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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 58

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— Pai — Eugênio chamou e todos olhamos. — Sabia que a Zhang é amiga do Oscar?

— Oscar? — meu pai repetiu.

— O jovem com quem você se encontrou outro dia — Eugênio relembrou, buscando refrescar a memória dele. — Em uma feira de negócios.

— Sim, lembrei agora. Eu não imaginava isso.

— Só espero que você tenha sido legal com ele — Estêvão disse, roubando o meu pedaço de carne.

— O que você quer dizer, filho?

— Que o senhor costuma ser meio rude… — Estêvão falou honestamente. — Não é, Eugênio?

— Rude? — nosso pai e Zhang repetiram juntos.

— O Estêvão está certo, pai. Você é um homem de caráter e boa aparência, mas para aqueles que o conhecem pela primeira vez e o veem tão raramente, seu jeito pode ser mal compreendido. Espero que Oscar não suponha que haja qualquer tipo de antipatia ou arrogância da parte do senhor.

— Veja só isso! — nosso pai exclamou, rindo. — Ouça, Zhang, como meus filhos falam de mim.

— Estranho, porque o Oscar não disse nada sobre isso — Zhang comentou depois de consultar sua memória.

— Viram só? — Dário ressaltou.

— Vai saber! — Estêvão deu de ombros. — Mas que o senhor costuma ser arrogante inconscientemente, costuma sim. Ou estou errado?

Estêvão passou os olhos por todos nós e ganhou o apoio de Eugênio. Os dois me olharam em seguida, esperando meu veredito.

— Eles estão certos, pai. Mas talvez o Oscar não tenha notado esse seu comportamento, assim como a Zhang parece não ter notado — eu disse, sem muita fé de que o Oscar não tivesse percebido e construído uma imagem ruim dele.

— O Oscar não deve ter notado, do contrário, ele teria me dito — Zhang disse ao mordiscar uma pequena fatia de carne em seu garfo.

Ninguém mais falou. Eu não estava muito convicto da afirmação de Zhang. O Oscar, em nome do afeto que sentia, podia muito bem ter omitido sua impressão depois de ter notado a relação que estava sendo construída entre Eugênio e Zhang. A amizade entre ele e Zhang era muito profunda para Oscar apontar suas observações sem levar em conta o que havia entre os dois.

Eu apenas não conseguia imaginar como ele se sentia em relação ao casal, mas sabia que Oscar podia ter uma opinião ruim sobre meu pai. Dário tinha uma reputação distorcida no mundo dos negócios — uma imagem pública que estava longe de ser correta e que, definitivamente, não refletia quem ele realmente era.

No passado, os dois nunca se conheceram pessoalmente porque meu pai já havia morrido. O que torna surpreendente que os dois tenham se encontrado pessoalmente pela primeira vez. Mas isso ia acontecer em algum momento. Pelo que me lembro, antes de reencontrar Oscar, ele tinha construído um currículo impressionante. Ele havia ido em muitas feiras, conferências e congressos. Dessa vez, acredito eu, não será diferente. Ele vai ter uma carreira incrível depois que se graduar em contabilidade. Um profissional de elite.

Segui assim por um tempo, pensando no Oscar e no curso de contabilidade dele. O som dos garfos batendo nas tigelas era a única trilha sonora que se ouvia.

O jantar seguia bem, com o Estêvão roubando o último pedaço de carne do meu prato, até que meu pai, entre um gole de água e outro, soltou a bomba:

— Conversei com o Ricardo hoje. Ele queria vir, mas desistiu depois do que eu disse. De qualquer forma, logo logo estaremos com ele no exterior. Amanhã à noite já vou estar lá. Eu não falei nada, mas já tinha decidido viajar antes de todos. Minha estadia aqui era passageira, apenas decidi prolongar por causa de vocês. Vou esperar por vocês lá. Ele já comprou as passagens. O Ricardo não gosta de ficar sozinho. Ele não diz nada, mas eu sei.

O sorriso de Zhang sumiu como se alguém tivesse apagado a luz. Ela olhou para o Eugênio. Ele parecia ter engolido um osso de galinha inteiro.

— Passagens? — A voz dela saiu fria. — Embora?

Meu pai pousou o garfo, assim como Zhang. Ele limpou os lábios com o guardanapo e acenou.

— Sim.  — Ele olhou em volta. — Vocês ficaram quietos de repente; o jantar estava ruim? — Negamos com a cabeça, ele deu de ombros considerando o gesto suficiente.

— Agora, se me dão licença, eu preciso tomar um banho. Sinta-se à vontade, Zhang. — Meu pai, que às vezes tinha a sensibilidade de uma porta, bocejou sem se dar conta do que fez. Alheio a situação que se desencadeou.

Ao lado de Estêvão, vi Eugênio ajustar os óculos com tanta força que os nós dos dedos quase grudavam na armação, enquanto ele tentava, em vão, controlar a respiração. Ele não olhou para Zhang; ele não conseguia.

Ninguém disse mais nada ao redor da mesa; todos notaram a mudança no clima, que escapou apenas ao nosso pai. Ouvimos apenas os passos calmos dos seus sapatos sociais subindo os degraus. Provavelmente, ele não notou a atmosfera ao redor da mesa graças ao seu cansaço. Devíamos agradecer por seu dia longo; assim, não teríamos de dar explicações a ele.

Zhang se conteve até ele sumir pelas escadas rumo ao quarto, como se não tivesse acabado de detonar uma granada na sala. Ela não devia saber disso; estava explícito. Eugênio parecia angustiado; pela reação dele, ainda não tinha contado nada a ela sobre a nossa volta.

Assim que meu pai desapareceu, nenhum dos dois se conteve mais. Eugênio se levantou e arrastou a cadeira, assim como Zhang.

— Zhang, eu ia te contar… — Eugênio começou, mas ela já estava de pé, pegando a mochila no sofá da sala.

— Não contou. Eu tive que saber pelo seu pai, entre o arroz e o papo furado. — Ela nem olhou para trás. — Boa viagem, Eugênio. O Oscar tinha razão. Já tínhamos conversado vagamente sobre isso, mas não tinha acreditado muito na hora. Eu ia perguntar a você depois do jantar, mas não foi preciso esperar tanto.

Ela saiu batendo a porta. Eugênio nem pensou: disparou atrás dela. Eu e Estêvão nos olhamos. Num acordo mudo, fomos até a entrada. Havia uma pequena fresta deixada por um jovem agitado. Estêvão posicionou o ouvido perto e atento. Eu cruzei os braços, barrado pelo respeito ao momento conflituoso deles.

Enquanto Estêvão se mantinha perto da fresta da porta, uma mistura de preocupação e proteção enfiou-se no meu peito, ainda não sabia nomear direito. Mas entendia que não desejava aquilo para aqueles dois. Pessoalmente, sabia como machucava brigar e discutir com a pessoa amada. Mas, ao olhar para a porta entreaberta, entendi que eles não eram tolos como eu. “Isso é bom”, pensei, fechando os olhos por um segundo enquanto o som da discussão abafada chegava até nós.

— Isso é errado, sabia? — sussurrei.

— Shh! Cala a boca, Dom. Ele tá gaguejando.

Me inclinei um pouco. Só um pouco. Ouvi a voz abafada do Eugênio do outro lado, falando sobre faculdade, sobre o medo, sobre a reação dela se ele contasse a verdade.

— Eu não me importo que você vá, Eugênio — a voz da Zhang chegou até nós. — O Oscar estava certo, vai saber o que vocês vieram fazer aqui. Mas, se você ia voltar, eu merecia saber. Me irrita a forma como você me tratou, como uma qualquer que não merecia saber.

Houve um silêncio. Imaginei o Eugênio dando aquele ajuste nos óculos que ele dá quando está nervoso. Ele não tinha um discurso preparado; a voz falhou um pouco, mas, quando falou, o sentimento era mais forte que as palavras em si.

— Você não é uma qualquer, Zhang. Sai comigo amanhã? Um encontro de verdade. Por favor, me dê só mais uma chance. Só uma.

— Um encontro? — Ela pareceu suavizar. — Tudo bem. Amanhã. Mas… se falhar mais uma vez, saiba que eu não dou segundas chances — Zhang decretou, mais decidida do que nunca.

A maçaneta girou de repente. Estêvão e eu quase caímos para a frente quando a porta se abriu. Eugênio estava parado no portal; deu uma longa olhada para o corredor vazio, com a cara de quem tinha sobrevivido a um tufão, antes de se virar para nós.

— Privacidade é um conceito novo para vocês? — Ele cruzou os braços, tentando parecer bravo, mas o brilho esperançoso nos olhos o entregava. — Já que vocês adoram ouvir a conversa alheia, como punição pela espionagem, vocês vão me ajudar a organizar o jantar de pedido de desculpas e de namoro… antes da nossa viagem.

Apertei a mandíbula. Eu não sabia bem como me sentir, mas jamais seria um obstáculo para ele. Estêvão soltou um “pedido de namoro? Eu sabia!” num sussurro.

Eu nunca imaginei que o meu irmão, o eterno “certinho”, tivesse tanta determinação escondida. Mas sabia que, entre aqueles dois, já havia muito mais do que apenas amizade.

Quando meu pai voltou do banho, renovado, nos encontrou sentados à mesa, fingindo naturalidade.

— Cadê a moça? — ele perguntou, servindo-se de mais água.

— Teve uma emergência em casa — menti na hora, ganhando um olhar de gratidão do Eugênio.

 

 

 

Capítulo 58
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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

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