim — respondeu, serena. — Fui eu quem o golpeou. Em um mês, ele morreria sem deixar vestígios. Sabia que outros também o queriam morto, então não precisei sujar muito as mãos.
— Por quê? — perguntou Tang Fan.
— “Por quê”? — ela riu. — Vocês pegam assassinos por mérito, e eu não posso me vingar? Zheng Cheng era um perverso, inventava novos tormentos na cama. Sofri demais. Se eu podia enganá-lo e ainda me livrar dele, por que não o faria?
Virou-se para a cafetina e gritou com ódio:
— Essa bruxa nunca admitiu o quanto me arruinou desde menina! Eu devia matá-la antes de ir embora, mas vocês arruinaram tudo!
Mamãe Lu ficou pálida, escondendo-se atrás de Tang Fan.
Mas Sui Zhou, impaciente, moveu-se num relâmpago. Com um leve gesto de manga, empurrou a mulher para o lado, fazendo-a cair no chão com um grito.
— Levem-na para interrogatório — ordenou friamente.
Os guardas a imobilizaram.
Sui Zhou fez uma careta, incomodado com o cheiro forte de cosméticos, mas ainda assim seguiu Tang Fan até o quarto da moça para vasculhar o local. Após recolherem alguns objetos suspeitos, deixaram o bordel.
Tang Fan suspirou.
— Quando prendemos a senhorita Hui, pensei que havíamos resolvido o caso. Jamais imaginei que duas pessoas, ao mesmo tempo, quisessem Zheng Cheng morto. Ele realmente nasceu para morrer.
— Além da criada que comprou a casa, ela teve contato com mais alguém? — perguntou Sui Zhou.
Tang Fan balançou a cabeça.
— Não… espere! — parou abruptamente.
Sui Zhou o observou com curiosidade.
— Precisamos trazê-la de volta. Esquecemos uma pergunta crucial! — exclamou Tang Fan.
Sui Zhou não hesitou — seu corpo desapareceu em segundos.
Quando Tang Fan chegou, ofegante, à prisão da prefeitura, deparou-se com Qingzi caída no chão, sem vida. Sui Zhou interrogava os guardas.
Eles explicaram que, por ser mulher e cooperativa, não a haviam revistado. Mas, de repente, ela tirou um pequeno punhal escondido e cravou no próprio peito. Morreu em instantes.
Tang Fan, com um fio de esperança, ajoelhou-se e verificou o pulso — estava sem vida.
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The Fourteenth Year of Chenghua
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