Capítulo 62
Observei Zhang. Num gesto que pareceu desacelerar o tempo, ela removeu a touca e balançou a cabeça; a cascata de fios negros caiu livre, em mechas desordenadas sobre meu pescoço e ombros, o que realçou o brilho da sua pele e roubou o meu fôlego. Ela capturou meu olhar e sorriu, um brilho cúmplice nos olhos, enquanto puxava as luvas de látex. O estalo do material foi ouvido na cozinha antes de ela as descartar na lixeira.
— Prontinho. Por hoje, a missão está cumprida — disse ela, com a voz suave, transmitindo satisfação.
Removi meu próprio disfarce de cozinheiro, sentindo meus dedos desajeitados perto da agilidade que ela demonstrara a manhã toda. Olhei para as marmitas perfeitamente alinhadas, sentindo um orgulho bobo por ter feito parte daquilo.
— Até que não estraguei nada — brinquei.
— Você foi muito bem, Eugênio. — Ela se aproximou, e pela luz da tarde notei que os pequenos arranhões do acidente em seu rosto não tiravam um milímetro da sua beleza; ao contrário, pareciam apenas destacar a vivacidade de sua expressão. Aquelas marcas eram lembretes de que estávamos vivos, e isso a tornava ainda mais radiante aos meus olhos.
Fomos para a sala, o silêncio da casa nos envolvendo como um abraço. Sentamos no sofá, o suco gelado enviando um frescor imediato pelas nossas gargantas secas. Estávamos sozinhos; a mãe de Oscar saíra para fazer as entregas e Zhang assumira o posto de Oscar, que estava na faculdade.
— Pensando em quê, Eugênio, com essa cara de bobo? — Ela deixou o copo vazio na mesa de centro, virando o corpo para mim.
— Em você. No quanto você é esforçada. — Sorri, acariciando seu rosto rosado. Ela inclinou a cabeça contra minha palma em um gesto de confiança que me fez querer protegê-la do mundo inteiro. — Minha namorada é incrível. Mas também pensei na mãe de Oscar. Ela foi muito gentil comigo, me convidando para jantar com vocês qualquer dia desses, sem rancor nem nada. Tão diferente de Oscar, hoje mais cedo ele me olhou como se não gostasse muito de mim.
— Que nada. Ele apenas não esqueceu o susto que levou. Ele não culpa vocês, nem nada — disse Zhang.
— Isso eu não sei dizer, mas você o conhece melhor que eu, então deve estar certa.
Aproximei-me devagar, o perfume dela — uma mistura de baunilha e o frescor do tempero — provocando meus sentidos. A luz dourada da tarde atravessava a janela, dando a ela um ar ainda mais atraente. Quando nossos lábios se tocaram, o contato inicial foi um suspiro, uma exploração macia entre dois velhos conhecidos que raramente se falavam, e rapidamente transformou-se em uma necessidade profunda por algo mais íntimo.
Meus braços a envolveram com firmeza, trazendo-a para o centro do meu peito. Senti a entrega no modo como ela relaxou contra mim. Minha língua buscou a dela, e o beijo se aprofundou, tornando-se uma dança molhada e quente de dentes que roçavam e respirações que se confundiam. Eu não consegui conter um pequeno som de satisfação que escapou da minha garganta. Ela sorriu entre o beijo, nossos lábios unidos, os olhos dela colados nos meus. Ter Zhang ali, entregue e vibrante nos meus braços, era como viver um sonho do qual eu nunca queria acordar.
Meus pulmões queimaram por ar e me afastei apenas o suficiente para roçar a ponta de nossos narizes. O peito dela subia e descia contra o meu. Ficamos ali, mergulhados no calor um do outro, até que um zumbido estridente e mecânico cortou a magia. Zhang verificou o celular, mas a tela estava escura.
— É o seu, Eugênio — apontou ela.
Peguei o aparelho com um suspiro frustrado. A voz de Estêvão atravessou a linha insatisfeita.
— Onde você se meteu, Geniozinho? Disse que voltava logo e já passou do meio dia. Quer me matar de fome?
— Calma, Estêvão. Perdi a noção do tempo ajudando a Zhang. Já já chego aí.
— Você disse isso há horas. Dominic está aqui pegando no meu pé e dizendo que seu braço não vai se curar sozinho. Ele precisa da medicação. Você sabe que eu não consigo aplicar. Vê se aparece logo, cara!
Desliguei, sentindo um misto de culpa e desânimo de ter o momento interrompido por aquele problema doméstico. Zhang já se levantava para embalar as marmitas. Enquanto eu ajudava-a lavando os copos na cozinha, comentei:
— Às vezes, o Estêvão e eu achamos que Dominic soa como um homem de trinta anos.
Zhang riu, encostando-se no balcão enquanto selava as embalagens.
— Engraçado. Sinto o mesmo com o Oscar. Ele anda mais sério ultimamente. Ele não se curva mais para ninguém, Eugênio. Encara o mundo de frente. — Ela hesitou, a expressão ficando mais séria. — Posso te contar uma coisa? Ele fez uma conta para sua mãe com o dinheiro da casa e disse que era só para ela. Mas o curioso é que Oscar fez um empréstimo, depois de rejeitar a oferta da sua mãe em dividir o dinheiro da casa.
— Talvez ele queira fazer tudo por conta própria? Como pegar o dinheiro do empréstimo e abrir seu próprio restaurante?
— Dúvido muito. O valor do empréstimo era alto, mas não o suficiente para abrir um restaurante. Talvez ele tenha usado o dinheiro para pagar a faculdade. Além disso, Pedro me disse que Oscar não quer abrir um restaurante.
— Como não, Zhang? Pelo que vejo, a comida dele faz sucesso.
— Ele não quer isso. Mas também nunca perguntei qual era o seu objetivo, porque não importa a profissão ou o negócio dele, eu e a mãe dele decidimos apoiá-lo.
Assenti, curioso, antes de receber a sacola com as marmitas e levar para o carro na calçada. A traseira, antes destruída, estava impecável — paga pelo causador do acidente. O carro se recuperou muito mais rápido que a gente. Sem arranhões, sem tipoia, como se o acidente nunca tivesse acontecido.
Dirigi o mais rápido que a lei permitia, pensando no mau humor dos meus irmãos. Mas não consegui deixar a mente e os pensamentos quietos. Eles corriam até a lembrança de Zhang, do toque dela, do beijo. E me levavam até Oscar, no olhar que recebi dele hoje de manhã. Eu já tinha pensado nisso, mas, se ele não gostasse de mim e me visse como um incômodo, Oscar seria um empecilho no meu relacionamento. Eu não queria isso. Não era amigo dele, mas tinha uma certa afeição por ele e pelo modo como cuidava de Zhang.
Virei o volante, mais perto de casa e grato pelo trânsito livre. Pensar em Oscar me lembrou o que Zhang disse mais cedo. Que ele não tinha nada contra mim. Sem nenhuma tormenta para atrapalhar o meu relacionamento, o dia parecia mais radiante. Fez-me sentir o ar mais levinho. O sol morno entrando pela janela do carro, dourado como o sorriso da minha namorada. Tê-la ao meu lado era um prazer muito maior por ter sido postergado. Me fazia pensar que, toda espera tinha valido a pena.
A constatação melhorou o meu humor, tanto que o rosto fechado do meu irmão mais novo pareceu-me fofo ao entrar no apartamento e encontrá-lo jogado no sofá, o mau humor de quem está com fome exalando dele. Ele praticamente arrancou a sacola da minha mão e chamou por Dominic.
Meu irmão desceu as escadas logo em seguida. O cabelo ainda estava úmido e a camisa estava mal abotoada — o resultado visível de sua luta para se vestir com apenas uma mão útil. Ele parecia irritado com a própria desorganização, mas mantinha o queixo erguido.
— Demorou — resmungou ele, sentando-se à mesa com uma agilidade que ignorava a tipoia.
— Não consigo te levar a sério nesse estado desengonçado, Dom — brinquei, parando em pé ao lado dele. Dominic apenas revirou os olhos, focado na comida com uma precisão quase militar.
— Nosso pai ligou? — perguntei.
— Sim. O grande Dário disse que está esperando por nós; ele espera que sejamos fiéis ao que dissemos. — Dominic balançou o garfo no ar, explicando.
— Ele só foi para lá para se certificar de que vamos estar lá na data marcada. — Concluí, balançando a cabeça. — Vou pegar o seu remédio, já está passando da hora.
Subi para buscar a medicação e desci com a injeção. Estêvão desviou o rosto na mesma hora, os dedos apertando o estofado da cadeira. Removi a tipoia de Dom com cuidado. Ele travou o maxilar quando o braço foi estendido, mas não soltou nenhum som. Enquanto aplicava o líquido, soltei um comentário:
— Sabia que a mãe de Oscar nos convidou para jantar lá, um dia desses?
Dominic ergueu os olhos, uma interrogação genuína e profunda na testa. Mas no fundo daquele brilho, havia algo mais.
— Não. Eu não passei a manhã toda lá. De qualquer forma, acho que eu não vou.
— Por quê? Por causa do Oscar? Entre você e o Oscar… aconteceu algo? Uma briga que eu perdi?
— Não. Mal nos falamos. Por que a pergunta?
— O clima entre vocês é diferente, Dom. Também notei como você olha para ele.
Dominic baixou o olhar para o reflexo no prato. O silêncio se arrastava enquanto o vapor da comida subia, diminuindo aos poucos até cessar por completo. Estêvão parou de mastigar, observando-o, mas sem arriscar olhar para a agulha em minha mão.
As lembranças de todos os olhares de Dominic para Oscar me induziram a arriscar um palpite sobre os sentimentos dele.
— Você gosta dele — soltei, a conclusão nascendo de um palpite intuitivo.
As pupilas de Dominic dilataram. Ele me encarou por um longo tempo, o reflexo do meu rosto fixo em seus olhos escuros. Ele largou o talher e a barreira de silêncio que ele sempre mantinha pareceu ruir, dando lugar a uma honestidade limpa e madura.
— Desde que o conheci — confessou ele, a voz baixa, mas perfeitamente estável. Ele olhou para Estêvão e depois de volta para a mesa. — Mas, olhando para a frieza com que ele me trata agora… é um sentimento fracassado.
Estêvão estendeu a mão e deu um aperto firme na mão sadia de Dominic, um gesto de solidariedade silenciosa.
— Desculpe, Dom. Eu não queria tocar em uma ferida — eu disse, comovido pela raridade daquela confissão.
Dominic esboçou um sorriso pequeno e tranquilo, o tipo de sorriso de quem já aceitou o destino. Ele parecia ter conseguido regular seus pensamentos e confortar seus sentimentos racionalmente.
— Não pensem assim. Falar com vocês me deixa melhor. Me faz lamentar não ter sido tão aberto antes. — Ele apertou meu ombro com a mão direita, um gesto sólido de afeto. — Sobre o Oscar… eu vou me recuperar. Não vou esquecê-lo, mas preciso me conformar. A rejeição dele é absoluta.
Ele fez uma pausa, e um brilho diferente passou por seus olhos — uma serenidade que parecia velha demais para o rosto dele.
— Mas me sinto satisfeito porque, no fim das contas, ele está bem.
Ele voltou a comer com naturalidade, levando o garfo na boca com uma calma invejável. Eu e Estêvão trocamos um olhar confuso. Havia uma satisfação genuína naquela última frase, como se o simples fato de saber que Oscar estava vivo e seguro fosse o suficiente para o coração partido de Dominic encontrar a paz que precisava, mesmo na solidão.
Capítulo 62
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...