Capítulo 59
Três batidas curtas e espaçadas ecoaram pela sala. Parei de desempacotar o meu novo carregador enquanto estava recostado no sofá, então ergui o olhar para o corredor sem vontade de levantar.
— Zhang, tem alguém na porta! — avisei, a voz alta o suficiente para alcançar o quarto.
A porta do quarto abriu apenas uma fresta. Zhang espiou para fora, o rosto iluminado por uma expectativa vibrante, sem resquícios de mau humor, como quando ela chegou outro dia. Seus cabelos estavam impecáveis, refletindo a luz com um brilho sedoso, e seus olhos brilhavam com uma vivacidade quase típica dela.
— Abre você, Oscar! Estou terminando de me arrumar.
Ela estava linda e ocultou toda a sua beleza novamente quando fechou a porta. Desde que voltou do apartamento do quatro-olhos dois dias atrás, ela esperava ansiosamente por esse dia. Ainda achava incômodo o que havia entre ela e Eugênio. Mas eu morreria sem admitir isso a ela. Que eu não gostava daquela família era um fato consumado, mas por Zhang, conseguiria suportar aquele quatro-olhos que conquistou seu coração.
Caminhei até a entrada. Ao puxar a maçaneta, o ar da noite pareceu ficar mais frio. Meus olhos travaram na figura à minha frente e, por um instante, décadas de memórias amargas pressionaram meu coração.
— Que diabos é isso? — Medi-o de cima a baixo, a incredulidade tingindo cada sílaba. — E o que você está fazendo aqui? Que fantasia ridícula.
Não era Eugênio. Era pior. Dominic não esboçou reação imediata. Nosso olhares imediatamente se cruzaram, sua face ganhou uma cor fraca. Ele estremeceu e por um momento permaneceu parado. Estava claro que não esperava que fosse justamente eu a abrir a porta. Mas, logo se recompôs, se não com perfeita serenidade, pelo menos com perfeita educação. Dom removeu o boné de motorista com uma atuação sofisticada, ajeitou o uniforme com um movimento preciso e cuidadoso, pouco antes de falar.
Minha visão oscilou entre o boné de abas rígidas e o uniforme impecável. Ele parecia um funcionário de hotel cinco estrelas.
Dominic apertou o acessório, o couro estalou entre seus dedos enquanto ele tentava espiar por cima do meu ombro, buscando o interior da casa.
— Vim buscar a senhorita Zhang. Pode chamá-la? — Ele colou o boné contra o peitoral, endireitando a coluna numa formalidade ridícula.
— Zhang! — gritei, sem tirar os olhos dele. — Tem um… motorista te procurando.
Ela surgiu no corredor, os passos apressados revelando sua ansiedade por Eugênio. Mas ao dar de cara com Dominic, deteve-se. O contraste entre a formalidade austera dele e o absurdo do uniforme de motorista foi demais para ela. O silêncio durou um segundo antes de Zhang dobrar o corpo, uma gargalhada alta e cristalina ecoou pelas paredes.
O som era tão genuíno que senti o embaraço no meu coração, provocado pela presença de Dom, começar a se desfazer. Vê-la assim, transbordando alegria, era um bálsamo. Ela lutou para se recompor, as mãos trêmulas limpando uma lágrima traiçoeira que escapava por cima da maquiagem à prova d’água.
— Onde está o Eugênio? — perguntou ela, recuperando o fôlego. — Era ele quem deveria vir para o encontro.
— Ele me pediu para ser seu motorista particular hoje. E assim farei. — Dominic curvou-se brevemente, um gesto técnico e desprovido de ironia. Ele ofereceu um sorriso, mas os olhos permaneciam sérios. — Vamos? Temos um horário a cumprir.
— É hilário ver você assim, mas vamos. — Ela resgatou a bolsa no sofá. — Oscar, você vem conosco? Você disse que ia pegar carona com o Eugênio.
— Não. Isso foi quando achei que o Eugênio viria — respondi, mantendo o tom áspero, carente de qualquer delicadeza.
Eu sabia que aquele homem na minha frente não compartilhava as mesmas memórias que as minhas, a distância entre nós deveria ser, exatamente por causa delas e da sua ignorância, a máxima possível.
Eu lembrava distintamente do meu primeiro encontro com Dominic no passado, de suas palavras, do seu tom apaixonado quando me disse que sempre fora apaixonado por mim, desde o ensino médio. Com esse jovem parado na minha frente, não era diferente; pelos seus gestos, seus olhares, sabia que ele gostava de mim.
Eu deveria matar todas as suas esperanças com a distância.
Após fechar meus lábios, houve um lampejo de curiosidade nos olhos de Dominic. Ele me estudou por um segundo, medindo a profundidade da minha recusa. Sem intimidade, com um tom educado, ele ofereceu:
— Acho que Eugênio não vai se irritar. Então posso te deixar no caminho.
Olhei para o carro e ele. Não havia o que discutir sobre a conveniência; meu compromisso exigia pontualidade e poupar a passagem do ônibus era a única coisa lógica ali. Além disso, uma carona não ia fazê-lo se apaixonar mais por mim, menos ainda produzir intimidade. Assenti uma única vez.
No caminho para o carro, Dominic apressou o passo. Antes de Zhang entrar, ele entregou-lhe um buquê de rosas vermelhas e vibrantes. Ela abriu o cartão. “Você brilha mais que as estrelas e não menos que a maior delas: o sol”. Outra risada escapou dela enquanto nos acomodávamos no banco traseiro e o veículo se punha em movimento.
Zhang inspirou a fragrância das rosas, e um rubor suave coloriu suas bochechas. Eu sabia que os sentimentos dela por Eugênio eram profundos. Talvez agora esse amor tenha oportunidade para florescer. Se no futuro todo esse amor foi interrompido precocemente, agora, os dois tinham uma nova chance diante de si.
Pelo retrovisor, flagrei Dominic nos observando. O contato visual constante me causava desconforto. Mas percebi algo novo: ele quase não olhava para mim. Ele observava a alegria de Zhang com um deleite silencioso, quase admirado. Aquele Dominic, que no futuro só sabia destilar veneno, agora observava a alegria da minha melhor amiga sem mensura. O choque me percorreu assim como no primeiro dia em que os vi interagindo como ex-colegas de escola. Lembrava-me do ódio mútuo que nutriam, mas ali, sem os motivos que alimentariam a futura animosidade, uma amizade estranha parecia possível.
Dominic percebeu que eu o observava. Seus lábios se curvaram lentamente num sorriso. Desviei o rosto para a janela, sentindo o desgosto na boca. Pelo canto do olho, vi o sorriso dele morrer instantaneamente. Ele focou na estrada, enquanto manobrava o volante.
Meu celular vibrou, indicando que estávamos perto do meu endereço. Agradeci mentalmente pela fuga, já tinha ficado tempo o suficiente perto daquele cara.
— Pode parar aqui.
— Aqui? — Zhang franziu o cenho, olhando para as fachadas descascadas e os grafites desbotados nos murros do bairro. — O que você vai fazer num lugar desses?
— Negócios rápidos. Estarei em casa antes da minha mãe chegar da casa do Nicolas. — Abri a porta e parei, encarando Dominic com uma seriedade gélida pelo vidro baixo. — Cuide bem dela, Dom. Ou eu mesmo te levo para o necrotério.
Ele sustentou meu olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Ela está sob minha responsabilidade. E você é o segundo a me ameaçar hoje; meu irmão já garantiu a cota.
Ele fez um gesto breve com a cabeça e ligou o motor.
— Se cuida, Zhang. Ligue se precisar.
Ela acenou enquanto o carro desaparecia na poeira da estrada. Observei o brilho da lanterna traseira sumir na curva e ser ofuscada pela luz do luar antes de me virar para o prédio mofado às minhas costas.
A luz do luar produzia minha sombra e me seguia pela calçada onde o cimento era vencido por tufos de grama verde. O “chirp” repetitivo e ritmado do grilo competia com o burburinho do bairro.
Andar aqueles poucos metros me fazia bem, depois de alguns minutos preso naquele carro. Ao menos, um deles se foi: Dário finalmente voltara para o buraco de onde saiu, e não devia demorar para que os filhos o seguissem. Zhang me deu essa certeza, e a ideia de vê-los todos partindo era um pensamento que me trazia um alívio gratificante. Porém, um fato era inevitável: Dominic era uma cópia assustadora do pai. Os traços, a postura, os cabelos… eram idênticos.
Meus sapatos esmagaram o mato até que parei diante de uma porta de ferro pesada. O rangido ao empurrá-la foi como um gemido preguiçoso.
Lá dentro, o cheiro de gordura velha e café requentado dominava o ar. Segui até uma mesa nos fundos, onde as sombras eram mais generosas. Sentei-me diante de um rapaz cujos cabelos pareciam não ver um pente há dias. O moletom verde estava puído nos punhos, e ele apertava uma caneca vazia com dedos trêmulos.
— Você é o Oscar? — Ele me mediu, o corpo tenso como uma mola prestes a disparar. — Por que me chamou? O que quer comigo? Como me conhece?
Antes de falar, ergui a mão para a garçonete.
— Uma água, por favor. — Olhei para o jovem. — Quer alguma coisa?
Ele negou com um aceno brusco de cabeça. Ele era novo, quase uma criança, mas eu sabia o que se escondia sob aquela postura defensiva. Aquele garoto tinha um cérebro que, em alguns anos, valeria milhões.
A água chegou. Entreguei para ela um dinheiro a mais. Esperei a garçonete se afastar para me inclinar sobre a mesa, baixando o tom de voz.
— Vamos sanar suas dívidas, mas primeiro… Sou o Oscar, é um prazer te conhecer. — Pronunciei apenas o primeiro nome, deixando o sobrenome evaporar na garganta.
Ele não relaxou. Pelo contrário, inclinou-se para frente, estalou a língua ao pegar o copo d’água sobre a mesa de fórmica.
— Como você sabe tanto sobre mim? — Henrique insistiu, a voz ansiosa. — Você é da polícia? Algum tipo de investigador?
— Beba a água, Henrique. — Minha voz saiu mais suave do que eu pretendia. — Não sou da polícia. E não estou aqui para te punir por nada. Eu sei, por exemplo, que você usa o IP da cafeteria da esquina da sua casa para mascarar suas invasões, mas que hoje esqueceu de desativar o rastreio do seu próprio celular. Não estou aqui para te prender; estou aqui para te oferecer uma saída.
Ele hesitou, mas acabou levando o copo aos lábios. Seus olhos, porém, continuavam fixos nos meus, alertas como os de alguém acuado.
— Eu sei que você tem passado as noites em claro tentando quebrar protocolos de segurança. Conheço o algoritmo que você tentou rodar no servidor da prefeitura semana passada. Aquele que quase te colocou na cadeia, mas que mostrou que você é mais rápido que qualquer sistema de segurança que eles têm. — continuei, vendo-o arregalar os olhos. — E sei que, apesar de ser um gênio, você sente que está perdendo a luta contra o tempo. O tratamento da sua mãe… as contas não fecham, não é?
Henrique vacilou. O copo de plástico em sua mão deformou-se sob a pressão dos dedos.
— Eu… eu não fiz nada… foi só um teste… — gaguejou.
Henrique baixou a cabeça. Uma mecha de cabelo bagunçado caiu sobre os olhos, escondendo a umidade que começava a brilhar ali. Durante o silêncio dele, deu para ouvir o ruído de louças e talheres vindo das outras mesas e da cozinha. Senti um sentimento familiar; eu sabia o que era estar desesperado e sozinho.
— O que você faz é desperdiçar o seu talento, enquanto você tenta conseguir alguns trocados para o aluguel hackeando contas de streaming. Eu não quero seus trocados, Henrique, nem que você roube ninguém — eu disse, inclinando-me um pouco mais, reduzindo a distância entre nós. — Eu quero o seu talento. Quero que você construa algo legítimo comigo. Algo que vai te tirar dessa mesa bamba e colocar sua mãe no melhor hospital da região.
— Por que eu? — Ele limpou a testa rapidamente com a manga do moletom. — Tem tanta gente por aí…
— Porque eu vi do que você é capaz quando tem as ferramentas certas. — E porque eu vi o que acontece se ninguém estender a mão para você agora, pensei, guardando o segredo do futuro para mim. — Considere isso um investimento.
Retirei o envelope pardo do bolso. Não o joguei na mesa; deslizei-o devagar, parando-o perto das suas palmas suadas.
— Isso é para os remédios dela e para o aluguel atrasado. Sem perguntas, sem cobranças imediatas. — Henrique tocou o papel pardo como se fosse algo sagrado. — Mas tem uma condição.
O medo voltou aos olhos dele, mas agora misturado com uma centelha de esperança.
— O que eu tenho que fazer? — A voz do garoto agora era um sussurro.
— Por enquanto? Comer algo decente depois que terminarmos aqui. — Gesticulei para o cardápio.
Tirei um documento e uma caneta do meu bolso traseiro.
— Mas nesse instante, você vai ler cada linha desse contrato de exclusividade. Ele diz que, a partir de agora, suas ideias são nossas. Elas pertencem à nossa parceria. Nada de ofertas de terceiros, nada de se envolver com agiotas e, principalmente, nada de tentar resolver tudo sozinho. Eu cuido da retaguarda, você foca no que faz de melhor.
Henrique olhou para o papel e depois para o envelope. O peso do dinheiro ali dentro era a diferença entre o despejo e o sono tranquilo.
— Se eu assinar… tudo que diz aqui é real? Você não vai sumir?
— Eu vou estar bem aqui, Henrique. — Tentei passar toda a segurança que meus anos de experiência me deram. — Saiba que não estou te comprando como uma mercadoria, estou te contratando para trabalharmos juntos. Com o meu conhecimento e o que você esconde nesses seus dedos ágeis, vamos chegar onde você sequer consegue sonhar.
Ele pegou a caneta. Leu com desconfiança os parágrafos uma última vez. Seus dedos tremiam, mas seus movimentos eram decididos. A assinatura no pé da página foi o primeiro passo para apagar a notícia de jornal que eu ainda tinha gravada na memória.
Quando ele terminou, empurrou o papel de volta para mim.
— Obrigado — sussurrou, e o brilho em seu olhar aquiesceu. — Eu… eu nem sabia o que ia fazer amanhã.
— Amanhã você vai acordar e levar sua mãe ao médico. — Levantei-me, guardando o contrato. — E depois, vamos começar a trabalhar. Coma alguma coisa antes de ir, Henrique. Já está pago.
Deixei o restaurante sentindo o ar lá fora um pouco mais frio pelo horário; a lua estava mais alta, acompanhada por muitas estrelas. Eu tinha uma dívida no banco, sim, mas ela não importava; eu tinha salvado uma vida. E para os planos que eu tinha em mente, aquele garoto era minha jogada de mestre.
Capítulo 59
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...