Capítulo 57
O peso da minha cabeça nas pernas do Eugênio me lembrava de que eu estava conseguindo, aos poucos, me reaproximar deles.
O sofá era macio, mas estar tão perto do meu irmão era muito mais confortável, mesmo que o silêncio entre nós ainda tivesse algumas arestas. Senti os dedos dele hesitarem antes de se perderem no meu cabelo — um cafuné desajeitado que eu não recebia de Eugênio havia anos. Eu amava aquele carinho novo. Dava para sentir a ponta dos seus dedos brincarem com meus fios negros, gentis, um pouco travados e tímidos. Gostei muito.
— O que deu em você, Dom? — A voz dele vibrou perto do meu ouvido. — Você está… diferente. Outro dia você abraçou nosso pai. Não brigou como de costume. Parece que envelheceu desde aquela bebedeira. Desde aquela noite, às vezes olho para você e vejo um homem de trinta, não o garoto sério e frio que vivia distante e fechado.
Fechei os olhos. O toque delicado dele acalentava meu peito. Sabia que Eugênio ia apontar minha mudança de comportamento, mas eu não sentia medo das suas observações.
— Eu fui um imbecil, Eugênio — confessei, e a palavra “imbecil” pesou na minha língua. — Passei tanto tempo sendo uma parede de gelo. Achei que ser forte era me afastar de vocês, era ser duro com vocês. No fim, eu só estava sozinho e com frio. Mas ninguém pode ficar no frio o tempo todo, entende?
Senti a mão dele parar por um segundo. Um riso soprado escapou de seus lábios.
— Eu não entendo amplamente… mas, se ser “imbecil” significa ter você aqui, sem querer se isolar, então pode se comportar assim mais vezes. Eu não alcanço o tamanho do fardo que você carrega, Dom, mas você não precisa equilibrar tudo sozinho.
Fiquei em silêncio, ouvindo as batidas do meu coração até que Eugênio o interrompeu.
— Obrigado — ele murmurou, e o tom dele mudou. Ficou menor, mais infantil. — Quando a gente era pequeno, eu achava que se eu não fosse o gênio, o estudioso, o perfeito… vocês não iam me enxergar. Eu me enterrei nos livros para construir uma ponte até vocês. Obrigado por finalmente atravessar ela.
Senti o ardor subir pelos meus olhos. Cobri o rosto com o antebraço, bloqueando a luz e a minha própria vulnerabilidade. Fiquei ali, respirando o cheiro fresco do perfume na roupa dele, até que recuperei o fôlego. Retirei o braço e o encarei de frente.
— Quero ficar mais próximo de vocês. As coisas vão ser diferentes agora. Eu prometo.
O som da porta batendo freou o clima. Estêvão entrou, mas não era a animação de sempre. Ele arrastava os pés, os ombros caídos como se carregasse uma pedra grande de cada lado. Sem dizer um “oi”, ele se jogou no tapete, encostando as costas nas pernas de Eugênio.
— Que cara é essa? — perguntei.
Ele soltou um suspiro amargo e encostou a cabeça nos joelhos de Eugênio.
— Ela não apareceu. Fiquei duas horas olhando para a porta daquele bar feito um palhaço. Tomei um bolo, Dom. Dos grandes. Foram horas de mensagens gastas inutilmente.
Não sou bom com palavras de conforto, então apenas estendi o braço e baguncei o cabelo dele até ele reclamar.
— Para com isso — ele falou, sem forte resolução.
Foi o suficiente para ele relaxar a postura; uma linha curta e curvada brotou nos seus lábios. O silêncio voltou, mas logo foi quebrado por um ronco alto e ruidoso vindo do estômago do Estêvão.
— Pelo visto, a tristeza não tirou o apetite de ninguém — brinquei, levantando para abrir a geladeira.
Mas quando entrei na cozinha, não tinha nada. A geladeira estava vazia, exceto por um pote de conserva. Não havia nada que pudesse ser chamado de jantar.
— Quem pediu comida?
Ninguém respondeu. Lá da porta da cozinha, o olhar de culpa no rosto deles disse tudo.
— Deixa comigo — Eugênio já estava com o celular na mão. — Vou mandar mensagem para a Zhang. Ela traz umas marmitas.
Arqueei a sobrancelha, encostado no batente da porta da cozinha. Parecia que o pequeno negócio de Oscar e Zhang estava dando certo. Não tinha com o que se surpreender, Oscar tinha muito talento… Ao pensar aquilo, uma sombra cobriu meu peito. Ele cozinhou muitas vezes para mim, por muitos anos seguidos; Oscar sabia exatamente como me agradar. Balancei a cabeça, pois não queria cair naquele poço fundo de melancolia. O mais importante era que Oscar estava muito bem, alcançando e fazendo o que queria. Desviei o curso dos pensamentos para Zhang e Eugênio novamente.
— Desde quando você tem o número dela na discagem rápida?
— Peguei no outro dia, na praça — ele respondeu, e eu vi o pescoço dele ficar vermelho enquanto ele esperava ela responder seu áudio. Interessante.
Uma hora depois, o apartamento cheirava a arroz e carne com óleo de gergelim. Zhang chegou com um sorriso que parecia iluminar até os cantos escuros da sala. Eu suspeitava que entre os dois havia algo, mas vê-los juntos confirmou tudo.
— Eu não sabia que você cozinhava, Zhang. Muito menos que fazia entregas de marmitas.
Ela respondeu assim que sentou na mesa conosco. Eugênio distribuiu os garfos e as marmitas.
— Eu não cozinho tão bem, mas o Oscar me dá muitas dicas. Ele é muito bom na cozinha, às vezes ele fica cozinhando até tarde.
— É incrível, Dom, mas Oscar e Zhang fazem entregas para todos os lados e o feedback é sempre positivo. — Eugênio mal olhou para mim ao dar o elogio.
— Então vocês devem passar muito tempo juntos — falei.
— Claro, Dominic. Eles moram juntos — Eugênio falou, sem me olhar novamente, atento aos movimentos de Zhang ao levar o garfo à boca logo depois de abrir uma das marmitas e aceitar o convite para jantar conosco.
Eu quase engasguei!
— Morando juntos? — exclamei.
— Claro. Você não sabia? Decidimos morar juntos há pouco tempo, desde então, eu, Oscar e a mãe dele vivemos todos na mesma casa — Zhang disse.
— Na mesma casa… — repeti, digerindo não só a comida como a informação.
Os dois estavam juntos! Na mesma casa! A vontade de questionar, de confrontar, de querer saber cada detalhe da rotina deles dentro daquela casa, subiu pela minha garganta. Forcei o ar para fora e engoli todas as perguntas. Eu não tinha o direito de fazê-las.
Virei o rosto para Eugênio; ele não parecia sentir ciúmes. Talvez ele não imaginasse o perigo que era morar os dois juntos! Não… eu não posso pensar assim. Se Eugênio não sentia nada, talvez fosse porque ele, diferente de mim, imaginasse o quão profunda e real era a amizade entre aqueles dois.
Diferente de mim, ele sempre foi mais calmo, perspicaz e racional. Sem dúvida, seu bom senso chegou a uma boa resposta, uma vez que eu nunca cheguei a uma no passado, até que fosse tarde demais para mim. Eu deveria fechar meus lábios e permitir que esse incômodo evaporasse.
Fosse preocupação disfarçada de ciúmes ou não, dessa vez, jamais daria ouvidos para ela. Afinal de contas, depois de tudo que Oscar passou, de eu mesmo ter evitado esse desejo dele, ele finalmente havia conseguido. Melhor ainda, estava morando com a mãe dele! Ele que sofreu tanto no passado, depois que os dois se afastaram e viveram uma vida inteira um longe do outro! Agora eles viviam juntos, na mesma casa. Isso era muito merecido.
Mal tínhamos comido a metade das nossas marmitas quando meu pai entrou, soltando a gravata com aquele ar de quem teve um dia longo.
— Mas que recepção! — Ele sorriu para Zhang, sendo o diplomata de sempre. — Você deve ser…
— Zhang — Eugênio completou a apresentação.
— É um prazer te conhecer, Zhang. — Dário segurou sua mão. — Eugênio esqueceu de mencionar que tinha tão boa amizade. Aliás, esses meus filhos mal me contam algo.
Ignoramos a indireta. Zhang deu-lhe um aperto de mão educado, lisonjeada. Meu pai sentou-se à mesa depois que lhe oferecemos uma marmita. Ele aceitou prontamente depois de jogar sua gravata e seu paletó no sofá. Senti-me estranho ao olhar ao redor da mesa. Era raro estarmos todos ali, sem estarmos ocupados demais com o mundo lá fora.
Capítulo 57
Fonts
Text size
Background
A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...