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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

Capítulo 60

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O relógio no meu pulso parecia retardar cada segundo. Ajustei os punhos da camisa pela décima vez, sentindo o frescor da noite entrar pelas frestas da estufa de vidro que aluguei nos fundos do antigo jardim botânico.

— Relaxa, Geniozinho. Se você suar mais um pouco, vai arruinar o corte do terno — a voz de Estêvão veio de trás do balcão improvisado.

Ele estava impecável no colete de garçom, equilibrando uma bandeja de prata com uma agilidade que eu não sabia que ele tinha. Mas isso já era de se deduzir, ao pensar nas noites em que ele passou fora. Ver meus irmãos se desdobrando para me ajudar — Dominic cruzando a cidade no trânsito e Estêvão ali, fingindo ser maître — me dava uma confiança nova, forte e inquebrável.

— Ela está chegando — anunciei, vendo os faróis do carro cortarem a escuridão do carvalho centenário lá fora.

O som dos pneus cessou. Quando a porta se abriu, o tempo parou. Zhang desceu glamorosa do carro como se caminhasse sobre um tapete vermelho. O vestido fluía ao redor dela, capturando os reflexos das luzes de fada que eu havia pendurado entre as orquídeas.

Ela parou na entrada da estufa, os olhos brilhando ao percorrer o teto de vidro que revelava uma lua cheia perfeitamente emoldurada. A lua olhava para nós lá de cima, com seu brilho prateado. As papoulas espalhadas eram verdadeiros copinhos de luar, cheios até o topo.

— Eugênio… — o sussurro dela foi música para meus ouvidos.

Aproximei-me, sentindo o perfume de gardênias que emanava da pele dela antes mesmo de tocá-la. Peguei sua mão; estava fria, e eu a envolvi com as minhas, tentando transmitir todo o calor que queimava no meu peito.

— Bem-vinda ao nosso refúgio por uma noite — eu disse, guiando-a para a mesa posta sob a cúpula de vidro.

Estêvão aproximou-se com a elegância de um profissional. Ele não sorriu, mantendo o personagem, e serviu o vinho com um movimento fluido.

— Para começar, senhorita: um Chardonnay colhido ao luar, para combinar com o brilho que a senhora trouxe para este jardim — ele disse, com uma voz empolada que quase me fez rir, mas Zhang estava encantada demais para zombar do teatro.

O jantar fluiu entre sabores que eu escolhi a dedo: um risoto de açafrão que lembrava o tom dourado da pele dela sob o sol e ervas frescas que perfumavam o ar. Estêvão aparecia e sumia como um vulto gentil, garantindo que nada faltasse, até que depositou a sobremesa e me deu um aceno imperceptível com a cabeça antes de se retirar para os fundos, deixando-nos em um silêncio sagrado.

Agora era apenas o som da brisa batendo no vidro e a respiração suave de Zhang.

— Como você pensou em tudo isso? — ela perguntou, os dedos traçando a borda da taça de cristal.

— Eu não pensei. Eu apenas tentei materializar o que sinto quando olho para você — confessei, sentindo meu coração acelerar. — Você brilha mais que essas estrelas lá fora, Zhang. E eu queria um lugar que não tentasse competir com você, apenas servisse de moldura. Como essas plantas que lançam o seu aroma no ar, evocando a sua beleza e nos deixando desfrutar delas.

Levantei-me e estendi a mão. Zhang apertou meus dedos de volta. No canto, um projetor silencioso começou a rodar imagens no tecido branco esticado entre as palmeiras imperiais. Não era um filme de Hollywood. Eram pequenos fragmentos de vídeos que fiz com as fotos dela pegas de suas redes sociais: Zhang rindo de alguma coisa, Zhang distraída lendo um livro da faculdade, Zhang pousando para uma selfie.

Ela levou a taça à boca, um brilho apaixonado nos olhos. No reflexo do vidro, vi nossa imagem: uma foto do ensino médio, cheios de energia, mas com uma conexão que parecia vir de outras vidas.

Eu a puxei para perto, envolvendo sua cintura. Dançamos lentamente, sem música, apenas com o murmúrio da brisa do vento valsando com as flores.

Naquele momento, sob a proteção do vidro e a vigilância discreta dos meus irmãos escondidos na penumbra, eu soube: não importava o que acontecesse, se eles e Zhang estivessem comigo, o meu jardim ia florescer misticamente todos os dias.

As danças cessaram. Zhang e eu caminhamos de mãos dadas pelo pequeno jardim. Parei e ela também por reflexo.

— O que foi, Eugênio? — Ela perguntou.

— Zhang… — Soltei sua mão por um instante, entre as flores à frente, peguei uma pequena flor copo-de-leite e estendi-a. — Seja minha namorada, por favor?

Zhang pegou-a devagar inclinando-a para si, suas pupilas tinham um brilho branco e mágico, como se refletissem a luz mística da flor. Ela estendeu os dedos e pegou de dentro dela um pequeno anel prateado, fino e com três pequenas pérolas e dois diamantes igualmente pequenos.

Nesse instante, meus irmãos apareceram atrás de mim como plateia, na expectativa pela resposta de Zhang.

— E então? Diz que sim — Estêvão perguntou, curioso ao levar um copo de suco à boca e saboreá-lo. Zhang olhou para cada um de nós e por fim, o anel.

Dominic deu-lhe um empurrão no ombro, para que ele se calasse e, assim, Estêvão não falou mais. Ajustei meus óculos duas vezes conforme o tempo escorria em um silêncio que me pareceu longo demais.

— Eugênio… — Ela estendeu a mão e adicionou o anel ao seu dedo, o gesto dela me banhou de alívio. — Sim, eu aceito. A partir de agora, somos namorados.

— Zhang! — Segurei com força sua mão que levava a minha aliança de namoro e a beijei. — Quase não acredito que você agora é minha namorada.

A frase tinha um gosto doce nos meus lábios, assim como sua pele perfumada. Meus irmãos pareceram desaparecer quando caminhamos juntos para fora, quando de repente a luz da lua pareceu transbordar e deixar a pele de Zhang mais linda e seu sorriso mais atraente. Seus dentes ficaram mais brancos, seus lábios mais rosados.

Ela deu um passo à frente, invadindo o meu espaço até que a ponta dos meus tênis e do salto alto dela se tocassem. Ela olhou bem no fundo dos meus olhos, depois desceu o olhar para minha boca e escorregou para baixo, num olhar longo e demorado que quase rasgou minhas roupas.

— O que… O que você está pensando? — gaguejei como um idiota.

Zhang deu um meio sorriso, daquele jeito dela que misturava diversão e indulgência.

— Bem aqui…  — ela sussurrou, inclinando a mão livre de leve.

— Zhang, aqui não… meus irmãos… — confessei, a voz quase sumindo.

— Não precisa ter medo de mim, Geniozinho — ela respondeu, e o canto dos seus olhos se enrugou com um carinho genuíno. Ela levantou a mão, os dedos roçando o tecido. — Eu não mordo. A menos que você queira.

— Zhang…

Fechei os olhos quando ela estendeu sua mão e eu esperei. Mas os lábios dela não tocaram os meus, nem sua mão apalpou meu corpo. Um toque rápido veio e foi embora. Pisquei os olhos devagar, como se estivesse acordando de um transe, os dedos embolados, apertando a palma da minha mão e a outra segurando sua mão com o anel.

Quando ela se afastou o suficiente para me olhar, Zhang estava com um sorriso aberto, os olhos brilhando.

Senti o sangue subir quente para as bochechas e orelhas. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo, o peito despencando. Eu estava morrendo de vergonha.

— Viu? — ela brincou, dando um tapinha de leve no meu peito. — Você sobreviveu. Era apenas uma pétala de uma flor que caiu em você. Ou… você pensou em algum gesto obsceno?

Ela soltou uma risada, que me deixou desconcertado, mas o aperto em meu estômago tinha sumido, substituído por uma leveza esquisita provocada pela risada dela, como se eu estivesse flutuando a alguns centímetros do chão.

Zhang falava desse tipo de coisa sem se importar com os demais. Observei meus irmãos por um instante, eles estavam focados nos seus celulares, disfarçando. Me senti agradecido pela discrição deles, por tentar nos ignorar. Limpei a garganta, tentando recuperar a postura.

— Não… de jeito nenhum — arrisquei, tentando parecer confiante.

Ela arqueou uma sobrancelha, e seus dedos subiram para arrumar uma mecha do meu cabelo que tinha caído na testa.

— Ah, é? Que pena — ela provocou, dando as costas e voltando a caminhar pela calçada, mas esticando a mão para trás, de dedos abertos. — Então acho que a gente deve fazer algo sobre isso na próxima. Para divertir essa sua imaginação pervertida.

Olhei para a mão estendida dela. Dei dois passos rápidos para alcançá-la, entrelacei meus dedos nos dela e caminhamos juntos.

As palavras dela ainda flutuavam no ar, mais provocadoras do que o vinho que tínhamos partilhado. No banco de trás do carro, os dedos de Zhang continuavam entrelaçados nos meus, sentindo o volume do anel. Com a outra mão, ela segurava o buquê que lhe dei. Todos estávamos em silêncio no veículo; Estêvão dirigia com uma atenção absoluta, e Dominic, no banco do carona, tinha os ombros relaxados, trocando um olhar cúmplice comigo pelo retrovisor.

Eu sentia que podia tocar as estrelas. Olhei para o perfil de Zhang, a luz dos postes delineando seu sorriso lindo.

— O encontro foi bonito, Eugênio… — ela começou, a voz sendo apenas um som baixo de felicidade e provocação. — Você está perdoado, meu namorado pervertido.

Eu ia responder, mas algo mudou. Me impediu. Não foi um som, foi uma vibração. Um tremor que subiu pela sola dos meus sapatos, vindo do asfalto. Dominic, que até então estava relaxado, ficou rígido. Vi seus olhos dispararem para o retrovisor, as pupilas dilatando sob a luz amarela dos postes.

Um estrondo de motor em rotação máxima cortou a paz da madrugada. O motor atrás de nós não apenas roncava; ele gritava, um som desregulado que engoliu o silêncio gulosamente.

— Segura! — a voz de Dominic não foi um grito, foi um guincho alto de quem já antecipava o desastre.

Antes que eu pudesse girar a cabeça, um estrondo metálico ensurdecedor dobrou o chassi do carro. O impacto veio da traseira, rude e violento, que tentou arrancar meus pulmões para fora e arremessando nossos corpos para frente contra os cintos que travaram com um estalo doloroso. A traseira do carro gemeu, um som de agonia que se misturou ao estilhaçar dos vidros.

O tempo desacelerou. O brilho nos olhos de Zhang transformou-se em confusão pura um milésimo de segundo antes do mundo virar do avesso.

— Dominic! — Estêvão berrou, mas o som foi abafado pelo salto do carro na pista e o vidro moído.

O carro começou a rodar, os pneus gritando no asfalto enquanto a traseira desgovernada nos empurrava em direção ao meio-fio. O carro, sob o comando de um Estêvão em choque, começou a serpentear, a traseira desgovernada ameaçando nos jogar para fora em um capotamento iminente.

No meio do caos de gritos e fumaça, vi o vulto de Dominic se mover. Vi Dominic agir com uma rapidez que desafiava o instinto de autoproteção. Ele soltou o próprio cinto com um clique frenético e, em vez de se encolher, lançou o corpo sobre Estêvão.

Ele agarrou o volante por cima do irmão, forçando o peso do próprio corpo para estabilizar a direção, impedindo que o carro capotasse com a pancada do impacto. O braço esquerdo de Dominic esticou-se como um escudo vivo à frente do rosto de Estêvão no momento em que o metal da porta se contorcia e pedaços de vidro voavam. Ouvi um estalo, como um galho grosso se partindo, seguido por um rosnado de dor que ele prendeu entre os dentes, a mandíbula travada com tanta força que os tendões do pescoço saltaram, mas ele não soltou o volante.

Dominic forçou o volante até o carro lhe obedecer, estabilizando a trajetória até que finalmente parou, atravessado na pista, envolto em fumaça branca e cheiro de borracha queimada.

O silêncio que se seguiu foi pior que o barulho.

— Zhang! Você está bem? — Minha voz estava assustada, o gosto de sangue de um lábio cortado deslizando pela minha boca, o coração batendo na garganta.

Ela assentiu, pálida, as mãos agarradas ao assento, vi o buquê de rosas agora amassado e pétalas por todo lado. O buquê estava decapitado; pétalas vermelhas cobriam seu colo como gotas de sangue vegetal. Ela tremia, mas estava inteira.

À frente, Dominic desabou parcialmente sobre o painel e o colo de Estêvão. Sua pele tinha um tom acinzentado de choque. O braço esquerdo repousava de forma errada, uma curva que o corpo humano não deveria fazer, pendurado em um ângulo que me fez desviar o olhar.

— Tá todo mundo… inteiro? — a voz dele saiu espremida, cada palavra custando um esforço hercúleo. Estêvão, em choque no banco do motorista, só conseguia olhar para Dominic que o protegeu.

Ninguém conseguiu responder, encarando meu irmão e seu braço. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de passos apressados no asfalto. Um homem surgiu na janela estilhaçada, o rosto pálido e as mãos tremendo tanto que ele mal conseguia se apoiar na porta.

— Alguém está bem? Pelo amor de Deus, respondam! — ele gritava, a voz embargada pelo pânico. — Eu perdi o controle… o carro não respondeu, eu tentei desviar, eu juro! Eu bati na traseira de vocês e… me desculpem, me desculpem!

Ele tateava os bolsos com urgência, derrubando o celular no chão antes de finalmente conseguir discar.

— Preciso de uma ambulância! Rua 14, agora! Houve um acidente, tem gente ferida! — Ele falava alto, circulando o carro como se estivesse prestes a desmontar e pegar fogo.

 

 

 

Capítulo 60
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA

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“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”

Oscar é...

Chapters

  • Capítulo 62
  • Capítulo 61
  • Capítulo 60
  • Capítulo 59
  • Capítulo 58
  • Capítulo 57
  • Capítulo 56
  • Capítulo 55
  • Capítulo 54
  • Capítulo 53
  • Capítulo 52
  • Capítulo 51
  • Capítulo 50
  • Capítulo 49: Livro Dois
  • Capítulo 48 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 47 Extra Primeira Confissão
  • Capítulo 46
  • Capítulo 45
  • Capítulo 44
  • Capítulo 43
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