Capítulo 64
Dois dias se passaram, mas o formigamento na base da minha nuca não dava trégua. Eu revivia o encontro na cafeteria em looping: a provocação no olhar de Oscar, a firmeza com que ele mencionou a nova faculdade, o vocabulário que não se encaixava no homem que eu guardava na memória. As palavras de Eugênio sobre como até a própria Zhang estranhara o comportamento dele martelavam contra minhas têmporas.
A teoria de que ele também teria voltado no tempo parecia um delírio, mas o fato de eu ter voltado ao passado me dizia que o impossível podia virar rotina. As dúvidas zumbiam como insetos irritantes ao pé do meu ouvido enquanto eu parava diante da porta da casa de Zhang e Oscar.
O celular vibrou contra a palma da minha mão. Meu ombro doeu um pouco ao levantar o braço, sem a tipoia, desacostumado com a recente liberdade. O nome de Estêvão brilhou no visor, mas a voz que saltou do alto-falante foi a de Eugênio.
— Já chegou? — perguntou ele, o som abafado pelos passos do outro lado.
— Estou diante da porta — respondi, meus dedos hesitando sobre o metal da maçaneta. — Tem certeza que você esqueceu seu celular aqui? Se alguém me vir entrando…
— Relaxa. A casa está deserta. A Zhang disse que o achou e o deixou no quarto dela. Ela teve que voar para a universidade e me avisou que a chave está no vaso. Desculpa te pedir isso; sei que você ainda está mexido com a bola fora do Estêvão, mas você estava no hospital aí perto e eu não podia perder a chance. E, aliás, é muito bom saber que seu braço se recuperou bem.
Abaixei-me, tateando a terra seca do vaso sem flores até sentir o frio do metal. A chave girou com um clique baixo.
— Obrigado, mas isso não anula a sensação de que estou invadindo a casa alheia — resmunguei, entrando e sentindo o cheiro de limpeza que pairava no ar. — Na próxima, seja mais cuidadoso com suas coisas.
Desliguei antes que ele pudesse se justificar, dando uma olhada pela casa. O ambiente era organizado; tudo estava milimetricamente no lugar e limpo. Segui pelo corredor até o quarto de Zhang, que exalava um aroma doce, quase suave.
Ao entrar, fui recebido por um espaço pequeno. O quarto era uma mistura de uma mulher moderna e forte com toques de uma doçura inesperada. A luz da tarde filtrava-se pelas cortinas de linho azul-claro, pintando as paredes. Sobre a escrivaninha de madeira branca, o celular de Eugênio repousava em meio a uma coleção de itens delicados: um porta-canetas de urso verde, um caderno de anotações de capa florida e, logo ao lado, uma toupeira de pelúcia de cores vibrantes que parecia cuidar dos objetos.
Sorri sem querer; nunca imaginei que Zhang cultivasse um lado tão terno. As paredes eram adornadas por prateleiras altas que sustentavam uma verdadeira legião de ursos de pelúcia, todos alinhados, prontos para receber quem quer que fosse, como se cada um tivesse seu posto de guarda definido.
Havia uma harmonia estranha entre a sobriedade do mobiliário minimalista, a cama larga com edredom quase vermelho, o guarda-roupa, o tapete felpudo retangular no centro e a coleção lúdica que ocupava o espaço superior das paredes. Uma leve brisa inflava as cortinas, trazendo o frescor da tarde e fazendo com que o quarto parecesse, por um instante, um lugar familiar, intocado pelo desgosto que eu trazia comigo.
A porta fechou sem que eu percebesse. Notando agora, atrás da porta, havia um urso colado à madeira segurando um grande quadro; nele, havia fotos. Muitas fotos: Zhang sozinha, com sua avó, com Oscar e com uma mulher mais velha. Eu só podia supor que era a mãe de Oscar; todos pareciam felizes. Uma família. Eu não perdi muito tempo contemplando aquilo; não era do meu feitio aumentar uma dor que já era grande. Preparei-me para sair do quarto. Observar aquelas fotos era como alimentar minha própria sensação de perda.
Recolhi o aparelho e enviei uma mensagem rápida para Eugênio: Achei. Estou saindo.
Mas meus pés travaram no meio do corredor. Vozes. Ou melhor, uma voz alta e apressada vinha do fundo da casa. O coração deu um pulo, comprimindo-se contra as costelas — completamente pego de surpresa. “Eugênio disse que a casa estava vazia”, pensei.
Eu deveria correr. Meus instintos gritavam para eu girar nos calcanhares e desaparecer antes de enfrentar aquele desprezo novamente. Mas meu corpo ignorou o comando. Meus pés se arrastaram, como se puxados por fios invisíveis, em direção à fresta da última porta.
Oscar estava diante do espelho, com o celular prensado entre o ombro e a orelha.
— Eu sinto muito, mas não vou — ele disse, com uma risada leve, tão diferente do tom que usava comigo. — Preciso desacelerar. Passar mais tempo com a minha mãe… a faculdade está puxada.
— Mas é o cúmulo. Você nunca aceitou entrar no clube! — A voz feminina do outro lado era um chiado estridente de protesto. — Oscar, você só aceitou visitar uma única vez! As garotas que te conheceram gostaram e fizeram propaganda de você; agora tem algumas garotas que gostariam de te conhecer.
— Fico lisonjeado, de verdade — ele rebateu, enquanto puxava a camiseta vermelha pela cabeça. — Mas percebi que ando negligenciando minha mãe. Passo muito tempo fora de casa com outros compromissos. E a faculdade… bem, as matérias não dão trégua, você sabe. Preciso mesmo desacelerar.
Eu o mapeei centímetro a centímetro, como se tentasse gravar aquilo que minha memória havia apagado. As costas nuas tinham uma curva firme que serpenteava com os movimentos dos braços dourados pela luz da tarde, cada músculo movendo-se com uma naturalidade que me hipnotizava. A pele, desprovida das marcas de fadiga que o tempo deixaria aos trinta anos, tinha um ar misterioso, quase convidativo.
Ele jogou a camiseta no cesto e seus dedos buscaram o zíper do jeans. Senti minha garganta secar enquanto o tecido cedia. Desviei o rosto para a parede, num gesto de resistência inútil, mas meus olhos, traindo minha vontade, suplicaram por mais uma olhada. A cada centímetro que o jeans descia, meu coração tremia em uma cadência que parecia o prelúdio da minha própria ruína.
Quando ele finalmente ficou nu, a visão me doeu. Era uma riqueza proibida. Ele era uma obra de arte em movimento, com alguns sinais belamente desenhados misturando-se aos pelos pequenos e macios do corpo que reluzia sob a luz do quarto. Observei a musculatura das costas, que se contraía com seus movimentos, e a linha da coluna que descia até o quadril, desenhando um caminho que meus dedos, mesmo com um desejo proibido, nunca poderiam tocar.
Eu queria desviar o olhar, proteger o que restava da minha sanidade, mas era como se ele tivesse me lançado um feitiço. Meus olhos estavam pregados nele, devorando cada detalhe daquela nudez crua e magnética, até que, como um balde de água fria, a cicatriz surgiu…
Lá estava ela. Abaixo do ventre, contrastando com a pele lisa e jovem, uma cicatriz longa e irregular cortava a pele do abdômen, descendo em direção à virilha.
O clique do celular encerrando a ligação e o chiado do chuveiro pareceram excessivamente altos. Cobri a boca com a mão, escorando-me na parede.
Aquela cicatriz… a marca da cirurgia de sua condição intersexual. Ele só deveria descobrir isso — e operar — anos depois, bem depois dos trinta. Eu não lembrava de ter feito nada que pudesse ter mudado o curso da história de forma tão drástica e precoce.
A imagem daquela linha irregular gravada na barriga dele cravava-se na minha retina, viva e insistente. Tinha algo errado. Estava cedo demais para ele carregar aquela cicatriz. A “pulga atrás da orelha” agora era um enxame que me cobria a alma e a enchia de uma agonia insuperável. Oscar, assim como eu, não pertencia totalmente àquele tempo. Somente isso explicaria o desprezo mortal dele por mim.
O som do chuveiro parou.
O silêncio repentino me despertou do transe. Saí dali quase tropeçando, a respiração saindo em lufadas ruidosas. Só quando o ar da rua atingiu meu rosto é que consegui regular a respiração, embora tenha sido um esforço árduo para meus pulmões. O celular vibrou.
— Por que não disse que tinha gente em casa? — questionei Eugênio enquanto atravessava a rua.
— Eu não sabia! A Zhang me disse que estaria vazia. Aconteceu alguma coisa?
— Nada — respondi, apertando o passo até que minhas pernas doessem.
Desliguei. O asfalto, antes uma massa homogênea, de repente pareceu excessivamente macio, absorvendo meus passos como um grande marshmallow retangular e negro. A cicatriz no abdômen dele, a mudança de faculdade, a aspereza com que me tratou… esses pontos rodopiavam na minha mente sem respostas. Tudo colidia dentro da minha cabeça, transformando a caminhada em uma fuga de mim mesmo.
Capítulo 64
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...