Capítulo 63
Henrique esvaziou o copo rapidamente, o líquido frio descendo suavemente, os olhos fixos no fluxo de pedestres que cortava a calçada do outro lado da vidraça. A luz do sol atravessava o vidro, realçando a poeira que dançava no ar da cafeteria e banhando o rosto do garoto, que parecia finalmente ter saciado a sede.
Depois de tomar o suco, ele ajeitou a postura, puxando a aba do boné surrado para esconder os fios rebeldes. Havia empolgação em cada um dos seus gestos.
— Então… — comecei, deixando meu próprio suco de lado. — Por que me chamou com tanta urgência?
Henrique não respondeu de imediato. Enfiou a mão no bolso do casaco puído e, com uma lentidão conspiratória, deslizou um envelope de papel pardo sobre a mesa. Seus olhos cintilavam, saltando do papel para o meu rosto, esperando pela minha reação.
— Comprei os remédios da minha mãe — sussurrou ele, inclinando-se para frente. — Mas usei o que sobrou. Dobrei o valor na bolsa em menos de quarenta e oito horas. Não me olhe assim, chefe… eu limpei os rastros. Fui cuidadoso como um ninja. Isso aqui é a sua parte.
Ele empurrou o envelope; a expressão esticada em uma expectativa vibrante, esperando pelo meu reconhecimento.
— Isso foi errado — sentenciei. A luz nos olhos dele reduziu instantaneamente, as sobrancelhas se contraindo enquanto ele começava a balbuciar sobre sua cautela. Soltei um suspiro resignado, sentindo o peso do envelope ao guardá-lo na mochila. — Não faça mais nada sem a minha permissão. Você ao menos separou uma parte para as despesas do próximo mês?
Henrique assentiu, um sorriso tímido voltando a aparecer.
— Obrigado de novo, chefe. Por causa do senhor, a despensa lá de casa finalmente está cheia. E minha mãe tem tudo que precisa.
— Espere… — Franzi o cenho, uma dúvida técnica me atingindo. — Você tem dezessete anos, mas não tem conta. Usou os dados da sua mãe para abrir uma conta bancária e sacar o dinheiro?
Ele negou com um movimento rápido de cabeça.
— Contas fantasmas. Criei o caminho, saquei o dinheiro e apaguei os rastros logo em seguida. Como eu disse: cuidadoso.
Bebi o resto do meu suco, sentindo um calafrio. Aquele garoto era um gênio perigoso. Busquei no bolso da calça um pedaço de papel dobrado e o entreguei. Henrique o desdobrou com dedos ágeis, estudando os números ali escritos com o cenho franzido.
— É a senha de alguma conta bancária? — perguntou, confuso.
— Não. É a data da sua primeira grande jogada. — Inclinei-me, baixando a voz. — Haverá uma falha no sistema de investimentos nesse dia. Seu dever é aproveitar o vácuo e investir cada centavo do que eu vou te enviar.
O interesse de Henrique renasceu de forma feroz. Ele sorriu, um gesto que exprimia a carência de um adolescente gritando por aprovação. Mas o sorriso morreu no meio do caminho. Seu olhar travou em um ponto atrás de mim, a confusão nublando sua face.
— Tem um homem acenando para você — ele apontou, hesitante.
Senti meus músculos retesarem antes mesmo de virar. Meu estômago revirou de puro desgosto.
— É seu amigo, chefe?
Olhei e dei de cara com Estêvão, que agitava as mãos do lado de fora como se estivesse se afogando, exibindo um sorriso largo.
— Só um conhecido — respondi entre dentes.
Por puro reflexo social, retribuí com um aceno educado, o que ele interpretou como um convite de portas abertas.
Mas ele não estava sozinho. Estêvão chamou alguém que vinha logo atrás, e a silhueta de Dominic surgiu contra o vidro. Ele carregava sacolas em um braço, enquanto o outro permanecia imobilizado pela tipoia preta. Nossos olhares se cruzaram por um segundo — um contato fatigado e desconfortável — antes de ele tentar, em vão, impedir Estêvão de invadir o local.
— Fazendo compras? — perguntei, tentando manter a voz estável enquanto a percepção de ser descoberto por Henrique borbulhava.
— Sim! Faltam cinco dias para irmos embora — Estêvão disparou, já puxando uma cadeira e sentando-se ao meu lado com uma folga irritante. Dominic parou logo atrás, a postura rígida de quem reprovava a intromissão do irmão. — Dominic sugeriu levarmos lembranças para o Ricardo, nosso mordomo, e algo para sua mãe. Ela foi um doce convidando o Eugênio e nós dois para aquela confraternização de despedida, daqui cinco dias.
As mãos de Estêvão gesticulavam sem parar, derrubando a vibe discreta daquela mesa. Ele falava alto, espaçosamente, tão diferente do irmão mais velho, que apenas se mantinha quieto atrás dele.
— Quando ela fez isso? — Minha mente vasculhava as conversas da manhã, mas não encontrei nada. — Eu não sabia.
— Chefe… você tem mãe? — A voz de Henrique pairou no ar, tomada por um estranhamento genuíno.
O silêncio que se seguiu foi desagradável. Dominic e Estêvão travaram, os olhos alternando entre mim e o garoto de boné surrado com uma curiosidade súbita e perigosa.
— “Chefe”? — Dominic repetiu a palavra, a voz baixa, interessado no termo.
— Eu não entendi bem o título — Estêvão inclinou-se para frente, os olhos brilhando com o faro de quem fareja uma história mal contada.
Henrique percebeu o erro no mesmo instante. Ele empalideceu, fechando a boca com tanta força que os lábios sumiram. Lançou-me um olhar suplicante, um pedido mudo de socorro, antes de começar a observar os outros clientes da cafeteria com um interesse súbito e falso, deixando o incêndio que ele acabara de causar inteiramente nas minhas mãos.
— É um projeto da faculdade — soltei, forçando um sorriso que senti tremer nos cantos dos lábios. — Estamos recrutando juniores do colegial para monitoria.
Henrique baixou a cabeça, escondendo o rosto sob a aba do boné, enquanto eu sustentava o olhar de Dominic. Senti a análise dele me perfurar; ele não parecia ter engolido a história. Mas Estêvão, sempre mais de boa e fácil de enrolar, apenas deu de ombros, aceitando a explicação sem pestanejar.
— Entendi. Na minha faculdade nunca teve isso. Acho que ia gostar de participar desse projeto. Como sou o irmão mais novo, nunca tive ninguém para dar ordens; geralmente sou eu quem as recebe — aqui ele lançou um olhar rápido para Dominic, com um sorriso de lado —, mas enfim, agora você já sabe do jantar de sábado à noite que sua mãe marcou. Vai ser na véspera da nossa viagem, já que partimos na manhã seguinte. Foi ela que decidiu todo o arranjo. — Estêvão relaxou na cadeira, cruzando as pernas com uma folga que parecia preencher todo o espaço ao redor da mesa. — Soubemos ontem, quando o Eugênio voltou da sua casa. Aqueles dois não se desgrudam, né?
Ele mal fechou os lábios rosados. Olhou-me com uma nova curiosidade, coçou o nariz rapidamente e perguntou:
— Mas vem cá, Oscar, mudando de assunto… E aí? Tá gostando de cursar Gastronomia? Bem que você podia dar uma ajudinha no jantar de sábado. Você cozinha tão bem! Ia ser um manjar dos deuses.
Não respondi imediatamente. Virei o rosto, fingindo interesse no fundo do meu copo vazio. Eu estava perdendo o fio da meada da minha própria vida pessoal. Entre a faculdade e o submundo financeiro que eu gerenciava com Henrique, o tempo havia se tornado um artigo de luxo. A confirmação de que eu estava por fora até dos planos da minha mãe me trouxe uma pontada de culpa.
— Gastronomia? — A voz de Dominic atrapalhou meus pensamentos. O tom era de pura incredulidade.
— É, ué. Você não sabia? Eugênio não te contou ainda? Mas o Oscar é um mestre das panelas — afirmou Estêvão, orgulhoso. Ele apontou com o queixo para mim, os dedos inquietos tamborilando na mesa. — Sua comida é incrível, é graças a ela que estamos sobrevivendo! Ninguém lá em casa sabe cozinhar e estamos sem empregada nenhuma. Quem se deu bem foi o Eugênio, que sempre usa essa desculpa para visitar Zhang. Uma vez ele quase nos matou de fome! Ele tinha passado a manhã toda na sua casa e esqueceu da gente. Não foi, Dom?
Estêvão olhou para seu irmão, uma risada escapando pelos lábios enquanto esperava a confirmação dele. Mas ela nunca veio.
Dominic me encarou. Seus olhos percorreram meu rosto como se estivessem lendo um mapa cujas coordenadas haviam mudado subitamente. Na linha do tempo original, eu estaria mergulhado em livros de Contabilidade. Percebi, pelo modo como ele tensionou a mandíbula, que ele estava processando as informações dessa nova realidade.
— A faculdade vai muito bem, obrigado. Foi uma escolha da qual não me arrependo, Estêvão. Estou adorando — eu disse, sentindo as palavras saírem firmes, convictas. — Eu não sabia que vocês eram meus clientes fiéis. Saiba que todos os meus pratos são frutos das minhas aulas de gastronomia. Menos a sopa de legumes. E você, Estêvão, como cliente, acha que faço sucesso? — insinuei, com um tom brincalhão, embora não sentisse clima algum para rir.
— Claro! Mas tenho que ressaltar: somos seus clientes temporários. Mas meus irmãos e eu adoramos sua comida, não é, Dom? O Eugênio aprova todas as suas receitas, e o Dominic considera o seu bife ao molho e a sopa de legumes os favoritos dele. Ele comeria tudo, se eu não roubasse! — Estêvão riu desinibido, segurando a barriga.
Henrique não podia deixar de ouvir e observar discretamente os dois irmãos, interessado sobre os detalhes da minha vida pessoal. Ele ficou tão imóvel e sem palavras quanto o possível, sem querer chamar mais atenção. A essa altura, eu já não me importava se Henrique sabia da minha vida pessoal ou não; algum dia ele ia acabar sabendo mesmo.
— Você fala demais, Estêvão. — disse Dominic.
— Eu não acho — retruquei, encarando-o.
Notei um tique novo nele: Dominic se remexeu no lugar, os ombros subindo levemente enquanto as sobrancelhas tremiam por um breve instante. Ele estava pensando rápido, ponderando alguma coisa. Quando percebeu que eu o estudava com a mesma intensidade, ele desviou o olhar para Estêvão com uma pressa desconfortável, como se temesse que eu pudesse ler os segredos guardados sob sua pele.
— Vamos, Estêvão — disse ele, com a voz autoritária.
Dominic, que já estava de pé, deu meio passo e segurou o braço do irmão, tentando erguê-lo. Estêvão inclinou a cabeça para trás, soltando um gemido dramático e preguiçoso.
— Eu acabei de sentar, Dom! Minhas pernas estão pedindo clemência. Andamos a manhã inteira atrás de lembrancinhas.
Dominic não cedeu. Sua expressão endureceu e o tom de voz subiu um pouco, tornando-se uma ordem inquestionável. Estêvão soltou um suspiro de derrota, levantando-se enquanto resmungava algo sobre a impaciência do irmão mais velho.
— Tchau para vocês — acenei, tentando retomar o controle do meu espaço.
— Até sábado! — Estêvão sorriu e saiu, empurrando a porta de vidro.
Dominic, porém, não me olhou como antes. Não havia aquela busca desejosa por aproximação, nem o brilho de quem nutre uma esperança desesperada. Ele parecia distante, envolto em uma redoma de resignação e paz. Ele mal me dirigiu a palavra, movendo-se com uma calma que eu não reconhecia; parecia alguém que finalmente se conformara em ser rejeitado.
Observei os dois pela vidraça. Suas silhuetas se misturavam à multidão de pedestres sob o sol. Dominic parecia gesticular com firmeza, provavelmente dando um sermão em Estêvão por sua falta de modos na cafeteria. Estêvão, por sua vez, soltou uma risada vibrante e coçou a nuca, claramente envergonhado, mas sem se afastar. Estêvão não tinha semelhança alguma com o homem solitário que se tornaria anos mais tarde, após perder a família. A jovialidade dele era quase cativante, capaz de demolir as paredes do irmão.
Aquele Dominic estava se tornando um estranho para mim. O homem arrogante e exigente que eu conheci no futuro dera lugar a alguém que se permitia receber e devolver afeto. Ele parecia mais… humano. Lembrei-me das palavras trêmulas de Zhang sobre o acidente, sobre como ele se machucou para protegê-los. Antes, eu teria duvidado. Agora, vendo o modo como ele guiava o irmão pela calçada, a ficha caiu de vez.
— Chefe? Está me ouvindo? — A voz de Henrique me puxou de volta para a mesa. — Estou te chamando faz tempo. Desculpe por quase entregar o jogo. Vou ficar invisível daqui para frente, eu juro.
Desviei os olhos da janela, deixando o vulto de Dominic desaparecer na curva da rua. Respirei fundo, sentindo o ar-condicionado da cafeteria esfriar o suor na minha nuca.
— Tudo bem, Henrique — recostei-me na cadeira, tentando focar nos números e nos lucros, embora minha mente ainda estivesse presa no enigma que Dominic havia se tornado. — Vamos voltar ao que interessa.
Capítulo 63
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...