Capítulo 61
— O deslocamento foi limpo. O gesso é uma formalidade, apenas precaução para os tendões — o médico disse, enquanto ajustava a tipoia branca que agora prendia meu braço esquerdo ao peito. — Vou chamar seus irmãos. Eles estão na sala de espera, muito nervosos.
Assenti involuntariamente, o som da voz dele parecendo vir de baixo d’água. Assim que a porta correu nos trilhos e o silêncio do quarto de hospital me acolheu, a máscara caiu.
Meus ombros começaram a tremer. O choque, que o corpo segurara durante o acidente, saiu pelos meus poros como lava em erupção. Fechei os olhos e, no escuro das pálpebras, o filme rodou de novo: o clarão dos faróis, o som do carro sendo amassado e a imagem aterrorizante de Eugênio, Zhang e Estêvão sendo lançados para a frente. O medo de perdê-los, de ver o passado se repetir com Eugênio de uma nova forma, era uma possibilidade escancarada diante de mim.
Se eu tivesse demorado um segundo a mais… se minhas mãos tivessem escorregado do volante…
Cobri o rosto com a mão sã. Meus dedos pressionaram as pálpebras ardentes. A culpa, irracional e corrosiva, me sufocava. Eu tinha voltado para o passado, assumido que ia cuidar deles e quase falhei. Apertei o punho com tanta força que as juntas estalaram, até que senti um toque suave, quase hesitante, sobre a minha mão.
Abri os olhos.
Eugênio estava ali; os cabelos antes impecáveis agora eram um monte de fios desalinhados, e o terno parecia um trapo sujo. Ao lado dele, Estêvão mantinha as costas rígidas, mas os olhos entregavam a agitação interna. Ele tinha apenas um corte na têmpora que já estava estancado e com curativo.
— Você está bem, Dominic? — Estêvão deu um passo à frente, a voz oscilando. — Eu… eu travei. A culpa foi minha. Eu perdi o controle do carro e você quase quebrou um braço para consertar meu erro…
— Nem termine essa frase — Eugênio interrompeu, o tom subindo uma nota, com uma autoridade defensiva. Ele não queria ver Estêvão carregar aquela culpa. — Foi um acidente. Aquele homem perdeu o controle do carro, a culpa não é de ninguém aqui.
Sentei-me na maca, o esforço enviando uma pontada aguda pelo braço imobilizado. Ignorei a dor e usei a mão direita para segurar firme o colete de garçom de Estêvão, puxando-o para perto. Ele veio sem resistência, como se precisasse daquele contato para acreditar que ainda estávamos vivos.
— Eu me joguei porque você é meu irmão — minha voz saiu rouca, cheia de ternura. — Você não travou, Estêvão. Eu vi o que você estava fazendo; você estava tentando nos manter na pista. Aquilo foi uma fatalidade, e eu faria tudo de novo. Tudo.
Minha voz sumiu no final, e minha cabeça pendeu para o lado, os lábios tremendo enquanto o alívio finalmente vencia a barreira do orgulho. Estêvão apertou os meus ombros, os dedos cravando-se no meu tecido, e sussurrou um “obrigado” tão mudo que só o entendi pelo movimento dos seus lábios. O calor daquele gesto espantou o medo que se instalara nos meus ossos.
Puxei os dois para um abraço desajeitado, o gesso entre nós servindo como um lembrete do preço que pagamos pela vida, por aquele momento. Tê-los tão perto de mim, vulneráveis me fez decidir que por eles, eu morreria sem pensar duas vezes. Cuidaria deles sem cometer o mesmo erro de me manter distante e frio.
— Falei com o pai — Eugênio disse, afastando-se um pouco e limpando suas lentes. — Ele pareceu assustado, sua voz soou preocupada como eu nunca ouvi antes. Mas consegui convencê-lo de que estamos inteiros. Ele queria vir, pegar o voo de volta, mas eu o parei. Ele aceitou nos esperar em casa. Só que… ele voltou ao mesmo ponto. Disse que nossa volta para a Europa não é negociável.
— E nós iremos — respondi, a determinação voltando aos poucos.
Olhei ao redor, procurando por um rastro de perfume de rosas ou um pedaço de vestido, mas o quarto estava vazio de qualquer presença feminina.
— Onde está a Zhang?
— Oscar veio buscá-la, ela tinha apenas alguns hematomas causados pelo cinto. — Eugênio explicou, ajeitando seus óculos arranhado, com um pequeno amasso. — Ele entrou aqui como um furacão de ansiedade, os olhos disparando pelo saguão até encontrar Zhang, examinando cada centímetro dela. Assim que viu que ela estava bem, ele a levou embora. Mal deu tempo de respirar. Vimos como ele realmente a ama.
Encarei o teto branco, sentindo todo meu corpo afundar no colchão.
— Mas ela mandou agradecer, Dominic. Muito — continuou Eugênio. — E até o Oscar… ele parecia engasgado, mas mandou dizer que reconhece o que você fez.
Soltei um grunhido baixo, um som que misturava dor física e uma desilusão amarga. Reconhecimento por obrigação. O Oscar que um dia pareceu me olhar com adoração nos corredores do colégio, que me amou com todas as suas forças tinha sido apagado. O que restava era um homem que me tratava como um estranho, um incômodo, nada menos que o irmão do namorado da melhor amiga. A antipatia dele era um muro que eu não sabia como escalar.
— O médico assinou sua alta. O homem que causou o acidente se responsabilizou, pagou as despesas médicas e depois foi embora. Podemos ir embora, já está tudo resolvido — Estêvão pegou meu casaco de motorista na poltrona e me ajudou a levantar com uma delicadeza afetiva.
Caminhei em direção à saída, sentindo o apoio dos meus irmãos ao meu lado. Ver Estêvão segurando meu casaco e Eugênio me guiando com cuidado era o único prazer que sentia; eu os tinha ali, vivos e inteiros, e esse era o único alívio capaz de amenizar o sentimento doloroso que me castigava conforme avançávamos pelo corredor.
A imagem de Oscar levando Zhang embora sem olhar para trás perfurava fundo as minhas emoções. Ele não era mais o homem que um dia me olhou com admiração; era um estranho com quem eu mal conseguia me aproximar. As chances de aproximação pareciam nulas, tão estilhaçadas quanto o vidro que deixamos para trás na estrada.
Capítulo 61
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...